quarta-feira, 23 de julho de 2014

Os 90 Anos de "Sherlock Jr." !



A figura de Charlie Chaplin é conhecida mundialmente como sinônimo de cinema e comédia. Já o nome de Buster Keaton só é reconhecido pelos cinéfilos de paixão - sendo que alguns chegam a só identificar o nome, e não a obra. Não há palavras para expressar o quanto isso é injusto. Keaton foi um dos gigantes da fase inicial do cinema, único que conseguia disputar de igual pra igual com Chaplin no sucesso de público e crítica. Na verdade, não havia conflito algum entre os dois, mas o "embate" ficou famoso na sétima arte. O fato é que a obra de Keaton é tão pioneira e essencial quanto a de Chaplin. Na eterna questão "quem era o melhor?", a resposta é simples: os dois foram gênios máximos da comédia, cada um em suas contribuições e obras-primas. E para conhecer bem o trabalho do "homem que não sorria", talvez essa seja a obra mais recomendada. Embora seja mais lembrado pelo longa-metragem "A General" (sim, "A" pois se trata de uma locomotiva chamada General), toda relevância e ousadia de Buster Keaton podem ser vistos claramente em "Sherlock Jr." (1924). Lançado na época no Brasil como "Bancando o Águia", esse média-metragem de 45 minutos mostra Keaton como um projecionista de cinema que sonha ser um grande detetive. E nesses sonhos e aventuras, Keaton - como ator e diretor - inova no uso de efeitos especiais e na elaboração de cenas ousadas. Nada de dublês: Keaton fazia suas próprias cenas, mesmo que fosse necessário pular de um prédio, correr em cima de um trem em movimento ou atravessar uma rua movimentada sozinho em uma moto sem ninguém na direção. Essa passagem é, inclusive, a mais famosa do filme e uma das mais aflitivas da história do cinema. Mas tudo sempre acabava em riso sincero, que Keaton roubava de nós sem sequer esboçar um leve sorriso. Notar que "Sherlock Jr." completa 90 anos é entender o quanto esse grande comediante estava a frente de seu tempo. Definitivamente, Buster Keaton é um gênio que não pode ser relegado ao esquecimento.



quarta-feira, 16 de julho de 2014

"Malévola", 2014.


Além dos inquestionáveis "filmes de heróis", as recentes adaptações de contos de fadas vêm se tornando um gênero lucrativo e bem sucedido no cinema. Reinvenções repletas de efeitos especiais, filmes como "João e Maria: Caçadores de Bruxas" (2013) e "Jack, o Caçador de Gigantes" (2013) podem não ser unanimidade de crítica, mas atraem grande público. Agora junta-se a esse time "Maleficent", ancorado no imenso carisma de Angelina Jolie. O especialista em efeitos especiais Robert Stromberg, que trabalhou em obras como "2012" e "As Aventuras de Pi", estreia na direção com essa adaptação do clássico da Disney "A Bela Adormecida" (1959). Obviamente, aqui o foco é direcionado para a vilã Malévola, uma das mais cultuadas do estúdio. Mesmo assim, não se engane: estão lá todos os personagens do desenho original, inclusive o trio de fadas que cuidam da princesa Aurora, amaldiçoada pela personagem principal. O que muda é a motivação de todos os envolvidos. E Jolie claramente se diverte como em nenhum outro papel, principalmente na cena da foto. Funciona que é uma beleza, mesmo que quase todas suas ações sejam observar o que acontece. Juno Temple, Imelda Staunton e Lesley Manville, as fadas citadas, funcionam como escape cômico, mas a graça na maior parte das vezes vem da própria Jolie. De resto, sobra ver Sharlto Copley e Sam Riley pagando mico, fora do tom em seus pequenos papéis. "Malévola" é bem clichê e didático em diversos pontos, mas tem o visual como trunfo. Sendo o diretor um especialista no assunto, os efeitos especiais são incríveis, criam imagens belas e tornam a produção fácil de assistir - em um 3D que explora bem a vastidão do cenário e os vários detalhes em cena. Para os que mantém a expectativa baixa e assistem sem compromisso, é um passatempo agradável. Jolie, que reforça sua popularidade com o grande público, é a que mais tem motivos para sorrir.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

"O Grande Hotel Budapeste", de Wes Anderson, 2014.


 
O novo filme de Wes Anderson é "um filme de Wes Anderson" desde seu primeiríssimo plano. Todos os elementos da estética peculiar do diretor estão lá: cores berrantes, personagens excêntricos, planos abertos e simétricos cuidadosamente arrumados e constantes travellings da câmera. Após o bem-sucedido "Moonrise Kingdom" (2012), o cineasta americano parece conseguir tornar sua aura cult ainda mais popular e acessível. "The Grand Budapest Hotel" é irresistível em sua mistura de aventura, fantasia, ação e comédia. Sem deixar de lado todo o estranhamento e excêntricidade característicos de sua filmografia, Anderson dá um maduro passo em direção ao grande público. A trama se passa na fictícia República de Zubrowka no intervalo entre as duas guerras mundiais. Com clima de livro de fábulas e ritmo de desenho animado, Anderson constrói um humor único e eficiente. Além dos cenários que homenageiam o cinema mudo, o elenco é um desfile de estrelas. Há gente boa veterana (F. Murray Abraham, Harvey Keitel) interagindo com gente boa jovem (Jude Law, Saoirse Ronan), além do destaque inevitável da revelação Tony Revolori. Os parceiros habituais (Bill Murray, Jason Schwartzman, Owen Wilson) dão as caras em aparições rápidas, meio que só para constar - embora seja impossível não dar um sorriso com suas presenças. O maior brilho, porém, vem da figura de Ralph Fiennes. Em seu primeiro trabalho com Anderson, Fiennes capta brilhantemente o estilo do diretor e compõe um personagem genial que certamente é um dos melhores de sua preciosa carreira. "O Grande Hotel Budapeste" tem tudo para ser um dos melhores filmes de 2014, com alta dose de "Magia do Cinema". Após a sessão, uma certeza: mais divertido do que fazer parte do universo de Wes Anderson, é, certamente, poder assistí-lo.

domingo, 18 de maio de 2014

A Doce Vida, Segundo Paolo Sorrentino - Uma Análise do Monumento Chamado "A Grande Beleza"



O título desse artigo é propositalmente ousado e aberto a polêmica. A evocação da inquestionável obra-prima de Federico Fellini feita em 1960, porém, não é gratuita. As primeiras divulgações e trailers de "A Grande Beleza" já evidenciavam uma chamativa semelhança com a obra de Fellini, até mesmo com ecos de outros clássicos do cultuado cineasta. Selecionado na competição oficial do festival de Cannes em 2013, o sexto filme de Paolo Sorrentino teve uma consagração internacional absoluta - que culminou com a vitória na última edição do Oscar.

Antes de ser rotulado apenas como "o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro", a obra de Sorrentino pode ser encarada como uma grande celebração ao Cinema Italiano. Comparar "La Grande Bellezza" à obra de Fellini é perigoso e prepotente, mas é impossível negar os ecos da filmografia do gênio italiano nas excêntricas imagens dessa produção. Todos os elementos-chave estão lá: as festas da alta sociedade, os personagens excêntricos, a crise existencial que permeia cada um, as reflexões filosóficas que movem o protagonista e o absurdo quase surreal da vida burguesa que o cerca. Apesar desses ecos e possíveis influências, no fim das contas Sorrentino realiza uma obra autoral com sua marca, fazendo uso de um humor ácido e cínico que lhe é característico.



O protagonista vivido por Toni Servillo tem uma aura que lembra inevitavelmente a persona de Marcello Mastroianni. Charme e estilo marcam o escritor e jornalista decadente Jep Gambardella, que vive da fama de tempos passados. Mas Servillo, um dos maiores atores em atividade na Itália, compõe seu papel de forma complexa e brilhante, com incrível carisma. Presente em clássicos modernos da filmografia italiana, como "Gomorra" (2007) e "Il Divo" (2008) - sua outra premiada parceria com Sorrentino -, Servillo se reinventa em cena, pegando inspiração nos ídolos do passado para criar um errante personagem deslocado com o século em que vive. Ou seja: é a essência dos protagonistas de Fellini, mas mergulhado nos novos tempos do século XXI.

É um filme longo - 142 minutos -, mas a viagem é prazerosa e purificadora se o público se permitir levar pelas hipnóticas imagens orquestradas por Sorrentino - desde a musical introdução até a poética conclusão, que fica em aberto dependendo do nível de recepção e envolvimento do espectador. As estonteantes locações italianas ajudam na imersão, além de servirem como evidências do museu a céu aberto que é aquele paraíso europeu chamado Itália.



Curiosamente, há ainda espaço para algumas imagens surreais que evocam a fase mais estilizada da carreira de Fellini, com obras como "Satyricon" (1969) e "Roma" (1972). São sequências pontuais que marcam intensamente o filme, como o escritório da editora anã, o "show" de uma pequena gênia da pintura e, principalmente, todo o bloco focado na centenária freira santa. Isso é perceptível até no uso de uma paleta de cores mais exagerada. Por um momento, Sorrentino adentra no mundo dos sonhos e do inconsciente sem pedir licença para o público. São duas as soluções possíveis: se distanciar diante de tamanho estranhamento, ou se deixar levar pelo intenso fluxo de imagens e pensamentos que movem a trama.  A segunda vale muito mais a pena.

São precisos olhos maduros para interpretar e captar a força de "La Grande Bellezza". Olhares mais ingênuos ficam presos nas polêmicas superficiais presentes na produção. Só que por trás de toda depravação, sexo, drogas, luxúria e exageros visuais mostrados na tela, está uma delicada e poética reflexão sobre a verdadeira grande beleza da vida. Com considerável potencial para polêmicas, o filme dividiu a opinião de muitos críticos, mas vale aqui lembrar que poucos foram os que admiraram obras como "A Doce Vida" e "A Aventura" na época de seus lançamentos. Filmes assim merecem ser assistidos mais de uma vez, merecem um estado de espírito determinado e especial durante suas exibições. Assim, cabe à História colocar "A Grande Beleza" no posto que merece: o de nova obra-prima do Cinema Italiano.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Os Imperdoáveis - Um Top 10 de Grandes Injustiças da História do Oscar


A data é o dia 2 de Março. Se aproxima mais uma cerimônia de premiação do Oscar. E mais uma vez fazemos apostas e ficamos na expectativa para a festa mais glamourosa do Cinema. Mas vale lembrar, com muita atenção, que o Oscar não é o prêmio mais justo do mundo. Ao longo das 85 premiações realizadas, muitas injustiças foram cometidas e grandes nomes foram esnobados. Basta pegar qualquer lista dos filmes mais importantes da história para conferir que a grande maioria não tem uma estatueta no currículo - e isso serve para os próprios filmes americanos. O mesmo pode ser percebido entre os diretores fundamentais do cinema, muitos deles gênios esnobados pelo Oscar. Por que isso ocorre? Basicamente, é simples: o Oscar é um prêmio extremamente popular, mais voltado para a potencialização do sucesso de algum filme ou celebridade. Isso quer dizer que é um prêmio tendencioso, e quando está no "momento" de certo filme ou ator levar a estatueta dourada, dificilmente esse favoritismo é superado. O que não quer dizer que aquela foi de fato a melhor atuação do ano ou que o filme escolhido é uma obra-prima do cinema. Na maioria das vezes, inclusive, não é.

Mas há a tradição e diversão de acompanhar as cerimônias e homenagens feitas durante a grande festa. E por mais injusto que o Oscar seja, há uma aura irresistível em volta do evento. Não é mal nenhum assistir ou ficar na torcida, mas nada custa ter em mente que o Oscar já cometeu injustiças gravíssimas em sua história - e provavelmente ainda cometerá muitas enquanto existir.
"Kaio No Cinema" preparou uma pequena lista com algumas das injustiças mais gritantes ocorridas ao longo do prêmio. Foram tantas que fica até difícil de listar, ou seja: não é uma lista definitiva - afinal, nenhuma é -, mas sim a seleção de algumas gafes imperdoáveis dos votantes da Academia. Vamos aos casos:


10. Peter O'Toole, o esnobado.

 

Morto recentemente, o ator irlandes Peter Seamus O'Toole foi indicado ao Oscar de Melhor Ator 8 vezes, sem nunca ter sido premiado. Assim, se tornou o recordista em indicações sem nenhuma vitória, uma marca que ele não merecia. Isso, por si só, já seria uma grande injustiça do Oscar, mas chega a ser difícil imaginar que ele não foi premiado pela antológica atuação em "Lawrence da Arábia" (1962). A obra-prima de David Lean foi vencedora em quase todas categorias, incluindo Filme e Diretor, mas O'Toole - exatamente a alma do filme - ficou de mãos vazias. Quem levou a estatueta foi Gregory Peck, pelo trabalho em "O Sol É Para Todos". De fato, Peck é também responsável por uma das grandes atuações do cinema americano, mas isso não torna menos doloroso pensar que O'Toole teve que se contentar com um Oscar Honorário "de consolação" em 2003.


9. Jennifer Lawrence X Emmanuelle Riva



Em 2012, a musa do cinema francês Emmanuelle Riva comoveu o mundo com a intensa entrega no duro filme "Amor", de Michael Haneke. Seu trabalho visceral foi intensamente premiado mundo afora, e era certo que ela merecia qualquer prêmio por atuação feminina daquele ano. E então surgiu a jovem e popular Jennifer Lawrence em seu caminho. Aos 22 anos, a americana já era apontada como um dos grandes talentos de sua geração - e realmente é. Seu trabalho em "Inverno da Alma"(2011) era incrível e realmente só merecia perder para a Natalie Portman de "Cisne Negro", o que aconteceu. Mas no Oscar 2013, era a vez e hora de Riva, que se tornava a mais idosa atriz a ser indicada à categoria. Para piorar a situação, a dama francesa completava 86 anos exatamente na noite em que a cerimônia acontecia. O que poderia ser uma linda homenagem à veterana, acabou se tornando mais uma prova da frieza de Hollywood: o prêmio foi para Lawrence, pelo apenas eficiente papel em "O Lado Bom da Vida". A atriz é carismática em cena e merece mesmo a atenção da indústria, mas não era um papel digno de Oscar. Ela foi premiada cedo demais, e restou a Emmanuelle Riva aplaudir a jovem enquanto essa tropeçava na escadaria à caminho do palco.


8.  Ridley Scott, pela direção de "Gladiador". 


Responsável pelo retorno dos grande épicos à Hollywood, "Gladiador" (2000) ganhou todos os prêmios principais da ocasião - muito merecidamente. E logo quando Ridley Scott finalmente se tornaria um diretor oscarizado pela indústria, eis que surge Steven Soderbergh e rouba seu Oscar. O filme que lhe consagrou, "Traffic", era muito bem realizado e dirigido, mas não barrava o trabalho de Scott na condução da complexa superprodução. Desde então, o veterano diretor inglês de 76 anos segue como um dos nomes mais injustamente esnobados pelo Oscar. Indiferente à isso, continua em alta produtividade, adicionando grandes obras à sua filmografia. Mas que ele merecia mais reconhecimento, merecia!


7. Cate Blanchett como Bob Dylan.


O filme "I'm Not There" (2007) tinha uma proposta bem interessante: colocar 7 atores para interpretar o cantor e compositor Bob Dylan em diferentes fases da vida e da música. Entre todas atuações, o destaque absoluto era para Cate Blanchett, a única mulher do grupo. A australiana encarnava o ícone americano de forma assustadora, seja na voz, no gestual ou no visual. Blanchett realmente entrou na mente do homem e se tornou Dylan diante de todos que viram o filme. Ela era favorita absoluta na categoria Melhor Atriz Coadjuvante, mas quando o envelope foi aberto e o nome de Tilda Swinton anunciado, a própria escolhida ficou surpresa e incrédula. Swinton levou o Oscar pelo discreto papel em "Conduta de Risco", thriller eficiente que ninguém mais lembra muito bem. Já a atuação de Blanchett continua a ser cultuada e admirada por milhares de pessoas que se interessaram a conhecer melhor Dylan através do seu trabalho no filme. Blanchett, vencedora da mesma categoria em 2005 - ao encarnar Katherine Hepburn em "O Aviador" - chega ao Oscar 2014 como favorita ao prêmio principal pela atuação em "Blue Jasmine". Será que vem aí outra zebra?

6. Jack Lemmon, por "Se Meu Apartamento Falasse".


Uma das obras-primas da filmografia de Billy Wilder, "The Apartment" lhe deu seu segundo Oscar de Melhor Diretor e ainda levou os prêmios de Filme, Roteiro Original, Direção de Arte e Edição. Seria uma consagração totalmente justa se contasse também com uma estatueta pela atuação de Jack Lemmon. Afinal, foi através desse filme que ele se tornou definitivamente um dos artistas mais cultuados e queridos da indústria do cinema. Apesar do favoritismo de Lemmon, quem levou a melhor foi o veterano Burt Lancaster, pelo papel em "Elmer Gantry" - um filme bem esquecido no tempo, cá entre nós. Lemmon, vencedor de Coadjuvante por "Mister Roberts" (1955), só viria a ganhar na categoria principal por "Save the Tiger" (1973). A injustiça por "Se Meu Apartamento Falasse" seria abrandada quando Kevin Spacey, ao ganhar o Oscar de Melhor Ator por "Beleza Americana" (1999), dedicou o prêmio ao trabalho de Lemmon nesse imortal clássico. Uma homenagem tardia, mas muito justa.
 

5. O elenco de "O Poderoso Chefão".


O ano de 1972 foi tomado de assalto pelo fenômeno "The Godfather", obra-prima de Francis Ford Coppola. Só que em seu caminho tinha "Cabaret", o musical que representa o ponto alto da carreira do diretor Bob Fosse. O coreógrafo e cineasta ganhou - merecidamente, precisamos admitir - o Oscar de Direção, mas o filme de Coppola conseguiu as estatuetas de Filme, Roteiro Adaptado e Ator para o inesquecível Marlon Brando - que, aliás, recusou o Oscar e mandou uma atriz vestida de índia para buscá-lo. Independente dessa polêmica, a questão é que entre os indicados ao prêmio de Melhor Coadjuvante, o impecável elenco de "O Poderoso Chefão" marcou presença forte: Al Pacino, James Caan e Robert Duvall concorriam pela participação no filme. O favoritismo alternava entre Pacino e Caan, explosivos em cena e até hoje referências pelos seus papéis. E eis que é anunciado o vencedor: Joel Grey, intérprete do demoníaco mestre de cerimônias de "Cabaret". Embora fosse de fato um trabalho marcante, nem se comparava à intensidade dos dois atores anteriormente citados. Sem falar que Grey basicamente se aposentou dos cinemas depois disso, fazendo apenas participações afetivas em alguns filmes como "Dançando no Escuro" (2001). Um resultado até hoje discutido por muitos cinéfilos. 

 

4. Alfred Hitchcock, o mestre esquecido.

  


Ele é considerado o "mestre do suspense" e um dos diretores mais importantes da história do cinema. Apesar de todo prestígio e influência, Alfred Hitchcock - infelizmente - não era tão celebrado em vida. Sucesso de público e esnobado pela crítica, Hitchcock recebeu cinco indicações ao Oscar na carreira, pelo comando dos clássicos "Rebecca - A Mulher Inesquecível" (1940), "Um barco e nove destinos" (1944), "Quando Fala o Coração" (1945), "Janela Indiscreta" (1954) e "Psicose" (1960). Mesmo assim, foi solenemente ignorado todas as vezes e nunca levou a estatueta. Isso mesmo: o homem que ajudou a revolucionar o cinema e fez obras-primas como "Pacto Sinistro" (1951), "Um Corpo Que Cai" (1958) e "Intriga Internacional" (1959) sempre foi ignorado pelo Oscar. Seu único filme premiado foi "Rebecca - A Mulher Inesquecível", eleito o Melhor Filme em 1941 - mas sem o prêmio por sua direção. A Academia só corrigiu o erro em 1968, quando lhe concedeu o Prêmio Honorário Irving G. Thalberg, uma das maiores honrarias de Hollywood. Hitchcock, com seu característico jeitinho inglês, não deu muita bola para a tardia homenagem. E nem precisava.


3. Martin Scorsese e seu prêmio tardio.




Quando Martin Scorsese finalmente recebeu o Oscar de Melhor Diretor por "Os Infiltrados" (2006), todos seus fãs sabiam que era um prêmio tardio e burocrático, ainda que justo. O grande momento do cineasta tinha sido com "Touro Indomável" (1980), obra-prima de sua filmografia. Favorito aos prêmios de Filme e Direção, ele saiu de mãos vazias quando "Gente Como a Gente" ganhou a categoria principal e deu ao galã Robert Redford a estatueta de Direção em seu primeiro trabalho atrás das câmeras. "Touro Indomável" ainda é um dos maiores filmes da história do cinema, presente em qualquer lista de "melhores", enquanto... Quem lembra do filme de Redford? Pois é.
Algo semelhante aconteceu em 1990, quando "Os Bons Companheiros" mais uma vez colocou Scorsese no páreo dos prêmios principais e foi surpreendido pela inesperada vitória de "Dança Com Lobos" e do seu também galã e estreante diretor Kevin Costner. Parecia algo pessoal, não?



2."Cidadão Kane", um caso à parte. 


Volta e meia apontado como "o maior filme de todos os tempos" por diversas listas e críticos, "Citizen Kane" (1941) representa um marco definitivo na linha histórica do cinema. Inovações técnicas e narrativas fazem do filme de estreia do gênio Orson Welles uma das mais relevantes obras de arte do século XX. Apesar de toda essa importância e valor, o filme foi solenemente esnobado no Oscar daquele ano. No caso, é até compreensível: a trama que revisita a vida do magnata Charles Foster Kane - vivido pelo próprio Welles - foi diretamente inspirada na trajetória de William Randolph Hearst, um dos maiores magnatas da imprensa americana. Considerado o "pai" do jornalismo sensacionalista no continente, Hearst percebeu a "homenagem" e promoveu um intenso boicote ao filme, que acabou ignorado por público e crítica. O mesmo aconteceu na cerimônia do Oscar: das 9 indicações, levou apenas uma - a de Roteiro Original, mais direcionada ao co-roteirista Herman J. Mankiewicz do que para Welles, que passou a ser evitado pelos grandes estúdios. Já o prêmio de Melhor Filme ficou com "Como Era Verde o Meu Vale", que deu também o Oscar de Direção para John Ford. O genial Welles, que merecia ganhar em cada categoria a que foi indicado, pagou caro pela ousadia e se viu abandonado pela indústria que ele acreditava estar destinado a dominar.
 

1. Stanley Kubrick, por "2001 - Uma Odisséia no Espaço"



Bastaram 13 filmes para que Stanley Kubrick fosse considerado um dos diretores mais brilhantes do cinema. O título é justo. Em cada nova obra, uma barreira era quebrada em algum aspecto visual, criativo ou estrutural. Mas em 1968, Kubrick se superaria. Com "2001 - Uma Odisséia no Espaço", ele quebrou não só as barreiras da tecnologia, mas também as dos sonhos. Sua viagem sensorial era uma pintura em movimento, uma experiência audiovisual nunca antes realizada e jamais igualada. A partir de então, os efeitos visuais e o gênero ficção científica - até mesmo o próprio cinema - não seriam os mesmos, ainda bebendo de sua fonte. Apesar do grande sucesso e aclamação entre público e crítica, a Academia foi conservadora e premiou o musical "Oliver!" como Melhor Filme do ano. Muitos apontavam Kubrick como favorito ao Oscar de Diretor, pela visão inovadora e inventiva, mas a estatueta acabou com Carol Reed, responsável pela direção do musical premiado. Entre todas as quatro vezes que Kubrick foi indicado ao Oscar - por "Dr. Fantástico" (1964), "Laranja Mecânica" (1971) e "Barry Lyndon" (1975) -, essa foi a oportunidade em que ele chegou mais perto de conquistá-la - e de fato a merecia. Em toda sua brilhante carreira, só teve um Oscar de Efeitos Especiais no currículo, exatamente pelas criações de "2001". No final da vida, Kubrick seria lembrado com prêmios especiais pela sua contribuição ao Cinema - no caso, o Leão de Ouro no Festival de Veneza e o Prêmio D.W. Griffith, maior honraria do Director's Guild of America. Já a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas jamais teve a iniciativa de dar sequer um Oscar Honorário para o diretor. Bem... Basta conferir sua filmografia para perceber que não fez falta.


É claro que ocorreram muitos outros furos e zebras em 85 anos de premiação, e aqui estão apenas alguns exemplos mais gritantes. A entrega do Oscar 2014 será realizada no dia 2 de Março. Certamente, a festa terá aquele charme irresistível e ninguém conseguirá deixar de assisti-la. Nem precisa. O Oscar é uma clássica tradição cinematográfica e é inegavelmente divertido acompanhar as estrelas do cinema homenageando o passado, consagrando o presente e apontando possíveis tendências para o futuro. Mas é importante ter em mente que ganhar um Oscar não faz de um filme uma obra-prima, e que muitas obras fundamentais e grandes atores são anualmente esquecidos pela Academia e seus votantes. Que o digam títulos como "Luzes da Cidade" (1931), "Cantando na Chuva" (1952), "Psicose" (1960), "A Primeira Noite de Um Homem" (1967), "Taxi Driver" (1976), "Apocalypse Now" (1979), "Pulp Fiction" (1994) e muitos outros. Muitos mesmo.

Tendo isso em mente, QUE VENHA O OSCAR 2014!


domingo, 29 de dezembro de 2013

A Liberdade É Azul - A Polêmica e a Beleza do Ousado Vencedor da Palma de Ouro 2013


 
É cada vez mais raro sair de uma sessão de cinema tendo suas expectativas para um filme não apenas correspondidas, mas superadas. Quando acontece, é uma sensação quase indescritível - atire a primeira pedra quem nunca sentiu isso. O caso mais recente foi com o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013: "Azul é a Cor Mais Quente", um filme francês cercado de polêmica e controvérsia desde sua primeira exibição. Baseado na história em quadrinhos "Le Bleu Est Une Coulert Chaude", de Julie Maroh, o filme acompanha o intenso caso de amor entre uma jovem estudante e uma artista plástica de cabelos azuis. O grande foco de toda a polêmica foi o uso de sequências de sexo explícito entre as duas jovens protagonistas. Esse detalhe acabou ofuscando qualquer outro aspecto do filme, para o bem e para o mal.

"La Vie D'Adèle" é o quinto filme do diretor franco-tunísio Abdellatif Kechiche. Depois de obras fortes como "O Segredo do Grão" (2007) e "Vênus Negra" (2010), o diretor chocou alguns críticos e cinéfilos pelo seu retrato bem sincero das descobertas amorosas e sexuais de uma jovem mulher em um filme de 187 minutos - que acabou levando o prêmio máximo de Cannes. O fato de Steven Spielberg - diretor conservador e comercial - ser o presidente do Júri que laureou a ousada obra apenas aumentou ainda mais o inevitável barulho da premiação. Mas vamos aos fatos.


"Azul é a Cor Mais Quente" é um filme realmente longo, mas nunca gratuito. Sua duração é maior à da grande média dos filmes no circuito, mas não há enrolação ou sequências desnecessárias em sua estrutura. Todas as cenas e situações têm sentido narrativo claro e adicionam mais elementos fundamentais à transformação das personagens. Diante disso, o tempo passa e o público mergulhado na história nem sente. Se é um filme polêmico como muitos dizem? Sim e não. Realmente, é uma obra ousada pela abordagem direta e explícita. Kechiche em nenhum momento esconde a sexualidade explosiva que brota em suas personagens. Quando há sexo entre elas, realmente há sexo intenso em cena. Claro que as imagens podem parecer fortes, incômodas ou até mesmo apelativas para parte da audiência, mas quando "sexo" é o tema retratado, esse tipo de reação parcial se mostra inevitável. O alvo de tanta polêmica são sequências bem pontuais, que somadas não completam nem 10 minutos. Mais do que qualquer coisa, são cenas sinceras que tornam as personagens e suas motivações mais legítimas, dando um sentido maior à história daquelas duas pessoas tão envolvidas e apaixonadas - e nisso se justificam. Vale lembrar: é um filme ousado, mas nunca gratuito.

A atriz Léa Sevdoux, rosto já conhecido pelo grande público por participações em filmes como "Bastardos Inglórios" (2009) e "Meia Noite em Paris" (2011), exala talento e segurança na pele de Emma, a artista plástica que ilumina cada fotograma em que aparece com seus cabelos curtos e azulados. É o grande ícone visual do filme, sem dúvida. Mas toda força e brilho que a produção francesa tem vem da incrível relevação chamada Adèle Exarchopoulos. Sim, o nome dela é complicado. E sim, é o mesmo de sua personagem. Adèle tinha apenas 19 anos quando gravou a produção, mas o filme é basicamente focado e debruçado em sua performance. E aí está seu trunfo. Através dela, acompanhamos a completa evolução de sua personagem: de uma jovem estudante indecisa e insegura até uma mulher determinada e segura de si, apesar de insatisfeita. No meio do caminho, lágrimas, prazer, gozo, raiva, dúvida, amor... A vida e seus inevitáveis detalhes. A cada nova ação ou discurso, ela nos apresenta mais nuances e camadas que ajudam a formar sua complexa personalidade. É uma personagem de extrema riqueza que só poderia funcionar e envolver o público de forma genuína se defendida por uma atriz de extrema competência e talento, disposta a mergulhar de corpo e alma no papel. Para a nossa alegria, é o que acontece. Os fãs da "Blue Jasmine" de Cate Blanchett que me perdoem, mas aqui Adèle Exarchopoulos entrega a melhor atuação feminina que vi neste ano de 2013. Sem mais.


Após receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes com direito à muita festa e alegria, "La Vie d'Adèle" entrou em uma espécie de inferno particular que dominou a imprensa voltada à indústria do Cinema. A polêmica veio não só por parte do público perplexo com o sexo ou relacionamento lésbico em cena, mas por conflitos entre o diretor e suas musas. Léa declarou em várias ocasiões ter se sentido explorada e maltratada por Kechiche, com quem jurou nunca mais trabalhar. Não demorou muito para que Adéle também relevasse algumas dificuldades e abusos ocorridos durante as gravações. Frustrado com tantas críticas, o diretor chegou a dizer que nunca deveria ter lançado o filme, pois se tratava de uma obra suja. Sentindo-se humilhado por um público que "nunca veria o filme com coração aberto e olhar atento", ele chegou a afirmar que a vitória em Cannes foi um "breve momento de felicidade". Pelos registros e celebrações da época, era realmente difícil imaginar tensões em um time tão realizado e feliz.

A grande questão é que "Azul é a Cor Mais Quente" é maior que qualquer polêmica que o cerca. Até mesmo as já famosas cenas de sexo vão além do puro tabu. Kechiche é um cineasta que sabe transformar em arte aquilo que enquadra. E seus belíssimos enquadramentos geram imagens de incrível sensibilidade e força. Poucos diretores em atividade sabem fazer planos fechados e closes da mesma forma que Kechiche. Com eles, os orgasmos das personagens, suas bocas, cabelos e os desenhos e curvas de seus corpos se tornam incríveis quadros da natureza humana em seu estado mais puro. Mesmo sendo - sem sombra de dúvida - um dos melhores lançamentos do ano, o estilo/ ritmo adotado pelo diretor chegou a ser julgado como "irregular e confuso" por alguns críticos mais conservadores. E aqui fica bastante claro que, tematica e estruturalmente, o maior "pecado" e causa das inúmeras polêmicas geradas pelo filme seja exatamente o fato de ele ser extremamente livre em tudo que propõe e aborda. Mas não seria um de seus principais temas a liberdade em si? Pois é. Abdellatif Kechiche pode se dar o direito de sorrir mais tranquilo e realizado.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mudança de Hábito - Charlie Chaplin e sua Obra-Prima Esquecida, "Monsieur Verdoux"


É simplesmente impossível falar de Cinema sem citar o nome de Charles Spencer Chaplin (1889-1977). Ícone definitivo da sétima arte, o inglês deixou sua imagem eternizada como a personalidade mais famosa do século XX. Com a característica vestimenta, bigodinho e bengala, seu "vagabundo" se tornou uma das figuras mais atemporais e universais da história da humanidade. Mas Chaplin, o homem, já tentou fugir de Chaplin, o mito. E acredite: é ele na foto acima.

Depois de lutar contra o uso de som no cinema lançando as obras-primas "Luzes da Cidade" (1931) e "Tempos Modernos" (1936) como obras mudas em plena era de filmes falados, Chaplin finalmente cedeu ao som. Em "O Grande Ditador" (1940), seu primeiro filme falado, ele encarnava Adenoid Hynkel, uma óbvia sátira a Adolf Hitler. Mesmo indicado ao Oscar por sua atuação, Chaplin não tinha deixado de lado sua mais famosa criação: no longa, o barbeiro judeu sósia do ditador era na verdade uma versão falante de seu clássico vagabundo. Mesmo visual maltrapilho, mesma inocência juvenil, mesmo personagem consagrado. Só que Chaplin queria dar um basta definitivo em seu alter-ego. Para isso, precisaria inovar em uma nova obra que tivesse  outra motivação e outro clima. Era necessária uma mudança propositalmente radical.

A ideia para fazer "uma comédia de assassinatos" não veio de Chaplin. Em 1942, um jovem cineasta se interessou em adaptar para os cinemas a vida de Henri Désiré Landru, um polêmico assassino francês que ficou conhecido como "Barba Azul" por matar suas mulheres para pegar suas heranças. Esse jovem cineasta em questão se chamava Orson Welles. Após o prestígio e polêmica com "Cidadão Kane" (1941), Welles pensava em realizar esse projeto como seu segundo filme e tinha plena convicção de que só um homem poderia protagonizá-lo: Chaplin, o eterno vagabundo. Ao ouvir a proposta, Chaplin viu ali a oportunidade perfeita para abandonar de vez a sombra de sua mais famosa criação. Completamente envolvido com a premissa, convenceu Welles de que ele era a pessoa certa para dirigi-la e comprou a ideia do diretor americano. Seu nome seria citado nos créditos, mas toda trama e características seriam mudadas e adaptadas ao gosto do próprio Chaplin. E assim nasceu "Monsieur Verdoux".


"Monsieur Verdoux - Uma Comédia de Assassinatos" - percebam que o título original de Orson Welles foi mantido como uma espécie de subtítulo - estreou sete anos após o último filme de Chaplin, "O Grande Ditador". A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) tinha deixado cicatrizes fortes na humanidade e o clima da Guerra Fria estava no ar. O mundo não era mais um lugar agradável e leve de se viver. E foi nesse contexto que os fãs incondicionais de Charlie Chaplin foram apresentados à sua nova encarnação: Henri Verdoux, um homem que se casa com madames e dondocas ricas para as matar e pegar seu dinheiro. Agora seu figurino é sofisticado, com chapéu e bengala de luxo. O bigode está lá, mas agora é pontudo e grisalho como seus cabelos. A pose é de um galã de meia idade e bon-vivant. Uma figura fria e implacável, mas irresistivelmente sedutora e charmosa. Uma iniciativa ousada e extrema para abandonar de vez a figura do ingênuo vagabundo.

Nessa nova obra prevalecia o humor negro, ainda pouco compreendido ou apreciado na época. Mas vale lembrar que apesar da temática pesada, em nenhum momento do filme há violência visual. Tudo é sugerido ou indicado, o que nos coloca na irresistível posição de cúmplices do galante assassino. Suas motivações também são legitimadas pelo roteiro: Verdoux trabalhava humildemente como caixa de banco até ser demitido após 30 anos de serviço, pela Grande Depressão. Para manter as condições de sua esposa inválida e do pequeno filho - apresentados ao público em um momento de extremo lirismo e beleza -, ele viu como única solução seus golpes mortais. É impossível sentir raiva ou antipatia pelo personagem, principalmente pela forma como Chaplin conduz as cenas e a narrativa. E aqui temos um perfeito exemplar do Chaplin cineasta. Normalmente acostumado à câmera estática e enquadramentos simples, Chaplin se renova com inspirados movimentos de câmera e uma maior fluência entre os planos. Ele inclusive flerta com o suspense de Hitchcock em certos momentos - como a cena marcante da escada em que Verdoux mata uma de suas esposas durante a noite. O ritmo, movimento de câmera e enquadramento cuidadosamente calculado causam um efeito arrepiante e inesquecível, sem que em nenhum momento seja dita a palavra "assassinato" ou qualquer ação seja vista. Nada é mostrado, mas tudo é entendido. Nesse quesito, "Monsieur Verdoux' é uma aula de Cinema, por um de seus maiores gênios.


Mestre na arte das imagens, Chaplin enfim se apropria do som e o usa com extremo apuro e cuidado na construção de suas gags. Detalhes como a risada exagerada da pretendente Annabella - vivida hilariamente pela comediante Martha Raye - tornam-se extremamente importantes para o desenrolar da trama - algo que Chaplin não poderia usar no cinema mudo, mas aqui utiliza com extrema sabedoria. Há ainda o timing perfeito do canto dos barqueiros na cena em que ele tenta se livrar de Annabella em um barco, crente de que está isolado no meio do lago. Essa sequência inteira, inclusive, está entre as mais engraçadas e brilhantes já feitas em uma comédia.

Mais do que uma das maiores provas do talento de Chaplin na função de diretor, seu Monsieur Verdoux é a prova definitiva do exímio ator que ele foi. Um dos maiores atores que o cinema conheceu, para falar a verdade. Poucos conseguiam - ou ainda conseguem - expressar uma motivação ou intenção tão bem corporalmente. Chaplin o fazia com incrível facilidade. Seu corpo era poesia, ação e imagem em sua essência. E ouso dizer que nenhum outro ator conseguiria viver Monsieur Verdoux tão bem quanto ele. Nem Laurence Olivier, nem Marlon Brando. Talvez Sir Alec Guinness até tivesse o perfil ideal para o personagem, mas sua interpretação dificilmente seria tão autêntica quanto à de Sir Charlie Chaplin. Seu gestual minimamente pensado, o tom de voz oscilando entre calma e impulsividade e, principalmente, os rápidos olhares debochados trocados com a câmera - ninguém poderia encarnar Monsieur Verdoux com tamanha perfeição. Nos singulares momentos em que repensa a "profissão" e parece se redimir, o Verdoux de Chaplin resume qualquer diálogo ou monólogo em profundos olhares que perduram o filme. A cena final de "Luzes da Cidade" já tinha deixado claro ao mundo que poucos sabem se expressar tão bem com a força do olhar.


Apesar de marcar o corte definitivo com a figura do vagabundo, Chaplin era muito irônico para deixar algumas referências de lado. Quando seu personagem é perseguido por um investigador da polícia, esse se veste exatamente como seu velho icônico alter-ego. Pode conferir na foto ao fim desse artigo. É uma perfeita metáfora visual para o envelhecido Chaplin se escondendo e fugindo da figura de Carlitos. Como em todos os filmes mudos protagonizados por Carlitos, aqui Chaplin também encerra o filme solitário em sua caminhada. Mas dessa vez a caminhada não é esperançosa ou rumo à possibilidade de um futuro feliz. Verdoux segue para um destino implacável e inevitável, e Chaplin conclui o filme com um clima bem pesado e reflexivo. Os mais atentos vão notar que, apesar da situação sombria, seu personagens dá os passos finais em cena com o jeito característico de Carlitos, o vagabundo. Uma pequena e rápida referência-homenagem, antes dos letreiros "The End" tomarem o quadro.

Lançado em 1947, "Monsieur Verdoux" foi o maior fracasso comercial da carreira de Chaplin. A temática pesada e sombria, o cinismo e deboche presente em cada ato de humor negro e a ausência de qualquer sombra de arrependimento moral acabaram por afastar o público e transformar essa pérola na ovelha negra da filmografia do diretor. Muitos dizem que seu lançamento, ignorando todas as proibições e críticas feitas pelos órgãos de cinema da época, contribuiu diretamente para sua expulsão dos Estados Unidos em 1952. É curioso, mas esse filme é pouquíssimo citado em qualquer retrospectiva ou documentário sobre o cineasta - nem mesmo em sua famosa cinebiografia de 1992 ele aparece. Acontece que "Monsieur Verdoux" é extremamente inovador e genial no uso do humor ácido que mais tarde marcaria a obra do grupo Monty Python ou dos Irmãos Coen, por exemplo. Diante de todo o prestígio e adoração que cercam a obra de Chaplin, é injusto que esse filme permaneça esnobado ou subvalorizado como "apenas mais um filme" de seu currículo. "Monsieur Verdoux" é uma obra-prima única do humor negro, extremamente à frente de seu tempo. Nada mais justo que tratá-la como tal.