domingo, 29 de dezembro de 2013

A Liberdade É Azul - A Polêmica e a Beleza do Ousado Vencedor da Palma de Ouro 2013


 
É cada vez mais raro sair de uma sessão de cinema tendo suas expectativas para um filme não apenas correspondidas, mas superadas. Quando acontece, é uma sensação quase indescritível - atire a primeira pedra quem nunca sentiu isso. O caso mais recente foi com o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013: "Azul é a Cor Mais Quente", um filme francês cercado de polêmica e controvérsia desde sua primeira exibição. Baseado na história em quadrinhos "Le Bleu Est Une Coulert Chaude", de Julie Maroh, o filme acompanha o intenso caso de amor entre uma jovem estudante e uma artista plástica de cabelos azuis. O grande foco de toda a polêmica foi o uso de sequências de sexo explícito entre as duas jovens protagonistas. Esse detalhe acabou ofuscando qualquer outro aspecto do filme, para o bem e para o mal.

"La Vie D'Adèle" é o quinto filme do diretor franco-tunísio Abdellatif Kechiche. Depois de obras fortes como "O Segredo do Grão" (2007) e "Vênus Negra" (2010), o diretor chocou alguns críticos e cinéfilos pelo seu retrato bem sincero das descobertas amorosas e sexuais de uma jovem mulher em um filme de 187 minutos - que acabou levando o prêmio máximo de Cannes. O fato de Steven Spielberg - diretor conservador e comercial - ser o presidente do Júri que laureou a ousada obra apenas aumentou ainda mais o inevitável barulho da premiação. Mas vamos aos fatos.


"Azul é a Cor Mais Quente" é um filme realmente longo, mas nunca gratuito. Sua duração é maior à da grande média dos filmes no circuito, mas não há enrolação ou sequências desnecessárias em sua estrutura. Todas as cenas e situações têm sentido narrativo claro e adicionam mais elementos fundamentais à transformação das personagens. Diante disso, o tempo passa e o público mergulhado na história nem sente. Se é um filme polêmico como muitos dizem? Sim e não. Realmente, é uma obra ousada pela abordagem direta e explícita. Kechiche em nenhum momento esconde a sexualidade explosiva que brota em suas personagens. Quando há sexo entre elas, realmente há sexo intenso em cena. Claro que as imagens podem parecer fortes, incômodas ou até mesmo apelativas para parte da audiência, mas quando "sexo" é o tema retratado, esse tipo de reação parcial se mostra inevitável. O alvo de tanta polêmica são sequências bem pontuais, que somadas não completam nem 10 minutos. Mais do que qualquer coisa, são cenas sinceras que tornam as personagens e suas motivações mais legítimas, dando um sentido maior à história daquelas duas pessoas tão envolvidas e apaixonadas - e nisso se justificam. Vale lembrar: é um filme ousado, mas nunca gratuito.

A atriz Léa Sevdoux, rosto já conhecido pelo grande público por participações em filmes como "Bastardos Inglórios" (2009) e "Meia Noite em Paris" (2011), exala talento e segurança na pele de Emma, a artista plástica que ilumina cada fotograma em que aparece com seus cabelos curtos e azulados. É o grande ícone visual do filme, sem dúvida. Mas toda força e brilho que a produção francesa tem vem da incrível relevação chamada Adèle Exarchopoulos. Sim, o nome dela é complicado. E sim, é o mesmo de sua personagem. Adèle tinha apenas 19 anos quando gravou a produção, mas o filme é basicamente focado e debruçado em sua performance. E aí está seu trunfo. Através dela, acompanhamos a completa evolução de sua personagem: de uma jovem estudante indecisa e insegura até uma mulher determinada e segura de si, apesar de insatisfeita. No meio do caminho, lágrimas, prazer, gozo, raiva, dúvida, amor... A vida e seus inevitáveis detalhes. A cada nova ação ou discurso, ela nos apresenta mais nuances e camadas que ajudam a formar sua complexa personalidade. É uma personagem de extrema riqueza que só poderia funcionar e envolver o público de forma genuína se defendida por uma atriz de extrema competência e talento, disposta a mergulhar de corpo e alma no papel. Para a nossa alegria, é o que acontece. Os fãs da "Blue Jasmine" de Cate Blanchett que me perdoem, mas aqui Adèle Exarchopoulos entrega a melhor atuação feminina que vi neste ano de 2013. Sem mais.


Após receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes com direito à muita festa e alegria, "La Vie d'Adèle" entrou em uma espécie de inferno particular que dominou a imprensa voltada à indústria do Cinema. A polêmica veio não só por parte do público perplexo com o sexo ou relacionamento lésbico em cena, mas por conflitos entre o diretor e suas musas. Léa declarou em várias ocasiões ter se sentido explorada e maltratada por Kechiche, com quem jurou nunca mais trabalhar. Não demorou muito para que Adéle também relevasse algumas dificuldades e abusos ocorridos durante as gravações. Frustrado com tantas críticas, o diretor chegou a dizer que nunca deveria ter lançado o filme, pois se tratava de uma obra suja. Sentindo-se humilhado por um público que "nunca veria o filme com coração aberto e olhar atento", ele chegou a afirmar que a vitória em Cannes foi um "breve momento de felicidade". Pelos registros e celebrações da época, era realmente difícil imaginar tensões em um time tão realizado e feliz.

A grande questão é que "Azul é a Cor Mais Quente" é maior que qualquer polêmica que o cerca. Até mesmo as já famosas cenas de sexo vão além do puro tabu. Kechiche é um cineasta que sabe transformar em arte aquilo que enquadra. E seus belíssimos enquadramentos geram imagens de incrível sensibilidade e força. Poucos diretores em atividade sabem fazer planos fechados e closes da mesma forma que Kechiche. Com eles, os orgasmos das personagens, suas bocas, cabelos e os desenhos e curvas de seus corpos se tornam incríveis quadros da natureza humana em seu estado mais puro. Mesmo sendo - sem sombra de dúvida - um dos melhores lançamentos do ano, o estilo/ ritmo adotado pelo diretor chegou a ser julgado como "irregular e confuso" por alguns críticos mais conservadores. E aqui fica bastante claro que, tematica e estruturalmente, o maior "pecado" e causa das inúmeras polêmicas geradas pelo filme seja exatamente o fato de ele ser extremamente livre em tudo que propõe e aborda. Mas não seria um de seus principais temas a liberdade em si? Pois é. Abdellatif Kechiche pode se dar o direito de sorrir mais tranquilo e realizado.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mudança de Hábito - Charlie Chaplin e sua Obra-Prima Esquecida, "Monsieur Verdoux"


É simplesmente impossível falar de Cinema sem citar o nome de Charles Spencer Chaplin (1889-1977). Ícone definitivo da sétima arte, o inglês deixou sua imagem eternizada como a personalidade mais famosa do século XX. Com a característica vestimenta, bigodinho e bengala, seu "vagabundo" se tornou uma das figuras mais atemporais e universais da história da humanidade. Mas Chaplin, o homem, já tentou fugir de Chaplin, o mito. E acredite: é ele na foto acima.

Depois de lutar contra o uso de som no cinema lançando as obras-primas "Luzes da Cidade" (1931) e "Tempos Modernos" (1936) como obras mudas em plena era de filmes falados, Chaplin finalmente cedeu ao som. Em "O Grande Ditador" (1940), seu primeiro filme falado, ele encarnava Adenoid Hynkel, uma óbvia sátira a Adolf Hitler. Mesmo indicado ao Oscar por sua atuação, Chaplin não tinha deixado de lado sua mais famosa criação: no longa, o barbeiro judeu sósia do ditador era na verdade uma versão falante de seu clássico vagabundo. Mesmo visual maltrapilho, mesma inocência juvenil, mesmo personagem consagrado. Só que Chaplin queria dar um basta definitivo em seu alter-ego. Para isso, precisaria inovar em uma nova obra que tivesse  outra motivação e outro clima. Era necessária uma mudança propositalmente radical.

A ideia para fazer "uma comédia de assassinatos" não veio de Chaplin. Em 1942, um jovem cineasta se interessou em adaptar para os cinemas a vida de Henri Désiré Landru, um polêmico assassino francês que ficou conhecido como "Barba Azul" por matar suas mulheres para pegar suas heranças. Esse jovem cineasta em questão se chamava Orson Welles. Após o prestígio e polêmica com "Cidadão Kane" (1941), Welles pensava em realizar esse projeto como seu segundo filme e tinha plena convicção de que só um homem poderia protagonizá-lo: Chaplin, o eterno vagabundo. Ao ouvir a proposta, Chaplin viu ali a oportunidade perfeita para abandonar de vez a sombra de sua mais famosa criação. Completamente envolvido com a premissa, convenceu Welles de que ele era a pessoa certa para dirigi-la e comprou a ideia do diretor americano. Seu nome seria citado nos créditos, mas toda trama e características seriam mudadas e adaptadas ao gosto do próprio Chaplin. E assim nasceu "Monsieur Verdoux".


"Monsieur Verdoux - Uma Comédia de Assassinatos" - percebam que o título original de Orson Welles foi mantido como uma espécie de subtítulo - estreou sete anos após o último filme de Chaplin, "O Grande Ditador". A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) tinha deixado cicatrizes fortes na humanidade e o clima da Guerra Fria estava no ar. O mundo não era mais um lugar agradável e leve de se viver. E foi nesse contexto que os fãs incondicionais de Charlie Chaplin foram apresentados à sua nova encarnação: Henri Verdoux, um homem que se casa com madames e dondocas ricas para as matar e pegar seu dinheiro. Agora seu figurino é sofisticado, com chapéu e bengala de luxo. O bigode está lá, mas agora é pontudo e grisalho como seus cabelos. A pose é de um galã de meia idade e bon-vivant. Uma figura fria e implacável, mas irresistivelmente sedutora e charmosa. Uma iniciativa ousada e extrema para abandonar de vez a figura do ingênuo vagabundo.

Nessa nova obra prevalecia o humor negro, ainda pouco compreendido ou apreciado na época. Mas vale lembrar que apesar da temática pesada, em nenhum momento do filme há violência visual. Tudo é sugerido ou indicado, o que nos coloca na irresistível posição de cúmplices do galante assassino. Suas motivações também são legitimadas pelo roteiro: Verdoux trabalhava humildemente como caixa de banco até ser demitido após 30 anos de serviço, pela Grande Depressão. Para manter as condições de sua esposa inválida e do pequeno filho - apresentados ao público em um momento de extremo lirismo e beleza -, ele viu como única solução seus golpes mortais. É impossível sentir raiva ou antipatia pelo personagem, principalmente pela forma como Chaplin conduz as cenas e a narrativa. E aqui temos um perfeito exemplar do Chaplin cineasta. Normalmente acostumado à câmera estática e enquadramentos simples, Chaplin se renova com inspirados movimentos de câmera e uma maior fluência entre os planos. Ele inclusive flerta com o suspense de Hitchcock em certos momentos - como a cena marcante da escada em que Verdoux mata uma de suas esposas durante a noite. O ritmo, movimento de câmera e enquadramento cuidadosamente calculado causam um efeito arrepiante e inesquecível, sem que em nenhum momento seja dita a palavra "assassinato" ou qualquer ação seja vista. Nada é mostrado, mas tudo é entendido. Nesse quesito, "Monsieur Verdoux' é uma aula de Cinema, por um de seus maiores gênios.


Mestre na arte das imagens, Chaplin enfim se apropria do som e o usa com extremo apuro e cuidado na construção de suas gags. Detalhes como a risada exagerada da pretendente Annabella - vivida hilariamente pela comediante Martha Raye - tornam-se extremamente importantes para o desenrolar da trama - algo que Chaplin não poderia usar no cinema mudo, mas aqui utiliza com extrema sabedoria. Há ainda o timing perfeito do canto dos barqueiros na cena em que ele tenta se livrar de Annabella em um barco, crente de que está isolado no meio do lago. Essa sequência inteira, inclusive, está entre as mais engraçadas e brilhantes já feitas em uma comédia.

Mais do que uma das maiores provas do talento de Chaplin na função de diretor, seu Monsieur Verdoux é a prova definitiva do exímio ator que ele foi. Um dos maiores atores que o cinema conheceu, para falar a verdade. Poucos conseguiam - ou ainda conseguem - expressar uma motivação ou intenção tão bem corporalmente. Chaplin o fazia com incrível facilidade. Seu corpo era poesia, ação e imagem em sua essência. E ouso dizer que nenhum outro ator conseguiria viver Monsieur Verdoux tão bem quanto ele. Nem Laurence Olivier, nem Marlon Brando. Talvez Sir Alec Guinness até tivesse o perfil ideal para o personagem, mas sua interpretação dificilmente seria tão autêntica quanto à de Sir Charlie Chaplin. Seu gestual minimamente pensado, o tom de voz oscilando entre calma e impulsividade e, principalmente, os rápidos olhares debochados trocados com a câmera - ninguém poderia encarnar Monsieur Verdoux com tamanha perfeição. Nos singulares momentos em que repensa a "profissão" e parece se redimir, o Verdoux de Chaplin resume qualquer diálogo ou monólogo em profundos olhares que perduram o filme. A cena final de "Luzes da Cidade" já tinha deixado claro ao mundo que poucos sabem se expressar tão bem com a força do olhar.


Apesar de marcar o corte definitivo com a figura do vagabundo, Chaplin era muito irônico para deixar algumas referências de lado. Quando seu personagem é perseguido por um investigador da polícia, esse se veste exatamente como seu velho icônico alter-ego. Pode conferir na foto ao fim desse artigo. É uma perfeita metáfora visual para o envelhecido Chaplin se escondendo e fugindo da figura de Carlitos. Como em todos os filmes mudos protagonizados por Carlitos, aqui Chaplin também encerra o filme solitário em sua caminhada. Mas dessa vez a caminhada não é esperançosa ou rumo à possibilidade de um futuro feliz. Verdoux segue para um destino implacável e inevitável, e Chaplin conclui o filme com um clima bem pesado e reflexivo. Os mais atentos vão notar que, apesar da situação sombria, seu personagens dá os passos finais em cena com o jeito característico de Carlitos, o vagabundo. Uma pequena e rápida referência-homenagem, antes dos letreiros "The End" tomarem o quadro.

Lançado em 1947, "Monsieur Verdoux" foi o maior fracasso comercial da carreira de Chaplin. A temática pesada e sombria, o cinismo e deboche presente em cada ato de humor negro e a ausência de qualquer sombra de arrependimento moral acabaram por afastar o público e transformar essa pérola na ovelha negra da filmografia do diretor. Muitos dizem que seu lançamento, ignorando todas as proibições e críticas feitas pelos órgãos de cinema da época, contribuiu diretamente para sua expulsão dos Estados Unidos em 1952. É curioso, mas esse filme é pouquíssimo citado em qualquer retrospectiva ou documentário sobre o cineasta - nem mesmo em sua famosa cinebiografia de 1992 ele aparece. Acontece que "Monsieur Verdoux" é extremamente inovador e genial no uso do humor ácido que mais tarde marcaria a obra do grupo Monty Python ou dos Irmãos Coen, por exemplo. Diante de todo o prestígio e adoração que cercam a obra de Chaplin, é injusto que esse filme permaneça esnobado ou subvalorizado como "apenas mais um filme" de seu currículo. "Monsieur Verdoux" é uma obra-prima única do humor negro, extremamente à frente de seu tempo. Nada mais justo que tratá-la como tal.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Homem do Sputnik - Os 85 Anos do Nosso Carlos Manga !!


Quando os chafarizes e estátuas de um pomposo cenário ocupavam a tela grande, o cinema era tomado por aplausos e gritos de felicidade. Os letreiros anunciavam o que todos ali queriam ver: "Atlântida Apresenta". Era mais uma produção da Atlântida Cinematográfica. Entre 1941 e 1962, a Atlântida foi a mais bem-sucedida experiência com estúdio de escala industrial que o Cinema Brasileiro já teve. Suas populares chanchadas visavam ilustrar o "jeitinho brasileiro" através de filmes leves e divertidos. Após incêndios e enchentes que destruíram grande parte do acervo do estúdio, toda sua riqueza e glória acabou ficando esquecida em algum lugar do passado. Sem uma divulgação digna de seu material, a Atlântida ficou viva apenas na memória daqueles que viveram seus tempos de ouro ou tiveram acesso aos seus mágicos filmes. Uma dessas pessoas, uma verdadeira lenda viva entre nós, é o diretor que melhor soube captar o espírito da Atlântida nas obras-primas do humor que realizou.
Senhoras e senhores, com vocês: Carlos Manga!

José Carlos Aranha Manga nasceu no Rio de Janeiro de 1928. A paixão pelo cinema surgiu quando ainda era uma criança, através das aventuras do Robin Hood encarnado por Errol Flynn. Fascinado pela intensa magia do cinema, começou a carreira como bancário antes de se render à sétima arte - até então, ainda precária no Brasil. A amizade com o ator Cyll Farney, um dos mais populares e queridos galãs da Atlântida, o levou até o famoso estúdio, onde começou a trabalhar como contra-regra. O conhecimento da teoria e o instinto para a prática no cinema garantiram que ele se destacasse entre os demais. Rapidamente, passou de montador à diretor assistente, e logo era o diretor musical dos filmes da Atlântida, responsável pelos inúmeros números musicais que pontuavam os filmes. Em 1952 veio a primeira oportunidade de assumir a direção de um filme. Era preciso um nome artístico: José era muito comum e Aranha poderia assustar algumas pessoas - e assim surgia, oficialmente, o diretor Carlos Manga.


Manga era um diretor único. Desde o princípio era possível perceber a diferença de seus filmes para os feitos anteriormente no estúdio. Enquanto as produções dos respeitados diretores Watson Macedo ("Aviso aos Navegantes", 1950) e José Carlos Burle ("Carnaval Atlântida", 1952) eram quase teatro filmado, com uma câmera estática e sem maiores cuidados visuais, as sequências e obras assinadas por Manga apresentavam um maior cuidado estético, com fotografia trabalhada e movimentos de câmera ousados. A ideia era reproduzir o que era feito no cinema americano, e em nenhum momento ele escondeu isso. Em seu primeiro filme, resolveu estabelecer no Brasil a tradição de dupla de humor em "Dupla do Barulho" (1953), onde eternizou a parceria de Oscarito e Grande Otelo - maiores ícones do humor no país e uma das maiores duplas da história do cinema mundial. Ousou trazer o gênero western para nossas terras, com a genial sátira "Matar Ou Correr" (1954), e ainda apostou na superprodução de época com o também antológico "Nem Sansão Nem Dalila"(1955). Esses filmes representam o auge da Atlântida, um período em que ninguém atraía tanta gente aos cinemas como os nomes de Oscarito, Grande Otelo e Carlos Manga.

Nos dias de hoje, a comédia "Minha Mãe É Uma Peça" se tornou um sucesso arrebatador ao levar 4 milhões de pessoas aos cinemas. Claro que os tempos são outros - com DVDs e Internet para competir -, mas Manga conseguiu, apenas com "O Homem do Sputnik" (1959), atrair cerca de 15 milhões de espectadores às salas de exibição. Seus filmes eram garantia de sucesso de público. Já a crítica... Suas chanchadas eram rotuladas de "alienantes", "bobas" e até mesmo "desnecessárias". Manga costumava dizer debochadamente que "ninguém gostava dos filmes da Atlântida... Só o público". Diante das pressões e críticas duras, o diretor chegou até mesmo a sentir vergonha desses filmes que fazia em certo período. Felizmente, o preconceito foi superado e sua obra é hoje motivo de orgulho nacional e essencial para a cultura brasileira. 


Entre as estrelas do estúdio, Carlos Manga era ele próprio uma figura mítica. Com seu bigode fino, visual elegante e atitude energética, conquistou uma reputação forte dentro da indústria. Ao dirigir uma cena, costumava interpretar todas as ações e movimentos que pedia aos seus atores - esses admitiam que nem sempre conseguiam reproduzí-los à altura. Sempre tinha uma piada na ponta da língua - hábito que mantém até hoje -, mas quando se irritava... Sai de baixo. Criticado por alguns e admirados por muitos, Manga conquistava a simpatia dos profissionais da área com a mesma facilidade que atraía as mulheres. Durante uma noite, ele conta que fez uma aposta com Farney, galã consagrado, de quem conseguiria mais garotas em determinado local. Empataram - o que não é nada mal para alguém que vivia atrás das câmeras.

Manga ainda dirigiria pérolas como "Garotas e Samba" (1957) e "Esse Milhão É Meu" (1959) antes da despedida da Atlântida com "Entre Mulheres e Espiões" (1962), também o último grande papel de Oscarito nas telas. Com o encerramento das atividades do estúdio em 1962, o diretor voltaria aos holofotes com dois filmes: "O Marginal" (1974), suspense de ação protagonizado por Tarcísio Meira e "Os Trapalhões e o Rei do Futebol", um dos mais populares estrelados pelo quarteto. Como maior guardião da memória do estúdio que marcou sua carreira, ele realizou o nostálgico documentário "Assim Era a Atlântida" em 1975 - com o bem-sucedido intuito de apresentar aquele rico universo à novas gerações. Ele seguiria para uma bem-sucedida carreira na TV, onde dirigiu o amigo de longa data Chico Anysio em "Chico City" (1973), a premiada minissérie "Um Só Coração (2004) e a novela "Eterna Magia" (2007).


2013. Aos 85 anos de vida e com muitas experiências no currículo, Carlos Manga volta aos holofotes para o lançamento do livro "Quanto Mais Cinema Melhor - Uma Biografia de Carlos Manga", assinada pelo jornalista Sergio Cabral. Mais uma justa homenagem à sua brilhante carreira. Em 2011, durante o Festival do Rio, o cineasta ganhou a maior honraria lhe concedida em vida: uma estátua em tamanho natural no clássico Cinema Odeon da Cinelândia. Ela continua lá, saudando seus novos e velhos visitantes que, não raro - e infelizmente -, se perguntam quem é o moço ali eternizado.  Mal sabem estar diante de um gênio do nosso cinema.

Eu conheci Carlos Manga no dia 10 de abril de 2012. A ocasião era uma palestra especial em homenagem à Atlântida, na PUC-Rio. Aparentemente debilitado em sua cadeira de rodas, Manga logo levantou, riu, fez rir e encantou a plateia com sua animação e paixão pelo cinema. Em pouco tempo, todos estavam em sua mão. O dom de fascinar o público seguia intacto. Como um grande fã de seus filmes e da magia da Atlântida, fui até ele na esperança de trocar algumas palavras com o gênio. Simpatia em pessoa, essa foi sua resposta: "Fico extremamente emocionado em saber que meu trabalho ainda hoje inspira tantos jovens como você. Isso me mantém vivo! Cinema é a maior paixão que alguém pode ter! Quando seu filme estreiar, quero estar lá no lançamento!"
Ao depoimento emocionado, só consegui responder um tímido e sincero "Certamente estará, mestre".


Em sua vida, Carlos Manga foi amado, odiado, criticado, aclamado, aplaudido, vaiado, imitado e cultuado. Sempre romântico e bem humorado em sua vida e carreira, deixou sua marca única não só no cinema, mas também na história da publicidade brasileira. Como um dos últimos sobreviventes de uma época de ouro do cinema brasileiro, ele é um verdadeiro patrimônio histórico nacional. É o homem que merece ser lembrado não apenas por ser um ícone da Atlântida, um gênio do cinema ou uma lenda viva nacional. É o homem que merece ser celebrado por ser, acima de tudo, ele mesmo: o nosso imortal Carlos Manga.



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Uma Odisséia No Espaço - Alfonso Cuarón Promove Completa Imersão com "Gravidade"


Pra começar, vou direto ao ponto: não deixe de assistir "Gravidade" em 3D nos cinemas. Pronto, agora vamos aos argumentos.

"Gravidade" foi o filme de abertura do Festival de Veneza 2013. A expectativa em torno da produção era alta: não se tratava apenas do primeiro filme de Cuarón desde 2006, mas de uma complexa ficção científica que vinha sendo gravada desde 2011. A presença dos Oscarizados Sandra Bullock e George Clooney no elenco - somente os dois, na verdade - aumentaram ainda mais o burburinho. Mas as apostas deram certo e o filme arrebatou todos os presentes em sua estreia. Após a esperada exibição, falava-se em Oscar, em obra-prima, em "história do Cinema sendo feita". Por que tudo isso?


"Gravity" conseguiu um orçamento de 80 milhões ancorados principalmente no talento e prestígio de Alfonso Cuarón. Um dos melhores cineastas em atividade no mundo, o mexicano já tinha no currículo grandes filmes como "E Sua Mãe Também" (2001) e "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" (2004), o único da popular franquia que tinha uma marca autoral forte. Depois da subvalorizada ficção científica "Filhos da Esperança" (2006), Cuarón passou a se dedicar a esse novo projeto, outra ficção científica autoral. Após a aprovação da ideia, Cuarón assumiria as funções de co-roteirista, produtor, co-editor e diretor (!). E isso é visto em cena: o que poderia ser uma mera superprodução repleta de efeitos especiais e nenhuma emoção se revela uma experiência sensorial envolvente com a forte marca de um olhar cinematográfico. Cuarón sabe exatamente o que está fazendo - e o faz muito bem.

Muitos reclamaram do roteiro do filme. De fato, tudo é muito simples: "Gravidade" acompanha dois astronautas sobreviventes em uma estação espacial danificada. São personagens com pouco controle de suas ações, por estarem mergulhados em condições limitadas e arriscadas. Os acontecimentos mais determinantes acontecem nos cerca de 20 minutos iniciais de projeção. A partir daí, seguimos os astronautas por suas desventuras, sensações e experiências quase mortais, tentando mudar seus destinos a todo custo. O filme precisa de apenas 90 minutos para isso, funcionando perfeitamente nesse arco de tempo quase real. A narrativa nos faz acompanhar a personagem de Sandra Bullock quase em primeira pessoa. Ela está realmente muito bem em cena - não é uma atuação digna de Oscar, mas de justos aplausos para uma atriz tão marcada por papéis menos complexos. Ela consegue levar o filme sozinha nas costas - no caso, na roupa espacial -, mas conta também com o carisma de George Clooney para ajudar. Com bem menos tempo em cena, Clooney não se esforça muito para ir além de sua persona, mas ao menos mostra que seria uma agradável e simpática companhia para quem alguém eventualmente perdido no espaço.


O ponto alto de "Gravidade" não são seus atores e muito menos seu roteiro: é o modo como toda situação e ação são mostradas em cena. A abertura é um longo e elaborado plano sequência que, em sua técnica e complexidade, já se torna antológico. O queixo de quem assiste pesa, um arrepio se torna involuntário e, em questão de minutos, já nos vemos completamente sugados para aquela realidade ali proposta. A câmera de Cuarón passeia sem limites pelo espaço, como se fosse mais um corpo solto entre os astronautas - até mesmo entrando em seu capacete em certos momentos, dando uma total sensação de imersão. É como estar dentro de um game ultra-realista ou  ainda um simulador dos bons. E aí que entra a importância do efeito 3D. O artifício, para a alegria do público acostumado a filmes desnecessários no formato, é aqui usado com extremo cuidado e relevância - tão fluente quanto em "Avatar", tão charmoso quanto em "A Invenção de Hugo Cabret" e tão lírico quanto em "As Aventuras de Pi". Mas há uma diferença marcante: aqui, o 3D se torna um personagem fundamental para a imersão completa. Se "imersão" é a palavra que define a experiência de assistir "Gravidade", o 3D se torna o passaporte ideal para isso. Quem se deixar levar na viagem, vai concordar que, em questões técnicas e visuais, o filme beira a perfeição.

Não tenho dúvidas de que o sr. George Méliès (1861-1938), ilusionista francês que primeiro levou o cinema ao espaço com o clássico "Viagem à Lua" (1902), ficaria extasiado com a capacidade de "Gravidade" em fascinar o público com suas maravilhosas trucagens - no caso, digitais. Também ouso dizer que Stanley Kubrick (1928-1999) ficaria satisfeito em encontrar no novo filme de Cuarón um digno acompanhante de seu "2001 - Uma Odisséia no Espaço" (1968) na lista de filmes que melhor representam o espaço nas telas. George Lucas ficaria louco com a qualidade dos efeitos e provavelmente relançaria as trilogias de Star Wars buscando uma imersão semelhante. Citar o nome de Cuarón entre esses gênios da sétima arte já diz muito sobre o que achei desse filme. Resumindo em ideias gerais, "Gravidade" arrebata, envolve, emociona, assusta, diverte, faz rir, faz chorar (sempre tem alguém que não consegue resistir), arrepia e nos leva a levitar nas poltronas. Mais que tudo isso, "Gravidade" nos faz lembrar do por quê vamos ao cinema. Por isso mesmo, fica a dica: não deixe de ir.




terça-feira, 8 de outubro de 2013

Juventude Transviada – “De Menor”, um dos Grandes Destaques do Festival do Rio 2013.


Caru Alves de Souza é uma jovem cineasta de São Paulo. Como produtora da Tangerina Entretenimento, ela escreveu o roteiro de todos seus projetos. Fez os documentários “Mascarianas” (2008) e “Vestígios” (2011) para a TV Cultura antes de dirigir os curtas-metragens “Assunto de Família” (2011) e “O Mundo de Ulim e Oilut” (2012). Após essas experiências bem-sucedidas, era a hora de se aventurar no primeiro longa-metragem. O resultado estreou como um dos destaques da Première Brasil no Festival do Rio 2013.  E verdade seja dita: “De Menor” é uma das melhores produções nacionais dessa edição. Basta uma análise atenciosa para concordar que, em uma doce ironia com o título, trata-se de um filme de gente grande.

Também escrito por Caru, “De Menor” acompanha a personagem Helena, uma defensora pública de crianças e adolescentes no Fórum de Santos. Em paralelo com os problemas e inseguranças de sua profissão, ela cuida do meio-irmão Caio, com quem mora e tem uma relação de confiança – até o jovem começar a adotar comportamentos suspeitos. Diante dessa aparente simplicidade da trama, o que tornaria esse filme superior ou notável entre os outros lançamentos? Explico: é difícil ver um filme com tanta harmonia narrativa entre Direção, Fotografia e Edição. Ainda mais se pensarmos que se trata de um trabalho de estreia. A Direção sabe exatamente como quer abordar as ações, a Fotografia tem plena noção do que está enquadrando e revelando e a Edição tem total controle do ritmo adotado. E aqui entram as merecidas palmas para a câmera fluente do diretor de fotografia Jacob Solitrenick e para a sensibilidade do editor Willem Dias. Essa afinidade atrás das câmeras reflete na tela, tornando “De Menor” um filme incrivelmente agradável de assistir.



Já nas primeiras sequências, o filme demonstra estar seguro em toda a sua proposta. Embora isso seja esperado em qualquer produção que chega às telas de exibição, não é raro nos depararmos com filmes que se perdem em vários caminhos precipitados e soluções visuais equivocadas, deixando fugir o foco e a força de sua proposta central. Nesse sentido, “De Menor” funciona como um sopro de inspiração e originalidade na recente safra do cinema nacional.

A trama, propositalmente ou não, remete à obra do italiano Bernardo Bertolucci no momento em que centraliza grande parte das ações na complexa relação de dois personagens reunidos por uma situação altamente dramática. Assim como em “Io e Te”, mais recente filme do diretor, os conflitos e afinidades entre esses dois indivíduos – no caso, irmãos – são observados de forma íntima e intensa. Comparar a obra em questão com o cinema de Bertolucci é um dos elogios mais sinceros que posso fazer ao filme, e deve ser assim interpretado – como uma comparação elogiosa. Além disso, a escolha inspirada da trilha sonora eclética e pop que emula toda agressividade da adolescência faz relevante diferença no andamento do filme.


O filme conta com a participação de luxo dos grandes atores Rui Ricardo Dias – mais lembrado como intérprete do ex-presidente brasileiro na cinebiografia “Lula, o Filho do Brasil”(2010) – e de Caco Ciocler, mais uma vez exemplar em cena. Mesmo em personagens coadjuvantes, os atores conseguem alcançar momentos de brilho, seja esse brilho mais intenso ou mais discreto, de acordo com o que o momento pede. Mas, como já foi dito antes, a trama é focada em dois personagens: Helena e Caio. E para viver essa intensa e intimista relação, seria necessário encontrar dois atores jovens e incrivelmente talentosos. Missão dada, missão cumprida. “De Menor” tem na química entre Rita Batata e Giovanni Gallo seu ponto alto. São eles na foto comigo lá embaixo, após a exibição de estreia do filme. Juntos, os dois funcionam em plena sintonia e até se completam dramaticamente. O exemplo máximo dessa química é a cena na praia, logo no início, de uma leveza gritante e soluções visuais inspiradíssimas. Um sorriso involuntário toma qualquer rosto de assalto. O incrível trabalho e entrega da atriz Rita Batata merece uma atenção especial. Presente em praticamente todas as cenas do filme, é ela que carrega toda a carga dramática nos momentos-chave. O filme acaba, mas a força do seu olhar continua.

Vale também considerar a eficiente abordagem do universo escolhido: o ambiente de jovens infratores que veem seu futuro ser definido por “homens da lei” em tribunais de Justiça. Em diversos momentos, a diretora coloca diante da câmera jovens que, amadores ou não, passam genuinamente a mistura de ousadia e inocência tão marcante dessa juventude transviada. Mesmo com poucas falas, suas posturas e olhares entregam mais do que qualquer diálogo do roteiro poderia tentar reproduzir. A força dessas imagens e abordagens atravessa o filme. No final da projeção, nem nos damos conta de que se passaram apenas 77 minutos. Mas, nesse caso, a reduzida duração não é prejudicial. O filme funciona bem naquele tempo e ritmo, e alongá-lo poderia torná-lo redundante – afinal, a personagem completa sua jornada, da maneira que deveria ser. “De Menor” fica na cabeça como um trabalho eficiente, exemplar e inspirador, tanto tecnicamente quanto narrativamente. Em toda sua simplicidade, consegue alcançar e despertar muito mais do que muitas pretensiosas produções nacionais por aí. Mais do que isso, “De Menor” é a prova de que os nomes Caru Alves de Souza e Rita Batata mereciam ser lidos e ouvidos novamente em um futuro próximo. O Cinema Brasileiro de qualidade agradece. 


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

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Queridos leitores e amigos que acompanham e gostam dos artigos aqui publicados, não deixem de visitar - e, se agradar, curtir - a página do "Kaio No Cinema" no Facebook!

Com publicações diárias e diversos álbuns temáticos, a página possui uma abordagem mais dinâmica e eclética do cinema - tanto o que está sendo produzido nesse exato momento, como os grande clássicos atemporais. Ou seja: a boa e velha proposta do "Kaio No Cinema" agora no seu Facebook!

O endereço é bem simples: facebook.com/kaionocinema. E a página já está com quase 1000 curtições!
Se você ainda não conhece, não deixe de conferir!


sábado, 7 de setembro de 2013

A Insustentável Leveza do Ser - "Frances Ha", uma das Maiores Surpresas do Ano


Existem filmes discretos por natureza, que simplesmente não chamam muita atenção do grande público e dependem da boa vontade dos cinéfilos que se propõe a descobri-lo. Isso se intensifica ainda mais quando ele é em preto-e-branco e com toda aura de cinema alternativo independente. É o caso de "Frances Ha", feito em 2012 e apenas agora lançado no Brasil. Mas acredite: o filme é uma grata surpresa - uma das melhores do ano, inclusive.

O título aparentemente não revela muito do gênero ou da trama. Afinal, do que se trata "Frances Ha"? O filme segue uma jovem moradora de Nova York (na verdade ela não tem um apartamento fixo) que planeja entrar para uma companhia de dança (embora não seja realmente uma dançarina) e resolve se jogar de cabeça em seus sonhos (sejam eles promissores ou não). Ah sim: o nome dela é Frances. E é isso. Com uma história tão simples, o que chamaria tanta atenção nesse filme? A resposta está na pergunta: sua simplicidade, mesmo que apenas aparente, é um dos grandes trunfos aqui. Mas seu ponto alto tem nome e sobrenome - chegaremos a ele no próximo parágrafo.


O diretor Noah Baumbach já era queridinho no cinema independente americano por obras como "A Lula e a Baleia" (2005) e "Margot e o Casamento" (2007). Depois de flertar com um público maior - sem muito sucesso - com "O Solteirão"(2010), Baumbach encontrou no set a parceira perfeita para seu novo trabalho. No caso, uma jovem americana de 28 anos com uma visão bem clara de seu mundo: Greta Gerwig, o ponto de maior brilho do filme. Depois de viver uma doce faz-tudo em "O Solteirão", Gerwig resolveu apostar em um roteiro que tinha escrito e o apresentou ao diretor. Ele não apenas se apaixonou pelo projeto, como só aceitou fazê-lo se tivesse Greta como a protagonista. E o resultado é uma obra leve, descontraída, melancólica, estilosa e irresistível. Em outras palavras, é Cinema da melhor qualidade.

Falando em Greta Gerwig, a moça merece um parágrafo só pra ela. Bonita e talentosa, a atriz poderia encarnar a protagonista como mais uma jovem em busca do amor e do sucesso na carreira, destinada a um final feliz. Não é o que acontece. Sua Frances é insegura, ingênua, brincalhona e espontânea. Sem grandes pretensões, age por puro instinto - o que muitas vezes gera decisões e ações irresponsáveis. No meio de tantas "mocinhas" escritas para encabeçar comédias românticas clichês e manjadas, a Frances de Gerwing se destaca por ser uma pessoa de verdade. Não há concessões dramáticas ou cinematográficas: o que vemos ali é alguém real. Não à toa, a loira atriz de 29 anos já foi coroada como a nova musa do cinema indie. Muito justo, na verdade. Podem ficar de olho nela, que essa vai longe. 


A abordagem escolhida por Baumbach é um perfeito equilíbrio das características dos diretores Jim Jarmush e Woody Allen. Enquanto o universo parece saído da cabeça de Jarmush, os personagens e diálogos remetem à Allen em sua melhor fase. Não há rostos conhecidos em cena - e isso garante que os personagens de "Frances Ha" se portem como pessoas de verdade. Não há finais felizes, momentos clichês, destinos cruzados ou "coisas que só acontecem em filmes". A câmera discreta apenas capta a vida como ela é, fazendo uso de um ritmo e trilha sonora irresistíveis. Tudo flui em plena sintonia e o filme se torna algo extremamente gostoso de se ver. 

No fim das contas, "Frances Ha" funciona como um perfeito espelho da moderna geração de pré-adultos que se apega a prazeres mais imediatos para tentar esquecer as incertezas quanto ao futuro. Para quem vê de longe, seus 86 minutos podem parecer muito pouco, mas suas mudanças de andamento foram meticulosamente planejadas - não dá pra imaginar o filme mais longo ou mais curto. É preciso ter coração de pedra ou muito preconceito com cinema alternativo para resistir ao seu charme. Nascido para ser cult, "Frances Ha" é uma força da natureza que atrai qualquer espectador para seu universo monocromático. Entre tantos filmes que tentam ditar um novo modo de vida ou alienar as platéias com tramas bobinhas e efeitos especiais, está aqui um que só quer ilustrar, de forma simpática e simples, a insustentável leveza do ser. E consegue, pode acreditar. 



domingo, 25 de agosto de 2013

Sob Nova Direção - Os Melhores Remakes do Cinema (até agora!)



Notícias de Hollywood: foi confirmada recentemente a refilmagem de "Poltergeist" (1982), sinistro clássico do terror que marcou a década de 80. Esse é apenas mais um dos incessantes remakes que em breve invadirão os cinemas - lembrando que ainda virão aí as novas versões de "Carrie, A Estranha", "Oldboy" e "RoboCop", esse último dirigido pelo brasileiro José Padilha. Refilmar produções já lançadas anteriormente nos cinemas é uma prática bem normal e antiga na sétima arte. Tal atividade já era realizada no cinema mudo, para se ter uma noção. A diferença é que, antigamente, o objetivo era dar uma nova chance a obras esnobadas que tinham feito sucesso apenas moderado na versão original - o que dava certo quase sempre.

Hoje em dia, a história é outra: os produtores focam em clássicos consagrados que possuem uma grande quantidade de fãs. Clássicos que NÃO PRECISAVAM ser refilmados, como é o caso de todos citados no início do texto. O resultado, na grande maioria das vezes, são versões muito inferiores ao filme original. Exemplos são bombas como "Psicose"(1998), "Planeta dos Macacos" (2001), "Fúria de Titãs" (2010) e "O Vingador do Futuro" (2012), só para citar alguns. Só que precisamos ser justos: existem remakes extremamente competentes e bem feitos, que não só se igualam ao prestígio da versão original como por vezes conseguem até superá-la. "Kaio No Cinema" resolveu ousar e fazer uma lista dessas "melhores novas versões", que conseguiram não só homenagear os clássicos que as originaram mas também conquistaram inúmeros fãs com suas releituras.

Só para esclarecer: "reboots" ou novas abordagens para franquias consagradas não estão contando aqui. Ou seja, nada de Batman, Homem-Aranha ou 007 nessa lista. E, obviamente, não é uma lista definitiva - afinal de contas, nenhuma é.

Vamos aos mais bem-sucedidos remakes do cinema:


10 - "Onze Homens e Um Segredo", de Steven Soderbergh, 2001.


Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop eram os "reis do cool" absolutos na década de 50.  Juntos, formavam um grupo de bon-vivants que faziam shows e apresentações sob o nome de "Rat Pack". Extremamente populares, os artistas acabaram fazendo uma série de filmes, dos quais o mais famoso era exatamente "Onze Homens e Um Segredo"(1960).
O versátil diretor Steven Soderbergh assumiu o desafio de atualizar todo o charme e diversão do original. Para isso, convocou um elenco estelar de dar inveja. Encabeçados por George Clooney - um dos poucos com moral para herdar o papel que pertenceu a Sinatra -, o time contava com Brad Pitt, Matt Damon, Andy Garcia, Don Cheadle, Bernie Mac e Julia Roberts, entre outros. O sucesso conseguiu ser maior do que o esperado. Embora o desfecho da versão de 1960 seja muito mais brilhante e genial - inclusive inspirou Tarantino na abertura de "Cães de Aluguel" (1992) -, a refilmagem funcionou muito bem e gerou duas sequências igualmente estilosas e divertidas.



 9 - "Perfume de Mulher", de Martin Brest, 1992.

  
Mais conhecido como o filme que - finalmente - deu o Oscar de Melhor Ator para Al Pacino, essa é a versão americana do italiano "Profumo di Donna", dirigido pelo cineasta Dino Risi em 1974. A trama que acompanha o jovem recruta obrigado a acompanhar um militar cego e irascível ganha um final diferente e muito mais convencional pelas mãos de Brest. Por outro lado, adicionou a antológica cena de dança ao som do tango "Por Una Cabeza". A atuação de Pacino emociona e arrepia, mas foi grande o desafio de interpretar um papel antes defendido por Vittorio Gassman - um dos maiores atores que o cinema mundial já conheceu, premiado em Cannes em 1975 por esse papel.



8 - "Cabo do Medo", de Martin Scorsese, 1991.


Cinéfilo na definição mais completa da palavra, Martin Scorsese era um grande fã do tenso thriller "Cape Fear", de 1962. A graça do filme era o embate entre dois astros consagrados do cinema: Robert Mitchum encarnando o Mal como um ex-presidiário em busca de vingança e Gregory Peck como o justo advogado que permitiu sua prisão no passado. Quando o diretor decidiu comandar a refilmagem, os dois titãs ainda estavam vivos - e ele fez questão de incluí-los em pequenas participações especiais. A versão de Scorsese é repleta de referências ao original, inclusive mantendo o sinistro tema composto pelo gênio Bernard Herrmann. O ritmo, por outro lado, é bem diferente: e dá-lhe cortes rápidos, muita violência visual e ângulos inusitados. Não é o melhor trabalho de Scorsese, mas ficou merecidamente marcado pela inspirada atuação de Robert De Niro (na oitava parceria com o diretor), tatuado e musculoso em uma versão muito mais agressiva do perverso Max Cady.


7 - "Nasce Uma Estrela", de George Cukor, 1954.


 Judy Garland está imortalizada no cinema como a Dorothy de "O Mágico de Oz"(1939), mas é
aqui que teve seu melhor papel. A história da sonhadora artista que deseja o estrelato e o alcança com a ajuda de um astro decadente e alcoólatra já tinha sido levada aos cinemas em 1937, estrelada por Janet Gaynor e Fredric March. Embora vencedora dos Oscar de Roteiro e Fotografia, a versão original acabou esquecida no tempo. George Cukor foi escolhido para refazer a trama, que acabou se tornando um dos musicais mais queridos de Hollywood. James Manson faz seu melhor papel dramático, mas o filme é todo de Garland. A atriz, emocionalmente instável, insegura e viciada em medicamentos e calmantes, mistura vida e obra em cena. Sua entrega nos números musicais arrepia, e o resultado é uma das maiores atuações da Era de Ouro do cinema. O Oscar de Melhor Atriz parecia uma certeza, mas quem levou a estatueta foi Grace Kelly - derrota que Garland nunca aceitou, até sua morte precoce em 1969. Uma outra refilmagem - inferior - foi feita em 1976, protagonizada por Barbra Streisand e com abordagem rock'n'roll. Mas a de 1954 prevalece absoluta como a melhor.



 6 - "King Kong", de Peter Jackson, 2005.


Apaixonado pela obra-prima da fantasia feita em 1933, o neozelandês Peter Jackson usou todo prestígio obtido na direção da trilogia "O Senhor dos Anéis" para fazer uma luxuosa homenagem ao original. Assim, realizou um sonho de criança e ainda passou uma borracha definitiva no vergonhoso remake feito em 1976. Sua visão do gorila gigante que é descoberto em uma ilha e levado para a cidade grande como a "oitava maravilha do mundo" tem o dobro da duração do clássico e adiciona muitos elementos e camadas à simples premissa original. Usa e abusa de efeitos especiais, é verdade, mas consegue inserir emoção e paixão no animal, que originalmente era apenas um macaco violento e destruidor. Aqui, Kong tem sentimentos e comove - mérito de Andy Serkis, que deu os movimentos ao personagem digital. O "King Kong" de Peter Jackson é uma homenagem muito bem feita ao cinema e à sua capacidade de nos fascinar. 


5 - "O Homem Que Sabia Demais", de Alfred Hitchcock, 1956.


Diretor com moral faz remake da própria obra! Foi o caso do peculiar mestre Alfred Hitchcock, que resolveu refilmar um de seus obscuros filmes britânicos com elenco e orçamento americano. Feito em 1934, o original também contava a história de um pacato casal que está de férias quando descobre os planos de um assassinato e têm sua filha sequestrada para mantê-los em silêncio. Na adaptação de 1956, Suíça foi substituída por Marrocos e a filha virou filho Embora não tenha a presença sinistra de Peter Lorre, a versão americana conta com James Stewart e Doris Day no auge da fama. E qualquer argumento contra o filme vai abaixo com a tensa e perfeita sequência final na sala de concerto Royal Albert Hall. Com doze minutos de duração e sem uma única palavra de diálogo, a cena é uma aula de suspense -  referência no gênero até hoje. Um dos gênios do cinema em plena forma.


4 - "Drácula de Bram Stoker", de Francis Ford Coppola, 1992.


Esqueça a charmosa e icônica encarnação de Bela Lugosi no clássico "Drácula" (1931). Ela não combina nem um pouco com a gótica e excêntrica versão de Coppola, mais fiel à imortal obra de Bram Stoker. Com elenco estelar e direção de arte delirante, o filme aborda os símbolos ligados à mitologia do vampiro de forma extremamente hipnótica. É quase impossível não ceder ao seu visual e estilo. O conde é encarnado por um brilhante Gary Oldman, assustador e sedutor na medida perfeita - verdadeira encarnação do Mal que figura entre seus melhores trabalhos. Uma das obras mais subestimadas do diretor, esse filme injeta o horror e ousadia que outras abordagens do Drácula não conseguiram alcançar e as faz parecer ingênuas. Enquanto os trejeitos de Lugosi hoje podem parecer cômicos e exagerados, a grotesta encarnação de Oldman ilustra o mais próximo que o cinema já chegou de registrar um genuíno pesadelo filmado.


3 - "Ben-Hur", de William Wyler, 1959.



Pouca gente sabe que o épico hollywoodiano famoso por ter levado 11 Oscars - o primeiro filme a conseguir essa proeza - é na verdade um remake de uma superprodução de 1925. O filme mudo "Ben-Hur: A Tale of the Christ" foi dirigido por Fred Niblo e era extremamente exuberante e bem feito para o período em que foi feito. Muito graças à luxuosa versão feita no final da década de 50, ficou esquecido e perdido por muito tempo, sendo redescoberto apenas no final dos anos 80. Mas realmente a versão protagonizada pelo imponente Charlton Heston é superior em muitos sentidos. Conseguiu ser superior até mesmo na duração: enquanto o original já tinha longos 143 minutos, a versão comandada por William Wyler dura 212 (!!!) minutos - quase quatro horas de muito drama histórico. É verdade que o ritmo fica um pouco arrastado em certos momentos, mas a espera vale a pena: a cena da corrida de bigas, que dura cerca de nove minutos, continua sendo um dos momentos mais inesquecíveis e arrepiantes da história do cinema mundial. 



2 - "Scarface", de Brian De Palma, 1983.


Em comum com a versão original de 1932, só mesmo o título e o nome dos personagens. Enquanto o clássico dirigido por Howard Hawks era uma espécie de cinebiografia disfarçada do mafioso Al Capone - que realmente tinha esse apelido devido a uma cicatriz no rosto - e se passava na Chicago do auge da Máfia nos EUA, o remake de De Palma trazia a ação para a dançante Miami da década de 80. No lugar do tráfico de bebidas na era da Lei Seca, entraram pesadas drogas. O próprio protagonista passou a ser um ex-preso político cubano. Se a primeira versão já chocava pela violência, a segunda extrapolou seus limites visuais - pelo menos para a época. A palavra "fuck", por exemplo, foi usada 226 vezes ao longo do filme, que dura o dobro que o original. Paul Muni era um grande ator e fez um ótimo trabalho como o primeiro Tony, mas não há nem o que se discutir: Al Pacino fez a encarnação definitiva do personagem, em seu papel mais icônico e cultuado. Explosivo, exagerado, agressivo e caricato, Pacino ilumina todas as cenas e permite que o filme tenha uma identidade própria, funcionando muito bem mesmo para quem não conhece a versão da década de 30.




1 - "Os Infiltrados", de Martin Scorsese, 2006.
 


Imagino que por essa ninguém esperava! O grande sucesso que ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2007 e finalmente deu a estatueta de Melhor Diretor para Martin Scorsese é na verdade a refilmagem de um thriller policial dirigido em Hong Kong por Andrew Lau e Alan Mak em 2002. A trama de "Infernal Affairs" - como foi chamado mundo afora - chamou a atenção de Scorsese, que resolveu adaptá-la ao Ocidente. O diretor americano adicionou nuances aos personagens e chamou um elenco estelar para a empreitada: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Alec Baldwin e a presença de luxo de Jack Nicholson. O resultado foi um dos melhores filmes da década. Ágil, violento, pulsante e ousado, "Os Infiltrados" foi aclamado por público e crítica, adicionando mais uma obra-prima ao currículo do cineasta. Entre tantos remakes esperados e fracassados, esse pegou todos de surpresa e foi extremamente bem-sucedido. Uma aula de cinemão popular e comercial da melhor qualidade. 





Após conferir essa lista, é bom deixar bem claro: obviamente, os filmes aqui listados não são necessariamente os "melhores remakes de todos os tempos". O objetivo é listar os que, na opinião desse cinéfilo que vos escreve, foram os mais bem-sucedidos na tarefa de modernizar ou adaptar clássicos antigos às novas gerações e visões - pelo menos, até agora. Se você acha que faltou algum filme à lista, não deixe de comentar e deixar sua opinião!

Diante de tantos lançamentos que estão chegando aí, ficamos juntos na torcida por novos remakes de qualidade!!

sábado, 13 de julho de 2013

Uma Nova Esperança - Superman Tenta Alçar Voo nos Cinemas - Mais Uma Vez - com "Homem de Aço"


Então vamos lá. Eu gosto de Zack Snyder, mesmo. Diretor de grande apuro estético, ele fez uma apresentação digna com "Madrugada dos Mortos"(2004), proporcionou uma eficiente viagem visual em "300"(2006), mandou muito bem com a ousada adaptação de "Watchmen" (2009) e até mesmo o confuso e irregular "Sucker Punch"(2011) tinha lá seus méritos. À princípio, Snyder parecia ser realmente o homem certo para assumir o reboot do Superman nos cinemas, após a rejeição geral que "Superman - O Retorno" recebeu em 2006. Quando o nome de Christopher Nolan apareceu na produção então, parecia que não havia possibilidade de dar errado. E aí... Deu.

Seguindo a linha da trilogia de Nolan sobre Batman, a ideia aqui era renovar a imagem do famoso personagem da DC Comics criado em 1938 pelos amigos Joe Shuster e Jerry Siegel. Para isso, esqueceriam completamente qualquer filme anterior protagonizado pelo personagem - principalmente o clássico eterno dirigo por Richard Donner em 1978, aquele estrelado pelo icônico Christopher Reeve. Nada seria considerado ou reaproveitado, nem mesmo a perfeita e imortal trilha sonora composta por John Williams. A proposta era arriscada e foi seguida à risca. Somado a isso, haveria ainda a tentativa de conferir uma abordagem mais realista ao herói, como foi feito com o Caveleiro das Trevas. Outro grande risco... Que não foi tão bem executado.


Diferente do nostálgio filme-tributo feito por Bryan Singer em 2006, "Man Of Steel" não tem nenhum laço ou ligação com produções anteriores. Não se dá nem mesmo ao trabalho de fazer pequenas referências/citações aos quadrinhos ou filmes do passao, algo que agradaria os fãs mais fiéis. Como prometido, retomam toda história do zero e lhe dão uma nova abordagem. Mas compará-lo com qualquer filme do Batman orquestrado por Christopher Nolan é o mais puro exagero. Todo realismo, contextualização e vigor presente em cada uma das três partes está bem distante do que vemos aqui. Ao tentar modificar completamente o perfil do Superman nos cinemas, acabaram estragando seu charme, simplificando demais o personagem e seu universo.

Se a primeira parte do filme - a "origem do herói" - parece tirada dessas genéricas ficções científicas produzidas na última década, as sequências que teoricamente mergulhariam na mente do personagem acabam sendo muito rasas. Como era de se imaginar, Snyder capta belíssimas imagens com a sua câmera, verdade seja dita. Por certos momentos, até flerta com um ritmo e narração semelhantes aos usados em "A Árvore da Vida". Mas essas cenas, belíssimas soltas ou no trailer do filme, não funcionam bem juntas. Tudo acaba levando a cenas de explosão e ação desenfreada. TUDO. SEMPRE.


A graça dos filmes originais protagonizados pelo super-homem de Krypton não era apenas os efeitos especiais da época ou a imagem forte de Reeve com o uniforme. Grande parte da magia ou química estava na construção dos personagens e da relação entre eles. E aqui eu digo que gostava muito dos filmes originais e até mesmo da visão de Bryan Singer. O núcleo do jornal Planeta Diário, no qual Kal-El se escondia sob o disfarce de Clark Kent, era uma espécie de equilíbrio extremamente importante nos filmes. A relação do desajeitado/tímido Clark com a repórter Lois Lane, o fotógrafo Jimmy Olsen e o editor Perry White injetava humor e humanidade às aventuras. Isso sem citar o carismático vilão Lex Luthor, defendido de forma brilhante e genial pelos Oscarizados Gene Hackman (nos filmes antigos) e Kevin Spacey (em 2006). Acredito que o público tinha carinho especial por esses personagens. Aqui, tudo isso é deixado de lado. O Planeta Diário até dá as caras, mas de forma burocrática e rápida. Lawrence Fishburne e Amy Adams simplesmente NÃO funcionam como Perry White e Lois Lane.

O vilão da vez, no final das contas, é o mesmo General Zod antes incorporado por um excêntrico Terence Stamp em 1978 e na continuação de 1980. Aqui é Michael Shannon quem o incorpora. Shannon é um grande ator e já provou isso em filmes como "Foi Apenas Um Sonho" (2008) e na série "Boardwalk Empire". Mas aqui ele exagera e berra demais, tentando alcançar o tom antes usado por Stamp. Consegue apenas ficar caricato. É incrível como não há NENHUMA atuação inspirada ou apaixonada em todo o filme. Adams, Fishburne, Shannon, Diane Lane e até mesmo Russel Crowe são atores que já realizaram grandes trabalhos, mas aqui fazem seus papéis de forma superficial e no piloto automático. O único que se sobressai um pouco é o envelhecido Kevin Costner que vive Jonathan Kent - e mesmo assim ele tem muito pouco tempo em cena.


Grande parte da expectativa dessa produção estava na figura de Henry Cavill, o novo Superman. Sejamos justos: Cavill faz um bom trabalho. O inglês - sim, o ator que incorpora esse ícone norte-americano é inglês... reflita - tem porte e atitude para ser herói e fica muito bem no novo uniforme modernizado. A pena é que ele não tem muitas oportunidades de mostrar isso. Os momentos dramáticos são raros e as cenas de ação, por vezes, beiram o ridículo. O super-herói, que supostamente devia salvar as pessoas em perigo nas ruas e prédios, já chega destruindo tudo. E dá-lhe explosões, destruição e mais explosões. Em certos momentos, parece até que estamos assistindo algum filme de Michael Bay. Já nas lutas com os "vilões", o filme parece o que seria uma adaptação decente de "Dragon Ball Z". Afinal, lá sim a graça seria ver cenas de lutas caóticas e explosivas - não em um filme que se propõe a ser uma abordagem realista e fiel de um personagem consagrado da cultura pop. Essas cenas de ação, inclusive, chegam a ficar cansativas ao longo dos (exagerados) 143 minutos de duração.

No final das contas, "Homen de Aço" não funciona e fica muito abaixo das expectativas. Quem procura filmes de ação descompromissados podem até se deixar levar pelos incríveis efeitos especiais e jeitão de blockbuster, mas qualquer fã do personagem vai sair dos cinemas com a certeza de que Zack Snyder podia ter realizado um trabalho muito mais grandioso e impactante. E as ferramentas para isso ele tinha. Mas é preciso lembrar que se soltamos uma criança em um parque de diversões muito grande, ela pode se perder, se machucar e até fazer uma besteira. Diante de tudo isso, só digo mais uma coisa: saudades do Lex Luthor.