segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Os Imperdoáveis - Um Top 10 de Grandes Injustiças da História do Oscar


A data é o dia 2 de Março. Se aproxima mais uma cerimônia de premiação do Oscar. E mais uma vez fazemos apostas e ficamos na expectativa para a festa mais glamourosa do Cinema. Mas vale lembrar, com muita atenção, que o Oscar não é o prêmio mais justo do mundo. Ao longo das 85 premiações realizadas, muitas injustiças foram cometidas e grandes nomes foram esnobados. Basta pegar qualquer lista dos filmes mais importantes da história para conferir que a grande maioria não tem uma estatueta no currículo - e isso serve para os próprios filmes americanos. O mesmo pode ser percebido entre os diretores fundamentais do cinema, muitos deles gênios esnobados pelo Oscar. Por que isso ocorre? Basicamente, é simples: o Oscar é um prêmio extremamente popular, mais voltado para a potencialização do sucesso de algum filme ou celebridade. Isso quer dizer que é um prêmio tendencioso, e quando está no "momento" de certo filme ou ator levar a estatueta dourada, dificilmente esse favoritismo é superado. O que não quer dizer que aquela foi de fato a melhor atuação do ano ou que o filme escolhido é uma obra-prima do cinema. Na maioria das vezes, inclusive, não é.

Mas há a tradição e diversão de acompanhar as cerimônias e homenagens feitas durante a grande festa. E por mais injusto que o Oscar seja, há uma aura irresistível em volta do evento. Não é mal nenhum assistir ou ficar na torcida, mas nada custa ter em mente que o Oscar já cometeu injustiças gravíssimas em sua história - e provavelmente ainda cometerá muitas enquanto existir.
"Kaio No Cinema" preparou uma pequena lista com algumas das injustiças mais gritantes ocorridas ao longo do prêmio. Foram tantas que fica até difícil de listar, ou seja: não é uma lista definitiva - afinal, nenhuma é -, mas sim a seleção de algumas gafes imperdoáveis dos votantes da Academia. Vamos aos casos:


10. Peter O'Toole, o esnobado.

 

Morto recentemente, o ator irlandes Peter Seamus O'Toole foi indicado ao Oscar de Melhor Ator 8 vezes, sem nunca ter sido premiado. Assim, se tornou o recordista em indicações sem nenhuma vitória, uma marca que ele não merecia. Isso, por si só, já seria uma grande injustiça do Oscar, mas chega a ser difícil imaginar que ele não foi premiado pela antológica atuação em "Lawrence da Arábia" (1962). A obra-prima de David Lean foi vencedora em quase todas categorias, incluindo Filme e Diretor, mas O'Toole - exatamente a alma do filme - ficou de mãos vazias. Quem levou a estatueta foi Gregory Peck, pelo trabalho em "O Sol É Para Todos". De fato, Peck é também responsável por uma das grandes atuações do cinema americano, mas isso não torna menos doloroso pensar que O'Toole teve que se contentar com um Oscar Honorário "de consolação" em 2003.


9. Jennifer Lawrence X Emmanuelle Riva



Em 2012, a musa do cinema francês Emmanuelle Riva comoveu o mundo com a intensa entrega no duro filme "Amor", de Michael Haneke. Seu trabalho visceral foi intensamente premiado mundo afora, e era certo que ela merecia qualquer prêmio por atuação feminina daquele ano. E então surgiu a jovem e popular Jennifer Lawrence em seu caminho. Aos 22 anos, a americana já era apontada como um dos grandes talentos de sua geração - e realmente é. Seu trabalho em "Inverno da Alma"(2011) era incrível e realmente só merecia perder para a Natalie Portman de "Cisne Negro", o que aconteceu. Mas no Oscar 2013, era a vez e hora de Riva, que se tornava a mais idosa atriz a ser indicada à categoria. Para piorar a situação, a dama francesa completava 86 anos exatamente na noite em que a cerimônia acontecia. O que poderia ser uma linda homenagem à veterana, acabou se tornando mais uma prova da frieza de Hollywood: o prêmio foi para Lawrence, pelo apenas eficiente papel em "O Lado Bom da Vida". A atriz é carismática em cena e merece mesmo a atenção da indústria, mas não era um papel digno de Oscar. Ela foi premiada cedo demais, e restou a Emmanuelle Riva aplaudir a jovem enquanto essa tropeçava na escadaria à caminho do palco.


8.  Ridley Scott, pela direção de "Gladiador". 


Responsável pelo retorno dos grande épicos à Hollywood, "Gladiador" (2000) ganhou todos os prêmios principais da ocasião - muito merecidamente. E logo quando Ridley Scott finalmente se tornaria um diretor oscarizado pela indústria, eis que surge Steven Soderbergh e rouba seu Oscar. O filme que lhe consagrou, "Traffic", era muito bem realizado e dirigido, mas não barrava o trabalho de Scott na condução da complexa superprodução. Desde então, o veterano diretor inglês de 76 anos segue como um dos nomes mais injustamente esnobados pelo Oscar. Indiferente à isso, continua em alta produtividade, adicionando grandes obras à sua filmografia. Mas que ele merecia mais reconhecimento, merecia!


7. Cate Blanchett como Bob Dylan.


O filme "I'm Not There" (2007) tinha uma proposta bem interessante: colocar 7 atores para interpretar o cantor e compositor Bob Dylan em diferentes fases da vida e da música. Entre todas atuações, o destaque absoluto era para Cate Blanchett, a única mulher do grupo. A australiana encarnava o ícone americano de forma assustadora, seja na voz, no gestual ou no visual. Blanchett realmente entrou na mente do homem e se tornou Dylan diante de todos que viram o filme. Ela era favorita absoluta na categoria Melhor Atriz Coadjuvante, mas quando o envelope foi aberto e o nome de Tilda Swinton anunciado, a própria escolhida ficou surpresa e incrédula. Swinton levou o Oscar pelo discreto papel em "Conduta de Risco", thriller eficiente que ninguém mais lembra muito bem. Já a atuação de Blanchett continua a ser cultuada e admirada por milhares de pessoas que se interessaram a conhecer melhor Dylan através do seu trabalho no filme. Blanchett, vencedora da mesma categoria em 2005 - ao encarnar Katherine Hepburn em "O Aviador" - chega ao Oscar 2014 como favorita ao prêmio principal pela atuação em "Blue Jasmine". Será que vem aí outra zebra?

6. Jack Lemmon, por "Se Meu Apartamento Falasse".


Uma das obras-primas da filmografia de Billy Wilder, "The Apartment" lhe deu seu segundo Oscar de Melhor Diretor e ainda levou os prêmios de Filme, Roteiro Original, Direção de Arte e Edição. Seria uma consagração totalmente justa se contasse também com uma estatueta pela atuação de Jack Lemmon. Afinal, foi através desse filme que ele se tornou definitivamente um dos artistas mais cultuados e queridos da indústria do cinema. Apesar do favoritismo de Lemmon, quem levou a melhor foi o veterano Burt Lancaster, pelo papel em "Elmer Gantry" - um filme bem esquecido no tempo, cá entre nós. Lemmon, vencedor de Coadjuvante por "Mister Roberts" (1955), só viria a ganhar na categoria principal por "Save the Tiger" (1973). A injustiça por "Se Meu Apartamento Falasse" seria abrandada quando Kevin Spacey, ao ganhar o Oscar de Melhor Ator por "Beleza Americana" (1999), dedicou o prêmio ao trabalho de Lemmon nesse imortal clássico. Uma homenagem tardia, mas muito justa.
 

5. O elenco de "O Poderoso Chefão".


O ano de 1972 foi tomado de assalto pelo fenômeno "The Godfather", obra-prima de Francis Ford Coppola. Só que em seu caminho tinha "Cabaret", o musical que representa o ponto alto da carreira do diretor Bob Fosse. O coreógrafo e cineasta ganhou - merecidamente, precisamos admitir - o Oscar de Direção, mas o filme de Coppola conseguiu as estatuetas de Filme, Roteiro Adaptado e Ator para o inesquecível Marlon Brando - que, aliás, recusou o Oscar e mandou uma atriz vestida de índia para buscá-lo. Independente dessa polêmica, a questão é que entre os indicados ao prêmio de Melhor Coadjuvante, o impecável elenco de "O Poderoso Chefão" marcou presença forte: Al Pacino, James Caan e Robert Duvall concorriam pela participação no filme. O favoritismo alternava entre Pacino e Caan, explosivos em cena e até hoje referências pelos seus papéis. E eis que é anunciado o vencedor: Joel Grey, intérprete do demoníaco mestre de cerimônias de "Cabaret". Embora fosse de fato um trabalho marcante, nem se comparava à intensidade dos dois atores anteriormente citados. Sem falar que Grey basicamente se aposentou dos cinemas depois disso, fazendo apenas participações afetivas em alguns filmes como "Dançando no Escuro" (2001). Um resultado até hoje discutido por muitos cinéfilos. 

 

4. Alfred Hitchcock, o mestre esquecido.

  


Ele é considerado o "mestre do suspense" e um dos diretores mais importantes da história do cinema. Apesar de todo prestígio e influência, Alfred Hitchcock - infelizmente - não era tão celebrado em vida. Sucesso de público e esnobado pela crítica, Hitchcock recebeu cinco indicações ao Oscar na carreira, pelo comando dos clássicos "Rebecca - A Mulher Inesquecível" (1940), "Um barco e nove destinos" (1944), "Quando Fala o Coração" (1945), "Janela Indiscreta" (1954) e "Psicose" (1960). Mesmo assim, foi solenemente ignorado todas as vezes e nunca levou a estatueta. Isso mesmo: o homem que ajudou a revolucionar o cinema e fez obras-primas como "Pacto Sinistro" (1951), "Um Corpo Que Cai" (1958) e "Intriga Internacional" (1959) sempre foi ignorado pelo Oscar. Seu único filme premiado foi "Rebecca - A Mulher Inesquecível", eleito o Melhor Filme em 1941 - mas sem o prêmio por sua direção. A Academia só corrigiu o erro em 1968, quando lhe concedeu o Prêmio Honorário Irving G. Thalberg, uma das maiores honrarias de Hollywood. Hitchcock, com seu característico jeitinho inglês, não deu muita bola para a tardia homenagem. E nem precisava.


3. Martin Scorsese e seu prêmio tardio.




Quando Martin Scorsese finalmente recebeu o Oscar de Melhor Diretor por "Os Infiltrados" (2006), todos seus fãs sabiam que era um prêmio tardio e burocrático, ainda que justo. O grande momento do cineasta tinha sido com "Touro Indomável" (1980), obra-prima de sua filmografia. Favorito aos prêmios de Filme e Direção, ele saiu de mãos vazias quando "Gente Como a Gente" ganhou a categoria principal e deu ao galã Robert Redford a estatueta de Direção em seu primeiro trabalho atrás das câmeras. "Touro Indomável" ainda é um dos maiores filmes da história do cinema, presente em qualquer lista de "melhores", enquanto... Quem lembra do filme de Redford? Pois é.
Algo semelhante aconteceu em 1990, quando "Os Bons Companheiros" mais uma vez colocou Scorsese no páreo dos prêmios principais e foi surpreendido pela inesperada vitória de "Dança Com Lobos" e do seu também galã e estreante diretor Kevin Costner. Parecia algo pessoal, não?



2."Cidadão Kane", um caso à parte. 


Volta e meia apontado como "o maior filme de todos os tempos" por diversas listas e críticos, "Citizen Kane" (1941) representa um marco definitivo na linha histórica do cinema. Inovações técnicas e narrativas fazem do filme de estreia do gênio Orson Welles uma das mais relevantes obras de arte do século XX. Apesar de toda essa importância e valor, o filme foi solenemente esnobado no Oscar daquele ano. No caso, é até compreensível: a trama que revisita a vida do magnata Charles Foster Kane - vivido pelo próprio Welles - foi diretamente inspirada na trajetória de William Randolph Hearst, um dos maiores magnatas da imprensa americana. Considerado o "pai" do jornalismo sensacionalista no continente, Hearst percebeu a "homenagem" e promoveu um intenso boicote ao filme, que acabou ignorado por público e crítica. O mesmo aconteceu na cerimônia do Oscar: das 9 indicações, levou apenas uma - a de Roteiro Original, mais direcionada ao co-roteirista Herman J. Mankiewicz do que para Welles, que passou a ser evitado pelos grandes estúdios. Já o prêmio de Melhor Filme ficou com "Como Era Verde o Meu Vale", que deu também o Oscar de Direção para John Ford. O genial Welles, que merecia ganhar em cada categoria a que foi indicado, pagou caro pela ousadia e se viu abandonado pela indústria que ele acreditava estar destinado a dominar.
 

1. Stanley Kubrick, por "2001 - Uma Odisséia no Espaço"



Bastaram 13 filmes para que Stanley Kubrick fosse considerado um dos diretores mais brilhantes do cinema. O título é justo. Em cada nova obra, uma barreira era quebrada em algum aspecto visual, criativo ou estrutural. Mas em 1968, Kubrick se superaria. Com "2001 - Uma Odisséia no Espaço", ele quebrou não só as barreiras da tecnologia, mas também as dos sonhos. Sua viagem sensorial era uma pintura em movimento, uma experiência audiovisual nunca antes realizada e jamais igualada. A partir de então, os efeitos visuais e o gênero ficção científica - até mesmo o próprio cinema - não seriam os mesmos, ainda bebendo de sua fonte. Apesar do grande sucesso e aclamação entre público e crítica, a Academia foi conservadora e premiou o musical "Oliver!" como Melhor Filme do ano. Muitos apontavam Kubrick como favorito ao Oscar de Diretor, pela visão inovadora e inventiva, mas a estatueta acabou com Carol Reed, responsável pela direção do musical premiado. Entre todas as quatro vezes que Kubrick foi indicado ao Oscar - por "Dr. Fantástico" (1964), "Laranja Mecânica" (1971) e "Barry Lyndon" (1975) -, essa foi a oportunidade em que ele chegou mais perto de conquistá-la - e de fato a merecia. Em toda sua brilhante carreira, só teve um Oscar de Efeitos Especiais no currículo, exatamente pelas criações de "2001". No final da vida, Kubrick seria lembrado com prêmios especiais pela sua contribuição ao Cinema - no caso, o Leão de Ouro no Festival de Veneza e o Prêmio D.W. Griffith, maior honraria do Director's Guild of America. Já a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas jamais teve a iniciativa de dar sequer um Oscar Honorário para o diretor. Bem... Basta conferir sua filmografia para perceber que não fez falta.


É claro que ocorreram muitos outros furos e zebras em 85 anos de premiação, e aqui estão apenas alguns exemplos mais gritantes. A entrega do Oscar 2014 será realizada no dia 2 de Março. Certamente, a festa terá aquele charme irresistível e ninguém conseguirá deixar de assisti-la. Nem precisa. O Oscar é uma clássica tradição cinematográfica e é inegavelmente divertido acompanhar as estrelas do cinema homenageando o passado, consagrando o presente e apontando possíveis tendências para o futuro. Mas é importante ter em mente que ganhar um Oscar não faz de um filme uma obra-prima, e que muitas obras fundamentais e grandes atores são anualmente esquecidos pela Academia e seus votantes. Que o digam títulos como "Luzes da Cidade" (1931), "Cantando na Chuva" (1952), "Psicose" (1960), "A Primeira Noite de Um Homem" (1967), "Taxi Driver" (1976), "Apocalypse Now" (1979), "Pulp Fiction" (1994) e muitos outros. Muitos mesmo.

Tendo isso em mente, QUE VENHA O OSCAR 2014!


domingo, 29 de dezembro de 2013

A Liberdade É Azul - A Polêmica e a Beleza do Ousado Vencedor da Palma de Ouro 2013


 
É cada vez mais raro sair de uma sessão de cinema tendo suas expectativas para um filme não apenas correspondidas, mas superadas. Quando acontece, é uma sensação quase indescritível - atire a primeira pedra quem nunca sentiu isso. O caso mais recente foi com o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013: "Azul é a Cor Mais Quente", um filme francês cercado de polêmica e controvérsia desde sua primeira exibição. Baseado na história em quadrinhos "Le Bleu Est Une Coulert Chaude", de Julie Maroh, o filme acompanha o intenso caso de amor entre uma jovem estudante e uma artista plástica de cabelos azuis. O grande foco de toda a polêmica foi o uso de sequências de sexo explícito entre as duas jovens protagonistas. Esse detalhe acabou ofuscando qualquer outro aspecto do filme, para o bem e para o mal.

"La Vie D'Adèle" é o quinto filme do diretor franco-tunísio Abdellatif Kechiche. Depois de obras fortes como "O Segredo do Grão" (2007) e "Vênus Negra" (2010), o diretor chocou alguns críticos e cinéfilos pelo seu retrato bem sincero das descobertas amorosas e sexuais de uma jovem mulher em um filme de 187 minutos - que acabou levando o prêmio máximo de Cannes. O fato de Steven Spielberg - diretor conservador e comercial - ser o presidente do Júri que laureou a ousada obra apenas aumentou ainda mais o inevitável barulho da premiação. Mas vamos aos fatos.


"Azul é a Cor Mais Quente" é um filme realmente longo, mas nunca gratuito. Sua duração é maior à da grande média dos filmes no circuito, mas não há enrolação ou sequências desnecessárias em sua estrutura. Todas as cenas e situações têm sentido narrativo claro e adicionam mais elementos fundamentais à transformação das personagens. Diante disso, o tempo passa e o público mergulhado na história nem sente. Se é um filme polêmico como muitos dizem? Sim e não. Realmente, é uma obra ousada pela abordagem direta e explícita. Kechiche em nenhum momento esconde a sexualidade explosiva que brota em suas personagens. Quando há sexo entre elas, realmente há sexo intenso em cena. Claro que as imagens podem parecer fortes, incômodas ou até mesmo apelativas para parte da audiência, mas quando "sexo" é o tema retratado, esse tipo de reação parcial se mostra inevitável. O alvo de tanta polêmica são sequências bem pontuais, que somadas não completam nem 10 minutos. Mais do que qualquer coisa, são cenas sinceras que tornam as personagens e suas motivações mais legítimas, dando um sentido maior à história daquelas duas pessoas tão envolvidas e apaixonadas - e nisso se justificam. Vale lembrar: é um filme ousado, mas nunca gratuito.

A atriz Léa Sevdoux, rosto já conhecido pelo grande público por participações em filmes como "Bastardos Inglórios" (2009) e "Meia Noite em Paris" (2011), exala talento e segurança na pele de Emma, a artista plástica que ilumina cada fotograma em que aparece com seus cabelos curtos e azulados. É o grande ícone visual do filme, sem dúvida. Mas toda força e brilho que a produção francesa tem vem da incrível relevação chamada Adèle Exarchopoulos. Sim, o nome dela é complicado. E sim, é o mesmo de sua personagem. Adèle tinha apenas 19 anos quando gravou a produção, mas o filme é basicamente focado e debruçado em sua performance. E aí está seu trunfo. Através dela, acompanhamos a completa evolução de sua personagem: de uma jovem estudante indecisa e insegura até uma mulher determinada e segura de si, apesar de insatisfeita. No meio do caminho, lágrimas, prazer, gozo, raiva, dúvida, amor... A vida e seus inevitáveis detalhes. A cada nova ação ou discurso, ela nos apresenta mais nuances e camadas que ajudam a formar sua complexa personalidade. É uma personagem de extrema riqueza que só poderia funcionar e envolver o público de forma genuína se defendida por uma atriz de extrema competência e talento, disposta a mergulhar de corpo e alma no papel. Para a nossa alegria, é o que acontece. Os fãs da "Blue Jasmine" de Cate Blanchett que me perdoem, mas aqui Adèle Exarchopoulos entrega a melhor atuação feminina que vi neste ano de 2013. Sem mais.


Após receber a Palma de Ouro no Festival de Cannes com direito à muita festa e alegria, "La Vie d'Adèle" entrou em uma espécie de inferno particular que dominou a imprensa voltada à indústria do Cinema. A polêmica veio não só por parte do público perplexo com o sexo ou relacionamento lésbico em cena, mas por conflitos entre o diretor e suas musas. Léa declarou em várias ocasiões ter se sentido explorada e maltratada por Kechiche, com quem jurou nunca mais trabalhar. Não demorou muito para que Adéle também relevasse algumas dificuldades e abusos ocorridos durante as gravações. Frustrado com tantas críticas, o diretor chegou a dizer que nunca deveria ter lançado o filme, pois se tratava de uma obra suja. Sentindo-se humilhado por um público que "nunca veria o filme com coração aberto e olhar atento", ele chegou a afirmar que a vitória em Cannes foi um "breve momento de felicidade". Pelos registros e celebrações da época, era realmente difícil imaginar tensões em um time tão realizado e feliz.

A grande questão é que "Azul é a Cor Mais Quente" é maior que qualquer polêmica que o cerca. Até mesmo as já famosas cenas de sexo vão além do puro tabu. Kechiche é um cineasta que sabe transformar em arte aquilo que enquadra. E seus belíssimos enquadramentos geram imagens de incrível sensibilidade e força. Poucos diretores em atividade sabem fazer planos fechados e closes da mesma forma que Kechiche. Com eles, os orgasmos das personagens, suas bocas, cabelos e os desenhos e curvas de seus corpos se tornam incríveis quadros da natureza humana em seu estado mais puro. Mesmo sendo - sem sombra de dúvida - um dos melhores lançamentos do ano, o estilo/ ritmo adotado pelo diretor chegou a ser julgado como "irregular e confuso" por alguns críticos mais conservadores. E aqui fica bastante claro que, tematica e estruturalmente, o maior "pecado" e causa das inúmeras polêmicas geradas pelo filme seja exatamente o fato de ele ser extremamente livre em tudo que propõe e aborda. Mas não seria um de seus principais temas a liberdade em si? Pois é. Abdellatif Kechiche pode se dar o direito de sorrir mais tranquilo e realizado.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Mudança de Hábito - Charlie Chaplin e sua Obra-Prima Esquecida, "Monsieur Verdoux"


É simplesmente impossível falar de Cinema sem citar o nome de Charles Spencer Chaplin (1889-1977). Ícone definitivo da sétima arte, o inglês deixou sua imagem eternizada como a personalidade mais famosa do século XX. Com a característica vestimenta, bigodinho e bengala, seu "vagabundo" se tornou uma das figuras mais atemporais e universais da história da humanidade. Mas Chaplin, o homem, já tentou fugir de Chaplin, o mito. E acredite: é ele na foto acima.

Depois de lutar contra o uso de som no cinema lançando as obras-primas "Luzes da Cidade" (1931) e "Tempos Modernos" (1936) como obras mudas em plena era de filmes falados, Chaplin finalmente cedeu ao som. Em "O Grande Ditador" (1940), seu primeiro filme falado, ele encarnava Adenoid Hynkel, uma óbvia sátira a Adolf Hitler. Mesmo indicado ao Oscar por sua atuação, Chaplin não tinha deixado de lado sua mais famosa criação: no longa, o barbeiro judeu sósia do ditador era na verdade uma versão falante de seu clássico vagabundo. Mesmo visual maltrapilho, mesma inocência juvenil, mesmo personagem consagrado. Só que Chaplin queria dar um basta definitivo em seu alter-ego. Para isso, precisaria inovar em uma nova obra que tivesse  outra motivação e outro clima. Era necessária uma mudança propositalmente radical.

A ideia para fazer "uma comédia de assassinatos" não veio de Chaplin. Em 1942, um jovem cineasta se interessou em adaptar para os cinemas a vida de Henri Désiré Landru, um polêmico assassino francês que ficou conhecido como "Barba Azul" por matar suas mulheres para pegar suas heranças. Esse jovem cineasta em questão se chamava Orson Welles. Após o prestígio e polêmica com "Cidadão Kane" (1941), Welles pensava em realizar esse projeto como seu segundo filme e tinha plena convicção de que só um homem poderia protagonizá-lo: Chaplin, o eterno vagabundo. Ao ouvir a proposta, Chaplin viu ali a oportunidade perfeita para abandonar de vez a sombra de sua mais famosa criação. Completamente envolvido com a premissa, convenceu Welles de que ele era a pessoa certa para dirigi-la e comprou a ideia do diretor americano. Seu nome seria citado nos créditos, mas toda trama e características seriam mudadas e adaptadas ao gosto do próprio Chaplin. E assim nasceu "Monsieur Verdoux".


"Monsieur Verdoux - Uma Comédia de Assassinatos" - percebam que o título original de Orson Welles foi mantido como uma espécie de subtítulo - estreou sete anos após o último filme de Chaplin, "O Grande Ditador". A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) tinha deixado cicatrizes fortes na humanidade e o clima da Guerra Fria estava no ar. O mundo não era mais um lugar agradável e leve de se viver. E foi nesse contexto que os fãs incondicionais de Charlie Chaplin foram apresentados à sua nova encarnação: Henri Verdoux, um homem que se casa com madames e dondocas ricas para as matar e pegar seu dinheiro. Agora seu figurino é sofisticado, com chapéu e bengala de luxo. O bigode está lá, mas agora é pontudo e grisalho como seus cabelos. A pose é de um galã de meia idade e bon-vivant. Uma figura fria e implacável, mas irresistivelmente sedutora e charmosa. Uma iniciativa ousada e extrema para abandonar de vez a figura do ingênuo vagabundo.

Nessa nova obra prevalecia o humor negro, ainda pouco compreendido ou apreciado na época. Mas vale lembrar que apesar da temática pesada, em nenhum momento do filme há violência visual. Tudo é sugerido ou indicado, o que nos coloca na irresistível posição de cúmplices do galante assassino. Suas motivações também são legitimadas pelo roteiro: Verdoux trabalhava humildemente como caixa de banco até ser demitido após 30 anos de serviço, pela Grande Depressão. Para manter as condições de sua esposa inválida e do pequeno filho - apresentados ao público em um momento de extremo lirismo e beleza -, ele viu como única solução seus golpes mortais. É impossível sentir raiva ou antipatia pelo personagem, principalmente pela forma como Chaplin conduz as cenas e a narrativa. E aqui temos um perfeito exemplar do Chaplin cineasta. Normalmente acostumado à câmera estática e enquadramentos simples, Chaplin se renova com inspirados movimentos de câmera e uma maior fluência entre os planos. Ele inclusive flerta com o suspense de Hitchcock em certos momentos - como a cena marcante da escada em que Verdoux mata uma de suas esposas durante a noite. O ritmo, movimento de câmera e enquadramento cuidadosamente calculado causam um efeito arrepiante e inesquecível, sem que em nenhum momento seja dita a palavra "assassinato" ou qualquer ação seja vista. Nada é mostrado, mas tudo é entendido. Nesse quesito, "Monsieur Verdoux' é uma aula de Cinema, por um de seus maiores gênios.


Mestre na arte das imagens, Chaplin enfim se apropria do som e o usa com extremo apuro e cuidado na construção de suas gags. Detalhes como a risada exagerada da pretendente Annabella - vivida hilariamente pela comediante Martha Raye - tornam-se extremamente importantes para o desenrolar da trama - algo que Chaplin não poderia usar no cinema mudo, mas aqui utiliza com extrema sabedoria. Há ainda o timing perfeito do canto dos barqueiros na cena em que ele tenta se livrar de Annabella em um barco, crente de que está isolado no meio do lago. Essa sequência inteira, inclusive, está entre as mais engraçadas e brilhantes já feitas em uma comédia.

Mais do que uma das maiores provas do talento de Chaplin na função de diretor, seu Monsieur Verdoux é a prova definitiva do exímio ator que ele foi. Um dos maiores atores que o cinema conheceu, para falar a verdade. Poucos conseguiam - ou ainda conseguem - expressar uma motivação ou intenção tão bem corporalmente. Chaplin o fazia com incrível facilidade. Seu corpo era poesia, ação e imagem em sua essência. E ouso dizer que nenhum outro ator conseguiria viver Monsieur Verdoux tão bem quanto ele. Nem Laurence Olivier, nem Marlon Brando. Talvez Sir Alec Guinness até tivesse o perfil ideal para o personagem, mas sua interpretação dificilmente seria tão autêntica quanto à de Sir Charlie Chaplin. Seu gestual minimamente pensado, o tom de voz oscilando entre calma e impulsividade e, principalmente, os rápidos olhares debochados trocados com a câmera - ninguém poderia encarnar Monsieur Verdoux com tamanha perfeição. Nos singulares momentos em que repensa a "profissão" e parece se redimir, o Verdoux de Chaplin resume qualquer diálogo ou monólogo em profundos olhares que perduram o filme. A cena final de "Luzes da Cidade" já tinha deixado claro ao mundo que poucos sabem se expressar tão bem com a força do olhar.


Apesar de marcar o corte definitivo com a figura do vagabundo, Chaplin era muito irônico para deixar algumas referências de lado. Quando seu personagem é perseguido por um investigador da polícia, esse se veste exatamente como seu velho icônico alter-ego. Pode conferir na foto ao fim desse artigo. É uma perfeita metáfora visual para o envelhecido Chaplin se escondendo e fugindo da figura de Carlitos. Como em todos os filmes mudos protagonizados por Carlitos, aqui Chaplin também encerra o filme solitário em sua caminhada. Mas dessa vez a caminhada não é esperançosa ou rumo à possibilidade de um futuro feliz. Verdoux segue para um destino implacável e inevitável, e Chaplin conclui o filme com um clima bem pesado e reflexivo. Os mais atentos vão notar que, apesar da situação sombria, seu personagens dá os passos finais em cena com o jeito característico de Carlitos, o vagabundo. Uma pequena e rápida referência-homenagem, antes dos letreiros "The End" tomarem o quadro.

Lançado em 1947, "Monsieur Verdoux" foi o maior fracasso comercial da carreira de Chaplin. A temática pesada e sombria, o cinismo e deboche presente em cada ato de humor negro e a ausência de qualquer sombra de arrependimento moral acabaram por afastar o público e transformar essa pérola na ovelha negra da filmografia do diretor. Muitos dizem que seu lançamento, ignorando todas as proibições e críticas feitas pelos órgãos de cinema da época, contribuiu diretamente para sua expulsão dos Estados Unidos em 1952. É curioso, mas esse filme é pouquíssimo citado em qualquer retrospectiva ou documentário sobre o cineasta - nem mesmo em sua famosa cinebiografia de 1992 ele aparece. Acontece que "Monsieur Verdoux" é extremamente inovador e genial no uso do humor ácido que mais tarde marcaria a obra do grupo Monty Python ou dos Irmãos Coen, por exemplo. Diante de todo o prestígio e adoração que cercam a obra de Chaplin, é injusto que esse filme permaneça esnobado ou subvalorizado como "apenas mais um filme" de seu currículo. "Monsieur Verdoux" é uma obra-prima única do humor negro, extremamente à frente de seu tempo. Nada mais justo que tratá-la como tal.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Homem do Sputnik - Os 85 Anos do Nosso Carlos Manga !!


Quando os chafarizes e estátuas de um pomposo cenário ocupavam a tela grande, o cinema era tomado por aplausos e gritos de felicidade. Os letreiros anunciavam o que todos ali queriam ver: "Atlântida Apresenta". Era mais uma produção da Atlântida Cinematográfica. Entre 1941 e 1962, a Atlântida foi a mais bem-sucedida experiência com estúdio de escala industrial que o Cinema Brasileiro já teve. Suas populares chanchadas visavam ilustrar o "jeitinho brasileiro" através de filmes leves e divertidos. Após incêndios e enchentes que destruíram grande parte do acervo do estúdio, toda sua riqueza e glória acabou ficando esquecida em algum lugar do passado. Sem uma divulgação digna de seu material, a Atlântida ficou viva apenas na memória daqueles que viveram seus tempos de ouro ou tiveram acesso aos seus mágicos filmes. Uma dessas pessoas, uma verdadeira lenda viva entre nós, é o diretor que melhor soube captar o espírito da Atlântida nas obras-primas do humor que realizou.
Senhoras e senhores, com vocês: Carlos Manga!

José Carlos Aranha Manga nasceu no Rio de Janeiro de 1928. A paixão pelo cinema surgiu quando ainda era uma criança, através das aventuras do Robin Hood encarnado por Errol Flynn. Fascinado pela intensa magia do cinema, começou a carreira como bancário antes de se render à sétima arte - até então, ainda precária no Brasil. A amizade com o ator Cyll Farney, um dos mais populares e queridos galãs da Atlântida, o levou até o famoso estúdio, onde começou a trabalhar como contra-regra. O conhecimento da teoria e o instinto para a prática no cinema garantiram que ele se destacasse entre os demais. Rapidamente, passou de montador à diretor assistente, e logo era o diretor musical dos filmes da Atlântida, responsável pelos inúmeros números musicais que pontuavam os filmes. Em 1952 veio a primeira oportunidade de assumir a direção de um filme. Era preciso um nome artístico: José era muito comum e Aranha poderia assustar algumas pessoas - e assim surgia, oficialmente, o diretor Carlos Manga.


Manga era um diretor único. Desde o princípio era possível perceber a diferença de seus filmes para os feitos anteriormente no estúdio. Enquanto as produções dos respeitados diretores Watson Macedo ("Aviso aos Navegantes", 1950) e José Carlos Burle ("Carnaval Atlântida", 1952) eram quase teatro filmado, com uma câmera estática e sem maiores cuidados visuais, as sequências e obras assinadas por Manga apresentavam um maior cuidado estético, com fotografia trabalhada e movimentos de câmera ousados. A ideia era reproduzir o que era feito no cinema americano, e em nenhum momento ele escondeu isso. Em seu primeiro filme, resolveu estabelecer no Brasil a tradição de dupla de humor em "Dupla do Barulho" (1953), onde eternizou a parceria de Oscarito e Grande Otelo - maiores ícones do humor no país e uma das maiores duplas da história do cinema mundial. Ousou trazer o gênero western para nossas terras, com a genial sátira "Matar Ou Correr" (1954), e ainda apostou na superprodução de época com o também antológico "Nem Sansão Nem Dalila"(1955). Esses filmes representam o auge da Atlântida, um período em que ninguém atraía tanta gente aos cinemas como os nomes de Oscarito, Grande Otelo e Carlos Manga.

Nos dias de hoje, a comédia "Minha Mãe É Uma Peça" se tornou um sucesso arrebatador ao levar 4 milhões de pessoas aos cinemas. Claro que os tempos são outros - com DVDs e Internet para competir -, mas Manga conseguiu, apenas com "O Homem do Sputnik" (1959), atrair cerca de 15 milhões de espectadores às salas de exibição. Seus filmes eram garantia de sucesso de público. Já a crítica... Suas chanchadas eram rotuladas de "alienantes", "bobas" e até mesmo "desnecessárias". Manga costumava dizer debochadamente que "ninguém gostava dos filmes da Atlântida... Só o público". Diante das pressões e críticas duras, o diretor chegou até mesmo a sentir vergonha desses filmes que fazia em certo período. Felizmente, o preconceito foi superado e sua obra é hoje motivo de orgulho nacional e essencial para a cultura brasileira. 


Entre as estrelas do estúdio, Carlos Manga era ele próprio uma figura mítica. Com seu bigode fino, visual elegante e atitude energética, conquistou uma reputação forte dentro da indústria. Ao dirigir uma cena, costumava interpretar todas as ações e movimentos que pedia aos seus atores - esses admitiam que nem sempre conseguiam reproduzí-los à altura. Sempre tinha uma piada na ponta da língua - hábito que mantém até hoje -, mas quando se irritava... Sai de baixo. Criticado por alguns e admirados por muitos, Manga conquistava a simpatia dos profissionais da área com a mesma facilidade que atraía as mulheres. Durante uma noite, ele conta que fez uma aposta com Farney, galã consagrado, de quem conseguiria mais garotas em determinado local. Empataram - o que não é nada mal para alguém que vivia atrás das câmeras.

Manga ainda dirigiria pérolas como "Garotas e Samba" (1957) e "Esse Milhão É Meu" (1959) antes da despedida da Atlântida com "Entre Mulheres e Espiões" (1962), também o último grande papel de Oscarito nas telas. Com o encerramento das atividades do estúdio em 1962, o diretor voltaria aos holofotes com dois filmes: "O Marginal" (1974), suspense de ação protagonizado por Tarcísio Meira e "Os Trapalhões e o Rei do Futebol", um dos mais populares estrelados pelo quarteto. Como maior guardião da memória do estúdio que marcou sua carreira, ele realizou o nostálgico documentário "Assim Era a Atlântida" em 1975 - com o bem-sucedido intuito de apresentar aquele rico universo à novas gerações. Ele seguiria para uma bem-sucedida carreira na TV, onde dirigiu o amigo de longa data Chico Anysio em "Chico City" (1973), a premiada minissérie "Um Só Coração (2004) e a novela "Eterna Magia" (2007).


2013. Aos 85 anos de vida e com muitas experiências no currículo, Carlos Manga volta aos holofotes para o lançamento do livro "Quanto Mais Cinema Melhor - Uma Biografia de Carlos Manga", assinada pelo jornalista Sergio Cabral. Mais uma justa homenagem à sua brilhante carreira. Em 2011, durante o Festival do Rio, o cineasta ganhou a maior honraria lhe concedida em vida: uma estátua em tamanho natural no clássico Cinema Odeon da Cinelândia. Ela continua lá, saudando seus novos e velhos visitantes que, não raro - e infelizmente -, se perguntam quem é o moço ali eternizado.  Mal sabem estar diante de um gênio do nosso cinema.

Eu conheci Carlos Manga no dia 10 de abril de 2012. A ocasião era uma palestra especial em homenagem à Atlântida, na PUC-Rio. Aparentemente debilitado em sua cadeira de rodas, Manga logo levantou, riu, fez rir e encantou a plateia com sua animação e paixão pelo cinema. Em pouco tempo, todos estavam em sua mão. O dom de fascinar o público seguia intacto. Como um grande fã de seus filmes e da magia da Atlântida, fui até ele na esperança de trocar algumas palavras com o gênio. Simpatia em pessoa, essa foi sua resposta: "Fico extremamente emocionado em saber que meu trabalho ainda hoje inspira tantos jovens como você. Isso me mantém vivo! Cinema é a maior paixão que alguém pode ter! Quando seu filme estreiar, quero estar lá no lançamento!"
Ao depoimento emocionado, só consegui responder um tímido e sincero "Certamente estará, mestre".


Em sua vida, Carlos Manga foi amado, odiado, criticado, aclamado, aplaudido, vaiado, imitado e cultuado. Sempre romântico e bem humorado em sua vida e carreira, deixou sua marca única não só no cinema, mas também na história da publicidade brasileira. Como um dos últimos sobreviventes de uma época de ouro do cinema brasileiro, ele é um verdadeiro patrimônio histórico nacional. É o homem que merece ser lembrado não apenas por ser um ícone da Atlântida, um gênio do cinema ou uma lenda viva nacional. É o homem que merece ser celebrado por ser, acima de tudo, ele mesmo: o nosso imortal Carlos Manga.



segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Uma Odisséia No Espaço - Alfonso Cuarón Promove Completa Imersão com "Gravidade"


Pra começar, vou direto ao ponto: não deixe de assistir "Gravidade" em 3D nos cinemas. Pronto, agora vamos aos argumentos.

"Gravidade" foi o filme de abertura do Festival de Veneza 2013. A expectativa em torno da produção era alta: não se tratava apenas do primeiro filme de Cuarón desde 2006, mas de uma complexa ficção científica que vinha sendo gravada desde 2011. A presença dos Oscarizados Sandra Bullock e George Clooney no elenco - somente os dois, na verdade - aumentaram ainda mais o burburinho. Mas as apostas deram certo e o filme arrebatou todos os presentes em sua estreia. Após a esperada exibição, falava-se em Oscar, em obra-prima, em "história do Cinema sendo feita". Por que tudo isso?


"Gravity" conseguiu um orçamento de 80 milhões ancorados principalmente no talento e prestígio de Alfonso Cuarón. Um dos melhores cineastas em atividade no mundo, o mexicano já tinha no currículo grandes filmes como "E Sua Mãe Também" (2001) e "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" (2004), o único da popular franquia que tinha uma marca autoral forte. Depois da subvalorizada ficção científica "Filhos da Esperança" (2006), Cuarón passou a se dedicar a esse novo projeto, outra ficção científica autoral. Após a aprovação da ideia, Cuarón assumiria as funções de co-roteirista, produtor, co-editor e diretor (!). E isso é visto em cena: o que poderia ser uma mera superprodução repleta de efeitos especiais e nenhuma emoção se revela uma experiência sensorial envolvente com a forte marca de um olhar cinematográfico. Cuarón sabe exatamente o que está fazendo - e o faz muito bem.

Muitos reclamaram do roteiro do filme. De fato, tudo é muito simples: "Gravidade" acompanha dois astronautas sobreviventes em uma estação espacial danificada. São personagens com pouco controle de suas ações, por estarem mergulhados em condições limitadas e arriscadas. Os acontecimentos mais determinantes acontecem nos cerca de 20 minutos iniciais de projeção. A partir daí, seguimos os astronautas por suas desventuras, sensações e experiências quase mortais, tentando mudar seus destinos a todo custo. O filme precisa de apenas 90 minutos para isso, funcionando perfeitamente nesse arco de tempo quase real. A narrativa nos faz acompanhar a personagem de Sandra Bullock quase em primeira pessoa. Ela está realmente muito bem em cena - não é uma atuação digna de Oscar, mas de justos aplausos para uma atriz tão marcada por papéis menos complexos. Ela consegue levar o filme sozinha nas costas - no caso, na roupa espacial -, mas conta também com o carisma de George Clooney para ajudar. Com bem menos tempo em cena, Clooney não se esforça muito para ir além de sua persona, mas ao menos mostra que seria uma agradável e simpática companhia para quem alguém eventualmente perdido no espaço.


O ponto alto de "Gravidade" não são seus atores e muito menos seu roteiro: é o modo como toda situação e ação são mostradas em cena. A abertura é um longo e elaborado plano sequência que, em sua técnica e complexidade, já se torna antológico. O queixo de quem assiste pesa, um arrepio se torna involuntário e, em questão de minutos, já nos vemos completamente sugados para aquela realidade ali proposta. A câmera de Cuarón passeia sem limites pelo espaço, como se fosse mais um corpo solto entre os astronautas - até mesmo entrando em seu capacete em certos momentos, dando uma total sensação de imersão. É como estar dentro de um game ultra-realista ou  ainda um simulador dos bons. E aí que entra a importância do efeito 3D. O artifício, para a alegria do público acostumado a filmes desnecessários no formato, é aqui usado com extremo cuidado e relevância - tão fluente quanto em "Avatar", tão charmoso quanto em "A Invenção de Hugo Cabret" e tão lírico quanto em "As Aventuras de Pi". Mas há uma diferença marcante: aqui, o 3D se torna um personagem fundamental para a imersão completa. Se "imersão" é a palavra que define a experiência de assistir "Gravidade", o 3D se torna o passaporte ideal para isso. Quem se deixar levar na viagem, vai concordar que, em questões técnicas e visuais, o filme beira a perfeição.

Não tenho dúvidas de que o sr. George Méliès (1861-1938), ilusionista francês que primeiro levou o cinema ao espaço com o clássico "Viagem à Lua" (1902), ficaria extasiado com a capacidade de "Gravidade" em fascinar o público com suas maravilhosas trucagens - no caso, digitais. Também ouso dizer que Stanley Kubrick (1928-1999) ficaria satisfeito em encontrar no novo filme de Cuarón um digno acompanhante de seu "2001 - Uma Odisséia no Espaço" (1968) na lista de filmes que melhor representam o espaço nas telas. George Lucas ficaria louco com a qualidade dos efeitos e provavelmente relançaria as trilogias de Star Wars buscando uma imersão semelhante. Citar o nome de Cuarón entre esses gênios da sétima arte já diz muito sobre o que achei desse filme. Resumindo em ideias gerais, "Gravidade" arrebata, envolve, emociona, assusta, diverte, faz rir, faz chorar (sempre tem alguém que não consegue resistir), arrepia e nos leva a levitar nas poltronas. Mais que tudo isso, "Gravidade" nos faz lembrar do por quê vamos ao cinema. Por isso mesmo, fica a dica: não deixe de ir.




terça-feira, 8 de outubro de 2013

Juventude Transviada – “De Menor”, um dos Grandes Destaques do Festival do Rio 2013.


Caru Alves de Souza é uma jovem cineasta de São Paulo. Como produtora da Tangerina Entretenimento, ela escreveu o roteiro de todos seus projetos. Fez os documentários “Mascarianas” (2008) e “Vestígios” (2011) para a TV Cultura antes de dirigir os curtas-metragens “Assunto de Família” (2011) e “O Mundo de Ulim e Oilut” (2012). Após essas experiências bem-sucedidas, era a hora de se aventurar no primeiro longa-metragem. O resultado estreou como um dos destaques da Première Brasil no Festival do Rio 2013.  E verdade seja dita: “De Menor” é uma das melhores produções nacionais dessa edição. Basta uma análise atenciosa para concordar que, em uma doce ironia com o título, trata-se de um filme de gente grande.

Também escrito por Caru, “De Menor” acompanha a personagem Helena, uma defensora pública de crianças e adolescentes no Fórum de Santos. Em paralelo com os problemas e inseguranças de sua profissão, ela cuida do meio-irmão Caio, com quem mora e tem uma relação de confiança – até o jovem começar a adotar comportamentos suspeitos. Diante dessa aparente simplicidade da trama, o que tornaria esse filme superior ou notável entre os outros lançamentos? Explico: é difícil ver um filme com tanta harmonia narrativa entre Direção, Fotografia e Edição. Ainda mais se pensarmos que se trata de um trabalho de estreia. A Direção sabe exatamente como quer abordar as ações, a Fotografia tem plena noção do que está enquadrando e revelando e a Edição tem total controle do ritmo adotado. E aqui entram as merecidas palmas para a câmera fluente do diretor de fotografia Jacob Solitrenick e para a sensibilidade do editor Willem Dias. Essa afinidade atrás das câmeras reflete na tela, tornando “De Menor” um filme incrivelmente agradável de assistir.



Já nas primeiras sequências, o filme demonstra estar seguro em toda a sua proposta. Embora isso seja esperado em qualquer produção que chega às telas de exibição, não é raro nos depararmos com filmes que se perdem em vários caminhos precipitados e soluções visuais equivocadas, deixando fugir o foco e a força de sua proposta central. Nesse sentido, “De Menor” funciona como um sopro de inspiração e originalidade na recente safra do cinema nacional.

A trama, propositalmente ou não, remete à obra do italiano Bernardo Bertolucci no momento em que centraliza grande parte das ações na complexa relação de dois personagens reunidos por uma situação altamente dramática. Assim como em “Io e Te”, mais recente filme do diretor, os conflitos e afinidades entre esses dois indivíduos – no caso, irmãos – são observados de forma íntima e intensa. Comparar a obra em questão com o cinema de Bertolucci é um dos elogios mais sinceros que posso fazer ao filme, e deve ser assim interpretado – como uma comparação elogiosa. Além disso, a escolha inspirada da trilha sonora eclética e pop que emula toda agressividade da adolescência faz relevante diferença no andamento do filme.


O filme conta com a participação de luxo dos grandes atores Rui Ricardo Dias – mais lembrado como intérprete do ex-presidente brasileiro na cinebiografia “Lula, o Filho do Brasil”(2010) – e de Caco Ciocler, mais uma vez exemplar em cena. Mesmo em personagens coadjuvantes, os atores conseguem alcançar momentos de brilho, seja esse brilho mais intenso ou mais discreto, de acordo com o que o momento pede. Mas, como já foi dito antes, a trama é focada em dois personagens: Helena e Caio. E para viver essa intensa e intimista relação, seria necessário encontrar dois atores jovens e incrivelmente talentosos. Missão dada, missão cumprida. “De Menor” tem na química entre Rita Batata e Giovanni Gallo seu ponto alto. São eles na foto comigo lá embaixo, após a exibição de estreia do filme. Juntos, os dois funcionam em plena sintonia e até se completam dramaticamente. O exemplo máximo dessa química é a cena na praia, logo no início, de uma leveza gritante e soluções visuais inspiradíssimas. Um sorriso involuntário toma qualquer rosto de assalto. O incrível trabalho e entrega da atriz Rita Batata merece uma atenção especial. Presente em praticamente todas as cenas do filme, é ela que carrega toda a carga dramática nos momentos-chave. O filme acaba, mas a força do seu olhar continua.

Vale também considerar a eficiente abordagem do universo escolhido: o ambiente de jovens infratores que veem seu futuro ser definido por “homens da lei” em tribunais de Justiça. Em diversos momentos, a diretora coloca diante da câmera jovens que, amadores ou não, passam genuinamente a mistura de ousadia e inocência tão marcante dessa juventude transviada. Mesmo com poucas falas, suas posturas e olhares entregam mais do que qualquer diálogo do roteiro poderia tentar reproduzir. A força dessas imagens e abordagens atravessa o filme. No final da projeção, nem nos damos conta de que se passaram apenas 77 minutos. Mas, nesse caso, a reduzida duração não é prejudicial. O filme funciona bem naquele tempo e ritmo, e alongá-lo poderia torná-lo redundante – afinal, a personagem completa sua jornada, da maneira que deveria ser. “De Menor” fica na cabeça como um trabalho eficiente, exemplar e inspirador, tanto tecnicamente quanto narrativamente. Em toda sua simplicidade, consegue alcançar e despertar muito mais do que muitas pretensiosas produções nacionais por aí. Mais do que isso, “De Menor” é a prova de que os nomes Caru Alves de Souza e Rita Batata mereciam ser lidos e ouvidos novamente em um futuro próximo. O Cinema Brasileiro de qualidade agradece. 


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

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