sexta-feira, 24 de junho de 2022

A Fraternidade de Trintignant - Au Revoir para um velho amigo


Há uma exata semana, abri o Instagram e surgiu uma foto ótima do Jean-Louis Trintignant em "O Conformista". A legenda tinha apenas três letras, RIP. Reli umas quatro vezes enquanto sentia o chão tremer. O corte cruel de algo extraordinário numa legenda tão genérica e brutal, e eu ali procurando a devida Poesia. Imediatamente lembrei de ver aquele mesmo Trintignant de chapéu pela primeira vez, na tela "mezzo grande mezzo modesta" do cineminha do CCBB. Mostra Bertolucci em 2008, descobrindo "Il Conformista" em 35mm. Lembro perfeitamente da sessão pois ela revolucionou minhas noções de Cinema e de Arte. Logo, noções de Vida. Ver aquele homem "normal", tão minimalista, sem exageros e REAL… Mudou/moldou meu olhar sobre Atores, e trouxe a faísca do Desejo de viver na pele aquele processo de "ser outro". 

Ainda me é surpreendente lembrar que é o mesmo ator na capa do meu vinil de "Un Homme et une Femme", uma das mais belas Odes ao verbo Amar já captadas por uma câmera. Ou o mesmo jovem ingenuamente apaixonado pelo furacão Bardot em "E Deus Criou a Mulher". E o mesmo senhor em tons vermelhos na Fraternidade de Kieślowski. Atrás de frios e orgulhosamente blasés óculos escuros em "Z". Ou "De Repente, num Domingo" brincando de Hitchcock com Truffaut. Assisti "Minha Noite Com Ela" mais de uma vez, e a impressão era mesmo de passar várias noites com ele, o próprio Trintignant. Tivemos muitas conversas, sempre autênticas e afetivas, ainda que nunca tenhamos nos olhado diretamente nos olhos. Eu estava em Cannes no ano em que lançava "Happy End", e uma das poucas tristezas da experiência foi não ter conseguido cruzar com ele - consegui Huppert, Cuarón, Del Toro, Eva Green, Polanski, talvez nenhum desses o impacto do possível encontro com esse ídolo francês. 

Há um momento em "Amor" que sai de sua boca a simbólica frase: "Eu não lembro o filme, mas eu lembro os sentimentos". Eu lembro de cada filme, e de todos sentimentos envolvidos. Jean-Louis Trintignant foi Ator-Catarse em minha formação, sempre transbordando o tal Fator Humano que busco em cada personagem que escrevo, vivo e descubro. Viveu 91 anos e já era um imortal Gigante quando eu cheguei na festa. A verdade é que pouco muda aos imortais. Com sorte, ecoam mais alto os merecidos aplausos. Continuam entre nós, não há dúvida. Essa foto foi captada por mim no início de Abril, uma sessão especial de "Ma Nuit Chez Maud" em 35mm na Cinemateca do MAM. Foi pura Magia ver esse cara em película naquela telona lendária. Uma ótima conversa entre tela & cadeiras naquela firme ponte que sai do projetor. Desde que meus olhos encontraram aquela simplória injusta legenda de instagram, já tive muitos reencontros e papos com o mesmo Trintignant de sempre. A mesma Intimidade Autêntica de quem chegou perto, sem esforço. Nem com esforço se afastaria. As conversas continuam. A Fraternidade de Trintignant. 



terça-feira, 14 de junho de 2022

Cruise de Ferro - O Voo Alto e Triunfal de "Top Gun : Maverick"



Eu sinceramente não ligo muito pro "Top Gun" de 1986. Juro. 

Já assisti mais de duas vezes, sempre buscando entender onde estaria "tudo aquilo" que fez o filme virar referência cult imediata. E como alguém que não vê graça alguma no Top Gun original, escrevo aqui "bem alto": o novo "Top Gun: Maverick" é um FILMAÇO. Espetáculo em todos os sentidos. Cinemão. Arrebatador. Emoção de sobra. Tudo que os fãs podiam esperar que fosse, porém ainda além. O que aconteceu? Vamos analisar esse avião.


Para quem não assistiu o lançamento de 36 anos atrás, um resumo: o personagem do Tom Cruise, Pete "Maverick" Mitchell, era basicamente um jovem rebelde e arrogante. Aquele cara marrentinho do "é claro que eu sou incrível e faço o que quiser, tô nem aí pra ninguém". Um jeitão que inclusive acabaria moldando a personalidade do próprio Tom, como sabemos em suas ousadias sem dublês e no mesmo "eu faço o que quiser, tô nem aí". Tudo que acontecia ou dava errado ao longo do primeiro filme era simples consequência desse jeitão impulsivo, irresponsável. Ele era sim um bom piloto, porém basicamente um babaquinha. Indomável, como dizia o subtítulo brasileiro. Talvez seja esse o maior trunfo do novo, de primeira: o novo Maverick, 35 anos mais velho como o próprio astro, é um personagem que faz sentido. Faz as coisas com sentido. Um arco dramático e evolutivo fantástico, pelos ecos do que já viveu e do(s) que já perdeu. A relação com o "fantasma" de uma perda do passado, a relação conturbada com uma nova geração que o vê como algo ultrapassado, todas as punições e porradas já sofridas. Maverick, dessa vez, age com absoluta humanidade. É um ser humano que faz sentido. 

Outro ponto alto, involuntário e por isso ainda mais arrepiante, é troca afetiva com o agora veterano Iceman. Val Kilmer, astro dos anos 90 que estourou ali ao lado de Cruise, sobreviveu a um avançado câncer na garganta. A vitória, porém, o deixou sem voz e extremamente fragilizado. Detalhe cruel para um Ator. Cruise sabia que não faria sentido uma sequência sem a sua presença, e lutou por sua participação no projeto. Um reencontro mais esperado do que o novo filme em si, e que bate mais forte do que qualquer diálogo presente no original. Um tardio abraço que transborda pelos olhos de Tom Cruise, e pelos sons e suspiros que escapam na plateia. Aliás, são muitos os momentos de emoção à flor da pele. Quando paro para pensar, é como se eu até começasse a gostar mais do antigo agora - sem ele, não estaria aqui escrevendo sobre uma continuação, fantástica em quase tudo que o antigo não (me) empolgava. A própria equipe de pilotos, no original, era basicamente um grupo de modelos desfilando sem camisa num jogo de egos que lembrava a quinta série de qualquer colégio clichê. A famosa cena do vôlei na praia ainda exala vergonha alheia, gratuita como só. Agora o jogo é literalmente outro: uma quase mesma cena da nova equipe na praia tem o exato efeito oposto. Há ali a construção de um time, de personagens que passam a se importar com os outros, entre si. E, assim, passo também eu a me importar com aqueles seres na tela. Fica aqui um merecido "Valeu!!" ao diretor americano Joseph Kosinski, que tinha apenas 12 anos quando o primeiro chegou aos cinemas! Não é a primeira vez que ele lida com "material sagrado" dos anos 80: é dele a direção de "Tron - O Legado" (2010), que revisitava os personagens/universo do cult de 1982. Entre tantas continuações genéricas e franquias desgastadas, parece que Kosinski considera o fator Nostalgia por um prisma mais humanizado. 



São vários porém cuidadosos os ecos do filme de 86, nunca gratuitos. E isso conquista até "não convertidos", como eu. Todos os detalhes nostálgicos são de fato importantes para a evolução emocional do protagonista. Ainda que existam muitas menções à personagens do passado, são sempre os carismáticos novos nomes do (ótimo) elenco que movem a narrativa adiante. Um filme moderno que não se faz vítima do antigo. Sempre guiado pelo arco interno, sensorial. Tom Cruise já provou o ator dramático que consegue ser quando lhe interessa, mas sua maturidade  em cena surpreende de forma diferente. Há um detalhe simbólico no tabuleiro: moço Tom, em sua eterna visão jovial correndo de um lado pro outro, raras vezes viveu um Pai em seu currículo. Tirando a parceria com Spielberg no "Guerra dos Mundos" de 2005, seus Maverick e Ethan Hunt da franquia "Missão: Impossível" talvez sejam hoje os únicos "grandes heróis do mainstream" que ainda não assumiram a paternidade. Talvez um detalhe vital ao filme em questão. A trama principal lida diretamente com o choque entre Maverick e Rooster, filho de seu saudoso melhor amigo. Ainda ocorrem encontros fortíssimos e simbólicos com Amelia, filha adolescente do antigo amor vivido por Jennifer Connelly. De certa forma, as interações com esses dois jovens guiam a evolução interna de Maverick ao longo do filme. Miles Teller e Lyliana Wray driblam clichês e entregam faíscas sutis que mudam a atitude // postura do protagonista ao longo do roteiro. Emociona, humaniza. Escrevo sobre um grande blockbuster de altíssimo orçamento onde o Fator Humano pulsa e PREVALECE. 


Então é mais ou menos assim: o primeiro, de 1986, é diversão pra sessão da tarde, quase personagens de um joguinho de fliperama. A continuação podia ser uma genérica "nova ficha", apenas. Não é o caso. "Top Gun : Maverick" é sobre Fator Humano, sobre sobreviver e sentir o peso/pressão/aventura de estar vivo. Dá vontade de chegar aos 60 e manter contato com amigos queridos. E ainda ouso escrever: esse é o filme que todos os fãs de Star Wars queriam ter visto quando a Disney assumiu a saga. O desejo das gerações que cresceram acompanhando as aventuras daqueles icônicos personagens não era sentar numa sala de cinema pra ver como Han Solo, Luke e Leia iriam morrer e fazer tudo parecer "jogado pro alto". Esse é também o filme que os fãs de Blade Runner queriam quando anunciaram uma desnecessária sequência. Ninguém fazia questão de ver um Deckard desiludido e perdido entre novos personagens sem carisma algum - de quebra acabando com um dos mistérios em aberto mais legais da História do Cinema. Esse é também o filme que os fãs do Indiana Jones queriam ver em 2008, após 20 anos sem Harrison Ford com chapéu e chicote. Esse é algo que talvez nenhum Missão Impossível da recente safra tenha sequer chegado perto, após o terceiro filmaço de 2006. 



Mais polêmica à vista: as cenas de ação do original não eram lá tão empolgantes assim, cá entre nós. A batalha final do Star Wars de 1977 dava de 2 mil a zero, em decupagem visual e envolvimento entre os pilotos. Dessa vez, é uma experiência imersiva, à flor da pele. Dá pra sentir a gravidade mudar na cadeira, até porque os atores sentiam. Quase tudo realizado e captado sem o uso de efeitos especiais, com atores treinados a lidar com pressões das cabines e Cruise de fato lá dentro fazendo aqueles absurdos. Algo esperado, afinal ele é louco. Ele é o Maverick. 

A missão especial que puxa a trama pede que a equipe principal execute dois milagres, fundamentais pra tudo dar certo. Pois me parece que esse "Top Gun : Maverick" é, em si, o milagre. Presenciei uma sala de Cinema quase lotada em absoluto silêncio, inúmeras vezes ao longo da sessão. Consegui prestar atenção em pessoas vibrando nas cadeiras, rindo de nervoso, rindo com vontade, chorando de soluçar. Me vi completamente envolvido e arrepiado - eu mesmo, sempre indiferente ao original. De quebra, o filme foi lançado com pompa e luxo e tapete vermelho no Festival de Cannes (!), já rendeu mais de 700 milhões de dólares e se tornou o filme mais lucrativo da carreira de Tom Cruise. O que mais um cinemão pipoca desse porte pode desejar? É como se tivessem feito aquele show de testosterona em 1986 só para justificar e "dar razão de ser" para esse real FILMAÇO realizado 36 anos depois. É como se uma espera (não planejada) por mais de três décadas tivesse valido muito a pena. Pois vale. Vale demais. 








quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Veni, Vidi, VITTI - O Eclipse de Monica


Ontem, dia 2 de Fevereiro de 2022, li diversas manchetes que anunciavam a morte de Monica Vitti. Matérias em português, italiano, francês, inglês. Nunca pensei que leria aquela informação, na língua que fosse. Monica Vitti, nascida Maria Luisa Ceciarelli. Minha musa favorita do Cinema Mundial, desde a primeira sessão de "L'Avventura" (1960) - a mesma sessão que mudou minha forma de observar/captar a existência. Quando aqueles cabelos loiros surgiram na tela ornando a face estrondosamente hipnótica, eu já não precisava de narrativa, de Início / Meio / Fim. A Aventura de Michelangelo Antonioni durava duas horas e meia, e eu cheguei aos créditos finais convicto de que poderia assistir aquela moça italiana por cinco, seis horas, quem sabe até sete. 

Mergulhei de cabeça (e alma) nos outros títulos da atemporal Trilogia da Incomunicabilidade, "A Noite" (1961) e "O Eclipse" (1961). Vitti, sempre em cena, era turbilhão de Fascínio e Poesia. Como um apaixonado por Cinema Mudo, ouso garantir que ela poderia ter sido uma grande estrela de filmes silenciosos, pelo tanto que comunicava em pura presença e irresistível carisma. As obras assinadas por Antonioni não eram lá muito falantes, mas poucas vezes vi um olhar tão expressivo, em tantas sutis nuances. São muitos os momentos em que Vitti grita e explode sem despentear um fio do icônico cabelo ao vento. Em qualquer contexto incomunicável, seu cabelo sempre ventava. Sempre se fazia compreender sem a palavra. A risada aberta e contagiante (!como era versátil!) coloria até o mais contrastado preto e branco. Em algum documentário do meu acervo, ouvi do próprio Antonioni: "Não preciso me preocupar muito com estética. Quando Monica está diante da câmera, qualquer enquadramento é o melhor possível". Ao escutar essa frase, entendi enfim o que seria o tal Amor. 


Para a História da Arte Mundial, bastaria à Monica Vitti a participação naquelas três obras que expandiram os limites do Cinema autoral. Ou bastariam as trocas criativas com Antonioni, tão intensas que transbordariam em intenso Romance. Começou em sua voz, ao dublar Dorian Gray no ainda neo-realista "O Grito" (1957). Após a trilogia revolucionária e chuva de prêmios ao redor do planeta, abraçaram as cores no saturado "O Deserto Vermelho" (1964). Leão de Ouro em Veneza -  nada mal, pra variar. Fim do romantismo, só voltariam a pisar no mesmo set "como bons amigos" em 1980, para "O Mistério de Oberwald" (1980). Para qualquer atriz "eficiente" e restrita ao olhar de um cineasta apaixonado, até que bastaria. Monica Vitti, vastíssima e potente, foi muito além. 




Duplina Antonioni-Vitti desfeita, o diretor italiano foi se aventurar pela Inglaterra, onde gravou a obra-prima "Blow-Up" em 1966. Moça Vitti pegou outro trem no mesmo ano, pro mesmo lugar, para também experimentar o sotaque inglês. Surgiu gigantesca no orgulhosamente pop "Modesty Blaise", encarnando a icônica personagem dos quadrinhos de Peter O’Donnell. Dirigida pelo veterano Joseph Losey, e sob a imortal trilha puro jazz de Johnny Dankworth ( ouçam no Youtube, Spotify, qualquer lugar, mas ouçam! ), Vitti explodiu em charme - antecipando em uma década o seriado "As Panteras". Imagine: era a melhor Bond Girl possível, mas sem precisar de um Bond! Caso alguém ainda duvidasse de sua extrema versatilidade, era prova indiscutível do talento pra Ação e, principalmente, pro Humor. A diva, já reconhecida como uma das atrizes mais belas e talentosas de seu tempo, se consagraria definitivamente na Comédia Italiana. Sob a batuta de mestres como Mario Monicelli e Ettore Scola, ultrapassaria a bolha dos críticos e se tornaria um dos rostos mais celebrados pelo grande público. Assim foi com os sucessos "A Garota com a Pistola" (1968) e "Ciúme à Italiana" (1970). La Vitti até experimentou a loucura do espanhol Buñuel em "O Fantasma da Liberdade" (1974). Tudo funciona até hoje, muito graças ao seu irresistível e natural carisma. Poucas vezes a câmera cinematográfica se permitiu um flerte tão escanradado e apaixonado com uma Atriz. Faço questão do A maiúsculo. 

O último filme de Monica Vitti foi lançado em 1990. "Scandalo Segreto" foi escrito e dirigido pela própria, protagonista ao lado do americano Elliott Gould.  Sua estreia na direção, com primeira exibição na mostra Un Certain Regard daquele Festival de Cannes. Apesar da pompa e luxo, foi seu trabalho final, por escolha. Isso quer dizer que quando eu surgi no mundo, em 1992, La Vitti não mais fazia Cinema. Ao me apaixonar por sua figura (aberta & declaradamente), descobri que a última aparição pública tinha sido em 2002, por indiscretas fotos de paparazzis durante um passeio com o marido - o roteirista (e muito sortudo!) Roberto Russo. Desde então, ela permaneceu reclusa e afastada de qualquer contato público por duas décadas. Vítima de uma doença degenerativa que lhe tirou a memória e autonomia, confiou sua existência à cada frame eternizado por sua magnética presença. Visitar seus filmes (qualquer um e todos) é degustar o prazer dos sonhos que testemunhamos de olhos abertos. 


Procuro por alguns frames e fotografias para ilustrar esse texto. Muitos olhares e sorrisos familiares, alguns ângulos nunca vistos e sempre surpreendentes. Diferentes penteados,  exóticos figurinos, viscerais intenções dramáticas. Meu mesmo fascínio, na certeza de uma grande paixão. A aparição de La Vitti me aconteceu em 2007, numa retrospectiva especial pela morte de Antonioni naquele ano. Desde aquela primeira sessão, que mudou/moldou minha visão de mundo, é bem possível que eu (involuntariamente) busque ângulos e ecos de moça Vitti por cada esquina que visito, em cada enquadramento que sigo fazendo. Os jornais, posts e links seguem afirmando que Claudia, Vittoria, Valentina, Adelaide, La Ragazza con la Pistola, Mrs. Foucauld, La Tosca, a Modesty Blaise em pessoa não existem mais. Como pode? "Monica Vitti  morreu". Como ousam escrever que uma Obra de Arte morre ? Se acreditam mesmo nisso, sinto quase pena. O latim que me permita a convicção: Veni, Vidi, Vitti . 




sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

To Sid, With Love - Sidney Poitier (1927-2022), uma Vida a ser Lembrada.


Sidney Poitier roubou a cena de Tony Curtis no "The Defiant Ones" de 1958 e se impôs como astro em "O Sol Tornará a Brilhar", de 1961. Isso dentro de um país no auge do racismo extremo, em uma indústria armada contra qualquer figura como a dele. Não bastasse tamanha ousadia, levou o Oscar de Melhor Ator por "Lilies of the Field" - aqui simbolicamente lançado como "Uma Voz nas Sombras" . O ano era 1964. É possível que algumas gerações mais desapegadas à História do Século XX não tenham devida ideia ou proporção da Magnitude desse feito. 


Respeitadíssimo em cena e já laureado, o homem chegou a gravar na Inglaterra com toda pompa & luxo aquela que talvez seja sua mais popular pérola: "Ao Mestre, com Carinho" (1967). Inclusive o título merece ser ecoado na eterna canção "To Sir With Love" - número Um da Billboard em 1967, emocionante até hoje. Como se não bastasse tudo isso (e bastava), Sidney Poitier assumiu a direção de nove filmes, desde o faroeste "Buck and the Preacher" (1972) até o sucesso de público "Loucos de Dar Nó" (1980). Um gigante protagonista de momentos gigantescos, voltou ao palco do Oscar em 2002 - no mesmo ano em que Denzel Washington e Halle Berry ganhavam suas estatuetas douradas. Os dois brindaram e dedicaram os prêmios ao ídolo presente, com muita razão. Foi de Poitier o primeiro Oscar para um negro na categoria principal, assim como o primeiro Oscar honorário pela carreira. Foi também o primeiro astro negro a se tornar Embaixador e a receber a Medalha Presidencial da Liberdade do presidente Obama, em 2009. 


Provável que muitos dos tributos à sua persona venham acompanhados dessas fotos Oscarizadas, devidamente grandiosas. Optei por destacar esse singelo poster de "Warm December", maduríssima obra que ele mesmo viabilizou e dirigiu em 1973. Além da extrema beleza estética e de todo simbolismo de seu auge criativo, uma certeira frase que resume sua nobre existência: Something to Remember.



quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Esse Pequeno Era uma Parada - A Última Sessão de Peter Bogdanovich (1939-2022)


Eu estive com moço Bogdanovich recentemente, no final de 2021, em uma das minhas constantes "sessões da madrugada". Era um documentário-entrevista em que ele relembrava conversas & sets com o lendário John Ford, quando foi uma jovem testemunha viva da História do Cinema Americano. Décadas de imersões criativas, extras de DVDs e madrugadas insones acabaram por tornar Peter Bogdanovich esse distante amigo muito presente na minha formação cinéfila. Para além dos próprios filmes com sua assinatura, ele sempre surgia com as grandes armações oculares, postura sofisticada e calma voz de veludo - quase sempre narrando sobre algum grande cineasta ou obra da Sétima Arte, tratada por ele com devidas letras maiúsculas. Acima de tudo, um cinéfilo apaixonado. E foi sob esse prisma que ele se lançou na ousadia do "bora fazer um filme".


Quando se estuda/pesquisa sobre a chamada Nova Hollywood que contagiou a produção cinematográfica mundial nos anos 70, gritam  e jorram nomes "famosos" como Martin Scorsese, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Brian De Palma, Dennis Hopper, George Lucas e outros "rebeldes" que revolucionaram a experiência da sala escura. Em sua grande maioria, cineastas de fato jovens e sedentos por novos modos de captar aquela louca realidade regada ao sexo & drogas & rock’n’roll - a frase clichê surgiu ali, na prática. Muitos viviam literalmente essa overdose, com consequências estéticas e visuais em seus trabalhos. Nesse contexto, moço Peter Bogdanovich destoava como um "jovem velho". Orgulhosamente nostálgico, ele sempre se voltou aos veteranos mestres que despertaram sua paixão. Existem muitas fotos do jovem Peter ao lado de envelhecidos titãs do Cinema. Figurões como Howard Hawks e Alfred Hitchcock, quase entretidos por sua extrema e sincera curiosidade. Reza a lenda que o próprio Ford certa vez lhe indagou: "Me diz uma coisa: você nunca vai parar de fazer perguntas?". Bogdanovich nunca parou - e sempre fez questão de nos contar as ótimas respostas. 


Quando resolveu deixar de ser "apenas um cinéfilo" e dar o passo adiante como cineasta, o fez sob o prisma dessa mesma Nostalgia. "A Última Sessão de Cinema" foi um fenômeno no lançamento em 1971. Indicações ao Oscar pra todos os lados, aliás justíssimas. Unanimidade entre crítica & público, o que é sempre difícil, sua melancólica ode ao fim de uma era ainda surpreende pela explosão de humanidade. Aos 32 anos, conduziu jovens talentos com firmeza de mestre e iluminou para o mundo o brilho de Jeff Bridges, Ellen Burstyn, Cloris Leachman (que levou o Oscar) e Cybill Shepherd (que levou seu coração). Ainda hoje, muitos entendidos afirmam que poucas vezes um diretor foi tão maduro em seu primeiro filme como Bogdanovich em seu "The Last Picture Show". Não é exagero, mesmo que seu primeiro longa de fato tenha sido o obscuro "Targets"(1968), que ninguém viu. Ok, tudo bem, o Bogdanovich de 32 dirigia mesmo com a potência de um veterano de 82. 



Ainda que "Jovem Adulto" e orgulhosamente cult, Bogdanovich era igualmente inquieto e criativo como os amigos contemporâneos. Só na década de 70, lançou sete filmes, um potencial clássico atrás do outro. Qualquer leigo que caísse no meio de "Lua de Papel" (1973) ou "At Long Last Love" (1975) podia logo deduzir duas coisas: 1) ok, esse homem é um nostálgico e 2) ok, esse homem sabe fazer Cinema! Sua outra grande pérola, porém, veio logo na sequência do auge de 1971. "What’s Up, Doc?", já de 1972, deixava bem claro pro mundo que a cantora Barbra Streisand era mesmo uma parada!!! O tipo de Comédia louca e anárquica que poderia ser uma catástrofe na mão do diretor errado. Mas Peter Bogdanovich, tão mauricinho e "sério", era o diretor certo. E carismático! Vale uma busca rápida ao trailer original do filme, onde não resta dúvida: a grande estrela é o diretor-autor e seu tom de humor! Ele rouba o show, brinca com a câmera, mostra até como a moça deve cantar no enquadramento. O climão de diversão deu numa das comédias românticas mais irresistíveis e marotas que eu já assisti e reassisti e talvez hoje reassista de novo. Um desenho animado em live action - and there’s a lot of action! Sucesso pra Barbra, sucesso pro Pete. 


Os anos 80 e 90, com tanta tecnologia e cultura pop, deixaram evidente o descompasso de Bogdanovich com seu tempo. Até nos pulsantes anos 70, ele fazia filmes que evocavam ou se passavam em outros tempos, "ecos dourados". Perdeu o timing, mas não o prestígio.  Já idolatrado como "ícone veterano do Cinema" (e de fato se portava como tal), abraçou a persona. Passou inclusive a marcar presença como Ator & "Participação Especial" em diversos filmes e séries - quase sempre vivendo figuras imponentes de analistas ou historiadores ou especialistas em qualquer assunto que fosse. E assim se tornou um rosto familiar em "Família Soprano", "How I met your mother" e até nos "Simpsons" (!). 


Moço Bogdanovich sempre aceitou os (imagine) inúmeros convites para documentários e retrospectivas sobre os gigantes do Cinema que conheceu bem de perto. Provável que uma de suas Amizades mais cultuadas e lendárias tenha sido a com o envelhecido Orson Welles, em sua fase crepuscular. Já notoriamente um gênio indiscutível, Welles passava por momentos de crise criativa e financeira quando Bogdanovich mergulhou em sua existência. Aquele jovem discípulo, atento e autêntico, foi figura fundamental para Welles levar adiante (e começar a concretizar pra valer) o quase inacabado  "The Other Side of the Wind". Projeto ambicioso nunca lançado pelo cineasta, o longa foi finalizado mais de 40 anos após as gravações (!!!), a partir dos negativos originais guardados a sete (oito, nove) chaves em cofres e coleções pelo mundo. Nesse verdadeiro tesouro (quase) perdido, o jovem Bogdanovich no auge da fama não apenas cedeu locações, carros e parte do orçamento, como tem papel de destaque como ator - é o grande nome do elenco ao lado do imponente John Huston. Certa vez ele próprio a encarnação do Futuro de Hollywood com seu primeiro filme (um tal de "Cidadão Kane"), ali estava um envelhecido Welles diante do novo futuro. As caseiras e afetivas imagens dos bastidores revelam muito da admiração (e inevitável comparação) mútua que sustentou esse fortíssimo laço entre os dois geniosos criadores. 




Assistir uma cópia final de "O Outro Lado do Vento", finalmente bancado&lançado pela Netflix  

em 2018, é um verdadeiro milagre. Em diversos aspectos. Milagre para fãs de Welles, milagre para fãs de Cinema no sentido mais amplo. Imagens épicas, atemporais e poéticas, sobreviventes do tempo - diferente do elenco/equipe, já quase todos ausentes na tardia estreia. Ao saber da morte de Peter Bogdanovich aos 82 anos, nessa primeira semana de 2022, o primeiro sentimento foi de imediato alívio. Ele conseguiu assistir "The Other  Side Of The Wind" pronto, ufa! Deu tempo. E ainda foi o consultor direto da edição, justíssimo. Se alguém podia ser a testemunha viva daquele processo, era ele. Sempre foi, por tantos filmes e cineastas que testemunhou de perto. Após esse primeiro alívio, o seguinte foi lembrar que ele continuaria disponível para conversas nostálgicas e insones, em futuras sessões da madrugada. Sempre à distância do "Play" dos inúmeros DVDs da minha coleção que contam com sua pausada voz e luxuosa presença. Ufa. A Última Sessão de Cinema nunca será a última. 

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Contos Proibidos - "The French Dispatch", uma publicação Wes Anderson

 


"Possível que seja essa a obra-prima definitiva do Wes Anderson". 
Lembro que essa foi a frase ao sair da sessão de "Moonrise Kingdom" no Estação Botafogo em 2012. Afinal, o já esperado turbilhão estético maravilhosamente decupado em cada mínimo detalhe parecia ali ter alcançado um nível máximo e inimaginável. E assim foi até assistir "O Grande Hotel Budapeste" na mesma sala de cinema em 2014. E repetir a exata mesma frase ao final da sessão. Estava tudo ali, para além de qualquer (alta) expectativa. Quase orgulhosamente inacreditável - e marotamente diante dos olhos. Corte para 2021. Final da sessão do "The French Dispatch". Mesmo Botafogo de sempre. Mesma frase na ponta da língua, tentando escapar. Orgulhosamente inacreditável, marotamente diante dos olhos. 

Ame ou odeie, não se pode negar que Wesley Wales Anderson é um dos cineastas mais originais e tecnicamente brilhantes em atividade no século 21. Também não se pode entender como, excêntrico do jeito que é, esnobou o uso do Wesley Wales da certidão para seu nome artístico. Como explicar isso?!?! Talvez seja parte do charme nem sempre fazer sentido. É porém difícil de contestar que seus Excêntricos Tenenbaums de 2001 já lhe garantiam lugar seguro na História do Cinema "Recente". Os seguintes "A Vida Marinha com Steve Zissou" (2004) e "Viagem a Darjeeling" (2007) apenas confirmaram sua reputação e o coração de cinéfilos cults ao redor do mundo. Wes Anderson, antes dos 40, já não precisava provar nada a ninguém. De lá pra cá se permitiu brincar com a nostalgia da animação stop-motion ( "O Fantástico Sr. Raposo" em 2009 e "Ilha de Cachorros" em 2018 ), além das duas obras-primas que abrem esse texto. E agora, ao agora.



Quando anunciou o novo roteiro finalizado lá em 2018 (ainda como um musical ambientado na França), moço Wes nem precisava se esforçar muito pra ter fãs + críticos + produtores em suas mãos. Lê-se: plena & absoluta liberdade criativa. O resultado é… Múltiplo. Mais de um. Vasto até no título original, "The French Dispatch of the Liberty, Kansas Evening Sun". Como explicar sua nova ousadia? É o seguinte: imagine que Wes Anderson estivesse cheio de pequenos contos com sua deliciosa assinatura autoral - todos muito promissores, porém curtos e "soltos" demais para sustentar um longa. E aí veio o estalo para unir o útil ao ótimo: leitor assíduo, sempre foi apaixonado pela The New Yorker, influente e histórica revista publicada desde 1925. Um marco da cultura americana ao misturar fatos, análises, política, sociedade, crônicas, contos, ensaios, com tudo charmosamente ornado por belíssimas capas desenhadas especialmente para cada edição. Surge assim a tal The French Dispatch, publicação fictícia do editor-chefe vivido pelo amigão de sempre Bill Murray. É o personagem criado para ler, ligar e editar todos os distintos blocos narrativos. Pronto, resolvido. Trata-se de uma coletânea, um convite (irrecusável) a degustar esse "tesouro literário", página a página. E capa a capa, pois foram muitas as ilustrações criadas especialmente para ilustrar a trajetória da revista. A começar pelo fantástico pôster, são obras de Arte delicadíssimas que justificariam uma exposição irresistível. Voltando à estrutura escolhida (até na questão das ilustrações), é um esquema parecidíssimo com o criado pelos Irmãos Coen em "A Balada de Buster Scruggs", coletânea de westerns lançada pela Netflix em 2018. A proposta é basicamente a mesma, aqui ao molho Wes Anderson. 


Essa licença poética-autoral permite explorar "diferentes vozes" (distintos escritores, cada um com seu tom) e núcleos isolados, sem a necessidade de um arco único que tudo ligue. Pura faísca pra explosão criativa. A afinadíssima parceria com Robert Yeoman, seu fotógrafo de sempre, transborda em cores hipnóticas e PB nostálgico. O cineasta pinta, brinca e borda com ecos (conscientes) de Cinema Mudo, Nouvelle Vague, Radionovela, Pintura clássica, Expressionismo, Impressionismo, Noir, Fotografia urbana do século 19, Maio de 68, Psicanálise, Pop-Art, Surrealismo, Animação 2D, tudo junto e misturado numa mesma edição extraordinária. Um visceral caldeirão de referências sem fim que chocantemente se sustenta e se converte no desfile de estrelas e enquadramentos prontos para as paredes de qualquer museu do mundo. Aquele mesmo papo: um turbilhão estético e sensorial, orgulhosamente inacreditável e marotamente diante dos olhos. 



Claro que nem sempre funciona de forma perfeita, e nem tenta. Uma receita com tantos ingredientes naturalmente traria pontuais tons agridoces ou que passam sem marcante impacto. Velhos conhecidos da trupe como Jason Schwartzman, Willem Dafoe e Edward Norton surgem simbolicamente apenas para garantir os nomes no pôster e um eventual "ah, sim… ele tá ali né!". É ver (e não piscar!) pra crer. Até mesmo Anjelica Huston, rosto imponente na galeria de personagens do cineasta, surge apenas como narradora ocasional. É um dos "preços" e aspectos de contar com um elenco tão vasto em menos de duas horas. Há espaço para brilho (e roubadas de cena) de  gente como Benicio del Toro, Adrien Brody e Léa Seydoux - aliás, trio presente no melhor fragmento do combo. Ter uma Frances McDormand em ação até ajuda a ignorar o fato de que queridinho do momento Timothée Chalamet destoa do climão geral. Ali no meio da três vezes Oscarizada veterana e da promissora franco-argentina Lyna Khoudri, a gente quase esquece qualquer canastrice no olhar do jovem moço. 



Para muito além de comentar cada performance ou fragmento selecionado para a "publicação", é a todo momento evidente que cada detalhe/corte/recorte/sugestão/visual foi muitíssimo bem planejado e orquestrado pela delirante mente estampada de Wes Anderson. Algo tão genuíno que se reflete na própria originalidade do roteiro. Já nos primeiros minutos da obra, somos apresentados ao lema que guia o personagem de Murray na escolha dos seus escritores e materiais: "Tente parecer que você escreveu daquele jeito de propósito". Já nesses primeiros minutos da obra, Anderson compartilha sua carta de intenções com o público. "The French Dispatch" não é e nem precisa ser a melhor obra do cineasta - ainda que a todo momento desfile claros motivos visuais, poéticos, filosóficos e humanos de que muito bem poderia ser. 



O filme foi lançado no Brasil com a tradução "A Crônica Francesa" - mas poderia muito bem ter mantido a força "editorial" do título original, tal qual sabiamente fizeram em "Moonrise Kingdom". Enquanto esse comentário é devidamente esnobado e esse texto é finalizado, Wes Anderson, seu fotógrafo + fiel equipe de costume já avançam com "Asteroid City", novo roteiro que promete trazer "o maior elenco já reunido numa obra do diretor". Ou seja, aquele timão de sempre mais algumas estrelas completamente inusitadas - no caso, os já confirmados Tom Hanks e Margot Robbie (!!) . O jovem texano que ousou bancar seu universo atípico em baixíssima produção nos passos iniciais de "Bottle Rocket" (1996) e "Rushmore" (1998), hoje deita em sua cama (colorida, e bem no centro do quarto) plenamente aliviado. Aos 52 anos, ídolo de fã clubes em todas as línguas do planeta e com membros invejáveis no elenco de seu cartão fidelidade, ele pode escrever o roteiro que bem quiser - como se tivesse feito daquele jeito de propósito. Não precisa provar nada a ninguém. Possível que seja essa sua obra-prima definitiva. 


segunda-feira, 5 de julho de 2021

O Feitiço de Donner - O Cineasta que nos fez Voar .


Você com certeza já amou algum filme de Richard Donner. Pode até não saber e não ligar o nome às obras, mas com absoluta certeza você também faz parte do clube dos que já amaram algum filme de Richard Donner. Sua assinatura + sutileza na condução eram aulas magnas gritantes até nos (poucos!) filmes não se tornaram objetos de culto. O americano nascido no Bronx, um dos campeões do Cinemão com "ão" de qualidade, saiu de cena hoje aos 91 anos. É um baque maior do que muitos cinéfilos podem se dar conta. 

Donner já teria posição garantida e segura no Olimpo da Cultura Pop apenas com os dois hits lançados no mesmo 1985: "Os Goonies" e "O Feitiço de Áquila". Sim, pois é. Aos fãs de Ação, ainda deu de presente os quatro divertidíssimos volumes da franquia "Máquina Mortífera", entre 1987-1998 - gênero que marcou também seu canto do cisne no intenso "16 Quadras" (2006). Até quando não era unanimidade de crítica e público, marcava profundamente os conquistados por pérolas atípicas como "Os Fantasmas Contra-Atacam" (1988) e o remake do charmoso western "Maverick" (1994). Resumindo: o homem passeava com fluência entre Sessões das Tardes, Temperaturas Máximas e Domingos Maiores. E apenas tudo isso já bastaria. 

Porém suas duas obras-primas mais influentes e fundamentais datam de antes de tudo isso, ainda nos anos 70. Seu nome ecoou forte pela primeira vez através de gritos e traumas no clássico imediato "A Profecia" (1976), um dos pontos altíssimos do terror nos anos 70. E falando em "ponto alto", foi logo na sequência que ele provou máxima versatilidade ao trocar suspenses e anticristos por fascínio e Magia em absoluto estado de graça. As novas gerações, famintas por lançamentos da Marvel e da DC, talvez não compreendam plenamente o inacreditável impacto do "Superman" de 1978. Quando a trilha arrepiante de John Williams anunciou os créditos de abertura e um imortal Christopher Reeve levantou voo com sua capa vermelha, a História do Cinema mudou. Simples assim. Muito além de ensinar gerações de novos cineastas a adaptar seus heróis dos quadrinhos para um grande épico audiovisual, Donner provou o que o mundo inteiro queria ver pra crer: um homem podia, sim, voar bem alto. E não há nada mais Super que isso. Graças ao seu instinto criativo e ao insistente mergulho no até então inviável projeto, foi possível voar Reeves, foi possível voar o público, foi possível voar um novo gênero e qualquer nível de espetáculo visual. Agora, na companhia de seus eternos amigos Clark Reeves Kent e Lois Kidder Lane, Richard Donner alça um voo tão seguro quanto o de seu eterno Superman. Alguns heróis não usam capas, mas sabem enquadrá-las como ninguém.




quarta-feira, 30 de junho de 2021

O Bilhete Dourado - 50 Anos de Magia na "Fantástica Fábrica de Chocolate" de Willy Wonka!




A fábrica de chocolates mais famosa do mundo abriu as portas para os cinéfilos do mundo no dia 30 de Junho de 1971. Nessa exata data, "Willy Wonka and The Chocolate Factory" chegava às telonas prontíssimo para para se tornar um dos filmes definitivos da infância de uma imensa porcentagem de seres humanos. Desde seu lançamento há exatos 50 anos, segue como uma aula de Fantasia e fascínio visual nas (muitas!) sequências e personagens icônicos ali introduzidos à cultura pop. Desde então, reprises em nostálgicas "Sessões das Tardes" e óbvias referências estéticas/narrativas em outras obras permitem que esse (literalmente) delicioso clássico conquiste novas gerações sem perder nada de seu charme e essência. 


Tudo começou quando a filha do diretor Mel Stuart leu o livro infantil "Charlie and the Chocolate Factory", de Roald Dahl. Fascinada por aquele universo e seus personagens atípicos, insistiu até convencer o pai cineasta: ele precisava levar para as telas a trama do garoto pobre que consegue um dos cinco bilhetes dourados necessários para visitar a fábrica de doces mais famosa do mundo. Até ali, o americano Stuart era mais reconhecido pelo polêmico documentário "Four Days in November" (1964) - onde ousou mergulhar no assassinato do presidente J.F. Kennedy no ano seguinte ao ocorrido. Seu doc foi indicado ao Oscar, porém ele se voltou para comédias mais leves como "I Love My Wife" (1970), com o muso improvável da Nova Hollywood Elliott Gould. Devidamente contagiado pela proposta, o diretor buscou a ajuda do amigo produtor David L. Wolper. Juntos e determinados, conseguiram um inesperado presente: buscando os direitos de adaptação com Roald Dahl, conseguiram a participação do próprio autor no roteiro. Um luxo.




Para começo de conversa, o título original foi modificado para "Willy Wonka & the Chocolate Factory" - desde já reforçando o foco e curiosidade pelo excêntrico dono da fábrica. E também, muito espertamente, para dar nome à linha de doces reais que seria lançada junto ao filme. Doces esses que existem e são vendidos até hoje - porém nada de visitas à fábrica! Embora não fosse o ator imaginado por Dahl, Gene Wilder foi sondado pelo diretor como "a única opção possível" para o papel. E não há hipótese de sombra de dúvida: sua lendária e icônica presença é peça fundamental para a MAGIA (com letras maiúsculas) da obra. Cá entre nós, não é nada difícil encontrar elementos assustadores e sinistros: um delirante homem recluso que vive em uma fábrica de doces com pequenos seres coloridos que entoam sinistras melodias em grupo + os traumáticos efeitos colaterais e castigos extremos nos (naturalmente) curiosos jovens visitantes + um "vilão" silencioso com gráfica cicatriz no rosto. Como pimenta (e não cereja) do bolo, a controversa sequência da viagem lisérgica de barco - digna dos mais perturbadores filmes de terror. É ver pra crer. Ainda assim, é a figura simpática e (chocantemente) hipnótica de Wilder que garante os tons de absoluta leveza a qualquer loucura que acontece em cena. A maneira como ele entrega cada uma suas falas é digna de quadros e estampas de camisas, adicionadas aos calculados movimentos de desenho animado que facilitam o convite para aquele mundo dos sonhos. Somos todos seus convidados especiais e é impossível recusar o passeio. Além do auge de um ator em pleno estado de graça, o Willy Wonka de Gene Wilder é uma das maiores performances da História do Cinema. Garantia da Eternidade para o carismático ator morto em 2016, aos 83 anos. 



"A Fantástica Fábrica de Chocolate" é um combo perfeito de tudo que um clássico da infância precisa: desfile de personagens carismáticos, cores fortíssimas (muitos acreditam até hoje ter sido um filme 3D!), momentos musicais icônicos, melodias inesquecíveis e reviravoltas emocionantes. Uma obra que nunca deixa de surpreender quem a revisita, em novos detalhes e camadas sem fim. Segundo o diretor, seu segredo foi evitar a todo custo realizar um infantil bobo, e caprichar no humor sagaz de piadas ambíguas - para ele, crianças não são tão ingênuas e deviam ser tratadas com inteligência. Deu certo. O clássico de 1971 oferece tom e estética bem mais impactantes que a overdose de efeitos digitais orquestrada por Tim Burton em seu remake de 2005. É um tipo de magia que nenhum CGI ou fundo verde daria conta. Em 16 anos, a versão de Burton envelheceu tudo que o original de Stuart mantém firme e forte por cinco décadas. E independente de nossas idades, todos voltamos a ser crianças com brilho nos olhos quando o Willy Wonka de Gene Wilder nos convoca nos versos "Come with me / And you'll be / In a world of pure imagination". Um bilhete dourado sem prazo de validade. 




sexta-feira, 11 de junho de 2021

A Canção do Centenário - Os 100 Anos de Satyajit Ray



O cineasta indiano Satyajit Ray nasceu no dia 2 de maio de 1921. Ou seja, é um recente centenário - ainda que tenha morrido em 1992, aos 70 anos. Meu ponto: foram muitas as celebrações e retrospectivas nos simbólicos 100 anos de Orson Welles (em 2015), Bergman (2018) e Fellini (2020), só para citar alguns da última década. Moço Ray merecia (muito) mais barulho, e o motivo para tal costuma ser resumido à influente "Trilogia de Apu". O que poucos sabem é que nos 37 anos que dedicou integralmente ao Cinema,  o cineasta lançou quase 40 filmes numa impressionante média de um longa por ano. Entre eles, pérolas pouco valorizadas como "A Deusa" (1960) e "A Esposa Solitária" (1964), absolutas aulas de Poesia e Sensibilidade Visual. Todas na íntegra no Youtube mais próximo, vale lembrar. 

Há claro motivo para a tal "Trilogia de Apu" ser presença garantida em qualquer lista que se preze de "Melhores Filmes de Todos os Tempos". O primeiro do trio, também o inicial trabalho do ex-ilustrador com uma câmera, levou quatro anos para ser concluído com orçamento mínimo - e já começou fazendo barulho. "A Canção da Estrada" (1955) levou o inédito (e único) prêmio de "Melhor Documento Humano" naquela edição do Festival de Cannes. O nome escolhido para a consagração do Júri resume bastante. A câmera contemplativa e sábia de S. Ray enquadra a natureza como fundamental personagem ativo e mais importante efeito especial em cena. É ela, a Natureza, a ditar mudanças e reviravoltas implacáveis que atingem a pobre família do pequeno Apu, um mero coadjuvante do Espetáculo da Vida. Ainda que belíssimo em cada vagalume ou trem distante ao horizonte, é um turbilhão igualmente cruel. Não muito diferente que no lado de cá da câmera, nos apaixonamos pelos personagens na mesma rapidez que os perdemos. Um fluxo que segue implacável em "O Invencível", sequência imediata de 1956. Como uma jovem criança fascinada pelas figuras determinantes da Infância, somos guiados e envolvidos pela envelhecidíssima (e quase inacreditável) tia Indir, a carismática irmã mais velha Durga, e por todos os sacrifícios da arrebatadora figura materna encarnada em Karuna Banerjee. Doses mais gentis de esperança surgem ao horizonte em "O Mundo de Apu" (1959), meu favorito exatamente por fechar o arco do personagem (enfim protagonista da própria narrativa!) sem desvalorizar os ecos de seu turbulento passado.  Em trio, formam um perfeito "Documento Humano" que ultrapassa barreiras temporais e culturais.




O igualmente Gigante cineasta japonês Akira Kurosawa, fã confesso de S. Ray, certa vez declarou publicamente que nunca ter visto um de seus filmes "é como viver na Terra sem nunca ter visto o Sol ou a Lua". Gentilezas à parte, vale destacar que o Sol e a Lua são sempre os mesmos por todo o planeta, independente dos diferentes ângulos de observação. A metáfora cabe para o caráter Humano que transborda de cada filme bengali assinado por S. Ray. É evidente que alguns figurinos sejam sim exóticos, e alguns rituais muito regionais, a ponto de parecem quase fantasiosos. Porém é a Essência dos olhares e gestos que seguem em intocável sintonia com quem ali consegue identificar as pequenas aldeias e viajantes de 2021. São os ecos de Humanidade que extrapolam os 100 anos que Satyajit Ray teria vivido até aqui - e garantem a Eternidade a qualquer artista. 

O trunfo maior da Trilogia de Satyajit Ray?  Descobrir que a Canção da Estrada nos é uma melodia familiar, que já sentimos (todos!) o ímpeto Invencível e muito principalmente que o Mundo de Apu, pasmem, não é tão diferente do nosso. 




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Pintura Íntima - As certeiras incertezas de "Jane B. par Agnès V."


Visitar a obra da cineasta belga Agnès Varda sempre engata indagações e revoluções artísticas. Sua co-existência com o mundo, desde as origens na Fotografia, se fundiu completamente ao processo criativo artístico em si. É sempre um difícil desafio descrever quase todos seus filmes: é ficção? é documentário? é possível de se definir? Um caminho mais seguro é o "Em todo caso, assista, e o quanto antes". Certamente, verdadeiros estados de espírito gentilmente compartilhados com quem aceita o convite ao mergulho.


Um fascinante exemplo disso tudo é "Jane B. par Agnès V.", cuja gravação em 1987-88 foi motivada puramente pela curiosidade genuína que Varda tinha por Jane Birkin. Uma das criaturas mais belas que já caminharam na Terra, a modelo/cantora/atriz (hoje com 74 anos) já era mundialmente famosa e documentada. A busca da marota e inquieta cineasta era por ângulos e curvas que a própria personagem principal desconhecia. E essa constante procura orgulhosamente indefinida é a razão de ser do próprio filme. Em determinado momento, Birkin confessa à câmera que "minhas filhas me perguntam o que estou filmando e eu não sei responder, digo que talvez seja uma pintura da Varda". Literalmente e em muitos aspectos, é exatamente isso mesmo. O filme entrega imagens e enquadramentos quase inacreditáveis. É como se Varda decidisse pintar um retrato definitivo de Birkin - e faz questão de registrar em câmera essa busca minuciosa por cada textura, tonalidade, timbre. A própria Varda se joga em cena, como de costume. Meio que do nada, em pleno corte propostial, pergunta à protagonista qual ator ela gostaria de conhecer/dividir cena. E assim surge Jean-Pierre Léaud para um rápido conto a dois. E  qual personagem ela gostaria de interpretar? E se jogam as duas ao desafio dramático de Joana D’Arc. Um jogo de cena aberto e escancarado para degustação geral. 



Durante uma dessas conversas espontâneas e quase sem filtros (embora seja a câmera muito consciente), acaba por surgir um roteiro "nunca antes contado" que Birkin deixou escapar certo dia. Ela confessa nunca ter tido a esperança de que um dia fosse lido ou considerado. Pois esse tal roteiro, ali resumido em poucos segundos, foi a base direta para a ficção "Kung Fu Master", que as duas gravariam imediatamente em sequência, para lançar no mesmo ano de 1988. Um longa que traz no elenco Birkin e sua filha Charlotte Gainsbourg, além do jovem Mathieu Demy, filho da diretora com o cineasta Jacques Demy. O real baila e brinca com a ficção, um projeto puxa o outro, uma faísca contagia adiante. Como tudo na Vida - que, no caso de Agnès Varda, era sua própria Arte. Mais uma vez e orgulhosamente, o processo como mais valioso resultado, num afetivo abraço ao que se descobre no caminho. A bela certeza de gostar das incertezas.