segunda-feira, 7 de maio de 2012

Gênio Indomável - A Vida, a Obra e o Deboche de Orson Welles


Não basta ser genial, é preciso saber brincar com isso. Muitos diretores o fizeram, é verdade, mas nenhum chegou perto da bossa e ousadia de George Orson Welles. Sim, o primeiro nome dele era George, embora quase ninguém saiba. Da mesma forma, poucos sabem a história do homem por trás de obras singulares e inovadoras, responsável por uma das maiores obras-primas do cinema.

Em um cineclube recente, organizado para comemorar o aniversário de Welles - que faria 97 anos no dia 6 de maio -, tive a oportunidade de ver "Verdades e Mentiras"(1973), seu último filme. E todas as evidências que apontavam para sua genialidade culminaram ali. Um filme interessantíssimo, diferente e pouco comentado - razão para não ser tão conhecido e estudado como os outros do diretor. Mas o principal: é um filme extremamente personalizado. O tom, a edição, o uso dos personagens... SÓ Welles poderia tê-lo feito. Mas voltemos ao início.


Welles nasceu em Wisconsin, nos Estados Unidos de 1915. Órfão de mãe aos 9 anos e de pai aos 15, o americano teve que se virar sozinho desde cedo. Botou na cabeça que seria pintor, e assim começou a fazer quadros. Bastou receber algumas críticas negativas para largar o pincel. Afinal, nunca lidaria bem a rejeição. Partiu para os palcos, estreando aos 13 anos. E assim começaram os elogios que foram alimentando seu ego até proporções desastrosas.  Aos 18 anos, já era um ator famoso no circuito de teatro experimental. Mas ele queria mais.

E assim foi parar no New York Federal Theatre Project, onde pôde (aos 20 anos!!) estrear na direção de seu primeiro espetáculo. Pequeno detalhe: era uma versão de "Macbeth", de Shakespeare, encenada no Harlem e apenas com negros no elenco. Para os EUA da época, algo tão arriscado quanto polêmico. Mas ao invés de acabar com sua carreira, a peça só fortaleceu sua fama. Ele não parou, e em 1937 fez uma montagem de "Julio Cesar", também de Shakespeare, situada na Itália fascista. Mais polêmica, mais fama para Welles. Só que ele, como sempre, queria mais.


Além do trabalho no teatro, Welles era também conhecido por seu trabalho na rádio CBS. Sua voz marcante, uma das melhores já registradas no cinema, fazia sucesso no seriado radiofônico "O Sombra".  Welles era ainda responsável por um programa de variedades. No dia 1 de novembro de 1938, sem ter o que apresentar, ele resolveu improvisar. Sem maiores avisos, começou a adaptar o livro de H.G.Wells, "Guerra dos Mundos". Só que ele fez tudo ao vivo e como se fosse uma REAL invasão de seres de outro planeta. O noticiário parou os EUAs, enquanto todos acreditavam que alienígenas estavam realmente destruindo cidades. O pânico foi geral e muitos fugiram de casa - dizem até que alguns se suicidaram. Tudo apenas mais uma brincadeira de Orson Welles. Essa podia tê-lo levado para a cadeia. Ao invés disso, o levou para Hollywood.

Quando chegou em Hollywood, Welles era considerado um deus. Todos respeitavam e idolatravam sua mente jovem e inovadora. Seu ego apenas aumentava à medida que os estúdios lhe davam total liberdade criativa e financeira sobre seus projetos. Quando recusou dirigir a adaptação de "Guerra dos Mundos"- afinal, o romance fez sua fama! -, teve sinal verde para filmar um roteiro original, mas teria orçamento reduzido e atores desconhecidos no elenco. "Não será problema", ele pensou. Resultado: "Cidadão Kane".  Com apenas 25 anos (!!!), Welles realizou sua primeira e maior obra-prima, revolucionando o próprio cinema. Planos longos, profundidade de campo, edição rápida, uso de flashbacks... Tudo era novo. E em 2011, o filme completou 70 anos permanecendo como um dos melhores filmes da história - até mesmo O melhor, segundo alguns. 



O problema é que Welles, ego à flor da pele, peitou a indústria, o estúdio e magnatas importantes - como o milionário William Randolph Hearst, em quem o personagem Charles Foster Kane foi claramente inspirado. Ele mesmo interpretou o protagonista, para deixar bem claro quem era o responsável por aquilo tudo. Isso bastou para que todos seus financiadores passassem a boicotar sua carreira. Depois de "Cidadão Kane", Welles continuaria em Hollywood, mas sem o apoio e incentivo de antes. Seu filme seguinte, "Soberba" foi cortado pelos estúdios, o que o levou a desistir do projeto "It`s All True", que chegou a filmar no Brasil - e mais tarde virou um documentário com o material registrado.

Pior do que o boicote financeiro foi o boicote ideológico. Os filmes de Welles passaram a ser vistos como algo ilegítimo, e eram pouco valorizados. Ele tinha que finalizar tudo com dinheiro do próprio bolso, mas o reconhecimento injustamente não vinha. Até obras como "O Estranho"(1946), suspense repleto de clichês que se salvava pelo seu toque de maestria na criação de um ambiente sombrio e envolvente, era esnobado pela crítica e público. O sucesso só voltou, em menores proporções, com "A Dama de Xangai"(1947), um grande filme protagonizada por ele e sua então esposa Rita Hayworth, a eterna "Gilda".


Depois disso, sua carreira entrou em declínio, e ele só ficou marcado em mais um filme: "O Terceiro Homem"(1949) - que, apesar de muitos acharem, não foi dirigido por ele, mas por Carol Reed. Apesar de aparecer pouquíssimo tempo em cena, Welles conseguiu, com seu carisma e presença hipnótica, carregar nas costas todo o suspense dessa obra-prima. E após eternizar ali a sua imagem, passou a aparecer mais raramente no cinema. Fez obras de valor inquestionável, como "A Marca da Maldade"(1958) e "O Processo"(1962) - e ainda o "Verdades e Mentiras" citado no início do texto. Nesse último, aparecia como ele mesmo, fechando em grande estilo sua carreira de diretor.

Na frente das câmeras, a figura de um Orson Welles esbelto e galante deu lugar a um homem obeso e envelhecido, que fazia aparições ocasionais em filmes como "Moby Dick"(1956) e "Cassino Royale"(1967). Sempre com o mesmo tom debochado e superior, mas já sem o mesmo brilho. E desmotivado com a indústria e beleza que o deixaram de lado, passou a usar a úncia coisa que ainda era agradável e única: sua voz. Seu último trabalho foi como dublador do desenho "Transformers"... Perdido no meio de seus inúmeros projetos nunca realizados ou concluídos, teve um ataque cardíaco fatal em 1985. Tinha apenas 70 anos, mas o visual denunciava alguém que já tivera muitas conquistas e vivia amargurado por tê-las deixado fugir pelas próprias mãos.


Agora, quase 30 anos após sua morte, chega ao país a mostra "O Legado de Orson Welles", que visa apresentar as obras desse diretor para novas platéias. Mais do que isso, livros, exposições e estudos continuam evidenciando diariamente o valor de seu trabalho para o cinema mundial. Já não há mais dúvidas quanto a isso. Agora só falta o grande público descobrir que Orson Welles é muito mais do que "Cidadão Kane"- o que, cá entre nós, já seria motivo de orgulho para qualquer um. Só que não basta ser genial, é preciso saber brincar com isso. Ele, definitivamente, sabia.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

V de Vingadores - O Grande Projeto da Marvel Studios é Diversão Garantida


Para começo de conversa, vamos direto ao ponto: "Os Vingadores" não é o melhor filme de super-heróis já feito. Longe disso. Mas antes que os fãs comecem a ficar verdes de raiva ou a invocar deuses nórdicos contra mim, deixo bem claro que é, de fato, diversão garantida. Também seria muito complicado fazer um filme perfeito que conseguisse dar a atenção merecida a cada personagem envolvido. Afinal, trata-se de Homem-de-Ferro, Hulk, Thor, Capitão América, Viúva Negra, Gavião Arqueiro e Nick Fury (ufa...) em um só filme. Difícil manter um equilíbrio e evitar confusão. Mas até que o diretor Joss Whedon consegue isso muito bem. O problema do filme definitivamente não é esse.

A Marvel, desde que conseguiu se tornar um estúdio independente em Hollywood, começou a arquitetar um grandioso projeto que culminaria em uma missão dos Vingadores, grupo de heróis semelhante à Liga da Justiça - que, por sua vez, é da DC Comics, distribuidora do Batman e do Super-Homem. As primeiras peças dessa jogada foram "Homem-de-Ferro"(2008) e "O Incrível Hulk"(2008) protagonizado por Edward Norton. De lá pra cá, houve uma continuação do primeiro citado e Capitão América e Thor tiveram os clássicos "filmes de origem". Todos eles sempre contavam com a presença discreta de um Nick Fury negro e careca encarnado por Samuel L. Jackson. Ou seja: cinco filmes foram feitos para que esse pudesse funcionar direito. As expectativas estavam nas alturas - com razão.


Depois de muita espera, o "Projeto Vingadores" entrou em ação. E tem tudo para agradar (muito) os fãs das histórias em quadrinhos originais e também de ação em geral. Se tem algo que o filme entrega da melhor maneira, é isso: cenas de ação espetaculares e muito bem feitas. É o tipo de coisa feita para ser vista na tela grande, em 3D e IMAX. Em uma TV pequena o efeito provavelmente será bem menor. A trama em si não é muito importante, mas é de se admirar como as coisas acontecem de forma clara e sem correria. Os pontos são conectados com toda a calma, ao longo dos 142 minutos de projeção.

Além da ação quase onipresente, o filme conta com alta dose de humor. E, à principio, é no humor que se sustenta a relação entre os personagens. Se não fosse pelo show de costume que Robert Downey Jr. dá na pele de Tony Stark/Homem-de-Ferro, é provável que o filme não funcionasse. Os outros heróis não conseguem envolver o público como Stark. Capitão América e Thor não funcionam muito bem sem suas armas (escudo e martelo), a Viúva Negra não tem chance (nem tempo, tadinha) de mostrar a que veio e o Gavião Arqueiro é apenas um bode expiatório para justificar a primeira metade do filme. Enquanto isso, Nick Fury fica aparecendo do nada e falando frases de efeito, como se fosse um mestre Jedi (peraí... Mace Windu, lembra?). Ou seja: o Homem-de-Ferro é o showman que sustentaria todo o filme sozinho.


Já o novo Hulk... Bem, é um caso à parte. Depois de duas tentativas que levar o gigante verde para os cinemas, parece que finalmente a coisa deu certo. O filme que Ang Lee fez em 2003 era muito pretensioso e confuso, enquanto o filme de Louis Leterrier (de 2008) era apenas bom. Devo admitir que desconfiei quando anunciaram Mark Ruffalo como o novo Bruce Banner. Mas ele foi o ator que melhor reproduziu a essência do personagem: um homem brilhante que sabe o fardo que carrega, sempre um pouco incomodado e apreensivo em relação a isso. Seu Banner/Hulk é, de longe, a melhor coisa do filme inteiro. São dele as melhores cenas - transformado em monstro ou não. Há aqui, inclusive, um diferencial muito importante que poucos percebem: enquanto os Hulks antigos viravam um ser de computação gráfica que NADA tinha a ver com os atores que os faziam, esse Hulk tem as expressões facias de Ruffalo. É o rosto dele, só que maior e mais forte. Pode parecer pouco, mas dá muito mais credibilidade ao personagem.

Mas nem tudo é maravilha. Se "Os Vingadores" têm um ponto negativo, são seus vilões. Quer dizer, "vilões". Loki, o malvadão da vez, é novamente interpretado por Tom Hiddleston. Mas toda complexidade e carisma que eram destaque em "Thor" parecem ter sido deixados em algum canto de Äsgard. Aqui, Loki se tornou um vilão digno de "Power Rangers". Dá saudade de gente como Magneto ou Doutor Octopus - para não citar Coringa e Lex Luthor, claro. Como se não bastasse, os vilões interplanetários que invadem a Terra têm visual confuso e zero de carisma. Morrem recebendo um só soco, enquanto os heróis acabam destruindo ainda mais a cidade que deviam proteger. As cenas de conspiração em outra galáxia chegam a ser patéticas, pelo visual e vozes. Nesse sentido, é puro Power Rangers, verdade seja dita.


O filme diverte muito na maior parte do tempo, e vai ser difícil alguém sair reclamando. Só que há uma diferença. Para entendê-la bem, basta dar uma olhada em filmes como "X-Men" e "O Cavaleiro das Trevas". Esses títulos estão em qualquer lista de "melhores adaptações" de quadrinhos, e de lá não devem sair. Isso porque aqueles são filmes que funcionam sozinhos, têm um ar mais realista e se portam como filmes de ficção científica e policiais, respectivamente. Até mesmo o recente "X-Men: Primeira Classe", também da Marvel, conseguiu de maneira bem sucedida inserir os personagens em um contexto histórico, fazendo do filme uma trama de espionagem. Já "Os Vingadores" é puro quadrinho. Tem aquela estrutura muito eficiente em HQs, mas que não funciona perfeitamente como cinema. A Marvel já deixou claro que quer mudar isso. Mas quem não está habituado com tramas paralelas e realidades alternativas vai achar tudo muito confuso e caótico.

Como a cena após os créditos indica - sim, é óbvio que há uma cena após os créditos -, uma continuação será lançada muito em breve. O novo vilão já dá as caras, quem é fã vai identificar fácil, fácil. E vai ser mais um arrasa-quarteirão - em todos os sentidos. Isso porque "Os Vingadores", mesmo com todos seus pequenos erros e exageros, funciona bem e o saldo final é positivo, uma sensação de "quero ver de novo".
Se Downey Jr. e Ruffalo estiverem envolvidos - e agora não tem como eles não estarem -, vai funcionar bem novamente. Assim como a Terra, de acordo com Fury, os cinemas também precisam dos Vingadores de vez em quando, mesmo que apenas para relaxar e ver o mundo ser salvo (de novo) em grande estilo.
Por enquanto, é isso. Que venha a Liga da Justiça.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Beleza Americana - Ícone Marilyn Monroe é revisitado em "Sete Dias Com Marilyn"


Os grandes ídolos do cinema e da música são fontes inesgotáveis de inspiração e rumores. Como prova, basta ver o número de livros e filmes sobre estrelas como Elvis Presley, Charlie Chaplin, Beatles, James Dean, Michael Jackson e Marlon Brando, entre outros. Mas talvez nenhuma figura do cinema tenha sido alvo de tanta atenção e curiosidade quanto Marilyn Monroe. Encontrada morta de forma misteriosa há exatos 50 anos - no auge da carreira e da beleza -, ela continua sendo o ícone feminino máximo da sétima arte. Não há pessoa nesse planeta que não tenha visto a famosa cena de suas saias esvoaçantes em "O Pecado Mora ao Lado". Depois de ser tema de vários livros e documentários, a intimidade de Marilyn ganha a tela grande, no filme britânico "Sete Dias Com Marilyn".

No verão de 1956, o jovem Colin Clark conseguiu realizar o sonho de trabalhar na indústria do cinema. Ele foi o terceiro assistente de direção nas filmagens de "O Príncipe Encantado", filme que juntava as grandes estrelas Laurence Olivier e Marilyn Monroe. Quase 40 anos depois, o diário de Clark foi publicado como "O Príncipe, a Corista e Eu", um livro focado nos bastidores do filme. Mas faltava uma semana na narrativa, e Clark resolveu divulgar o que acontecera durante essa semana que passou com Marilyn em outro livro, "Minha Semana com Marilyn". E é nesses dois livros que se baseiam o filme independente dirigido por Simon Curtis.


A produção busca conquistar o espectador pelo ritmo acelerado e bem humorado com que se inicia. Sem muita enrolação, já nos joga no meio das gravações do clássico de 1956, que foi protagonizado e dirigido por Sir Laurence Olivier. Olivier era considerado o maior ator do mundo, por suas famosas adaptações da obra de Shakespeare - ele inclusive ganhou o Oscar de Melhor Diretor e Ator por "Hamlet"(1948), que também foi premiado como Melhor Filme. Apesar da fama internacional, Olivier ainda não era querido por todo o público. Por isso resolveu fazer uma comédia leve. Para acompanhá-lo em cena, escolheu a atriz mais bonita e famosa do mundo. E Monroe estava no auge da fama, era o maior desejo de onze entre dez homens. O que ninguém esperava é que a relação entre os dois seria uma verdadeira guerra de egos, porque, como o próprio Clark escreveria, "Olivier era um grande ator que queria ser uma estrela, enquanto Marilyn era uma estrela que queria ser uma grande atriz".

Apesar do real protagonista ser Clark, vivido de forma tímida por Eddie Redmayne, a luz do filme está na figura de Michelle Williams. Basta uma rápida pesquisa no Google para ver que a atriz não lembra muito o vulcão que foi Marilyn Monroe. Não só o físico, mas os traços não são os mesmos. Isso inclusive transparece em certos momentos do filme. Mas o fato é que, em algumas cenas, ela simplesmente VIRA Marilyn Monroe, com um grau de semelhança assustador - como pode ser visto nas fotos. É a mais pura magia do cinema. Só que não foi isso que a fez ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Williams encarna não Marilyn, mas sim Norma Jean Mortensen, a pessoa aprisionada pelo ícone que criou. E lá estão todos os anseios e neuroses que fizeram da atriz uma pessoa extremamente infeliz. O público irá se chocar ao ver a mulher amargurada e sofrida que sabia exatamente a hora de botar em ação seu carismático tom infantil e ingênuo.


Mas não seria justo exaltar apenas o show de Williams. Kenneth Branagh, recém saído da direção de "Thor", se diverte encarnando Olivier - seu grande ídolo, e de quem herdou o posto de maior intérprete de Shakespeare. Branagh se transforma tanto fisicamente quanto emocionalmente no personagem, em uma entrega que lhe rendeu uma justa indicação ao Oscar de Coadjuvante. Ele é Olivier em imagem e semelhança. Como brinde, sua relaçao com Paula Strasberg (Zoe Wanamaker), a orientadora que mimava Marilyn e lhe ensinava o famoso "Método" de atuação do Actor`s Studio, é hilária e impagável, rendendo pontos altos ao filme.

Além da cuidadosa reconstituição do visual e do clima da época, o filme conta ainda com Dame Judi Dench  como coadjuvante de luxo. Mais conhecida como a atual chefe M de 007, ela aqui encarna a atriz Dame Sybil Thorndike, iluminando a tela em cada simpática aparição. Quem também marca presença é a atriz Emma Watson. Ela mesma, em seu primeiro papel fora da saga de Harry Potter. O papel não é grande coisa, mas é bom enfim ver a bela atriz em cena sem o uniforme de Hermione Granger.


No fim das contas, "Sete Dias Com Marilyn" é uma caprichada homenagem à memória de Monroe, uma chance de conhecer um pouco mais a pessoa por trás do mito. Tirando a dose de romance que parece ser obrigatória em todos filmes produzidos recentemente, fica um interessante estudo sobre a personagem. Apesar de amada e conhecida em todo o mundo, Marilyn Monroe - ou melhor, Norma Jean - nunca conseguiu preencher o vazio emocional que lhe conduziu à overdose de remédios. E assim Marilyn saiu de sua infeliz vida para entrar na história, eternizada pelos animados fotogramas de "Os Homens Preferem as Loiras" e "Quanto Mais Quente Melhor". Ao delicioso som de "That Old Black Magic", os créditos aparecem e o mito sobrevive.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

The Song Remains The Same - Os Rolling Stones Completam 50 Anos de Carreira e Voltam aos Cinemas!



Os Rolling Stones são uma das bandas de rock mais famosas do mundo - disso, ninguém tem dúvida. No ano de 2012, os ingleses completam 50 anos de existência, em plena atividade. Para comemorar, anunciaram uma turnê mundial - que foi adiada para o ano que vem, por problemas de saúde do guitarrista Keith Richards. Junto a tudo isso, um documentário sobre a banda está atualmente em produção, dirigido por Brett Morgan.

Mas quem é fã da banda sabe que a sua relação com o cinema sempre foi muito próxima. Entre filmes oficiais, documentários e shows, já foram lançados cerca de 18 registros deles em ação. Os Stones já tiveram sua imagem trabalhada por diretores consagrados como Jean-Luc Godard ("Sympathy For The Devil", de 1968) e, mais recentemente, Martin Scorsese ("Shine a Light", de 2008). Não é pra qualquer um. Além disso, a polêmica história da banda rendeu até mesmo um thriller focado na vida - e morte - do guitarrista Brian Jones, o rebelde fundador da banda que foi encontrado morto em sua piscina em 1969. O filme em questão é o eficiente e interessante "Stoned - A História Secreta Dos Rolling Stones", lançado em 2005. Fica a dica.


E é exatamente daqui que começa a parte que nos interessa agora. Após a morte de Jones - que aconteceu pouco depois de sua demissão - a banda escolheu Mick Taylor como seu substituto. E nessa formação - com Mick Jagger no vocal, Richards e Taylor nas guitarras, Bill Wyman no baixo e Charlie Watts na bateria - eles lançaram, em 1972, o álbum duplo Exile On Main Street. O álbum em questão é considerado por muitos, inclusive pelo próprio Jagger, o melhor da banda, pela consistência, versatilidade e grande quantidade de hits, entre os quais "Tumbling Dice", "Rock`s Off" e "All Down The Line", só para citar alguns. Mas o que poucos sabem é a história por trás das gravações do disco.
  
Em 1971, todos os Stones estavam devendo uma fortuna de imposto de renda na Inglaterra. Quando começaram a ser perseguidos, partiram para um período de "exílio" na França. Se instalaram na mansão Villa Nellecote, de Keith Richards, no Sul do país. E lá resolveram compor e gravar um álbum inteiro, para que pudessem arrecadar o dinheiro dos impostos com a turnê. O fato curioso é que eles realmente gravaram tudo no porão e nos corredores da mansão. Encheram a casa de equipamentos, amplificadores e músicos, gravando tudo em locação. O clima caótico e pouco promissor já foi mostrado no maravilhoso documentário "Exile On Main Street" (altamente recomendado a todos). Mas eram os Rolling Stones, e o resultado foi uma obra-prima hoje cultuada.



Pois os bastidores desse maravilhoso episódio da história do rock vai novamente inspirar um filme. Richard Branson, que lançou pela Virgin Records três álbums da banda na década de 90, comprou os direitos do livro de Robert Greenfield, "A Season In Hell With The Rolling Stones". Mas ao contrário de outros filmes relacionados aos Stones, essa adaptação será um drama, e não um documentário. A trama será focada na relação pessoal e profissional entre Mick Jagger e Keith Richards, durante as tensas e improvisadas gravações na França.
 
 
A iniciativa é muito bem vinda, para provar que filmes sobre bandas não precisam ser sempre documentários, o que é cada vez mais comum. As poucas experiências dramáticas foram muito bem sucedidas, como foi o caso de "Johnny e June" (focado no cantor Johnny Cash) e "Não Estou Lá" (sobre o ícone Bob Dylan). Muitas bandas inspirariam dramas inspiradíssimos. Os próprios Beatles que o digam: estrelaram vários filmes semi-documentais até inspirarem indiretamente o ótimo "O Garoto de Liverpool". Só falta mesmo algum diretor arriscar, como fez Anton Corbjin no inspiradíssimo "Control", sobre o vocalista suicida do Joy Division, Ian Curtis.



A ficção baseada em Exile On Main Street ainda não tem previsão de estreia, e ainda não há nomes de atores envolvidos no projeto - o que, com certeza, ainda vai causar polêmica. Mas só imaginar assistir Rolling Stones nos cinemas novamente já anima qualquer ambiente. Atualmente com uma formação que já não conta com Wyman (o baixista se aposentou em 1993) e tem Ron Wood no lugar de Taylor, os Stones continuam sendo sinônimo de rock'n roll, e a prova de que ele não tem idade. O som - além da energia, força e animação - continua o mesmo.


sexta-feira, 30 de março de 2012

Era Uma Vez Na América - A Saga da Família Corleone Completa Quatro Décadas

O silêncio da tela escura é quebrado por uma triste música, quase fúnebre. A primeira frase vem sem aviso:"Eu acredito na América". E assim começa a saga que mudou a história de Hollywood e continua ainda hoje no topo das listas de "Melhores Filmes" - inclusive na do autor deste artigo. Mas vamos ao que interessa, há 40 anos atrás.

No dia 15 de março de 1972, chegava aos cinemas um filme... diferente. O curioso é que "O Poderoso Chefão" não parecia ter muitos atrativos na época de seu lançamento. Era um filme de gângsters - um gênero da década de 30 que estava então abandonado - e de longuíssima duração. Além disso, era repleto de atores desconhecidos e protagonizado por um astro em decadência - no caso, um desgastado Marlon Brando. Para piorar, a Paramount, estúdio responsável pela produção, não confiava no diretor escolhido. Dessas circunstâncias, nasceu uma obra-prima que superou todo e qualquer detalhe.

O produtor Robert Evans resolveu adaptar para o cinema "The Godfather", o inesperado best-seller de Mario Puzo. Após escolher o próprio Puzo para fazer o roteiro, começou a oferecer o projeto a vários diretores respeitados de Hollywood, como Elia Kazan e Sergio Leone. Todos recusaram, e restou a Evans depositar suas esperanças em um diretor novato, famoso por seus projetos independentes: Francis Ford Coppola. Vindo de uma família ítalo-americana, Coppola não gostou do projeto inicial por considerá-lo uma exaltação à Máfia. Ele resolveu trabalhar diretamente com Puzo na história. Como resultado, a palavra "máfia" não é pronunciada em quase nenhum momento do filme, que é sobre família, e não crime. Mas qualquer falha sua resultaria em demissão.

Em certos aspectos, o filme foi uma grande reunião familiar para Coppola. Carmine Coppola, seu pai, compôs músicas adicionais para a trilha imortal de Nino Rota - além de aparecer no filme tocando um piano na cena do casamento. Italia Coppola, sua mãe, foi figurante. Talia Shire, sua irmã, interpreta Connie Corleone. E Sofia Coppola, sua filha (e hoje diretora de talento), saiu do hospital direto para viver o filho recém nascido de Connie e Carlo - sua melhor "atuação", diga-se de passagem.

Apesar do "momento família", as filmagens foram tensas. Coppola recusou os astros Robert Redford, Warren Beatty e Dustin Hoffman para o papel chave da trama, o herdeiro Michael Corleone. Em seu lugar, escolheu o desconhecido e estranho Alfredo Pacino. Um astro estava nascendo, e com ele uma das melhores atuações do cinema - mas ninguém sabia disso ainda. Marlon Brando, o nome mais conhecido envolvido, raramente aparecia no set por estar envolvido nas filmagens de "O Último Tango em Paris". Quando aparecia, não tinha suas falas decoradas. Gravava tudo improvisando ou lendo cartazes colados nos cenários - certas vezes, até mesmo nos outros atores (!!). Com 47 anos na época, o astro sugeriu que seu personagem parecesse um bulldog. Durante os testes, Brando encheu as bochechas com algodão e o resultado caiu tão bem que foi incorporado à maquiagem que ele recebia para parecer um sessentão. O resto - os gestos, a fala, a voz e o modo de andar - é história.

Além de uma aula de atuação, direção e de como se contar uma história, "The Godfather" é também uma aula de iluminação, cortesia do genial trabalho de Gordon Willis. Seu cuidado com a fotografia gerou uma imagem "dourada" que permeia todo o filme, aumentando sua aura clássica. E vem daí um mito: há quem diga que a aparição de laranjas em determinadas cenas da trilogia anuncia que algo ruim vai acontecer. Vejamos: Don Vito Corleone é baleado enquanto compra laranjas em uma feira e morre no meio de laranjeiras, enquanto seu filho Sonny passa por um outdoor com laranjas antes de sofrer um atentado. Mas segundo Willis e o diretor de arte Dean Tavoularis, as frutas foram escolhidas apenas para clarear as cenas, sempre muito escuras. Coppola se aproveitou disso para brincar: na última cena de "O Poderoso Chefão - Parte III", pode-se ver uma laranja discretamente em cena.

O primeiro corte de "The Godfather" tinha 126 minutos. Em uma situação tão inédita quanto rara, a Paramount pediu que fossem incluídas mais cenas. Para o estúdio, o conflito familiar que envolve a sucessão nos negócios escusos da família - digno de Shakespeare - não estava claro. Coppola concordou, e incluiu quase 50 minutos a mais. Apesar disso, em nenhum momento o filme parece ser longo ou arrastado. Cada cena tem importância ímpar dentro da trama, nenhuma é dispensável. O corte final gerou um dos filmes mais redondos já produzidos, com um círculo perfeito de acontecimentos que acabam exatamente no ponto em que começou - do jeito que devia ser.

Acabadas as filmagens e a edição, o filme foi lançado e se tornou um sucesso de público imediatamente. Foi uma das raras e justas vezes em que o público teve noção da qualidade do filme a que assistia. O resultado: Oscars de Melhor Filme, Roteiro e Ator - que Brando recusou, mandando uma atriz vestida de índia para receber em seu lugar em "protesto ao tratamento dados aos índios pela indústria de Hollywood". Até hoje, um dos maiores micos do Oscar. Excentricidades à parte, foi esse papel que o fez passar de "ídolo da década de 50 em decadência" para "maior ator do cinema". Coisa pouca.

Mas não é essa a única herança do filme. Ele foi responsável por lançar grandes estrelas, como o próprio Pacino, Robert Duvall, James Caan e Diane Keaton. Poucas vezes Hollywood reuniu em um só filme um time tão bom, em todas as áreas. Além disso, são muitas as cenas marcantes que entraram para o imaginário popular. Talvez o melhor exemplo seja a cena da cabeça de cavalo. Durante os ensaios, uma cabeça falsa foi usada, mas na hora da gravação o grito de horror do ator John Marley foi verdadeiro. Não o avisaram que colocariam uma cabeça de verdade. Protetores dos animais, podem se acalmar: Coppola disse que a cabeça do cavalo foi doada por uma companhia de ração para cachorro. Logo, o animal não foi morto especificamente para o filme.

Nesses (ainda) poucos anos de vida, nunca vi alguém declarar que não gostou de "O Poderoso Chefão". Uma vez que se cria afinidade com um dos membros da família de mafiosos, a magia do cinema entra em ação. E já não se pode tirar os olhos da tela. É um filme que simplesmente funciona. Quarenta anos depois de sua estréia, filmes, desenhos e séries ainda fazem referências a cenas e frases marcantes da produção, que são facilmente reconhecidas pelo grande público. Quando alguém quer fingir que entende de cinema, normalmente usa esse filme como exemplo. E dá certo. Isso porque além de ainda inspirar inúmeros artistas - Tarantino que o diga -, "O Poderoso Chefão" foi essencial para tornar possível uma nova era no cinema. Um filme tão perfeito que muitos imaginaram que nunca seria superado. Isso até Coppola resolver fazer uma continuação. Mas aí, isso já é outra história...

terça-feira, 20 de março de 2012

O Silêncio dos Inocentes - Descobrindo Dreyer e sua Obra-Prima Maldita, "Vampyr"


Hoje em dia, quase ninguém conhece o cinema de Carl Theodor Dreyer. Na verdade, nem mesmo os cinéfilos de plantão conhecem bem as obras de Dreyer. Fora os líricos closes de " O Martírio de Joana d'Arc"(1928), sua obra máxima para a sétima arte, pouco é preservado ou sequer divulgado sobre os trabalhos do dinamarquês. E foi procurando pelas - poucas - cópias existentes que descobri um filme injustamente abandonado no tempo. O nome: "Vampyr".

O filme em questão foi realizado em 1931, já depois da consagração do cineasta. E no mesmo ano em que Bela Lugosi se eternizava como "Drácula" e o mestre Fritz Lang lançava o fantástico "M - O Vampiro de Dusseudorf", Dreyer voltava suas atenções às antigas lendas de casos reais de vampirismo que assombraram parte da Europa no início do século. A trama foca nas estranhas aventuras do jovem Allan Gray (Julian West). Seus estudos sobre o Mal fizeram dele um sonhador, para quem a diferença entre o real e o irreal torna-se ínfima.


Dreyer realizava sua primeira produção falada. Mas isso era só detalhe. "O Vampiro" - título adotado por aqui - é um filme sonoro que se porta como mudo. As falas são raras e apenas auxiliares, enquanto todas informações e passagens importantes são transmitidas por imagens impactantes. Todas ações acontecem bem calmamente, e essa calma no meio do caos aumenta a tensão existente. O diretor resolveu filmar tudo em locação, o que ajudou muito a criar a ambientação sombria que já está presente no primeiro fotograma.

O foco no olhar, nos gestos e nas sombras são sozinhos uma aula de cinema e do poder da imagem. Que o diga a cena em que uma mulher, tomada pela maldição do vampiro, olha com um desejo insaciável para a indefesa irmã. Não há nenhuma ação impulsiva, mas seu olhar causa, por si só, um desespero e repulsa que nem Jason ou Freddy Krueger conseguiriam. A cena em que acompanhamos um caixão sendo levado pela perspectiva de quem está dentro dele mostra o estilo inovador e único do diretor, que sem dúvida inspirou os (poucos) cineastas que tiveram a sorte de conhecê-lo. É o caso do também dinamarquês Lars Von Trier - não por acaso, um dos diretores mais criativos e polêmicos da atualidade. As abordagens sobre o sacrifício feminino e a tentativa de deixar o cinema mais realista são algumas das influências dos 12 filmes que Dreyer concluiu, entre eles o também arrebatador "Dias de Ira"(1943).


"Vampyr", em certos momentos, faz os outros filmes de terror parecerem insignificantes. Misturando como poucos o sobrenatural com o realista, Dreyer criou o primeiro filme de terror psicológico - e isso quase 50 anos antes do mais famoso produto desse gênero, "O Iluminado". O filme tem um dos melhores usos de sombras da história do cinema - as cenas que envolvem o fantasma do soldado sem perna ainda são de cair o queixo. O uso de esqueletos reais, pessoas de fisionomia assustadora e locais abandonados foram o suficiente para o filme ganhar a alcunha de "maldito" que prejudicou sua carreira internacional. Era algo tão assustador que foi banido de quase todos os países do mundo. Nesse sentido, chega a ser semelhante à história de "Nosferatu". Mas nem Dreyer nem seu filme foram redescobertos e idolatrados com o tempo. Os poucos negativos que restaram estavam muito prejudicados, e algumas cenas viraram apenas vislumbres e vultos. E isso reforça ainda mais a fama de "amaldiçoado", comprovada pela aura do filme.

"Vampyr" não é um filme que assusta, mas sim que dá medo. Se você ainda não sabe a diferença, fica aqui a dica. Em tempos em que a saga "Crepúsculo" modificou a imagem dos vampiros no imaginário popular e iniciou uma nova onda de longas sobre sanguessugas, assistir ao clássico perdido é uma forma de ver uma abordagem diferente para um tema tão batido. Vampiros nunca foram mostrados de forma tão realista no cinema. Quase não há efeitos especiais em cena. E, talvez, por isso as imagens são tão assustadoras. Mesmo depois de 80 anos do seu lançamento, o filme ainda arrepia até o último fio de cabelo. Se o leitor nunca viu um filme de Carl T. Dreyer e quer saber por que alguns críticos o consideram talvez o maior de todos os cineastas, assistir a esta arrepiante fábula de terror é a melhor maneira de começar a entender.

terça-feira, 13 de março de 2012

Em Breve: Irmãos Farrelly arriscam remake de "Os Três Patetas"


Moe Howard, Curly Howard e Larry Fine
faziam a alegria de jovens e adultos nas décadas de 30 e 40. Em todas sessões de cinema, um curta com suas trapalhadas era apresentado antes da atração principal. E assim "Os Três Patetas" ficaram eternizados como um dos melhores exemplos de humor atemporal e universal.

Corta para 2011. Os irmãos Peter e Bobby Farrelly, após criar o gênero "besteirol" com "Debby e Lóide" e "Quem Vai Ficar Com Mary?", resolvem anunciar seu novo projeto: fazer uma nova versão de "Os Três Patetas", com um elenco completamente novo. Começaram a surgir boatos de que Johnny Depp seria o emburrado Moe, enquanto Sean Penn ficaria com o papel do confuso Larry. Curly, o mais carismático dos três, continuava sem um ator à altura. O tempo passou, a bola do projeto baixou, mas mesmo assim os atores foram selecionados: Chris Diamantopoulos como Moe, Sean Hayes ( da série "Will and Grace") como Larry e Will Sasso como Curly.

Depois de algumas fotos oficiais, sai enfim o primeiro trailer do novo filme dos Irmãos Farrelly,
do roteiro de Mike Cerrone. A trama mostra os patetas largados em um orfanato e os acompanha até a vida adulta, quando o lugar corre o risco de ser vendido. Jane Lynch, Jennifer Hudson, Larry David, Craig Bierko, Stephen Collins e Sofia Vergara também estão no elenco do filme que estréia dia 4 de maio no Brasil.


O trio (ainda) desconhecido é de fato parecido com o original, mas o carisma não é o mesmo.
Uma coisa que a nova Hollywood ainda não aprendeu é que não se deve mexer nos grandes clássicos. O "King Kong" de Peter Jackson foi uma rara exceção positiva, mas normalmente o resultado sempre fica inferior ao original. O trailer indica que as piadas e o clima geral será bobinho e inocente assim como nos famosos curtas da década de 40. Os sons, as vozes, as piadas físicas, o humor pastelão... ok, está tudo lá. Mas falta uma coisa essencial e insubstítuível: a magia.

terça-feira, 6 de março de 2012

O Quarteto Fantástico - Os Beatles e o Psicodelismo de "Yellow Submarine"


Eleitos recentemente pela revista Rolling Stone como "os maiores artistas de todos os tempos", os Beatles eram bem doidos. E, como os artistas completos que foram, deixaram um legado não só na música, mas também no cinema. Os cinco longa-metragens que lançaram - 3 filmes oficiais e 2 especiais para a TV - são prova de seu estilo irreverente e um tanto excêntrico.

Enquanto o magnífico "A Hard Day's Night"(1964) - melhor registro cinematográfico já feito sobre uma banda - e o fraco "Help"(1965) são seus filmes mais divulgados, um terceiro permanece obscuro e perdido no tempo. Trata-se de "Yellow Submarine", uma viajante animação lançada em 1968. Mas não é uma animação para crianças. Todas as mensagens subliminares e doses de ironia só são percebidas por adultos e, principalmente, por fãs da banda.


Em 1966, os Beatles lançaram a música "Yellow Submarine" no álbum Revolver. Em 1967, Lee Minoff escreveu uma história baseada em letras de algumas músicas da banda de Liverpool. Essa história foi transformada em filme pelo produtor Al Brodax, que chamou George Dunning para dirigir as animações. George Martin, produtor musical dos Beatles, também participou com composições próprias que foram adicionadas à trilha sonora.

Durante a finalização do desenho, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr estavam gravando o aclamado "Álbum Branco". A agenda apertada não permitiu que eles participassem da dublagem de seus respectivos personagens. Ou seja, não são suas vozes que ouvimos - e sim, isso tira um pouco da magia. Mas sem meu aviso, esse detalhe passaria despercebido, pois as vozes são muito parecidas. Os hilários desenhos representam bem os músicos, deixando bem clara cada personalidade. John é o bobo, Paul o vaidoso, George o introspectivo e Ringo o azarado. Starr mais uma vez, assim como nos outros filmes, tem maior destaque na trama. Parece uma tentativa de aumentar seu reduzido fã clube.


A trama beira o absurdo: Os Blue Meanies (vilões azuis) atacam o paraíso colorido e musical de Pepperland para acabar com a música. Para salvar o lugar, os Beatles embarcam em uma jornada no submarino amarelo do Sgt. Pepper (ele mesmo, o da música). A trama bobinha vende a ideia de um filme infantil, mas estamos falando do auge do psicodelismo visual. Ao acompanhar as cenas coloridas e alucinantes, não sabemos ao certo o que perguntar: "Qual o sentido disso?" ou "O que eles fumaram?". Piadas à parte, essas sequências deixam claro que NENHUM outro grupo de músicos dosaram tão bem loucura e genialidade.

As animadas sequências musicais são, obviamente, o pontos alto do filme. Um puro deleite para ouvintes de boa música, com sucessos como a faixa-título, "Lucy In The Sky With Diamonds", "Nowhere Man", "Hey Bulldog", "Sgt. Pepper Lonely Hearts Club Band" e "All You Need Is Love". Mas nenhum alcança o trecho ao som de "Eleanor Rigby". Um momento de crítica social e lirismo que transcende o próprio filme e fica na cabeça. Afinal, Beatles não faziam só músicas dançantes e felizes.



E para os beatlemaníacos de plantão, sutilezas e indiretas invadem a tela a todo momento. Momentos como quando Ringo se perde do grupo, e Paul e George comentam:
"- Sabe, não sinto falta do Ringo."
"- Na verdade, ninguém sente."
Ou quando John se apresenta a seu alter-ego: "Eu sou o ego." São os próprios Beatles se declarando através de suas extensões animadas. Mas o diálogo que mais espelha a fama e arrogância da banda é o rápido (quase imperceptível) diálogo entre Paul e John quando eles descobrem que não conseguem quebrar uma bola de vidro gigante:
" - Não quebra, parece que é à prova de Beatles."
" - Ei, nada é à prova de Beatles."
Uma ousadia que só pode ser feita por quem está no topo do mundo. E eles de fato estavam. Ou, segundo a revista Rolling Stone e milhões de fãs ao redor do mundo, ainda estão.