quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Segredo das Aranhas - A Obra Perdida de Fritz Lang


Alemanha, 1919. A recente derrota na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) deixou um clima de humilhação na Europa e na auto-confiança de suas nações. Como resultado, a insegurança passou a prevalecer. Os alemães estavam arrasados e pessimistas, e um dos meios de levantar a moral da nação foi se apoiar no seu cinema como forma de união. Desse estado de espírito nasceria o primeiro grande movimento da história da sétima arte: o Expressionismo Alemão. Os cenários assustadores, disformes e sombrios seriam vistos pela primeira vez em "O Gabinete do Doutor. Caligari"(1919). Para dirigir esse marco do cinema, a primeira pessoa cogitada foi um promissor diretor que tinha servido na guerra pelo exército austríaco e nela sofrido ferimentos graves. Seu nome: Friedrich Anton Christian Lang (1890-1976), mais conhecido e cultuado como Fritz Lang.

Lang já tinha feito vários roteiros para produções alemães e até atuado como a Morte em "HildeWarren e A Morte"(1917). Após dois filmes bem sucedidos (ambos feitos em 1919), seu nome estava no topo da lista de diretores do futuro. Um filme como "O Gabinete do Doutor Caligari" era tudo que ele podia querer, e lhe daria consagração imediata. E o que ele fez? Recusou o projeto. Pois é. Mas Lang não era estúpido, e tinha um motivo justo: cineasta autoral, sempre voltado para roteiros próprios ou em parceria com sua esposa Thea Von Harbou, já tinha um novo projeto ousado em mente. Mas antes de abandonar de vez o projeto do Doutor Caligari e entregar a direção para Robert Wiene, Lang sugeriu uma virada no enredo que transformaria toda a trama do filme. Quem já viu sabe do que estou falando. O cruel e surpreendente final criado por Lang fez toda a diferença, se tornando a primeira grande reviravolta do cinema e tornando "Caligari" um cult imediato.


Ao deixar o projeto nas mãos de Wiene, Lang poderia focar em seu pretensioso roteiro: uma série de filmes com as aventuras exóticas de um caçador de relíquias. Alguém pensou em Indiana Jones? Pois o aventureiro criado por Lang, chamado Kay Hoog, tem realmente muito a ver com o personagem mais tarde imortalizado por Harrison Ford. Até o visual é parecido, com direito a chapéu e casaco de couro - o que indica que, provavelmente, Kay Hoog foi uma inspiração para George Lucas e Steven Spielberg, mesmo que de forma inconsciente.

Muito antes do repórter aventureiro Tintin - criado pelo cartunista belga Hergé em 1929 - cruzar o mundo por locações exóticas e perigosas, Lang deu início ao conceito do corajoso herói que vai "aonde nenhum homem jamais foi", confrontando civilizações antigas e organizações criminosas. A consequência inevitável de tantas ideias foi dividir a história em várias partes. Originalmente, Lang separou a grande trama em quatro partes. Infelizmente, só conseguiu realizar as duas primeiras, intituladas "O Lago Dourado" e "O Navio de Diamantes" - qualquer semelhança com o título de algum álbum de Tintin não é mera coincidência. Muito antes da noção de franquia e sequências virar moda, Fritz Lang foi o primeiro grande cineasta a pensar que alguns filmes funcionariam melhor com continuações. Esse seu conceito seria melhor trabalhado e desenvolvido em obra-primas posteriores, como "Os Nibelungos" (1923/1924) e, principalmente, na trilogia com o personagem Dr. Mabuse (1922/1933/1960).


Lang decidiu nomear sua saga de "Die Spinnen", que em português seria "As Aranhas" - nome da organização criminosa que Kay Hoog combate em suas aventuras. Mas antes de assistir a obra, é bom lembrar que "As Aranhas" é um filme perdido. Se no original cada parte tinha cerca de 90 minutos, a versão hoje divulgada, com exibição das duas em sequência, tem 137 minutos no total. Muitos fragmentos originais dos filmes foram perdidos no tempo, e nem mesmo o acervo da família Lang sabe o paradeiro desses materiais. Isso não chega a prejudicar o filme, mas em certos momentos as ações são cortadas bruscamente, o que pode assustar alguns espectadores desavisados. Em uma determinada sequência, em que Kay Hoog é capturado pelos inimigos em uma cidade oriental subterrânea (!), aparece uma cartela explicando como se deu a captura, para que as próximas cenas não sejam prejudicadas pela falta dos fotogramas perdidos. O fato é que esses detalhes acabam deixando o filme tão intrigante quanto o mistérios que Kay Hoog tenta desvendar em cena.

Enquanto "O Lago Dourado" apresenta uma estrutura narrativa mais tradicional, que seria mais tarde imitada nas festejadas matinês dos anos 30, "O Navio de Diamantes" apresenta uma trama mais elaborada, a partir do corajoso gancho ao final da primeira parte - extremamente ousado para a época. É bem possível que a segunda parte de "As Aranhas" seja, de fato, a primeira sequência superior ao original da história do cinema! "As Aranhas" tem um pouco de tudo: ação, aventura, um espaço para o romance, suspense, cenários exóticos, jóias raras e outras relíquias, tudo levando à um clímax com muitas batalhas e com o mocinho saindo vitorioso - e ainda, no pequeno trecho passado na Índia durante a visita ao "maior vidente do mundo", o filme beira o macabro, com Lang mostrando saber explorar bem o terror existente no desconhecido. O diretor encontra até espaço para ser inovador colocando uma mulher, Lio Sha, como a líder da grande organização de criminosos, em tempos em que as mulheres eram quase sempre apenas as vítimas a serem salvas pelo herói.


Ao analisar a obra como um todo, muitos podem pensar que Fritz Lang fez mal em deixar de lado um filme revolucionário como "O Gabinete do Dr. Caligari" para dirigir uma mera aventura descompromissada. Mas Lang era o tipo de diretor que inovava aos poucos, e aí repousa seu gênio. "As Aranhas" é referência para qualquer produção de ação/aventura feita posteriormente, com todos os elementos de um gênero ainda inexistente. Em "Os Nibelungos", Lang mostraria como levar grandes épicos medievais para o cinema, MUITO antes de "O Senhor dos Anéis" roubar todos os holofotes do gênero; com "Dr. Mabuse" ele faria um estudo do suspense psicológico; com "Metropolis"(1927) revolucionaria para sempre a ficção científica, tanto nos efeitos quanto no visual; e com "M - O Vampiro de Dusseldorf" (1931), ensinaria aos americanos como o som devia ser usado a favor da trama nos filmes. Quando foi para Hollywood, levou consigo a paixão pelo ousado e pelo exótico, que o acompanhou até suas últimas produções, "O Tigre de Bengala" e "O Sepulcro Indiano", ambos de 1959. Fritz Lang é um gênio que não recebe metade do reconhecimento que merecia - e "As Aranhas", um tesouro perdido muito mais valioso do que aqueles procurados por Kay Hoog, é mais uma prova disso.

domingo, 11 de novembro de 2012

"O Pequeno Lírio Partido" ou "Como Me Apaixonei Por Lilian Gish" - Uma Sincera Declaração


Cinéfilo no sentido mais intenso que a definição permite, eu tive a sorte de escolher o cinema como profissão relativamente cedo, aos 13 anos de idade. Mais do que isso, tive a sorte de conhecer e me apaixonar pelo cinema através de sua origem. Foi "Em Busca do Ouro", um filme mudo de Charlie Chaplin feito em 1925, que despertou em mim essa paixão maior que a vida. Depois de Chaplin, o grande ídolo inspirador, comecei a correr atrás de outros ícones daquela hipnótica fase muda. E assim vieram Lon Chaney, Buster Keaton, os primeiros clássicos de Méliès e por aí vai. Eu achava fascinante ver aqueles astros eternizados em fotogramas do início do século, como fantasmas que voltavam à vida graças à magia do cinema. Não demorou muito para eu chegar até "O Nascimento de Uma Nação", primeira obra-prima instantânea do cinema americando. Dirigido por David Wark Griffith em 1915, o grande épico de 3 horas de duração era um marco em todos os sentidos - toda linguagem cinematográfica, como hoje a conhecemos, nascia ali. No meu caso particular, um marco por outro motivo: foi onde pude ver pela primeira vez Lillian Gish.

É possível que você não tenha noção de quem seja a moça citada acima. Afinal de contas, até mesmo alguns cinéfilos por aí nunca viram um filme protagonizado por Lillian Diana Gish - o que pode até ser considerado um crime. Uma coisa é certa: depois de encarar seus traços felinos e olhar penetrante pela primeira vez, é difícil esquecê-la. E desde que ela surgiu aos meus olhos de forma encantadora em "O Nascimento de Uma Nação", passou a figurar na minha mente como uma das figuras mais marcantes daquela arte. Cada forma de seu delicado rosto parecia ter sido moldada para estar em um filme. E o seu olhar.. Ah, o olhar. Basta assistir qualquer uma das produções estreladas por ela para entender que os filmes acabavam, mas seu olhar continuava.

  

Lillian Gish teve uma das carreiras mais duradouras do cinema. Estreou em papéis juvenis em 1912, se mantendo na ativa até 1987. Isso mesmo, foram 75 anos dedicados ao trabalho de atriz, que exerceu no teatro, na televisão e no cinema - onde teve maior destaque.O auge de sua carreira foi a parceria com Griffith, diretor do clássico já citado. Depois de protagonizar um curta do diretor no início da carreira, em 1912, foi escalada para aquele que será sempre lembrado como seu maior sucesso no cinema. Enquanto houver gente estudando a arte de fazer filmes, "O Nascimento de Uma Nação" será revisto e lá estará ela. Depois da bem-sucedida experiência, ela voltou a trabalhar com o diretor em mais seis filmes. Entre eles, duas obras-primas belíssimas: "Intolerância"(1916) e "Lírio Partido"(1919), um de seus papéis mais icônicos. A relação com o diretor era tão próxima que a imprensa de fofocas - já existente na época, pois é - por várias vezes noticiou um possível romance entre os dois. Até o final de sua vida, Gish sempre se referiu ao diretor como "Mr. Griffith".

A carreira de Gish não foi restrita à parceria com Griffith. Anteriormente, ela estrelou várias produções de sucesso ao lado da irmã caçula Dorothy Gish. Isso até Dorothy perceber que estava sendo ofuscada pelo brilho da irmã. Já depois do sucesso e consagração, Lillian apareceria ainda na primeira versão de "Ben-Hur"(1925) em um discreto papel. O destaque de sua carreira na década de 20 seria "The Scarlet Letter"(1926), possivelmente seu melhor papel. Logo chegaria o cinema falado e Gish, assim como grande parte dos ícones do cinema mudo, seria deixada de lado pelos estúdios e pelo público. Só que som não era um problema para ela. Depois de fazer apenas dois filmes na década de 30, voltou a dar mais as caras na década seguinte. Por seu trabalho em "Duel In The Sun"(1946), conseguiu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Quando o público começava a esquecer dela novamente, retornou já envelhecida para roubar a cena em "O Mensageiro Do Diabo"(1955), a última obra-prima que estrelaria. Sempre ligada à papéis frágeis, nesse filme ela empunharia armas para combater a terrível ameaça personificada em Robert Mitchum. Sua atuação só provaria a imensa versatilidade pouco explorada nos vários papéis sofridos que encarnou.


A verdade é que o cinema nunca esqueceu Lillian Gish e sempre reconheceu sua importância. Mesmo que muito tardiamente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográfica lhe deu um Oscar Honorário Especial em 1971, pela "superlativa contribuição no progresso do cinema como arte". Nessa época, já era reconhecida pelo aposto de "A Primeira Dama do Cinema Americano". Em 1984 foi a vez de receber o American Film Institute Life Archievement Award, a maior honraria do Instituto Americano de Cinema. Foi a segunda mulher a recebê-lo, depois apenas de Bette Davis. E em 1987, já com 94 anos (!), resolveu se juntar à também envelhecida e premiada Davis para sua última aparição nos cinemas. O filme era "Baleias de Agosto", que fechou com chave de ouro a carreira dessas duas atrizes icônicas e geniais.

Nascida em 1893, Lillian Gish se preparava para completar o centenário quando morreu tranquilamente enquanto dormia, aos 99 anos, em 1993. Nunca se casou nem teve filhos. A única coisa que deixou nesse mundo foram seus filmes. Os registros das peças em que atuou foram perdidos, muitos negativos dos filmes também ficaram esquecidos no tempo. Mas seus grandes clássicos estão aí para quem quiser procurá-los. Sei que é possível achá-los porque eu mesmo consegui encontrar - e me apaixonar - pela maioria deles. Durante a década de 70, ela apresentou na TV americana o programa "The Silent Years", que apresentava um filme mudo clássico todo sábado de noite - Por que esse tipo de programa não existe mais? Também me pergunto... Enfim. Em um programa de 1975 disponível em um de meus DVDs, pude ver a abertura em que ela introduzia o seu "Lírio Partido". Depois de contar alguns detalhes curiosos das filmagens e da relação com Griffith, Gish, já envelhecida, dá um sorriso para a câmera e nos deseja um bom filme. Subitamente depois de sua fala, antes da tela escurecer, ela olha para o lado séria e ajeita sua postura, como se estivesse se congelando novamente em seus tempos de glória. Para os seus fãs, era exatamente isso que ela estava fazendo.


E depois de ler tudo isso, poderia até me perguntar: "Nossa, como é que ninguém ouviu falar dela mesmo assim?". Mas é até compreensível. Lillian Gish nunca teve uma carreira tão popular quanto a de, por exemplo, Mary Pickford. As duas eram muito amigas e mantiveram contato até o final de suas vidas, mas Pickford era a estrela de comédias populares que se apoiavam em seu imenso carisma. Tanto que ela foi a primeira a receber o título de "Namoradinha da América". O casamento com o astro Douglas Fairbanks e seu envolvimento na fundação da United Artists foram fatos que só ajudaram a aumentar seu imenso sucesso. Enquanto isso, Gish se envolvia em projetos mais sérios e dramáticos. Era impossível não sofrer com as perdas e angústias de seus personagens, que raramente tinham um final feliz. Lillian Gish era, ela mesma, um verdadeiro lírio partido no meio de tantas exóticas estrelas como Theda Bara, Clara Bow e Gloria Swanson. Mas poucas atrizes brilharam como ela em um fotograma. E ela ainda brilha, décadas e quase séculos depois de ter sido imortalizada naqueles filmes. Independente do tempo, seu misterioso e hipnótico olhar continua entre nós.
E enquanto existir cinema, junto com ele estará o olhar de Lillian Gish.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Duro de Matar - James Bond Faz uma Viagem ao Passado no Nostálgico "Skyfall"


Depois de uma matéria especial em homenagem aos filmes de 007, vamos deixar de lado os "entretanto" e partir para os "finalmente": "Skyfall" é o melhor presente que os fãs poderiam receber na comemoração dos 50 anos da franquia. Depois do fraco "Quantum Of Solace", tudo que James Bond precisava era de um filme como esse para voltar à boa forma. Mais do que isso, temos aqui um filmaço. E isso nos leva à outra afirmação: Sam Mendes é o cara. Diretor da indiscutível obra-prima moderna "Beleza Americana", Mendes nunca fez algo ruim na carreira. Produções como "Estrada Para a Perdição", "Soldado Anônimo" e "Foi Apenas Um Sonho" são provas disso. Quando seu nome foi anunciado no comando do novo capítulo de James Bond, as expectativas foram às alturas. Mas você, caro leitor, pode relaxar na sua cadeira. Mendes deu conta do recado.

Muitas coisas mudaram durante as 22 aventuras oficiais do espião. A mudança mais brusca veio recentemente, em 2006, com o "reboot" do universo do personagem. Saiu o charmoso Pierce Brosnan, entrou o truculento Daniel Craig. Não foi só o ator principal que mudou, mas toda abordagem da série. O clima realista começou a ditar a regra - um reflexo de obras como a trilogia Bourne. Esse realismo prevaleceu nas duas últimas aparições de James Bond nos cinemas. A iniciativa deu certo, mas sempre houve o risco de uma descaracterização do personagem. Afinal, por mais real que quisesse parecer, não bastava ser um mero filme de ação - era preciso ter a "marca" 007. A franquia já sofreu essa descaracterização uma vez, no criticado "Permissão Para Matar", segundo e último filme com Timothy Dalton. Depois desse filme, a franquia ficou parada por seis anos e precisou voltar ao estilo antigo com Brosnan. Deu certo. O estúdio tinha clara noção disso. Então, para comemorar a data especial nos cinemas, a solução era apostar na nostalgia.


A luxuosa música-tema cantada por Adele é um indício claro do que está por vir. A estrutura clássica dos filmes do agente está de volta, para nenhum fã botar defeito. Só que nova trama consegue o feito de misturar a abordagem mais próxima da realidade (envolvendo divulgação de agentes secretos em redes sociais) com a grandiosidade que se espera de uma nova aventura de 007 (cortesia dos cenários exóticos em Xangai e na Turquia). A ação, aliás, é uma grata surpresa: mesmo não estando familiarizado com o gênero, Mendes não decepciona na condução das cenas. A sequência de abertura - que culmina em uma intensa batalha em cima de um trem em movimento - e a perseguição pelo metrô de Londres são dois pontos altos da produção.

O perigo real e imediato está presente da primeira à última cena, algo já anunciado pelo próprio trailer, que deixava um clima de episódio final no ar. Mas acalme-se, não é o caso aqui. Uma coisa fica (positivamente) bem clara: nesse mundo mais realista em que James Bond foi inserido, ninguém é infalível ou imortal - nem mesmo o próprio Bond. Esse estado de espírito permite a entrada de um dos maiores pontos positivos da trama: Javier Bardem. Que o espanhol é um baita ator ninguém mais deveria duvidar, mas o que ele faz aqui é absurdo. A começar pela introdução do personagem. Enquanto os vilões de 007 surgem sempre com explosões ou entradas de efeito, seu Raoul Silva é apresentado em um longo plano sequência, no qual fala um discurso mais que inspirado. É o diferencial de se ter um bom diretor e um bom ator trabalhando juntos. Bardem sofre uma transformação completa, tanto no visual quanto nos trejeitos. Seu vilão tem ecos de Hannibal Lecter e até mesmo do Coringa de Heath Ledger, tudo isso sem deixar de ser fantásticamente original. A genialidade do personagem nos leva a questionar como nunca pensaram em um oponente assim para Bond antes. É para aplaudir em pé, um vilão de respeito que já deixou sua marca na franquia.


 Enquanto o vilão é dos mais inspirados, não se pode dizer o mesmo das badaladas Bond Girls. Aqui, elas são meros detalhes. Mas, sejamos justos, detalhes importantes, que não poderiam faltar no caminho de James Bond. Bérénice Marlohe preenche a tela com sua hipnótica beleza nos poucos momentos em que aparece e Naomie Harris, a princípio deslocada em cena, acaba por cumprir bem seu papel de... Bem, melhor ficar quieto... Veja o filme! O elenco conta ainda com a adesão de figuras de peso. É o caso de Ralph Fiennes, em um papel que ainda vai dar muito o que falar, e o veterano Albert Finney, fazendo uma participação de luxo que provavelmente o agora aposentado ex-Bond Sean Connery recusou.

Para falar a verdade, a grande Bond Girl de "Skyfall" é, quem diria, Dame Judi Dench!! Não que ela seja um par romântico do agente secreto (não pense besteira!), mas sua participação na trama é vital. Encarnando pela sétima vez M, a chefe do Serviço Secreto Britânico, Dench nunca teve tanto tempo e destaque em cena desde sua estreia em "Goldeneye", primeiro filme com Pierce Brosnan, há 17 anos. Para falar a verdade, em nenhuma outra aventura da franquia o chefe de 007 - sempre interpretado por homens antes dela assumir o papel - teve tamanha importância na trama. A química entre Dench e Craig solta faíscas na tela. Aos 77 anos, a atriz ganhadora do Oscar - de Melhor Atriz Coadjuvante por "Shakespeare Apaixonado" - mostra todo seu talento dramático (e, quando necessário, cômico) para a nova geração que a liga diretamente a esse papel. São delas as cenas mais arrepiantes de "Skyfall". Palmas, brindes e fogos para Judi Dench!


Quanto à Daniel Craig, ele nunca esteve tão à vontade como James Bond. É aqui que o ator inglês consegue enfim dosar a marcante brutalidade de seu agente com aquele charme inerente à todos que se apresentam como "Bond, James Bond". Sim, há o momento da apresentação, assim como o da bebida característica e de outros detalhes que os fãs percebem mesmo sem querer. A interpretação de Craig é o reflexo de um homem atordoado pelo seu passado e pela profissão. Seu Bond vive no limite, tendo que voltar às origens para se libertar de vez de seus fantasmas. E é aí que entra o título da nova produção. Não, Skyfall não é o nome de uma Operação, embora os tradutores brasileiros nisso acreditem. O retorno às origens, tanto literal quanto estrutural (dentro da franquia), é mais um ponto positivo do filme, adicionando mais uma interessante camada a um dos maiores ícones do cinema.

Há duas maneiras de se ver "Skyfall": uma como fã e outra como expectador normal.  Os meros expectadores podem considerar "Skyfall" um filme de ação acima da média, um dos melhores protagonizados por James Bond nos últimos tempos. Mas o verdadeiro ponto forte do filme é o desenvolvimento dos personagens, cortesia de Sam Mendes. Apoiados neles, a edição, direção de arte e fotografia casam perfeitamente. Para os fãs da saga de 007 nos cinemas, "Skyfall" vai um pouco além. Além das inúmeras referências e citações à capitulos anteriores, através de falas, piadas ou até mesmo de carros(!), o filme traz de volta velhos conhecidos que vinham fazendo falta na série. A cena final é uma fusão de gerações, com novos e velhos tempos se misturando. Os verdadeiros fãs entenderão, e ficarão arrepiados até a espinha. A franquia 007 vai voltando à sua consagrada fórmula da melhor maneira possível. James Bond completa 50 anos de atividade em plena forma, e quem sai com um sorriso satisfeito no rosto somos nós. Com prazer, posso afirmar: o fascínio continua.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Espião Que Sabia Demais - O Cinema Comemora 50 de James Bond


"Bond. James Bond." Foi no dia 5 de outubro de 1962 que o grande público pela primeira vez ouviu essa frase em uma sala de cinema. Era o primeiro contato com o mundo fantástico do agente secreto 007. Estava dada a largada para uma das franquias mais lucrativas e bem-sucedidas da história do cinema. Depois de enfrentar o enigmático Dr. No no filme de estreia, ele viria a encara vilões icônicos como o deformado Blofeld, o magnata Goldfinger, Oddjob e seu mortal chápeu laminado, Scaramanga e sua famosa pistola de ouro, o gigante Jaws com seus "Dentes de Aço" e por aí vai... Uma das galerias de vilões mais respeitáveis entre os heróis do cinema. Sob as ordens do chefe do MI6 conhecido apenas como M, o agente "secreto" mais famoso do mundo usou sua licença para matar em quase todos países do mundo - inclusive no Brasil, visitado e "homenageado" de forma bem caricata em "O Foguete da Morte", de 1979. Em suas missões, aproveitava para usar seu charme e conquistar todas mulheres que cruzassem seu caminho. Resultado: dormiu com nada menos que 65 (!!!) beldades - e isso só até agora! De brinde, os personagens da série passaram a ocupar um lugar afetivo na memória dos fãs, como era o caso do engraçado Q e seus apetrechos especiais e da charmosa secretária Miss Moneypenny, que vivia um eterno caso de amor não correspondido por 007. Independente da década, do protagonista e do título, o público nunca se cansava de voltar aos cinemas para ver o agente iniciar uma nova aventura com um tiro certeiro em direção à tela. 

Eis que, meio século depois, chegamos à estreia de "Operação Skyfall", a 23ª missão do agente - encarnado pela terceira vez no inglês Daniel Craig. Antes dele, o espião que todos amam foi interpretado (oficialmente) por cinco diferentes atores: Sean Connery (em seis filmes oficiais e um independente), George Lazenby (em um filme), Roger Moore (sete filmes), Timothy Dalton (dois filmes) e Pierce Brosnan (quatro filmes). E para comemorar os 50 anos de 007 nos cinemas em grande estilo, o "Kaio No Cinema" fez uma seleção com os seis filmes mais marcantes protagonizados por cada ator que já teve a sorte de se apresentar como o personagem. 


Vamos aos filmes! 

Daniel Craig - "Cassino Royale", 2006.



Verdade seja dita: TODO MUNDO estranhou e reclamou quando anunciaram um cara loiro, de olhos azuis e visual truculento como a nova encarnação de James Bond - principalmente a geração acostumada ao charme do galã Pierce Brosnan. Mas Daniel Craig superou as críticas iniciais, excedeu as expectativas e provou ser a escolha certa, adaptando seu agente para o século XXI da melhor maneira possível. Seu 007 erra, sangra, se precipita, se apaixona... Ou seja, é um heroi de carne-e-osso. O filme também ajudou: "Cassino Royale" tem um dos roteiros mais amarrados e redondos de toda a série, contando ainda com a estonteante Eva Green como uma das melhores Bond Girls e com um vilão crível, que só quer salvar sua pele e não dominar o mundo. Tudo isso pontuado com cenas de ação espetaculares - a perseguição inicial está, sem sombra de dúvida, entre as melhores feitas no cinema nessa última década. 


Pierce Brosnan - "Um Novo Dia Para Morrer", 2002.


Quando Brosnan assumiu o papel do agente secreto, em "GoldenEye"(1995), pareceu cair como uma luva no universo de Bond. Caiu nas graças do público com seu terno sempre impecável e ar debochado. Só que seu "reinado" durou menos do que o esperado, protagonizando apenas quatro filmes. Embora tenha sido a cara de 007 na década de 90, foi nessa última missão como o agente que ele melhor juntou os ingredientes de sua "fase". Missões absurdas que resultariam no colapso mundial, apetrechos tecnológicos que só os efeitos especiais poderiam tornar possíveis, cenas de ação explosivas/exageradas que só reforçavam a ideia de "super-homem" e ainda uma tirada cômica ao final de cada golpe dado em um inimigo... Está tudo lá. (Muitos) Exageros à parte, comprovou o sucesso de Brosnan como o personagem e fechou bem sua participação na franquia. 


Timothy Dalton - "Permissão Para Matar", 1989.


Quase vinte anos antes de Daniel Craig injetar mais realismo na franquia 007 com seu "reboot", o diretor John Glenn e Timothy Dalton já arriscavam uma aventura de James Bond mais "pé no chão". O resultado foi esse filme, possivelmente o mais violento da série. A ideia era arriscada: apresentar um James Bond em busca de vingança por um amigo que tinha sido torturado e morto. Para piorar, ele perdia sua licença para matar e o apoio do MI6, tendo que agir por conta própria. O resultado foi uma certa descaracterização do personagem, deixando o filme com cara daqueles clássicos de ação que passam no "Domingo Maior", bem anos 80. Mas é aqui que fica claro o estilo durão do agente de Dalton - desaprovado pelos fãs mais fervorosos. E nada de magnatas querendo dominar o mundo: aqui o vilão era um violento traficante de drogas, cujo capanga foi o primeiro papel de um certo Benicio Del Toro. Ame ou odeie, vale uma conferida.

Roger Moore -  "Viva e Deixe Morrer", 1973. 


 Esse pode até não ser o melhor filme da fase Moore - muitos berrarão "O ESPIÃO QUE ME AMAVA!!"-, mas é aqui que melhor aparecem as características marcantes desse período. O irônico Moore encarnou Bond nas aventuras mais fantasiosas e exuberantes - e, por vezes, mais divertidas - do agente. Não apenas o visual, mas o próprio tom dos filmes tinha mudado. Nesse, o primeiro filme apresentando Moore, os anos 70 - com toda sua moda, música, estilo, ideiais - pulsam na tela da primeira à última cena. Tudo com direito a trilha sonora original de Paul McCartney, cenas em Nova York, vilão com um "mortal" braço mecânico, jacarés, perseguição de lancha, cartas de tarô, cobras, vudu e rituais satânicos. É, deu para sentir o clima.

George Lazenby -  "A Serviço Secreto de Sua Majestade", 1969.


Temos aqui o filme mais criticado e renegado de toda a franquia, muito devido à presença do então modelo George Lazenby como o primeiro "novo Bond" da saga de 007 nos cinemas. Apesar da fama e do preconceito geral, acredite: Lazenby não manda tão mal assim. Seu agente tem menos personalidade que os demais, é verdade, mas ele consegue segurar as rédeas. Até porque essa é uma das tramas mais interessantes adaptadas dos romances originais de Ian Fleming. Para se ter uma ideia, além de ser uma das aventuras mais realistas, conta ainda com o casamento (sim, casamento!) de James Bond - o que, por si só, já é motivo de sobra para ver o filme.  O elenco de rostos marcantes - do qual fazem parte Telly Savalas e Diana Rigg - dá um estilo visual bem marcante ao filme, que ainda tem um dos cenários mais misteriosos e exóticos já visitados por 007: Piz Gloria, uma instalação bem no meio dos Alpes Suíços. Isso sem falar na trilha sonora composta por John Barry especialmente para o "novo Bond" que entrava em ação. Ajuda muito o resultado, pode ter certeza.  Definitivamente, um filme que merece uma chance.


Sean Connery - "Golfinger", 1964.


Não tem jeito. É simplesmente impossível falar dos filmes de 007 sem citar esse que foi o maior sucesso do espião nos cinemas. Trabalho mais marcante de Sean Connery na pele de James Bond, "Goldfinger" é apontado por muitos cinéfilos e críticos como O filme definitivo de Bond. Tudo que se espera da franquia começou ali: a sequência de ação antes dos créditos, uma marcante música de abertura com imagens de armas e mulheres, a cena cômica em que o agente Q apresenta os apetrechos especias a serem usados na missão - com uma cena proposital para o uso de cada um deles -, um vilão excêntrico com um plano mirabolante, um capanga com alguma "habilidade" marcante, uma bondgirl ousada e um grande clímax. Ah, isso sem falar na garota dourada morta na cama, a cena icônica que ajudou a eternizar a terceira aventura do agente. Enquanto fizerem filmes de 007, "Goldfinger" será um referencial e fonte de inspiração. Como indicam a música e o tema, é "puro ouro".

É bom deixar claro que esses filmes aqui citados não são necessariamente "os favoritos" do cinéfilo que vos escreve. O objetivo desse artigo não é fazer uma lista com "os melhores filmes da franquia", e sim apontar os que melhor definem a fase de cada ator que já deu rosto a James Bond. Muitas vezes é inevitável apontar um filme como predileto ou "número 1", mas isso sempre gera polêmica e discussões. É impossível alcançar unanimidade nesse quesito, e é até melhor que assim seja. Se tivesse que apontar um favorito, o posto ficaria com a segunda aventura do agente. "Moscou Contra 007", lançado em 1963, ainda era uma espécie de "filme teste", sem as marcas da série. O famoso "Bond, James Bond" nem é falado nele, para se ter noção. Talvez até por isso a produção funcione tão bem sozinha. Mais do que uma aventura de 007, "From Russia With Love" (no original) é um dos melhores filmes de espionagem já feitos.  A trama, feita no período da Guerra Fria e a abordando de forma bem direta, é calcada no realismo. Nada de exageros. As locações na Rússia transbordam um clima absurdo de suspense, encarnados na figura de Robert Shaw, um matador silencioso que merece estar no ranking de melhores vilões do agente secreto. Tudo funciona maravilhosamente nesse filme dirigido por Terence Young. Fica a dica.




E assim chegamos à "Operação Skyfall" com as expectativas nas alturas. Depois do fraco "Quantum Of Solace", tudo indica que a nova produção com Craig botará a franquia novamente nos trilhos com uma trama que, de tão arriscada e ousada, vem sendo escondida a sete chaves pelo estúdio. Sem falar que é a primeira vez que um filme de Bond é comandado por um diretor vencedor do Oscar. No caso, o excepcional Sam Mendes, diretor de obras-primas modernas como "Beleza Americana" e "Estrada Para a Perdição". Adicione o ator - também ganhador do Oscar - Javier Bardem como um visceral vilão e o consagrado Ralph Fiennes como um misterioso personagem e fica realmente difícil imaginar o que pode dar errado nessa mistura. 


O britânico Ian Fleming criou Bond há 60 anos, enquanto aproveitava o verão de 1952 em sua casa na Jamaica - curiosamente, batizada por ele de "Golden Eye". Quando lançou o romance "Cassino Royale" em 1953, não tinha noção de como mudaria a cultura pop mundial. Morreria dez anos depois, em 1963, durante as filmagens de "Goldfinger", exatamente o filme que daria início à "bondmania". Fleming não chegou a ver o grande sucesso que seu personagem alcançou pelo mundo. Mas ele, definitivamente, pode descansar em paz. Ao impedir que inúmeros inimigos pudessem realizar seus planos, 007 ironicamente conseguiu, ele mesmo, dominar o mundo. E enquanto há uma bala a ser atirada, alguma missão a ser cumprida, uma dama a ser cortejada e alguma taça de Martini (batido, não mexido) a ser bebida, o fascínio continua - todo resumido em um só nome. Bond. James Bond.




segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"Em Busca da Terra do Nunca" - Wes Anderson Pinta um Quadro da Adolescência no Lírico "Moonrise Kingdom"


Wesley Wales "Wes"Anderson é um cara excêntrico. Basta ver ou ler qualquer entrevista dele para ter certeza disso. Logo, nada mais justo do que seu cinema e personagens também serem. Isso que o cineasta americano é: o atual "rei das famílias e personagens disfuncionais" no cinema. Tal característica está presente em todos seus filmes, é só conferir. "Os Excêntricos Tenenbaums", "A Vida Marinha Com Steve Zissou", "Viagem a Darjeeling" e até mesmo a animação "O Fantástico Sr. Raposo" são produções que contam com grande elenco em tramas bizarras repletas de humor negro - que viram instantaneamente "cults". Quando Anderson anunciou um novo projeto, essas marcas já eram esperadas pelos fãs de seu trabalho. Alguns até já falavam, com preconceito, que "lá vinha mais do mesmo". E eis que surge "Moonrise Kingdom".

Deixando de lado os termos técnicos e sérios de um crítico de cinema, vamos direto ao assunto: QUE FILME BONITO! Tudo bem, todo mundo já sabe que tipo de filme esperar de Wes Anderson. E sim, está tudo lá, como o esperado. Mas quando a tela ligeiramente granulada toma a sala de cinema de assalto, com imagens que parecem verdadeiras pinturas em movimento, é impossível não ser puxado para aquele universo tão singular e curioso. Os estilosos créditos iniciais, o som de uma doce música clássica ao fundo, a direção de arte espetacular, o uso de cores e movimentos de câmera que chegam a lembrar Stanley Kubrick... Tudo funciona às mil maravilhas. E o público percebe quando dá certo. O resultado é um deleite visual, um suspiro que se mantém durante toda a projeção.


A tema aqui é a adolescência, com todos seus dramas e anseios. O roteiro é um primor, onde os personagens e acontecimentos vão sendo apresentados sem nenhuma pressa. Quem conhece Wes Anderson sabe que seus filmes têm um andamento próprio. Mas isso não prejudica o produto final. Temos um longa-metragem redondo, de 94 minutos, que apesar de parecer meio corrido em certos momentos, nunca parece lento demais. Pode-se dizer, inclusive, que é seu filme mais acessível ao grande público. 

O elenco, como era de se esperar, é um destaque à parte. O diretor volta a trabalhar com os queridinhos Jason Schwartzman e Bill Murray, mas isso é mero detalhe. Schwartzman tem um papel bem curto, enquanto Murray dessa vez não tem a chance de brilhar com seu personagem apagado e pouco relevante. Mais marcantes são as novas aquisições da galeria astros que Anderson dirigiu: um Bruce Willis longe da figura de herói imortal que o consagrou, Edward Norton estudando seu talento cômico e Tilda Swinton em uma ponta de luxo. Até um envelhecido Harvey Keitel dá as caras em uma participação especial. Mas o destaque absoluto, claro, vai para os jovens do elenco. Afinal, relembrando: é um filme sobre adolescência.

Sabe todos os clichês sobre o primeiro amor e suas descobertas? É meio inevitável fugir deles, devemos admitir. Mas merecem palmas os diretores que conseguem dar uma nova solução e abordagem a esse momento com o qual todos nos identificamos. É o que acontece aqui. Os acontecimentos de "Moonrise Kingdom" podem parecer um pouco exagerados ou surreais em certos momentos. Mas por trás daquilo, está a velha história de um garoto e uma garota se descobrindo e lutando para ficar juntos. Os atores Kara Hayward e Jared Gilman - que é a cara da Tilda Swinton... Será que é o filho dela? - estão perfeitos e marcantes em suas interpretações. A dupla é puro carisma. E a escolha a dedo de cada um dos escoteiros só ajuda na fórmula final. Se é o elenco adulto e consagrado que dá credibilidade ao projeto, é o elenco infanto-juvenil que injeta alma em cada fotografa. 


No decorrer das ações que movem o filme, percebemos mais e mais que os adultos parecem perdidos e confusos no mundo que deveria ter neles uma figura de autoridade. São as crianças que tomam as grandes decisões e iniciativas narrativas. Durante toda a projeção, elas têm postura de adultos, às vezes até violentas. Mas elas precisam dessas posturas para conseguir sobreviver ao ambiente em que estão.  Ao mesmo tempo em que parecem buscar uma "Terra do Nunca" onde possam viver para sempre, distantes de tudo, eles precisam antes saber viver naquele mundo do qual querem fugir. Desse ponto de vista, o filme vai além da questão amorosa da adolescência, se apresentando como um filme sobre o amadurecimento - tanto dos adultos quanto dos mais jovens.

Não bastassem os conflitos identificáveis da trama envolvente, a trilha sonora de Benjamin Britten só facilita a viagem. E a direção de arte é a cereja do bolo. Antes de qualquer coisa, "Moonrise Kingdom" é um filme bonito de se ver, composto por imagens que falam sozinhas. Alguns fotogramas gritam para virar quadros, de tão líricos e inspirados. Perto do final da projeção, a câmera vai se afastando da casa com a mesma discrição com que entrou no início. Nesse momento, a garota, Suzy, lança um discreto olhar para câmera enquanto a câmera emula uma espécie de "Adeus" àquele universo maravilhoso que visitamos. É nesse momento que nos lembramos, timidamente, o porquê de irmos ao cinema. É o momento em que sentimos a magia de entrar e sair de um "mundo novo", acessível apenas através de uma sala escura com uma projeção. Todo diretor que consegue despertar isso em pelo menos um espectador já é digno de prêmio. Ou seja, e basicamente: palmas para Wes Anderson. 


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

É Proibido Proibir - Documentário "Tropicália" Dá Uma Aula de História e Cultura Brasileira


Sempre tem aquele amigo cabeça-dura que implica, sem piedade, com filmes nacionais. Na verdade - e  infelizmente -, cada vez mais amigos fazem isso. Entre os altos e baixos produzidos no nosso cinema, uma coisa é certa: no quesito "Documentário Musical", não tem pra ninguém. Obras-primas como "Vinicius" (sobre Vinicius de Moraes), "Ninguém Sabe o Duro Que Dei" (sobre o grande Wilson Simonal), "A Vida Até Parece Uma Festa" (da banda Titãs), "Uma Noite em 67" (sobre os Festivais de Música da Record) e "Rock Brasilia" (Capital Inicial, Legião Urbana e outras bandas da cidade) são provas disso, além dos recentes "Raul - O Início, O Fim e o Meio" (sobre Raul Seixas) e "A Música Segundo Tom Jobim". E quando a gente pensa que não dá para adicionar mais bons exemplos a essa exemplar lista, surge "Tropicália".

O tema todo mundo já pelo menos ouviu falar, e rendia mesmo uma boa pesquisa e redescoberta. O Tropicalismo surgiu no Brasil na segunda metade da década de 60, como um movimento cultural e comportamental inspirado em vanguardas e na cultura estrangeira. Embora tenha se manifestado em diversas áreas, o destaque absoluto foi na música. "Capitaneados" pelas ideias de Caetano Veloso e Gilberto Gil, um grupo de cantores começou a experimentar novos sons e arranjos, promovendo uma verdadeira revolução musical no Brasil. Nesse time estavam Os Mutantes, Tom Zé, Gal Costa, entre outros nomes consagrados da MPB. Ou seja, gostar do trabalho desses artistas já é (mais de) meio caminho andado para aprovar o projeto.


O empolgante trailer já denunciava o maior trunfo do filme: seu ritmo. "Ritmo" é a palavra de ordem. Desde os créditos iniciais - aqueles inevitáveis nos filmes nacionais, com todos os patrocinadores na tela - a música já começa a ditar o andamento das coisas, para logo revelar Caetano e Gil como os grandes porta-vozes do movimento. A partir dali já fica claro que tudo giraria em torno deles, que são uma espécie de personagens centrais em torno dos quais tudo aconteceu. Após uma introdução épica - de arrepiar mesmo -, entramos com tudo em uma viagem  pelo Brasil de 67, 68 e 69.

Desde já, fica o aviso: "Tropicália" não é um documentário com a estrutura clássica do gênero. E não poderia mesmo ser, se quisesse representar bem o tema. É, basicamente, um filme de montagem, onde as imagens dizem tudo. Mas é um "filme de montagem" da melhor qualidade, que fique claro. O diretor Marcelo Machado mergulhou em uma intensa procura por materiais de arquivo durante dois anos, em busca do máximo de informações possíveis sobre o período, além de gravações originais dos músicos. E vale aqui exaltar a importância do essencial trabalho feito pelo pesquisador Antônio Venâncio. Sem ele o filme não seria possível, ou pelo menos teria muito menos impacto. Os próprios músicos ficaram emocionados e arrepiados ao ver imagens que permaneceram inéditas por mais de 40 anos. Algumas estão até embaçadas de tão gastas pelo tempo - mas o filme sabe tirar proveito disso.


Os mais desavisados vão estranhar a sucessão de imagens históricas ou tiradas de filmes e experimentações, que vão além da esfera musical. Aí está a proposta do filme: falar do tropicalismo adotando, para isso, a sua própria estética. Trata-se de um documentário tropicalista, que promove uma verdadeira mistura cultural. Passam por lá Chacrinha, Nara Leão, Rogério Duprat, a levada de Jorge Ben Jor, o cinema de Glauber Rocha, as poesias de Torquato Neto, a arte de Hélio Oiticica, o teatro de Zé Celso, a ditadura militar e seus presidentes, a represão, a tortura, a morte do estudante Edson Luís, e por aí vai. Em suma: "Tropicália" consegue ser mais do que um filme sobre música, é um verdadeiro relato sobre a História do país. O que se vivia, pensava e fazia na época - com imagens reais para ilustrar. Se o grande público cometer o erro de ignorar o filme nos cinemas, ele já tem um destino certo: as salas de aula de Comunicação ou Cultura Brasileira. Em relação ao período de três anos citado, acredite... Está tudo lá.

Diferente de "A Música Segundo Tom Jobim", onde a música dava sozinha o colorido especial às fotos projetadas, aqui há o depoimento dos músicos e pessoas envolvidas. Mas não no estilo clássico, com eles sentados falando para a câmera. Apenas ouvimos suas vozes por cima das imagens, fazendo os comentários e nos situando para o que é mostrado. É o suficiente para manter nosso interesse vivo ao longo dos 90 minutos de duração. Os envelhecidos ícones do período só vão aparecer bem no finalzinho da projeção. Talvez (veja bem, eu disse "talvez") fosse até melhor que não aparecessem, pois quando os vemos atualmente, conformados com os rumos que as coisas tomaram, bate uma pontinha de desânimo. Não que isso enfraqueça o intenso manifesto visual, mas fica um clima de "o sonho acabou" no ar.


Além de poder conhecer bem melhor a cultura de nosso país, esse documentário nos dá acesso a imagens tão raras quanto arrepiantes, que batem e ficam: uma linda e jovem Rita Lee cantando "Panis Et Circensis" com Arnaldo Baptista e Sergio Dias, em um surreal programa de televisão que busca ir contra os "adultos completamente quadrados e caretas" (palavras do apresentador), Gilberto Gil liberando a alma enquanto canta "Back In Bahia" após o exílio ou, ainda, um irado Caetano Veloso gritando para o público - que o aplaude e vaia na mesma intensidade - os versos de "É Proibido Proibir".

"Vocês não estão entendendo nada!", urra Caetano ao público nesse momento decisivo. Provavelmente eles realmente não estavam. E muito provavelmente nós mesmos, mais de 40 anos depois e após assistir esse documentário, ainda não consigamos entender perfeitamente o que se passava na cabeça dos responsáveis por aquele som libertador e inovador. Mas ao nos darmos conta de que é a nossa língua sendo cantada, nossa música sendo ouvida, é impossível evitar o orgulho que nos dá. "Tropicália" é História do Brasil. É identidade cultural brasileira. É pura música para os olhos. E é para assistir livre de medo e preconceito.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Insustentável Leveza do Ser - "Intocáveis", Uma Lição de Otimismo e Bom Humor à Francesa


Você, leitor atento, pode estar se perguntando: por que esse título poético? Pois bem... "Leveza" é a palavra. É nesse estado de espírito que você fica após assistir o filme dirigido pela dupla Eric Toledano e Olivier Nakache. Existem alguns filmes que são feitos para fazer pensar, alguns para fazer rir, outros para causar medo. Mas alguns filmes são feitos, simplesmente, para ser um alívio e satisfação para o expectador - e levar, assim, um pouco de leveza à sua vida. É o caso desse "Intocáveis".

Depois de ser considerado o filme mais lucrativo na França no ano de 2011, a produção se tornou também o filme francês mais assistido no exterior da história. Para isso, inclusive, bateu a marca de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain", que desde sua estreia - em 2001 - ocupava esse posto. Como uma história tão simples consegue justificar um fenômeno de bilheteria tão forte? Vai por mim: basta ver o filme para entender. A direção, os cortes, os atores: tudo funciona às mil maravilhas. Embora a estrutura narrativa seja bem clássica, não demora muito para o ritmo ágil e bem-humorado ocupar a tela e nos envolver de jeito.


A história, baseada em fatos reais, é de uma simplicidade exemplar:  um aristocrata rico e tetraplégico contrata um jovem problemático para ser seu assistente e ajudante. A partir dessa ideia básica, acompanhamos o extrovertido Driss aprendendo a lidar com as necessidades e limitações do recluso Philippe - e vice-versa. Dois universos que vão, aos poucos, se fundindo. E é aí que entra o grande trunfo e diferencial do longa: a incrível química entre a dupla principal. Faíscas aparecem na tela em cada cena que eles dividem - no sentido metafórico e positivo, que fique claro. François Cluzet, grande ator (ainda) pouco conhecido pelo público brasileiro, dosa perfeitamente amargura, esperança e gaiatice na pele de Philippe. Por fazer um tetraplégico, toda força do personagem está nas expressões faciais e no olhar, do pescoço para cima. É o suficiente para ele. Um misto de Dustin Hoffman com Edward Norton à francesa, é delicioso ver o muro criado em torno de seu personagem ir caindo aos poucos, para revelar um doce sorriso que cativa a plateia.

O outro nome nos créditos principais merece um espaço à parte. Até então desconhecido pelo grande público, Omar Sy arrebata desde sua primeira aparição. Quando ele está em cena, não tem para ninguém. O personagem é instintivo e espontâneo, beirando a agressividade em certos momentos. Mas uma coisa é inegável: ele é o centro das cenas mais marcantes e hilárias. E quando digo hilárias, são de rolar de rir mesmo, sem exageros. Sy transpira carisma. Tanto que, das nove indicações que o filme recebeu para o César - espécie de "Oscar Francês" -, o único prêmio foi para ele, tornando-o o primeiro negro a receber o César de Melhor Ator. Não é pouco, mas é merecido. É o tipo de papel que marca muito intensamente a carreira de um ator, mas ainda é cedo para dizer como será o futuro de Omar Sy no cinema. Uma coisa é certa: carisma não falta ao moço.
O elenco secundário também é notável, com personagens que só adicionam à mistura e conseguem melhorar ainda mais a dinâmica entre a dupla principal - sem em nenhum momento ofuscá-los. Afinal, o show é deles.


A trilha sonora só ajuda. E olha que ajuda mesmo. Além de clássicos imortais de Vivaldi, Chopin e Bach, o filme ainda consegue ficar mais animado ao som da banda Earth, Wind and Fire. A abertura com "September" e a dança de Driss ao som de "Boggie Wonderland" são simplesmente impagáveis. Mas o ponto alto é o momento em que os personagens vão satisfazer um dos desejos excêntricos de Philippe e andar de parapente. No instante em que a voz única de Nina Simone começa a entoar os versos de "Feeling Good", pronto. Basta isso para flutuarmos junto com eles. Está aí um bom resumo da obra: o filme é um convite para deixar a vida de lado por alguns minutos, se sentir bem e flutuar com um sorriso no rosto. Tudo com sotaque francês.

Em tempos de filmes difíceis, complexos e pesados, é um deleite poder se deixar levar durante 112 minutos por um filme que, embora abrisse muitas margens para o drama envolvento o acidente de Philippe, não desperta no expectador nada além de um sincero sorriso de satisfação. E os americanos, que não são bobos, já abriram os olhos e encomendaram um remake a ser estrelado pelo Oscarizado Colin Firth como o rico aristocrata. Mais difícil do que encontrar alguém para encarnar o papel que foi de Omar  Sy será conseguir alcançar a simplicidade e beleza desse filme. 


Após ler tudo isso, leitor pode estar pensando que estou numa forte campanha a favor do filme. Sinceramente, acho muito difícil falar mal ou ver defeitos em um filme que faz tão bem à alma. Mas "Intocáveis" não floreia a vida real só para ter uma mensagem bonitinha no final. É um filme sincero, que mostra as coisas como elas são. Busca mostrar que há várias maneiras de encarar os acontecimentos da vida, mas a melhor delas é o otimismo. E prova que não há nada melhor do que um sorriso espontâneo para equilibrar a tensão de qualquer momento. Para os que vão assistir o filme, esse sorriso é mais do que uma moral ou lição: é uma garantia.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O Acrobata e o Poeta - A Verdadeira História de Uma das Maiores "Rivalidades" do Cinema

São muitas as polêmicas discussões entre os cinéfilos de plantão: Seria "Cidadão Kane" o maior filme de todos os tempos? "O Poderoso Chefão - Parte II" é melhor que o primeiro? Quem seria o verdadeiro "pai do cinema", os irmãos Lumière ou George Méliès? E por aí vai. Mas entre todas essas indagações, uma das mais complicadas é aquela que envolve dois gênios indiscutíveis do cinema: a que tenta comparar Buster Keaton e Charlie Chaplin.

É um assunto delicado. Charles Spencer Chaplin e Joseph Frank Keaton Jr. atuaram nos primórdios do cinema, mais ou menos no mesmo período. Durante a década de 20, principalmente, reinaram absolutos como os maiores astros da comédia. E como reis de um mesmo gênero, ficaram famosos como grandes "rivais". A rivalidade de fato nunca existiu: foi uma criação da mídia e dos estúdios para formar um grupo seleto de fãs fiéis a cada um deles. Isso não só deu certo como dura até hoje. Mas vamos aos fatos.


Embora os dois atuassem no mesmo gênero de filme, as abordagens eram bem diferentes. Chaplin foi além da comédia e se tornou um ícone, uma das figuras mais famosas do século XX. Virou até adjetivo - que crítico de cinema nunca descreveu um personagem como "chapliniano"? Por isso, todos conhecem Chaplin, fãs de cinema ou não. Por outro lado, poucas pessoas ouviram falar de Buster Keaton. Até entre alguns cinéfilos, ele é apenas mais um nome em algum parágrafo sobre a fase muda do cinema. Isso porque sua carreira, ainda que muito importante e relevante, é menos divulgada do que devia.

Buster Keaton era um exímio acrobata e artista do vaudeville. Seu humor era mais físico, composto por gags visuais muito elaboradas para a época - e executadas pelo próprio! Filmes como "Nossa Hospitalidade"(1923) e "A General"(1926) demonstram seu incrível talento técnico em ousadas cenas de corridas, fugas e quedas. Era humor visual da melhor qualidade. Os fãs mais fervorosos de Chaplin destacavam a falta de "alma" na obra de Keaton, famoso por manter uma expressão séria e impassível em todos os seus filmes. Era exatamente parte da sua graça.Chaplin, por sua vez, era um sensível poeta da imagem, usando sua incrível genialidade para dosar risos e lágrimas como poucos. Filmes como "O Garoto" (1921) e "Luzes da Cidade" (1931) equilibram de maneira quase perfeita drama e comédia.


Com o passar dos anos, muitos críticos passaram a defender a ideia de que as obras de Keaton ofereciam uma "experiência cinematográfica" mais efetiva. De fato, ele fazia uso de mais efeitos visuais e técnicos, com câmeras em movimento e truques de cena revolucionários. Enquanto isso, Chaplin produzia um cinema mais simples, adotando uma câmera basicamente estática. Não fazia enquadramentos ou movimentos muito inovadores - sabia exatamente o que fazer em cena no espaço que iria filmar. Resumindo: Keaton focava mais nos aspectos técnicos e visuais de seus filmes, enquanto Chaplin dava mais importância para a emoção e crítica social por trás da obra. Talvez por essa diferença, a obra de Chaplin tenha envelhecido melhor. Mas isso não tira o valor da genial contribuição de Keaton para a evolução do cinema. Ou, pelo menos, não devia tirar.

O diferencial determinante no "processo de esquecimento" promovido pelo grande público foi a chegada do som no cinema. Tanto Keaton quanto Chaplin eram contra o uso de som na "arte da imagem", mas o segundo tornou sua oposição mais evidente. Durante um período em que o público buscava filmes sonoros com diálogos rápidos, explosões e tiros, Chaplin arriscou e lançou "Luzes da Cidade"(1931) e "Tempos Modernos"(1936) como filme corajosamente mudos, que até criticavam os efeitos sonoros.  Quando resolveu aderir ao cinema falado, com "O Grande Ditador", o fez de forma marcante - com o famoso discurso final. Se iria enfim falar, seria algo para ser lembrado. Por outro lado, Keaton amargurou o fracasso em alguns filmes falados de baixa qualidade, impostos pelo estúdio. Diferente de Chaplin, ele não tinha mais autonomia na direção e criação de seus projetos. Seu processo de esquecimento tinha começado.


Enquanto Chaplin seguia fazendo pequenas obra-primas sonoras, Keaton amargurava no alcoolismo, fazendo pontas pequenas demais para o seu brilho. Em "Crepúsculo dos Deuses" (1950), aparecia por menos de um minuto em cena - e sem direito a nenhuma fala. Para corrigir esse erro e deixar claro que não havia rivalidade nenhuma entre eles, Chaplin o convidou para dividir a cena com ele em "Luzes da Ribalta", em 1952. Seria um mero coadjuvante, mas ainda assim com um grande destaque em cena. Enfim, dois titãs do humor juntos em ação!

Apesar de ter sido perseguido, processado e posteriormente expulso dos Estados Unidos por questões políticas, Chaplin sempre foi um ícone reconhecido. Era adorado e venerado por todos, de meros expectadores a cineastas consagrados. O reconhecimento de Keaton veio apenas na década de 60, quando foi redescoberto pelos membros da Academia Francesa de Cinema. Lá, foi alçado ao posto de gênio que poucos sabem que ele ocupa. Quando foi homenageado em Cannes, já no final da vida, respondeu amargamente aos aplausos efusivos que recebeu: "A homenagem é bonita, mas esses aplausos chegaram a mim com 30 anos de atraso."


No fim das contas, quem foi mais importante e relevante na história do cinema? Keaton ou Chaplin? Chaplin ou Keaton? É a velha questão de quem veio antes, a galinha ou o ovo. Como amante da sétima arte, não acho justo fazer campanha a favor de um ou de outro. Basta ver seus filmes para perceber como cada um adicionou muito ao cinema de maneira bem distinta. Ouso dizer que nenhum filme seria o mesmo hoje se um dos dois não tivesse existido ou seguido outra carreira. Se Chaplin tivesse virado poeta e Keaton um acrobata, o cinema seria uma arte menos completa e mágica. Assistindo obras-primas como "Em Busca do Ouro" (que Chaplin lançou em 1925) e "Sherlock Holmes Jr." (um curta genial de Keaton, de 1924) dá para entender o que estou tentando dizer. No caso, podemos até mesmo nos dar o luxo de ter dois reis no reino da comédia. Chaplin ou Keaton? Pois digo: Chaplin E Keaton.

E, como diriam as simpáticas cartelas ao final de seus filmes, "The End".

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ligações Perigosas - O Discreto Charme de Uma Injustiçada Obra-Prima Chamada "Barry Lyndon"


  

Você, caro leitor, certamente já ouviu falar no nome de Kubrick. Mas é provável que nunca tenha ouvido falar no filme aqui analisado. Isso porque os ensaios e textos sobre a genialidade de Stanley Kubrick (1928-1999) - e sua inegável importância para o cinema - raramente fazem citações a “Barry Lyndon”. Lançado em 1975, o filme é um dos menos valorizados e discutidos trabalhos do diretor americano. Tal tratamento é sem dúvida injusto, tamanha sua beleza e, principalmente, inovação para a época de lançamento. Duvida? Então vamos lá.

Em sua concepção do projeto, Kubrick se inspirou completamente em pinturas e paisagens do século XVIII, para através delas transmitir o estado de espírito da época. A partir disso, o posicionamento dos atores passou a combinar com o planejamento de cena de modo a compor verdadeiros quadros em movimento. Durante as 3 horas de exibição, em vários momentos acreditamos observar telas de pintores da época, tamanho lirismo e beleza captados. Os discretos movimentos dos atores são a prova de que se trata de um filme brilhantemente filmado.


A iluminação natural corajosamente escolhida por Kubrick e pelo diretor de fotografia John Alcott é composta apenas de luz solar – na chamada “hora mágica” do dia – e de luz de velas, cujo efeito nos leva a pensar que cada fotograma foi pintado a óleo. Além disso, Kubrick revolucionou o uso de câmeras na captação de movimentos. Da mesma forma que James Cameron idealizou e ajudou a criar as câmeras em 3D que possibilitariam seu “Avatar”(2009), Kubrick teve determinante importância na criação da SteadiCam. Consagrada um ano mais tarde na famosa cena de treinamento de “Rocky – O Lutador” (1976), foi em “Barry Lyndon” que a câmera teve seu primeiro teste e utilização. Graças a isso, cenas como a marcha dos Exércitos Britânico / Prussiano e a volta de Lord Bullingdon ao castelo de sua mãe ficaram eternizadas de forma única.

A interpretação contida de Ryan O’Neal se adequa bem ao personagem que vai se modelando nos ambientes de acordo com seus interesses. Insolente, mentiroso, manipulador e inescrupuloso, seu protagonista Redmond Barry se defende sob o argumento de que “apenas age como as outras pessoas, por não ter um bom exemplo a seguir”. É nessa frieza e indiferença que repousa o charme do personagem. Seu egoísmo e relação de “amor e ódio” com as mulheres evoca o Charles Foster Kane de Orson Welles e o Michael Corleone de Al Pacino – não à toa, dois dos mais interessantes personagens do cinema.


Apesar de ser um filme bem longo, em nenhum momento a narrativa se torna lenta ou arrastada. A narração em off não diegética (“de Deus”) é a responsável pelas críticas sociais e pelo humor negro, ditando o ritmo ágil da produção. E o romance de William Makepeace Thackeray  - adaptado pelo próprio Kubrick para as telas - dosa drama de época, épico de guerra, thriller de espionagem e comédia de costumes da forma neutra e eficiente que o diretor já havia apresentado em seus filmes anteriores.
 
O conto sobre ascensão e declínio social do personagem-título tem também uma das melhores reconstituições de época da história do cinema, servindo como inspiração para todos os posteriores filmes de época. “Amadeus”(1984), obra-prima incontestável de Milos Forman, bebe direto da fonte de “Barry Lyndon”. Isso se dá inclusive na escolha do elenco de atores pouco conhecidos com rostos extremamente marcantes, que parecem saídos de pinturas clássicas e até mesmo surrealistas, como é o caso do vigarista Chevalier de Balibari (Patrick Magee), de Sir Charles Lyndon (Frank Middlemass) e do reverendo Runt (Murray Melvin) personagens que parecem saídos da imaginação de Federico Fellini (1920-1993). Isso reforça o filme como um espetáculo visual, onde olhares e gestos dizem muito mais que palavras.


Além dos 4 merecidos Oscar que venceu – Direção de Arte, Fotografia, Trilha Sonora e Figurino -, pouco restou de prestígio e reconhecimento a “Barry Lyndon”, injustamente tratado como uma obra menor na essencial filmografia de Stanley Kubrick. O aclamado crítico de cinema Roger Ebert adicionou o filme à sua lista Great Movies em Setembro de 2009. O diretor americano Martin Scorsese já indicou a produção como um de seus títulos favoritos, pela sua intensa experiência emocional. Mesmo que muitos apontem os personagens do filme como frios e “congelados”, é exatamente nesse ponto que repousa a alegoria psicológica do homem ocidental geniosamente orquestrada pelo cineasta que, atráves de suas imagens e cenas inesquecíveis, nos ensinou a observar as ações ao nosso redor para entender a nós mesmos. Seja em histórias do presente, do futuro ou, no caso, do passado. Um filme que definitivamente merece a alcunha de “genial” que nunca faltou ao seu idealizador.


PS: Essa matéria foi escrita em Dezembro de 2011, e foi com ela que consegui ganhar uma bolsa integral para estudar Técnicas de Direção na Academia Internacional de Cinema de São Paulo. Fica aqui um "Muito Obrigado" ao grande mestre Kubrick por me inspirar nessas horas!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

"O Homem de Mil Faces" - A Desconhecida História do Incrível Lon Chaney (1883-1930)


Foi em 2006 que encontrei uma cópia raríssima de "Em Busca do Ouro" aqui em casa, meio perdida no meio de tantos outros VHSs. E depois de assistir à obra-prima feita por Charlie Chaplin em 1925, eu já sabia que era aquilo o que queria fazer da vida: viver de e para o cinema, tentando despertar aquela magia que me atingiu em outras pessoas. Comecei a correr atrás de tudo que encontrava sobre a sétima arte. E foi pesquisando sobre seus primórdios e sobre a nostálgica fase muda do cinema que pela primeira vez cruzei com a bizarra e assustadora foto acima. Ao seu lado, um nome: Lon Chaney. Não sabia ao certo quem ele era, mas aquela figura me causava assombro e fascinação na mesma medida.

Pouco tempo depois, comecei a acompanhar que nem doido a programação de um canal chamado Retrô, que já saiu do ar - sabe-se lá o motivo. Focado em seriados e filmes antigos (como o TCM atualmente), o canal tinha um programa especial todo sábado de tarde, chamado genialmente "Shh !". Nele, apenas filmes mudos, clássicões esquecidos do cinema. Foi lá que assisti meu primeiro Buster Keaton, meu primeiro Murnau e também meu primeiro Lon Chaney. Me surpreendi ao ver aquele nome nos créditos iniciais de uma versão de "O Corcunda de Notre-Dame" - por acaso, meu livro favorito -, datada de 1923. Mais do que se tornar um dos meus filmes mudos favoritos, aquela pequena jóia me mostrou, enfim, o que era Chaney em ação. Mais uma vez deformado como o corcunda Quasímodo, Chaney em nada lembrava aquela foto marcante antes vista. Era uma outra pessoa, com total controle de cena e linguagem corporal. Se havia uma forma ideal de se atuar em filmes mudos, para mim aquele era seu maior exemplo. Então por que parecia estar esquecido no tempo?


Leonidas Frank Chaney nasceu em Colorado Springs em 1883, filho de pais surdo-mudos. Desde o princípio, ele estava acostumado a usar a linguagem dos sinais ou corporal. Estava acostumado com o silêncio. O cinema, que nasceria doze anos mais tarde como uma arte muda, parecia perfeito para ele. Depois de passar de assistente de palco a comediante em teatro de variedades, Chaney adotou o nome artístico pelo qual ficaria famoso e começou a dar as caras no cinema. Sempre em pequenos papéis, Chaney passou a ficar conhecido na indústria por sempre mudar de visual em cena, fazendo a própria maquiagem. Graças a esse talento, ele foi considerado a escolha perfeita para viver um aleijado em "The Miracle Man", de 1919. Foi seu primeiro sucesso.

Quando a Universal começou a produzir os primeiros clássicos de montros que marcariam o estúdio, Chaney parecia o homem certo para ser a grande estrela da iniciativa. E era. Já conhecido por estar sempre acompanhado de sua caixa de maquiagem, ele criou o deformado visual de Quasímodo. Além de assustar platéias de todo o mundo, ainda conseguiu inserir humanidade e profundidade ao personagem. As platéias não esperavam por isso, e não estavam acostumadas com tamanho cuidado na construção do que era pra ser, simplesmente, um monstro.

A consagração definitiva veio em 1925. Chaney se tornou um ícone da história do cinema ao protagonizar a mais famosa adaptação de "O Fantasma da Ópera". Na primeira metade do filme, seu sombrio personagem aparecia apenas vagamente, sempre com uma misteriosa máscara. Um detalhe curioso pode ser percebido na cena em que seu visual é revelado. O rosto monstruoso e assustador do Fantasma foi mantido em segredo absoluto por toda a produção, a ponto de nem os atores ou câmeras terem ideia do que Chaney havia criado. No momento inesquecível em que a cantora sequestrada pelo Fantasma resolve tirar sua máscara sem que ele perceba, há um grande "grito" da trilha sonora e a câmera chega a desfocar um pouco, tamanho o susto que o operador levou. Lendas garantem que várias pessoas desmaiaram na platéia ao encarar a face grotesca moldada por Chaney. Não à toa, é seu papel mais famoso - e a foto que abre esse texto -, que o tornou um ícone absoluto da fase muda do cinema.


Depois do grande sucesso de público e crítica com "O Fantasma da Ópera", Chaney engrenou uma bem-sucedida parceria com o diretor Tod Browning. Juntos, fizeram 10 fascinantes filmes, formando uma das primeiras parcerias Diretor-Ator de Hollywood. Entre 1919 e 1929, fez inúmeros tipos, sempre exóticos: foi um chinês mandarim em "Sr. Wu", um gângster caolho em "The Big City" e um palhaço atormentado em "Laugh, Clown, Laugh", entre outros. Sempre com uma diferente postura e rosto - afinal, essa era sua marca. Ainda ficou marcado na cabeça de muitas pessoas como um macabro e perturbador mensageiro de dentes afiados em "London Aftet Midnight", um dos melhores filmes que fez com Browning. Nessa época, a mídia já passou a se referir a ele como "o homem de mil faces", tornando Chaney extremamente requisitado e famoso. Apesar disso, o público não o reconhecia nas ruas nem nas estréias de seus filmes.

Em 1927, "O Cantor de Jazz" trouxe o som para os cinemas. O público não estava mais satisfeito em ver seus ídolos: eles queriam ouvi-los. Como Chaplin, Chaney era contra o uso de som na "arte da imagem". Se recusou a fazer filmes falados por um tempo, mas os estúdios planejavam sua estreia no som com grande impacto. Depois de muita negociação, a versão de "Drácula", a obra de Bram Stocker, ia ser feita pela Universal para os cinemas - e Chaney, astro maior dos filmes de terror, seria o vampiro. A direção seria de Browning, para convencer Chaney a participar.


Antes de encarnar o Drácula, Chaney quis ter certeza de que conseguiria se adaptar ao som. Para isso, se juntou a Jack Conway para fazer o remake do filme "Talkie", que Browning lançara em 1925. Em "The Unholy Three", Chaney fazia o papel de um bandido cuja marca era seu boneco ventríloquo. Usava cinco vozes diferentes em cena, e aquela era a prova para todos de que ele poderia, sim, fazer filmes falados. Os estúdios suspiraram relaxados. Mas a vida tem seus meios irônicos de pregar peças. E por uma imensa ironia do destino, Chaney descobriu ter um câncer maligno na garganta - logo ele, tão habituado ao silêncio e prestes a aceitar, enfim, um papel falado. Foi esse câncer que o matou aos 47 anos, apenas um mês antes da estréia de seu primeiro filme falado.

Após sua morte, Chaney ganhou uma estrela na Calçada da Fama. Uma homenagem muito justa, mas não é raro encontrar alguém se perguntando quem é aquele nome. Também foi feito um filme sobre ele em 1957, "O Homem de Mil Faces", em que ele era encarnado por James Cagney - mas esse filme permanece tão escondido e raro quanto os 140 (!!) que compõe a filmografia de Chaney. Inclusive, não dá pra entender por que não existe uma "Coleção Lon Chaney" em DVD - material para isso não falta! Sempre que se fala do gênero Terror no cinema, há um espaço quase que obrigatório para Vincent Price, Boris Karloff, Bela Lugosi - que pegou o papel do Drácula após a morte de Chaney e se tornou um ícone com ele -, e até mesmo Lon Chaney Jr., o filho que seguiu os passos do pai e se tornou famoso por ser o único ator a viver os quatro grandes monstros da Universal ( O Lobisomen, Drácula, Frankenstein e A Múmia) em algum momento da carreira. Fica a dúvida de até quando o nome de Lon Chaney ficará escondido atrás das máscaras e maquiagens que ele mesmo criou - e que fizeram dele mais que uma lenda, um verdadeiro ícone.