terça-feira, 11 de agosto de 2020

Cidadão Cav - O mais Internacional dos Brasileiros, Alberto Cavalcanti ( 1897 - 1982 )



 Quem foi Alberto Cavalcanti ?

Infelizmente, uma pergunta que poucos saberiam responder.

Mas ok - quem foi, esse tal de Alberto Cavalcanti?
Anos antes do nosso gigantesco Humberto Mauro enquadrar em sua câmera um Cinema com assinatura e textura de Brasil, um carioca nascido em Botafogo era destaque absoluto na Vanguarda Francesa. Sim. O ano era 1926 e Cavalcanti, já respeitado como cenógrafo e produtor, assumia a direção para captar a vida mundana de Paris com realismo invejável. Talvez o diferencial de seu "Rien que les Heures" fosse exatamente esse curioso olhar de estrangeiro. Ou melhor, de "cineasta do mundo", pois Cavalcanti foi o mais internacional dos cineastas brasileiros.

Não bastasse a produtiva carreira na França, o auge veio na Inglaterra: lá adaptou Dickens no clássico "As Vidas e Aventuras de Nicholas Nickleby" (1947) e gravou o cult absoluto "Dead of Night" (1945). Poucos cineastas tinham tanto respeito e moral no Ealing Studios, o que lhe garantiu presença em diversas produções estrangeiras e festivais internacionais. Aliás, uma década antes da (merecidíssima) Palma de Ouro de "O Pagador de Promessas" (1962), Cavalcanti entrou na seleção oficial do Festival de Cannes com "O Canto do Mar" (1953) - todinho gravado em Pernambuco e repleto de ecos do que mais adiante seria nomeado "Cinema Novo" por outra geração.
Brasileiro em essência, Cavalcanti foi convidado para o luxuoso cargo de Diretor de Produção da ambiciosa Companhia de Cinema Vera Cruz, tentativa de levantar uma Hollywood no interior de São Paulo. Por experiência vasta e prática, sabia que o país não tinha condições ideais para um estúdio de cinema daquele porte - o que gerou conflitos internos que o afastaram da companhia e, de certa forma, do país. Antes de partir, preparou e entregou o projeto do INC (Instituto Nacional do Cinema) diretamente para Getúlio Vargas. Driblou limitações de orçamento e encontrou sucesso popular nacional com "Simão, O Caolho" (1952) e "Mulher de Verdade" (1954) - todos em São Paulo. Não chegou a gravar no Rio, sua cidade natal.

Voltou para Europa direto para a casa de Bertolt Brecht na Alemanha, onde trabalhou com o próprio dramaturgo na adaptação da peça "Herr Puntila und Sein Knecht Matti", filme lançado em 1955 com aprovação total do autor. Amigo de Jean Renoir e Serguei Eisenstein, Alberto Cavalcanti não encontrou igual simpatia dos cineastas brasileiros. Morreu aos 85 anos em Paris, onde a classe artística o reconhecia e viveu intenso luto seguido de mostras e retrospectivas. Por aqui, se tornou discreto nome de uma rua no Recreio. Sua obra não aparece em livros sobre Cinema Brasileiro e nem é citada em faculdades de Cinema da cidade onde nasceu. Apenas uma biografia oficial dedicada à sua figura, escrita por Sergio Caldieri no já distante ano de 2005.

Mais um nome ativo, inovador, brilhante, fundamental e cruelmente esquecido da História do nosso Cinema Brasileiro. Seus filmes nacionais podem ser conferidos na íntegra no Youtube, além de diversos trechos das produções mudas que comprovam seu posto entre os gigantes da Imagem. Nunca é tarde para a descoberta e fascínio. Quem foi Alberto Cavalcanti?
Infelizmente, uma Vida que poucos sabem celebrar.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O Cineasta Fantasma - A Obra perdida de Harry d'Abbadie d'Arrast


O homem de chapéu nessa foto, acredite se quiser, é Charles Chaplin sem o característico visual icônico. Ao seu lado está o cineasta Harry d'Abbadie d’Arrast. Você provavelmente nunca ouviu falar dele. Até mesmo os cinéfilos mais dedicados e cults pouco leram sobre ele. A razão é simples e cruel: toda sua obra foi perdida

Documentos e fotografias confirmam que ele foi assistente de Chaplin nas gravações da obra-prima "Em Busca do Ouro" (1925), mas seu nome não está nos créditos. Fritz Lang, gênio revolucionário na fase inicial do Cinema, diversas vezes declarou que d’Arrast realizou "oito dos mais belos filmes da História". Nunca serão vistos. Todos foram perdidos em incêndios ou por descaso dos estúdios. Esse verdadeiro extermínio era muitíssimo frequente antes dos anos 50, quando as mudanças para filmes Sonoros e Coloridos fez muitos produtores se livrarem de material antigo então considerado "obsoleto e descartável". Pelo menos 50 filmes assinados por John Ford são considerados perdidos. Isso não acontecia apenas nos Estados Unidos: dados históricos garantem que foram destruídos 80% dos filmes mudos na Itália e 70% na França. O massacre também foi intenso no Japão - dos 53 filmes que Ozu realizou, 21 desapareceram. 

Apenas com o surgimento das Cinematecas e órgãos de proteção à produção cinematográfica, as obras passaram a ser devidamente arquivadas e restauradas. Harry d'Abbadie d'Arrast não teve essa sorte. Nascido na Argentina, fez fama em Hollywood e teve sua obra brutalmente apagada da História. Morreu em 1968 sem receber nenhuma homenagem. Um cineasta-fantasma nos arquivos envelhecidos do século passado. 

*Porém, um grandioso milagre : uma cópia incompleta de sua comédia sonora "Laughter" (1930) foi recentemente descoberta e está disponível no Youtube. Estrelada por Nancy Carroll e Fredric March, a produção chegou a ser indicada ao Oscar de Melhor Roteiro daquele ano! Inspirou o remake alemão "Die Männer um Lucie" (1931) - também considerado perdido. Uma modesta salvação do esquecimento absoluto, um pequeno vislumbre para esse silencioso fantasma celebrado por Lang e outros sobreviventes daquela época. 



quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

"A Very Naughty Boy!" - Um Brinde ao Python Terry Jones ( 1942 - 2020 )



A página oficial do Monty Python postou, na manhã do dia 22 de Janeiro de 2020, a contagem que nenhum fã do grupo gostaria de ler. "Two down, four to go." Foi o modo anárquico e bem-humorado de anunciar a morte de um de seus membros fundadores e mais carismáticos. Terry Jones revelou publicamente seu diagnóstico de um tipo raro de demência em 2016, e desde então sua saúde se tornou cada vez mais frágil. Há mais de cinco décadas, Jones teve a ideia de formar um grupo de humor com o amigo Michael Palin, quando os dois ainda cursavam Literatura Inglesa na nobre e respeitada universidade de Oxford. Quem diria. Vale lembrar que até então os "times de humor" não eram habituais pelo mundo - um caso à parte na própria Inglaterra era o The Goon Show, restrito ao rádio. Pois logo se juntaram a Jones e Palin os excêntricos Graham Chapman, Eric Idle, John Cleese e o (único) americano Terry Gilliam. 
O resto é História - e das mais absurdamente hilárias! 

Além de membro ativo em cena, com uma coleção invejável de personalidades, Terrence Graham Parry Jones foi figura chave na organização e sucesso do grupo. Roteirista apaixonado, escreveu quase todo material original que o grupo gravou. Co-dirigiu "Em Busca do Cálice Sagrado" (1975) com o outro Terry do grupo, e depois assumiu sozinho o comando de "A Vida de Brian" (1979, o auge criativo e cultural do sexteto) e "O Sentido da Vida" (1983). Ou seja: era o cineasta oficial da gangue!
 
Terry Jones se torna o segundo membro oficial a apagar a luz, após a distante morte de Graham Chapman em 1989. Ainda que tenha sido uma vida festejada e já fosse uma perda esperada - e afinal, um cara de tantos sorrisos não merecia sofrer! -, é impossível fugir do tom agridoce de despedida. Terry Jones foi um simpático amigo cuja mão não apertei - mas quase próximo, em todo aquele entusiasmo e energia contagiante, por tantas maratonas e risadas compartilhadas. Que seja uma recepção com festa e danças, como no Paraíso de "The Meaning Of Life"! E como diria o próprio: Spam! Spam! Spam, Spam!
O Monty Python's Flying Circus perde hoje uma de suas asas. Two down, four to go.





sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Dentro de Casa - A Condição Humana em "Parasita", Palma de Ouro 2019.



Cannes não erra. Basta uma rápida pesquisa nos filmes premiados com a Palma de Ouro ao longo das 72 edições do Festival de Cinema, talvez o mais prestigiado do mundo. Ainda que alguns títulos possam ser menos acessíveis e muito experimentais, quase sempre os laureados são obras contundentes que exploram ao máximo a potência artística da Sétima Arte. São filmes que não permitem indiferença. E é o caso absoluto desse "Parasite". 

Logo após o prêmio para o Japão com "Assunto de Familia" (2018), a Coreia do Sul levou a Palma pela primeira vez com a nova ousadia de Bong Joon-ho. O cineasta tem uma assinatura visual brutalmente crua e é responsável por cults modernos como "O Hospedeiro" (2006), "Expresso do Amanhã" (2013) e "Okja" - super-produção exclusiva da Netflix que concorreu à Palma em 2017. Aqui, o diretor abre mão de elementos fantasiosos e efeitos especiais para mergulhar (quase que literalmente) na condição humana. Se "Parasita" tem momentos de pura tensão e suspense, é exatamente por chegar muito perto do que nos faz essencialmente humanos. Assusta (sem dúvida) e fascina (com máxima certeza). Unanimidade de público e crítica, é provavelmente uma das maiores experiências cinematográficas do ano - senão A maior. 

Nesses tempos em que franquias e sucessos de bilheteria apresentam narrativas cada vez mais preguiçosas e previsíveis, eis aqui um roteiro que consegue surpreender a cada nova cena, sem exceção. A climatização cuidadosa, as sofisticadas viradas de enredo, as reflexões sobre qualquer sociedade do século XXI, os certeiros arcos narrativos de cada personagem, as metáforas eficientes em escala mundial, tudo isso intenstificado pela afinação do maravilhoso elenco. O resultado é um absurdo. "Parasita" é um filme do agora, pertencente a 2019 em conteúdo e forma, mas prontíssimo para a Posteridade. Merece todas as palmas, inclusive a de Ouro. 


terça-feira, 24 de setembro de 2019

Era Uma Vez no Sertão - A Máxima Inteligência de "Bacurau"




O Cinema Brasileiro, a História nos comprova, sempre teve um inimigo implacável: o grande público brasileiro. É uma cruel verdade, precisamos concordar. Qualidade nunca nos faltou, e um rápido passeio por nossa filmografia revela indiscutíveis obras brilhantes de impacto internacional. Porém nossa produção nacional sofre com o esquecimento coletivo e falta de curiosidade geral. Nomes fundamentais como Carmen Santos, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade e Humberto Mauro seguem esnobados pelo público moderno - enquanto lendas vivas como Walter Lima Jr., Ruy Guerra e Helena Ignez seguem em plena atividade sem a devida ovação popular. Não irei me alongar sobre o notório descaso cultural. Fato é que o nome de Kleber Mendonça Filho surge como um feliz caso à parte. Além de cineasta apaixonado e com assinatura própria, o pernambucano é inteligentíssimo. "Bacurau" é uma prova cabal disso. Explico, e para isso parto de uma idéia bem simples. O grande público brasileiro, o mesmo que desde sempre esnoba filmes nacionais em cartaz, gosta mesmo é de Cinema Americano. Qualquer pesquisa básica pode comprovar que mais de 70% dos espectadores do país gostam mesmo é de filme "made in USA" - seja pelo alto orçamento com linguagem acelerada ou pelo jeitão cult de produção independente que ganha Oscar. Não faz diferença, o importante é ser americano - e com isso não tem Cinema Europeu premiado que possa competir. "OK", é um reflexo cultural de muitos fatores históricos do último século. Diante disso tudo, entra o brilhantismo e inteligência de "Bacurau". 


Kleber Mendonça Filho, já respeitado crítico de Cinema, conquistou a "bolha artística" e diversos prêmios mundiais com sua obra. Cinco curtas-metragens, um longa documental e dois de ficção. Esses dois últimos, "O Som ao Redor" (2012) e "Aquarius" (2016), ilustraram em escala internacional seu estilo narrativo atípico, repleto de signos visuais e personagens autênticos. Tudo muito genuinamente brasileiro. Entre todos esses títulos, "Bacurau" sem sombra de dúvida, é a maior bilheteria e repercussão interna de Kleber Mendonça Filho, com sessões lotadas e boca-a-boca incansável. O famoso "É um filmaço, nem parece filme brasileiro!", frase muito desagradável que continuam a gritar por aí. O motivo para isso é compreensível: "Bacurau" é orgulhosamente Cinema Americano. E um filmaço, sim. O cineasta-autor teve a máxima esperteza e brilhantismo de fazer um western moderno, com bastante espaço para doses de ação violenta e críticas político-sociais. Algo que John Ford e Howard Hawks muito bem ensinaram lá na metade do século passado. Caso os ecos americanos não estivessem altos o suficiente, dá-se um jeito até de colocar disco-voador (!) na parada. "Bacurau" é tão orgulhosamente Cinema Americano que literalmente tem inglês no meio. A genial jogada de mestre é que essas escolhas são conscientes e nunca gratuitas. "Bacurau" é orgulhosamente Cinema Americano, mas com legítima roupagem brasileira. Todas cenas exalam e pulsam o Brasil do agora. E aqui vale um destaque especial: em seu terceiro longa de ficção, o cineasta pela primeira vez divide os créditos de direção com Juliano Dornelles, Diretor de Arte de quase todos seus filmes. Essa simbólica união criativa apenas reforça a importância da estética em "Bacurau". Um filme orgulhosamente Americano, porém muito orgulhosamente Brasileiro em sua ambientação, nos personagens regionais, na MPB arrepiante da trilha, no contexto político e social, no tom urgente. "Bacurau" é um fenômeno: um filme americano orgulhosamente brasileiro. Não é sempre que um ícone marcante como Sônia Braga convida a persona internacional de Udo Kier para um suco de caju. Abraçar esse tom e narrativa com tamanha propriedade é de se admirar e aplaudir de pé mesmo. 

Essa espécie de "Era Uma Vez no Sertão" parece muito mais uma obra de Quentin Tarantino que seu nono filme recém-lançado. E aí o público brasileiro que iria lotar salas pra ver Tarantino se surpreende diante de "Bacurau" e solta aquele "Ué, nem parece filme brasileiro!". Mas é, e Orgulhosamente Brasileiro. "Bacurau" conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, o que deve ser muito celebrado. Porém muito acima disso, a sagacidade da parceria Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles conquistou uma parcela do público que normalmente desprezaria tal lançamento nacional. A bilheteria superou 2 milhões de reais na primeira semana, uma vitória muito além dos números. A cada explosão de violência Tarantinesca, há um símbolo genuinamente brasileiro em destaque. Sejam os ecos do cangaço, sejam os santos regionais, seja uma mão em forma de sangue na parede. Quer metáfora visual mais eficaz para o país? Poucos filmes conseguiram ser tão orgulhosamente brasileiros. Para evitar ou alimentar discussões, muito simples: vá assistir "Bacurau". E se for, vá na paz. 


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Eu Acredito no Cinema - uma declaração de amor gratuita e involuntária




Em tempos de angústias e dores, eu acredito no Cinema
E acredito piamente, com a mesma fé e devoção do mais fiel religioso. Meus deuses respondem por diversos nomes e nacionalidades, todos com o mesmo impacto de ressignificar a existência através dos mais belos milagres visuais. E ave Antonioni, Wilder, Fellini, Kubrick, Dreyer, Lang, Oliveira, Mauro, Welles e muitos outros - alguns até ainda encarnados entre nós, embora já com lugar garantido à Eternidade. Eu acredito na poesia de Chaplin ao realizar - numa cabana com frio, fome e desilusão - a mais bela apresentação já executada com pães. Eu acredito na postura segura de Buster Keaton enquanto uma casa cai em sua cabeça, sem acertá-lo. Acredito na grandiosa cidade de Metropolis, tão impossível de ser realizada nos anos 20, e ainda assim lá tão imponente e atemporal. Acredito no olhar de Lillian Gish e em tudo que sua profundidade pode despertar. Ou nas lágrimas da Joana D'Arc de Falconetti, as mais sinceras que uma câmera já captou. Acredito em Carmen Santos e sua onipotência em cada frame. Acredito nas mil faces de Lon Chaney, Alec Guinness e Peter Sellers. Acredito em Norma Desmond e em Charles Foster Kane. Acredito que dançar na chuva até pode ser legal, desde com Gene Kelly ao lado. Acredito nas estrelas da Atlântida, dispostas a iluminar qualquer tipo de escuridão. Ou na luz das crianças que invocam Orfeu Negro ao som de Tom Jobim em algum morro do Rio de Janeiro. Desconfio da Humanidade dos indiferentes diante de Danúbio Azul no espaço. E muitas vezes imagino o imenso vazio que me sobraria sem a Magia do Cinema. Pois certamente não consigo separar Cinema da noção de Magia - um de seus "descobridores", um legítimo mágico e ilusionista movido pela irresistível indagação "e se?". E se?, a tal pergunta que move o mundo desde sempre. No meu caso, "e se não houvesse Cinema?"... Realmente não sei. Não é algo imaginável, cá entre nós. No princípio não era o verbo, e sim as sinfonias visuais que carregavam em imagens silenciosas a essência do mundo. Fosse mudo, sonoro, colorido, repleto de efeitos especiais ou 3D. Independente da trama, personagem ou direção de Arte. É no Cinema que renovo as energias e esperanças em um Futuro que vale a pena ser vivido e compartilhado. A luz do projetor rumo à tela atravessa minha vida e lhe renova o significado. É onde justifico meu mais sincero sorriso e acordo diariamente para continuar o sonho, acordado. É o que vivo, leio, pratico, escrevo, sinto, respiro. Apesar de todo caos, e acima dele, é no que acredito. Sem medo de ser julgado, e com toda intensidade possível. Posso suspirar aliviado. 
Eu acredito no Cinema.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Uma Overdose de Nostalgia - Era Uma Vez... na Hollywood de Tarantino




Imagine que você é, acima de tudo, um grande cinéfilo. Uma pessoa que realmente ama assistir filmes e prestar atenção nos pequenos detalhes, nas diferentes abordagens narrativas, até nos estilos atípicos que acabam com o rótulo de "cult". Agora imagine que você, sendo tudo isso em essência, consiga se tornar um dos cineastas mais idolatrados e reconhecidos do mundo inteiro. Essa é a vida de Quentin Jerome Tarantino. Um dos nomes que redefiniram o Cinema para o século XXI, o americano tem uma reputação invejável e ultravalorizada - levando em conta que tem em seu currículo "apenas" nove filmes. Resumindo a ideia: Tarantino, 56 anos e Palma de Ouro + Oscar no currículo, faz o que quiser. Faz do jeito que quiser. Faz no tempo que quiser. Faz com o dinheiro que quiser. 

Seu novo longa-metragem, "Once Upon a Time In Hollywood", é uma prova gritante disso. Abrindo mão de seu estilo frenético-pop com explosões de violência visual, Tarantino segue a experimentação de "Os Oito Odiados" (2015) e mais uma vez tenta algo diferente do seu habitual. Claro que os diálogos carismáticos estão lá, assim como um jeitão "cool" involuntário. Porém esse não é o foco de seu novo filme. Nostalgia é a palavra de ordem, o resumo da ópera - podemos chamar de ópera, são quase 3h de duração sem a menor pressa. Tarantino faz uso (com muita propriedade) de sua absoluta nostalgia cinéfila para fazer vários filmes dentro de um. Como está lidando com a figura de um astro decadente da clássica Hollywood, aproveita pra gravar sequências de filmes de guerra, ou então tensos momentos de um suspense policial, ou programas B de televisão, ou voltar aos Westerns. Após "Django Livre" (2012) e o já citado filme anterior, parece que o diretor realmente tem um fraco por faroestes - é quase o terceiro em sequência! Por trás dos figurinos de Velho Oeste, pistolas ao Sol, cavalos e muitos cowboys, "Era Uma Vez em… Hollywood" é quase um western ambientado em 1969. Ali no meio da bagunça, o autor Tarantino dá um jeito de inserir Sharon Tate, Polanski, Steve McQueen, Bruce Lee e outras figuras icônicas que marcaram sua formação como amante da Sétima Arte. É mais um tributo de fã que uma obra realmente original. Apesar de todo luxo e de tantas estrelas no elenco, talvez seja a obra mais irregular de toda filmografia do diretor. Isso porque, com tantos elementos ricos em mente, o diretor não se decide por uma linguagem ou sequer uma narrativa. 


A trama do astro decadente (DiCaprio, claramente apenas se divertindo em cena) e sua amizade com o dublê instável (Pitt, em seu melhor jeitão blasé) dá tantos saltos repentinos que em certo momento o roteiro assume um narrador desconhecido, só pra situar o público. Flashbacks acabam se tornando quase curtas-metragens dentro de uma única longa cena. Em determinados momentos, a edição usa letreiros e pausas que destoam completamente do resto da montagem. Não se trata de um tom cômico ou estilo narrativo, são apenas artifícios soltos e desconexos. Coisa de quem não deve nada a ninguém - é aquele papo, Tarantino pode fazer o que bem quiser. 

Os dramas internos e reflexões humanas dos personagens estão mais ricos a cada novo filme, porém por vezes acabam perdidos (ou baleados, ou atropelados, ou esfaqueados, ou queimados) em um grande calderão aquecido por seu próprio criador. Veteranos cultuados como Al Pacino e Bruce Dern, anunciados como papéis coadjuvantes de destaque, surgem de forma reduzida e quase simbólica. O mesmo vale para velhos conhecidos dos fãs como Michael Madsen, Kurt Russel e Zoë Bell. Talvez presentes, cá entre nós, apenas para o público lembrar que é mesmo um filme de Quentin Tarantino. E não deixa de ser: estão lá as frases prontas para futuras estampas, a trilha sonora vintage escolhida a dedo, as altas doses de podolatria e muitos xingamentos por minuto. Mas será que os fãs mais puristas vão lidar bem com essa versão mais madura e nostálgica do cineasta?

O olhar carinhoso (quem diria!) da direção faz uma curva da própria história para que nos apaixonemos pela Sharon Tate de Margot Robbie. De certa forma, ela é o ponto alto da grande bagunça, como se o filme fosse uma velada carta de amor. Porém apenas quem conhece o trágico destino da jovem atriz entenderá plenamente a nova brincadeira de Tarantino. Comparável ao "Ave, César" (2016) dos irmãos Coen em essência e abordagem (até em algumas cenas!), o novo filme de Tarantino não é mais que uma viagem nostálgica. Talvez muito longa e apaixonada - e tudo bem, paixão demais nunca é problema. Acima de um empolgante "novo filme de Quentin Tarantino", "Once Upon a Time In Hollywood" é uma assumida celebração da própria cinefilia. Tarantino pode - e faz! - o que bem quiser. Os fãs que entrem na onda. 



quinta-feira, 25 de julho de 2019

Lágrimas na Chuva - um tributo a Rutger Hauer ( 1944 - 2019 )


O Cinema, em proporção histórica e mundial, registrou diversas figuras fascinantes e hipnóticas. Poucas encarnaram o termo "Cult" de forma tão impactante quanto Rutger Hauer. São três as provas concretas e indiscutíveis disso: o replicante Roy Batty de "Blade Runner" (1982), o cavaleiro romântico Etienne Navarre de "O Feitiço de Áquila" (1985) e o frio assassino John Ryder de "A Morte Pede Carona" (1986). O ator holandês ofuscava qualquer elenco nas obscuras obras de sua seleta filmografia, um caso de flerte imediato e seguro com a câmera. Isso fica provado até nas pequenas participações em "Batman Begins" e "Sin City" (ambos de 2005) e na orgulhosa celebração de sua persona com "Hobo with a Shotgun" (2011). 


Rutger Hauer, cá entre nós, era cult até no exótico nome. Sua existência foi muitíssimo mais interessante do que o grande público poderia imaginar. Filho de atores teatrais, ele já decorava diálogos de Sófocles por pura diversão aos 10 anos. Após anos de apresentações ao ar livre em aldeias da Holanda, resolveu abandonar tudo e trabalhar num navio cargueiro por um ano, rodando o mundo. Ficou por Amsterdã, onde viveu como poeta errante na vida noturna da cidade. Um novo impulso e se alistou no Exército, onde rapidamente se cansou da rotina militar. Para ser dispensado, voltou às origens como ator e convenceu todos que tinha distúrbios mentais. E deu certo. Após parcerias artísticas com o igualmente cult cineasta Paul Verhoeven, Hauer conquistou e esnobou Hollywood. Fazia apenas os projetos que lhe interessavam, se permitindo longos períodos de férias e reclusão. Fundou uma instituição de pesquisas sobre AIDs, a Rutger Hauer Starfish Foundation, para onde ia todo o dinheiro que recebia dos filmes. 



Pouca gente sabe disso tudo. E poucos atores teriam tanta propriedade para aquele ecoante monólogo final de "Blade Runner": "I've seen things you people wouldn't believe". Essa cena é apenas a cereja do bolo de uma performance brilhante. O Roy de Rutger Hauer sempre foi o elemento mais fascinante e humano do pacote. "Todos esses momentos serão perdidos no Tempo, como lágrimas na chuva" foi inclusive um improviso do ator (!!!), digno de poeta errante europeu. Cada frase, cada gesto e cada olhar prontíssimos para a Eternidade. Seu corpo jovem saltitando entre ruínas sombrias é a versão rebelde e caótica do Peter Pan que não quer envelhecer. Como se não bastasse toda essência cult, Rutger Hauer abraça a morte em pleno 2019 - data da validade de seu replicante no filme. Talvez apenas os fãs compreendam a magnitude desse detalhe. Continuamos a observar as lágrimas na chuva. Time to die.



segunda-feira, 24 de junho de 2019

Conta Comigo - A Maturidade Nostálgica do Novo "Toy Story"




O primeiro "Toy Story" (1995) é um marco inquestionável na História do Cinema. Após uma sequência mais espetacular em 1999 e outra ainda mais emocionante em 2010, a saga dos agitados brinquedos de Andy fechou o que seria a melhor trilogia do gênero da Animação. Porém, como vivemos em tempos de franquias e nostalgia, uma quarta aventura foi confirmada. Fãs já crescidos,  que acompanharam os lançamentos anteriores em fases distintas da juventude, ficaram com certo pé atrás. O que é compreensível: a toda poderosa Disney/Pixar já veio apresentando sinais de desgaste criativo com desnecessárias continuações de "Carros" e "Os Incríveis". Incluir "Toy Story" nessa categoria seria no mínimo cruel. Felizmente, não tem pra ninguém quando a Pixar resolve jogar pesado. "Toy Story 4" é uma verdadeira expansão daquele irresistível universo já tão familiar. Nem o humano mais rabugento pode resistir ao reencontro com Woody, Buzz, Rex e outras figuras tão queridas. Todos estão lá, inclusive o Sr. Cabeça de Batata - dublado pelo falecido comediante Don Rickles e cujas (poucas) falas foram criadas a partir de arquivos de áudio do ator (!). Porém o destaque, felizmente, vai para novos personagens fascinantes e o retorno de uma velha conhecida. Lembra da doce Betty, pastora de porcelana com suas ovelhas? Ela não apareceu em "Toy Story 3" e aqui descobrimos o motivo. Dar um maior protagonismo à antes frágil personagem e à outras figuras femininas é um dos pontos altíssimos da nova aventura.

E bota aventura nisso! Em tempos de Marvel e seus inúmeros heróis de ação, o diretor Josh Cooley investe em sequências de tirar o fôlego num roteiro acelerado e imensamente criativo. Após dirigir dois curtas no estúdio, Cooley estreia em longas já assumindo a principal franquia da Disney/Pixar! Os novos personagens, com destaques absolutos para Garfinho (Tony Hale, de "Arrested Development") e Duke Caboom (Keanu Reeves!) são um prato cheio para conquistar as novas gerações e levar a criançada às gargalhadas. São figuras hilárias que só a Pixar poderia criar - embora não o viesse fazendo há certo tempo. Ao fãs veteranos, o roteiro traz propostas ousadas e surpresas arrepiantes. Há espaço para piadas "maduras" e até citações à clássicos como "O Iluminado" (!) - aliás, alguns momentos são mais assustadores que muito filme "de terror" por aí. 

Uma coisa fica clara: os roteiristas/animadores têm plena convicção de que pelo menos metade do público nas salas dos cinemas já cresceu, e passou por momentos decisivos e duros desde a estreia original em 1995. São muitas as novas camadas exploradas. "Toy Story 4" aponta para um futuro alternativo de forma corajosa, respeitosa e promissora. O tempo passa de forma implacável e seus acontecimentos moldam o que nos tornamos, ok. Se crescer é inevitável, o importante é saber como fazer isso da melhor forma. "Toy Story 4", que tinha tudo pra ser apenas "mais um", é um bonito exemplo de como seguir adiante da maneira certa. Possíveis lágrimas, com a certeza de muitos sorrisos. 


quarta-feira, 12 de junho de 2019

Em Busca do Moinho Sagrado - Terry Gilliam e a Odisséia por Dom Quixote


O Cinema tem seus milagres: "The Man Who Killed Don Quixote" está em cartaz, enfim projetado numa telona! Uma longa odisséia que merece ser divulgada e celebrada, veja só:
Terry Gilliam está longe de ser um iniciante. Artesão dedicado e cartunista de formação, se tornou o único americano no revolucionário humor britânico do Monty Python. Ainda na década de 70, soltou as amarras para se dedicar a exuberantes obras autorais - são dele "Brazil" (1985), "As aventuras do Barão Munchausen" (1988) e "Os 12 Macacos" (1995), entre outras adoráveis loucuras. E foi por volta de 1987 que Gilliam começou a desenvolver seu projeto pessoal dos sonhos: adaptar a grandiosa saga de Dom Quixote de la Mancha para seu universo estético bem particular. Desde então, foram muitos (muitos!) os obstáculos e traumas para conseguir realizar o filme. Ele chegou a gravar parte do roteiro em 2000, tendo a produção paralisada por dilúvios que destruíram o equipamento e por problemas de saúde do protagonista Jean Rochefort. Já cultuado como um dos "roteiros infilmáveis de Hollywood", o projeto chegou a confirmar Johnny Depp no elenco e John Hurt como o icônico personagem. Depp saiu após diversos adiamentos e cortes do orçamento e Hurt se afastou para tratar o câncer que o matou. As gravações oficiais ocorreram entre 2015 e 2017, finalmente concluídas com outro elenco e equipe, de forma independente.
 
Tudo pronto para o lançamento oficial no Festival de Cannes 2018, mais uma reviravolta no caminho: um antigo produtor reivindica os direitos do filme e proibe a exibição no evento. Diante de tanto estresse e pressão, o Gilliam de 77 anos sofre um grave derrame. A justiça ficou ao seu lado e o filme encerrou o festival mais famoso do mundo sob merecidos aplausos. Gilliam resistiu à descrença dos estúdios, ao orçamento reduzido, à morte de dois atores principais e ao próprio peso da idade. Unindo forças à uma equipe jovem e ao velho amigo Jonathan Pryce como Quixote, o diretor conseguiu concluir o tão desejado projeto. Brigas legais com o tal produtor dificultaram a distribuição do filme pelo mundo, estreando em reduzidas salas. Demos sorte: está em cartaz no Rio, no Estação de Botafogo e no Cinépolis Lagoon. Provável que por pouquíssimo tempo, mas em cartaz! Nada mais justo que experimentar a obra onde o criador tanto lutou para projetá-la.

Releitura corajosa e onírica de tudo que se sabe sobre Don Quixote, o resultado parece um hipnótico e delirante sonho compartilhado com o público. "O Homem Que Matou Don Quixote" acaba sendo vários filmes em um só, muitos tons e abordagens dissonantes que ecoam o longo tempo de realização. O que não é exatamente um problema. Mais que uma narrativa, é uma experiência sensorial, uma jornada visual pela mente insana de um artista inquieto. Todos os excessos de Gilliam em cena, assim como todas virtudes que fizeram dele um diretor visionário e respeitado. Assistir esse filme em uma sala de cinema é uma vitória para todos que acreditam na Arte. Uma celebração a todos que dedicam a vida à essa loucura que é tirar um roteiro do papel e captá-lo com uma câmera. Custa dinheiro, requer muito esforço e sacrifícios, parte do sonho para tentar alcançar novamente o sonho. Independente do impacto ou reações internas, um milagre em si. Terry Gilliam, 78 anos, pode agora dormir um pouco mais tranquilo. Se tornou, finalmente!, um vitorioso exemplo do quanto não é fácil ou simples - e também de que desistir nunca é uma opção.