quinta-feira, 22 de abril de 2010

Um Crime Perfeito – "Psicose", a obra-prima máxima do suspense


Uma mulher toma banho tranquilamente. O silencio prevalece, e apenas a água caindo é ouvida. De repente, a porta do banheiro se abre, sem que ela perceba. Um vulto é visto através da cortina do chuveiro, e vai se aproximando dela silenciosamente. E em um movimento rápido, a cortina é puxada, a silhueta de uma velha segurando uma faca é vista e um berro é ouvido. Começa a música que faz parte do pesadelo de muita gente ao redor do mundo. São 45 segundos inesquecíveis.

Há 50 anos atrás, mais precisamente no dia 16 de março de 1960, o público pela primeira vez assistiu a essa cena, que além de se tornar uma das mais famosas do cinema (senão a mais, de acordo com alguns críticos), tornou o filme “Psicose”(Psycho), do inglês Alfred Hitchcock, uma verdadeira obra-prima, que lhe conferiu definitivamente a alcunha de “Mestre do Suspense”.

A história do filme é aparentemente simples. Ele começa com a secretária Marion, vivida por Janet Leigh, pegando 40 mil dólares de um pagamento na imobiliária onde trabalha , sem que o chefe veja. Ela pede para sair mais cedo e leva consigo o dinheiro, com a certeza de que o crime só seria percebido dias depois. E assim, a psicose que a faz pensar estar sendo perseguida como uma criminosa, leva Marion a comprar um carro e cair na estrada sem aparente destino, em busca de um lugar seguro onde possa usar o dinheiro.

Depois de grande tempestade no meio do caminho, Marion vai parar no isolado Bates Motel, escondido em um desvio da auto-estrada. Lá, ela é recebida pelo tímido e simpático Norman Bates, que graças a interpretação magnífica de Anthony Perkins, se tornou um dos personagens mais marcantes do cinema. Ela logo percebe que a mãe do rapaz, trancada dentro do sinistro casarão atrás do hotel, exerce sobre ele uma estranha dominação. A partir desse ponto, o filme deixa de ser um longa qualquer e passa a ser um filme único.

Foi a primeira vez, ou pelo menos a mais espressiva, em que o personagem principal saía de cena no meio do filme e o ponto de vista mudava completamente. A partir da metade do filme, passamos a acompanhar Norman Bates e não mais Marion, algo inovador na época e, se pensarmos bem, ainda nos dias de hoje.

O cenário do Bates Motel, construído em tamanho real nos fundos dos estúdios da Universal, foi cuidadosamente planejado para criar em torno de si todo o suspense e mistério que confundem e mantém o espectador apreensivo até o final da projeção. E ainda hoje ele é mantido na íntegra lá nos estúdios, onde tive o imenso privilégio de ir em 2007.


Hitchcock, o mestre que na época já tinha dirigido os brilhantes “Pacto Sinistro”(1951), “Um Corpo que Cai”(1958) e “Intriga Internacional” (1959) quis com esse projeto realizar um filme mais simples e barato. Escolheu filmá-lo em preto e branco, o que não fazia desde 1951. Segundo pessoas próximas, a escolha foi feita por ele temer que a cor do sangue tornasse o resultado final muito chocante. Mas isso não impede que o espectador veja a cor bem vermelha do sanque na famosa cena do chuveiro, apesar de ser em preto e branco. É uma das mágicas do cinema. Mas o sangue desta mesma cena é, na verdade, calda de chocolate e ela, que dura no total 2 minutos e meio no longa, demorou sete dias para ser filmada, e utilizou 70 diferentes posições de câmera. Um trabalho de mestre, sem nenhuma dúvida.

O diretor tinha também a divertida tradição de aparecer rapidamente em todos os seus filmes, em uma figuração rápida. Neste, ela acontece logo no início, aos quatro minutos, do lado de fora do escritório em que Marion trabalha, com um chapéu de cowboy, em sua pose clássica de perfil.


O filme teve 3 inferiores e desnecessárias sequências (em 1983, 1986 e 1990, essa última dirigida pelo próprio Perkins, que reprisou o papel em todas produções).Nenhuma delas teve o envolvimento de Hitchcock. Houve também em 1998 uma refilmagem pelo diretor Gus Van Sant, que teve a decisão preguiçosa de reproduzir as cenas quadro a quadro com um elenco atualizado, tendo o comediante Vince Vaughn como a equivocada escolha para o papel de Bates.

Tudo bem que em nosso país, o assunto do momento são os 50 anos de Brasília, mas é estranho a falta de comentários acerca dos 50 anos dessa obra que é um suspense atemporal, um filme que em muitos sentidos nos faz lembrar porque vamos ao cinema. O filme foi escolhido como o 11º melhor filme de todos os tempos e o melhor do gênero horror pela revista Entertainment Weekly, além de ter sido eleito o 18º melhor de todos os tempos pelo AFI (Instituto Americano de Cinema). E, pessoalmente, é um dos meus filmes favoritos.

Curioso observar que Hitchcock, na época, obrigou que em todos os cinemas dos EUA fosse proibida a entrada depois do começo da projeção, pois o espectador não podia perder nenhuma cena. E pedia também que o surpreendente final não fosse revelado. Atendendo a seu pedido, não o conto aqui, mas fica a indicação para que todos o assistam, pois é um filme essencial até para quem não é cinéfilo assumido. É um filme para se ver antes de morrer.

Abaixo, a famosa cena que fez muita gente ter medo de entrar no chuveiro sem ter a porta do banheiro devidamente trancada.
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