sábado, 16 de julho de 2011

Feitiço do Tempo - A saga de Harry Potter (e a era marcada por ela) chega ao fim


Pois é, acabou. Exatos dez anos após a estreia de "Harry Potter e a Pedra Filosofal", a saga do bruxo com cicatriz em formato de raio chega ao fim. Como era de se esperar, grande ansiedade e uma certa porção de tristeza tomam de assalto o coração dos milhares de fãs ao redor do mundo. O clímax dessa expectativa pôde ser sentido na pré-estreia do longa, ocorrida na madrugada do dia 14 de julho de 2011: gritos, palmas e lágrimas enchiam a sala durante os 130 minutos de exibição.

Continuação direta da primeira parte lançada em novembro passado, "Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2" entrega exatamente o que prometia: o grande confronto final, uma épica conclusão para a saga - reforçado ainda pela tecnologia 3D. Mais que isso, prova que o ousado plano dos estúdios Warner deu certo: produzir 8 superproduções em 10 anos, mantendo os mesmos atores nos papéis durante todos os filmes - o que só não foi possível com Richard Harris, que fez Dumbledore nos dois primeiros filmes mas morreu ao terminar o segundo, sendo substituído por Michael Gambon - e marcando a vida de milhares de jovens ao redor do mundo. Leitores dos livros originais de J.K. Rowling ou não, não era muito difícil ser conquistado pelos filmes, que mesmo mudando certos detalhes de adaptação (como não podia deixar de ser) conseguiram transpor toda a magia das páginas para as telas.


E para os que vinham acompanhando as aventuras do bruxo desde o início, esse filme tem uma proposta ainda maior. Ao mesmo tempo em que mostra a maturidade dos personagens principais, reforçada até pelo tom mais sombrio e violento da série, essa conclusão é uma mensagem direta de que a infância daqueles que a tudo assistiam - no caso, os jovens espectadores, como eu e você - acabou. Todo aquele mundo mágico é revisitado: o banco de Gringotes, repleto de duendes assustadores que nos encantou no primeiro filme está lá, assim como a câmara secreta do segundo. Até mesmo a estação do Trem Expresso de Hogwarts dá as caras novamente. É a última visita àqueles lugares tão familiares, uma verdadeira despedida de um universo único que não visitaremos mais - quer dizer, agora, só no parque da Disney. Ver esses lugares destruídos dá um aperto no coração dos fãs mais fervorosos, e a imagem do castelo de Hogwarts destruído não é nada menos que impactante.

Além do show visual - os efeitos nunca estiveram melhores -, o filme é o auge das atuações de seu elenco, o clímax dramático. O trio principal, que acompanhamos crescer nas telas ano a ano, como raramente antes no cinema, transborda emoção. Não poderia ser diferente, afinal, são os próprios atores se despedindo dos personagens que marcaram suas vidas de uma maneira inexplicável e os acompanharão sempre no imaginário popular. O mais incrível é reconhecer todas as caras presentes: todos os alunos e professores que aparecem em cena são vividos pelos mesmos atores que os interpretaram desde o primeiro filme.


Personagens que andavam sumidos têm aqui seu devido valor revisto, e o caso de maior destaque é Neville Longbottom, vivido pelo antes gordinho Matthew Lewis, que era apenas o amigo atrapalhado e engraçadinho de Potter e aqui mostra sua importância crucial para a história. A dama inglesa Maggie Smith , que ainda dá vida à tão importante Minerva McGonagall aos 76 anos - e só vinha fazendo pontas nos últimos filmes -, tem agora participação maior e mais destacada, sendo merecidamente uma das personagens mais queridas pelo público. Julie Walters, que vive a matriarca da família Weasley, e David Thewlis, como o adorado professor Lupin, são outros destaques merecidos.

Como não podia deixar de ser, o desfecho de alguns personagens causa grande comoção, assim como importantes segredos são revelados, mudando completamente a perspectiva de toda a história. Claro que não teria a menor graça contá-los aqui, pois recebe-los como um grande feitiço em nossas mentes é um dos baratos dessa parte final, que é feita de grandes momentos. A grande cena do encontro entre Harry Potter, o garoto que sobreviveu, com Voldemort, o Lorde das Trevas, há tanto tempo esperada, não poderia ter sido feita de forma melhor. A esperada cena entre Hermione e Rony. Todos os personagens lutando por suas vidas. O ataque em massa ao castelo, misturando todos os seres que se pode imaginar. Está tudo lá, por uma última vez. Os mais emotivos sem dúvida derramarão lágrimas ao ver imagens tão belas e momentos tão decisivos.


Fazendo-se um grande balanço geral da série, pode-se afirmar que Michael Gambon, na pele do sábio Alvo Dumbledore, e - principalmente - Alan Rickman, na pele do impagável e detestado Severo Snape, foram os melhores atores em cena. Essa ideia se reforça nesse último filme, que ainda comprova que o inglês David Yates foi o homem certo para comandar os últimos 4 filmes da série, que marcou intensamente a primeira década desse século e foi a franquia mais lucrativa dos cinemas - pelo menos, até agora. Yates injetou ritmo extra aos filmes, lembrando-se que esse último se passa basicamente em um dia.

Juntando-se as duas partes de "As Relíquias da Morte", é possível que tenhamos o melhor capítulo da saga, mas pouco importa delimitar qual foi o melhor. O fato é que quando os créditos aparecem após o nostálgico e emocionante epílogo, a sensação de satisfação é logo transformada em um vazio interior. Assim como aconteceu antes com a franquia "Star Wars", em 2005, é a ultima vez que os fãs assistem aqueles personagens, ouvem aquela música, são transportados para aquele mundo. Para quem acompanha desde o início, é muito mais do que apenas um filme. E não há feitiço que cure esse vazio. Pelo menos, não mais.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Em Breve: "Hugo Cabret", a estréia de Martin Scorsese em 3-D

Depois do sucesso de público e crítica obtido com "Ilha do Medo" (2009), o mestre Martin Scorsese volta à direção de uma ficção. Após concluir um documentário sobre o ex-Beatle George Harrison - "Living in the Material World", que será lançado diretamente em DVD no Brasil -, Scorsese agora se dedica à adaptação do livro de Brian Selznick, "A Invenção de Hugo Cabret". O filme, que marcará a estréia do diretor com a tecnologia 3-D, teve seu primeiro trailer lançado, que você pode conferir abaixo.

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A história é bem diferente das que o diretor costuma dirigir, o que prova que ele cada vez mais se reinventa em diferentes gêneros, vide o já citado filme anterior. A nova trama acompanha Hugo (Asa Butterfield), um garoto de 12 anos que vive em uma estação de trem em Paris no começo do século 20. Seu pai, um relojoeiro que trabalhava em um museu - vivido pelo galã Jude Law -, morre momentos depois de mostrar a Hugo a sua última descoberta: um androide, sentado numa escrivaninha, com uma caneta na mão, aguardando para escrever uma importante mensagem. O problema é que o menino não consegue ligar o robô, nem resolver o mistério.

Ao ver o trailer, que parece ser mais uma aventura joven repleta de efeitos especiais, os cinéfilos de plantão, entretanto, poderão perceber algo mais profundo. Algumas cenas e, principalmente, a aparição de um Ben Kingsley idêntico a Georges Méliés indicam que o filme será na verdade uma grande homenagem aos primórdios do cinema. Méliès é considerado o "pai do cinema", por ter feito os primeiros filmes de ficção, usando truques visuais aprendidos na carreira como ilusionista, sendo o mais famoso deles o seminal "Viagem à Lua" (1902). No fim da carreira, ele virou vendedor de brinquedos em uma estação de Paris, onde por acaso - ou não - se passa o filme. Até a "chegada do trem" na estação indica o clima de nostalgia adotado pelo diretor. Ou será apenas uma primeira impressão? Fica o suspense.


O elenco conta ainda com Ray Winstone, Sacha Baron Cohen (o eterno Borat), Christopher Lee e Emily Mortimer, além de Chloë Moretz, que mostra mais uma vez a grande atriz que é no alto de seus 14 anos.

A estréia acontece em 23 de novembro nos EUA e em 20 de janeiro no Brasil. Ao que tudo indica, será mais um show visual de Scorsese. Agora, é esperar para ver - e se emocionar.

terça-feira, 12 de julho de 2011

De Volta Para o Futuro - Woody Allen é pura nostalgia em "Meia Noite em Paris"


Antes tarde do que nunca, falemos do novo filme de Woody Allen. Demorei um pouco para publicar esse comentário pois estava me recuperando da viagem que fiz à França. Viagem curta - de cerca de 100 minutos -, mas nem por isso menos agradável. Essa viagem tem um nome: "Meia Noite em Paris", o filme mais falado do momento, um verdadeiro tributo à capital mundial do amor, que nos faz lembrar porque vamos ao cinema. Explico.

Mesmo não estando entre meus cineastas favoritos, Allan Stewart Königsberg - mais conhecido mundialmente como Woody Allen - sempre foi uma inspiração, principalmente por nos últimos 20 anos manter a tradição de lançar um filme por ano. Entre pontos altos e baixos, suas produções se mantém acima da média, provando seu talento para retratar histórias aparentemente simples e ordinárias de maneira leve e envolvente. Cada nova estréia é um evento, e o aposto "Um Filme de Woody Allen" engrandece qualquer produção. Originalmente conhecido como "o cineasta de Nova York", por situar lá a grande maioria de seus filmes, o diretor tem mudado a locação para países europeus nas últimas produções.


Depois de 4 filmes na Inglaterra - "Match Point"(2005), "Scoop"(2006), "O Sonho de Cassandra"(2007) e "Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos"(2010) - e um na Espanha ("Vicky Cristinna Barcelona"(2008)), a escolhida da vez é a França e sua apaixonante Paris. E com essa nova produção, Allen prova que é um dos diretores que melhor sabem usar cenários reais em suas histórias. Desde já entrego que a capital francesa foi a mais bem homenageada em um filme seu até agora, perdendo apenas - obviamente - para a "Big Apple" americana. O início do filme parece - à princípio - uma propaganda publicitária de agência de viagem, com várias imagens de Paris sendo jogadas aos nossos olhos. Mas as imagens não focam os pontos mais conhecidos, e sim as pequenas ruas e detalhes que dão a verdadeira beleza retrô à cidade. Assim, após quase 5 minutos apenas vendo essas imagens, os créditos finalmente aparecem, e pronto, a platéia já foi transportada para Paris.

A trama é apresentada já na primeira cena, de forma bem simples e direta. O protagonista, como era de se esperar, é mais um possível alter-ego do diretor-roteirista: um escritor fracassado que ganha a vida escrevendo roteiros (considerados por ele mesmo medíocres) para Hoolywood - provavelmente, uma irônica autocrítica de Allen, que com seus 76 aninhos precisa escolher um ator mais novo para interpretá-lo. O escolhido da vez foi Owen Wilson, que - admito - surpreende. Acostumado ao papel de amigo chato e sem noção em comédias (a maioria em parceria com Ben Stiller), aqui Wilson encarna perfeitamente a persona de Allen, e não é exagero dizer que é seu melhor papel - pelo menos até aqui. Seu jeito de andar e falar são idênticos aos do diretor, o que prova que foi uma escolha mais do que certa para o papel. Acompanhando Wilson em cena está a deslumbrante Rachel McAdams, que se torna cada vez mais - merecidamente - a nova queridinha de Hollywood, após mostrar que não é apenas um rostinho (muito) bonito em produções como "Diário de Uma Paixão"(2004) e "Uma Manhã Gloriosa(2010). Aqui, ela está deliciosamente insuportável como a mimada namorada do protagonista, com quem ele pretende casar mesmo não havendo futuro algum na relação.


O personagem de Wilson, Gil Pender, vai à Paris com a namorada e os pais dela, aproveitando a viagem a negócios do sogro para buscar inspiração na cidade antes frequentada por seus ídolos. Essa é a mística Paris da década de 20 e 30, considerada então o centro do mundo artístico - e onde a boêmia falava mais alto. Igualmente apaixonado por essa época, Allen sabia que a única maneira de vivenciá-la - tanto ele quanto os espectadores - seria através de um filme. E é nisso que se resume o longa: uma viagem à considerada "Época de Ouro", aos bons e velhos tempos já citados. É isso que ele inexplicavelmente propõe a seu personagem, que é transportado para décadas atrás por uma carruagem de época, que surge em uma ruela parisiense. Não há porque entender: trata-se da magia do cinema em ação.

Mas simplesmente voltar às décadas de 20 e 30 não teria a mesma graça se não fossem os personagens que cruzam o caminho do protagonista. E o cineasta, culto como todos os fãs sabem que ele é, atira referências e citações para todos os lados. O grande barato durante o filme é tentar identificar as personalidades que cruzam o caminho do maravilhado Pender. E são muitas: estão lá o escritor F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston, elogiado pela participação em "Thor") e sua esposa, a histérica Zelda Fitzgerald (Alison Pill), o famoso cantor Cole Porter(Yves Heck), o instável escritor Ernest Hemingway (autor de "O Velho e o Mar, entre outros, vivido hilariamente por Corey Stoll), a escritora e poeta Gertrude Stein (Kathy Bates),o cineasta Luis Buñuel (Adrien de Van), o pintor Pablo Picasso (Marcial Di Fonzo Bo)... só para citar os mais marcantes, pois a lista é verdadeiramente interminável. Melhor é observar o inspirado trabalho de seleção de elenco, pois cada um dos ilustres famosos são representados na tela à sua imagem e semelhança, idênticos às personalidades reais - basta uma rápida pesquisa ao Google para ter certeza. Destaque maior vai para Adrien Brody , ator mais famoso (se comparado aos demais) e até já ganhador do Oscar - por "O Pianista" (2002), que desaparece na figura do pintor surrealista Salvador Dali. Mesmo com participação muito pequena, ele captura a essência do excêntrico pintor, transmitindo-a de forma muito bem humorada. E não é que ele ficou bem parecido com Dali?


É claro que já conhecer previamente as pessoas citadas ajuda a entender algumas sutilezas do filme, como é o caso, por exemplo, da piada envolvendo o filme "O Anjo Exterminador" (para os cinéfilos de plantão) - é impagável ver o futuro diretor Buñuel, ao ouvir a sugestão de Gil, com a mesma expressão de dúvida que ficariam os espectadores de seu filme mais tarde -, e as reflexões do beberrão Hemingway. O grande segredo do filme é acerca de Adriana, personagem de Marion Cotillard, que se envolve com todos esses personagens e é o que acaba trazendo Gil de volta para o futuro. É na misteriosa cena em que os dois, já na década de 30, voltam à 1890, para a Belle Époque francesa (sim, uma volta no tempo dentro de outra volta no tempo), que Gil entende sua fascinação pelo que ele considera a "Época de Ouro", assim como a necessidade de voltar para sua realidade. Seria tudo aquilo uma grande epifania do escritor por visitar o lugar que tanto idealizava? Se visto dessa maneira, a personagem de Cottilard poderia ser considerada um estopim para que ele não ficasse preso em um passado idealizado e pudesse avançar para um futuro ainda em construção. Seria o próprio Woody Allen se livrando de seus ídolos do passado e garantindo seu próprio lugar no panteão de gênios contemporâneos.

Tudo funciona bem no filme, principalmente o elenco - que ainda conta com um inspirado e pedante Michael Sheen e uma discreta participação da primeira-dama Carla Bruni - e a trilha sonora, embalada por românticas músicas (principalmente as de Cole Porter). Em certo momento do filme, Gil diz claramente que nenhum quadro, livro ou forma de arte consegue retratar fielmente a complexidade de um lugar, substituindo a sensação de estar nele. Allen sabe que não consegue mostrar tudo de Paris com seu filme. Mas consegue estimular qualquer um que o assiste a visitar a cidade. Ou, pelo menos, a voltar ao cinema para se deliciar com a melhor produção que deu as caras por lá em 2011 - pelo menos, até agora.


Basicamente, tudo isso prova que "Meia Noite em Paris" é um filme para ser visto e revisto. O que, verdadeiramente, não é sacrifício nenhum, já que poucas vezes Allen fez algo tão leve e divertido. Muitos dizem que o diretor repete aqui o que já havia feito em "A Rosa Púrpura do Cairo"(1985). Discordo intensamente. A nova produção é um sopro de originalidade - muito bem vindo, aliás - na carreira do diretor, que já está produzinho seu novo longa - dessa vez na Itália, com o nome "Bop Decameron". Pelo visto, o tour de Woody Allen pela Europa está longe de acabar. Fica a esperança do diretor ainda passar pelo Brasil. Que brasileiro não gostaria de ver um "Meio Dia no Rio" ? Fica a dica.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A Vida Como Ela É - "O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas", uma jóia dos anos 80


Quando se fala em filmes adolescentes da década de 80, qualquer um imagina instantâneamente a imagem de Matthew Broderick no icônico "Curtindo a Vida Adoidado"(1986) ou qualquer outro filme do adorado John Hughes, considerado o mestre desse gênero. E é justo, pois seus filmes marcaram intensamente uma época, conseguindo grande empatia com o público através de seus personagens tão realistas e sinceros. Mas não só dos filmes de Hughes se fez aquela década, e o exemplo mais claro e - injustamente - menos lembrado é um pequeno tesouro pouco conhecido e citado: "O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas".

Antes que eu (ou qualquer um) cometa o erro de rotular esse filme, é bom deixar claro que não se trata de uma comédia juvenil tradicional. O foco é mais maduro, de acordo, inclusive, com a própria trama: um grupo de sete amigos recém-formados se depara com a amarga realidade do mundo real, tendo que conviver com a insegurança profissional e emocional desta nova fase da vida. O filme foi corajoso por já se iniciar em um ponto que na época era tomado como conclusão. Explico: a primeira imagem vista é a dos amigos saindo da formatura, que normalmente era considerada o fim da jornada. Pois ali, ela é exatamente o começo. Um corte rápido nos leva à primeira cena - em um hospital, após um acidente - que já apresenta de forma ágil e eficiente o perfil de casa um dos sete personagens principais, assim como seus dramas. E são os personagens o grande diferencial que permite a leveza da produção, uma vez que a história em si é bem simples.


Esse filme, juntamente com "Vidas sem Rumo" (1983) - obra tocante de Francis Ford Coppola -, forma o pacote que lançou o "Brat Pack", nome dado ao grupo de jovens atores e atrizes que foram lançados nessas produções, virando ícones dos anos 80, entre eles Matt Dillon, Tom Cruise, Ralph Macchio, Patrick Swayze, C. Thomas Howell, Demi Moore e Rob Lowe. Esses dois últimos fazem parte do elenco principal de "O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas", tendo sido os integrantes que mais fizeram sucesso após a estréia do filme em 1985. Mesmo assim, o antes "galã rebelde" Lowe hoje é mais conhecido por participações em seriados de televisão. E Demi Moore, que teve seu auge em "Ghost - Do Outro Lado da Vida"(1990), há muito tempo não emplaca um sucesso nas telas, sendo mais citada como "a esposa de Ashton Kutcher" - o que, cá entre nós, só é bom para as fãs do ator.

Mas após assistir ao filme - que circula em uma uma rara cópia de DVD, que vale a busca - é triste saber que foi o único sucesso de um elenco tão promissor. E para nós, tão acostumados à séries de TV, é impossível evitar uma comparação com o seriado F.R.I.E.N.D.S. Aquele tipo de intimidade que realmente existe entre amigos próximos poucas vezes é bem transportada para as telas, mas pode ser genuinamente sentida tanto nesse seriado quanto no filme. E as semelhanças ficam mais fortes quando pegamos o personagem Kevin Dolenz. Apesar da importância dos personagens ser bem equilibrada, o humor irônico e os dilemas de Kevin acabam sendo o que o filme tem de melhor, graças ao talento do sumido Andrew McCarthy (na foto abaixo com Demi Moore). Ele é a gênese do personagem Chandler Bing (eternizado por Mathew Perry no seriado citado), tanto no jeito de ser quanto no próprio visual, bem parecido. Além disso, a ingenuidade e atitude marcantes do personagem da série Joey (Matthew LeBlanc) podem ser relacionadas com a do personagem Kirby Keger, vivido por Emilio Estevez - que aqui é visualmente uma cópia idêntica de seu pai, o também ator Michael Cheen (sim, ele é irmão do problemático Charlie Cheen). Além dessas comparações mais diretas, tem ainda o fato dos personagens sempre se reunirem em um bar, como os do seriado faziam. Por isso, é certo que todos os fãs do seriado sejam conquistados pelo filme, que sem dúvida foi uma inspiração.


Mas apesar desse destaque especial aqui feito, todos os atores estão a vontade nos papéis, e é impossível não se identificar com seus dramas e modos de pensar. Não esqueçamos que aqui escreve um adolescente em fase semelhante à vivida por eles, o que justifica essa grande identificação. Ally Sheedy (como a romântica Leslie) e Mare Winningham - que vive a tímida e virgem Wendy, e ironicamente estava grávida durante as gravações - se tornaram queridinhas em produões alternativas graças à participação nesse filme. Mas o grande destaque feminino é Demi Moore, em sua estréia nas telas. Normalmente em papéis dramáticos, aqui ela vive a liberal Jules, uma adolescente com visual e atitude bem diferentes dos que a marcaram. Na época, ela tinha problemas com drogas semelhantes aos da personagem, mas se internou numa clínica de reabilitação e prometeu manter-se "limpa" para poder atuar. Mesmo parecendo um tanto forçada no decorrer do filme, é em uma inspirada cena perto do final que ela revela o verdadeiro drama da personagem - e o verdadeiro talento e versatilidade como atriz, que o mundo viria a conhecer melhor mais tarde.

Já no time masculino, além dos dois atores já citados, outro que rouba a cena é Judd Nelson , que no mesmo ano havia atuado em outro clássico moderno, "O Clube dos Cinco" - onde inclusive contracenava com Sheedy e Estevez. Na pele de Alec, o mais sério do grupo e namorado de Leslie, o ator atrai a atenção em cena para si com seu olhar penetrante idêntico ao de Al Pacino. Mas provavelmente mais lembrado é Billy, o saxofonista e rebelde sem causa vivido por Rob Lowe, aqui no auge de sua carreira.

Mas não só de novatos é formado o elenco. A musa dos anos 80 Andie MacDowell vive a paixão platônica e não correspondida de Kirby, adicionando beleza às cenas em que aparece. Outra presença pouco creditada é a do veterano Martin Balsam, que tinha atuado anteriormente em obras-primas como "Sindicato de Ladrões"(1954) e "Psicose"(1960) e aqui desempenha um de seus últimos papéis - como o pai conservador de Wendy - , mostrando como faz diferença ter um ator clássico em cena.


O mais curioso, após a exibição de tal filme, é notar que ele em momento algum parece datado, mesmo se passando há mais de 25 anos atrás. Todos os dramas, atitudes e gostos dos personagens são tão naturais e genuínos, que o filme não fica com aquela cara de "clássico dos anos 80" tão pesada em outros filmes - como no próprio "Curtindo a Vida Adoidado". Que jovem nunca se apaixonou pela melhor amiga, como Kevin? Quem nunca fez uma loucura por amor, como Kirby? Quem nunca pensou em desistir de tudo, como Jules e Billy? Quem nunca quis provar que é capaz de tomar as próprias decisões, como Wendy? E que aparente "casal perfeito" não passou por sérias crises, como Leslie e Alec? As possibilidades de identificação são várias, basta escolher uma. A única cena datada do longa, que acaba por isso até adicionando certo humor, é a discussão do casal em crise para ver quem fica com determinados discos. é um calderão pop, onde estão estão os melhores diálogos, que acaba de maneira cortante pela frase que namorados nunca querem falar: "Eu não acredito que isso está acontecendo com a gente." Uma abordagem atemporal e corajosa, falando abertamente de sexo entre amigos, uso de camisinha e traição muito antes de produções mais recentes consideradas "polêmicas".

Mas a melhor cena do filme é a que o define. Já antes citada, é a em que Moore revela seu talento, e onde ela tem uma franca conversa com Billy, e ele lhe explica o que seria o "Fogo-de-Sant'Elmo" - o título original do filme, "St. Elmo Fire", que muitos acreditam se referir apenas ao bar em que eles sempre se encontram. Trata-se um fenômeno que não existe, mas foi criado por aqueles que queriam acreditar em algo para poder, assim, prosseguir na vida. Ao dizer "É isso que está acontecendo conosco agora", Lowe olha para a câmera, mesmo que de forma discreta. É ele nos encarando, se dirigindo a nós. E sim, ele estava certo, é isso que muitas vezes está acontecendo - ou precisa acontecer - conosco.


Esses são alguns detalhes que tornam "O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas" uma grata surpresa, candidato a uma vaga em "filmes favoritos dos anos 80". E prova de que Joel Schumacher, apesar de bombas como "Batman & Robin" (1997), tem grande sensibilidade como diretor. A adaptação gigante dada ao título do filme sem dúvida cai bem. A cena final, em que o grupo de amigos, já sem um integrante, encara uma nova turma de jovens ocupando o seu lugar habitual, dá um aperto em nossos corações, por representar de forma clara que nenhuma amizade é eterna, e mesmo que a chama da amizade se mantenha, não supera o efeito implacável do tempo, que tende a transformar tudo em lembranças. Enfim: a vida, como ela é.