sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Pintura Íntima - As certeiras incertezas de "Jane B. par Agnès V."


Visitar a obra da cineasta belga Agnès Varda sempre engata indagações e revoluções artísticas. Sua co-existência com o mundo, desde as origens na Fotografia, se fundiu completamente ao processo criativo artístico em si. É sempre um difícil desafio descrever quase todos seus filmes: é ficção? é documentário? é possível de se definir? Um caminho mais seguro é o "Em todo caso, assista, e o quanto antes". Certamente, verdadeiros estados de espírito gentilmente compartilhados com quem aceita o convite ao mergulho.


Um fascinante exemplo disso tudo é "Jane B. par Agnès V.", cuja gravação em 1987-88 foi motivada puramente pela curiosidade genuína que Varda tinha por Jane Birkin. Uma das criaturas mais belas que já caminharam na Terra, a modelo/cantora/atriz (hoje com 74 anos) já era mundialmente famosa e documentada. A busca da marota e inquieta cineasta era por ângulos e curvas que a própria personagem principal desconhecia. E essa constante procura orgulhosamente indefinida é a razão de ser do próprio filme. Em determinado momento, Birkin confessa à câmera que "minhas filhas me perguntam o que estou filmando e eu não sei responder, digo que talvez seja uma pintura da Varda". Literalmente e em muitos aspectos, é exatamente isso mesmo. O filme entrega imagens e enquadramentos quase inacreditáveis. É como se Varda decidisse pintar um retrato definitivo de Birkin - e faz questão de registrar em câmera essa busca minuciosa por cada textura, tonalidade, timbre. A própria Varda se joga em cena, como de costume. Meio que do nada, em pleno corte propostial, pergunta à protagonista qual ator ela gostaria de conhecer/dividir cena. E assim surge Jean-Pierre Léaud para um rápido conto a dois. E  qual personagem ela gostaria de interpretar? E se jogam as duas ao desafio dramático de Joana D’Arc. Um jogo de cena aberto e escancarado para degustação geral. 



Durante uma dessas conversas espontâneas e quase sem filtros (embora seja a câmera muito consciente), acaba por surgir um roteiro "nunca antes contado" que Birkin deixou escapar certo dia. Ela confessa nunca ter tido a esperança de que um dia fosse lido ou considerado. Pois esse tal roteiro, ali resumido em poucos segundos, foi a base direta para a ficção "Kung Fu Master", que as duas gravariam imediatamente em sequência, para lançar no mesmo ano de 1988. Um longa que traz no elenco Birkin e sua filha Charlotte Gainsbourg, além do jovem Mathieu Demy, filho da diretora com o cineasta Jacques Demy. O real baila e brinca com a ficção, um projeto puxa o outro, uma faísca contagia adiante. Como tudo na Vida - que, no caso de Agnès Varda, era sua própria Arte. Mais uma vez e orgulhosamente, o processo como mais valioso resultado, num afetivo abraço ao que se descobre no caminho. A bela certeza de gostar das incertezas.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Forever Young - O Centenário de "O Garoto" e seu Eterno "Kid"



"The Kid", obra poética e atemporal de Charlie Chaplin, chegou ao centenário! A premiere oficial aconteceu no dia 21 de Janeiro de 1921, marcando uma revolução na carreira do ícone absoluto da Comédia. Pela primeira vez, um filme dirigido / escrito / produzido / editado / protagonizado pelo inglês ultrapassava a metragem dos 60 minutos. O drama delicado e humano confirmava: Chaplin não estava mais restrito ao pastelão e nem aos curtas! Mas como o assunto é "The Kid", falemos do Garoto em questão! Nascido na Califórnia, o pequetito John Leslie Coogan tinha apenas 6 anos quando gravou seu mais famoso filme ao lado do homem mais famoso do mundo. Uma baita pressão que ele, na pureza autêntica da Infância, nem deve ter sentido. Conseguiu roubar cenas do tal gigante do bigodinho quadrado e ajudou a eternizar (com extremo talento!) alguns dos momentos mais ecoantes da História do Cinema Mundial. 

Jackie Coogan se tornou uma estrela-mirim absoluta, das primeiras do "Cinemão comercial" - que ainda estava se inventando. Seu carisma também marcou a mais querida adaptação de "As Aventuras de Tom Sawyer", lançada em 1930 quando ele tinha 15 anos. Jackie Coogan nunca parou de atuar, porém quanto mais ele crescia, mais os papéis diminuiam. Certamente nada ajudou o abuso que sofreu dos pais, (ir)responsáveis por gastar toda sua fortuna em jóias e carros. Quando resolveu visitar o velho mestre/amigo nas gravações de "Tempos Modernos" (1936), já estava basicamente no ostracismo. Existem registros de que Chaplin o ajudou financeiramente e inclusive o tornou seu assistente pessoal em pontuais ocasiões. 




Após dar um tempo na carreira e servir como piloto na Segunda Guerra Mundial, Jackie Coogan voltou a encontrar solo seguro na Televisão. E foi lá que, completamente irreconhecível, voltou ao sucesso como o popular Uncle Fester da clássica "Família Addams". Isso mesmo. O involuntário choque: "Era ele??!! Aquele garotinho virou o Tio Chico?!?" Pois sim, aquele carequinha maluco um dia foi a angelical criança na calçada ao lado de Chaplin. Os dois tiveram um simbólico reencontro de poucos minutos na cerimônia do Oscar de 1972, na qual Chaplin recebeu um tardio prêmio honorário. Nunca mais se veriam. Chaplin logo retornou ao exílio suíço, onde chegou aos 88 anos. Jackie Coogan, com seus problemas cardíacos intensificados pela montanha-russa da vida, nunca chegou aos 70. 

Mais de 100 anos após seu nascimento, aquela criança permanece entre nós como uma das traduções definitivas da Infância no século XX. Em cenas em preto e branco que ganham cores vivas todas as vezes que aparece, Jackie Coogan segue alternando passos e voos com o doce vagabundo que todos nós amamos. "The Kid" chega ao centenário na gentileza de não envelhecer - e de manter Coogan, eternamente, "that kid". 




domingo, 13 de dezembro de 2020

Bonequinha de Luxo - A Língua e o Carisma de Ossi Oswalda


A rebelde moça da imagem me conquistou na hora, pela carismática ousadia em plena Fase Muda do Cinema. Afinal, o ano era 1919 e os costumes eram outros - no caso, ultra conservadores. A imagem é do filme "Die Puppe / The Dool", divertidíssima farsa assinada pelo brilhante Ernst Lubitsch. O cineasta logo se tornaria mestre absoluto do Humor debochado e inteligente. Billy Wilder inclusive manteve por toda vida um quadro com a frase "O que Lubitsch faria?" em seu escritório, para guiar os processos criativos. Não é pouco! Voltando à carismática careta da moça, já era autêntica em nome: Oswalda, Ossi Oswalda. Após anos como bailarina e dançarina nos teatros de Berlim, ela conquistou Lubitsch e foi por ele dirigida em 12 filmes. Fizeram tudo isso apenas em quatro anos (!!), entre 1916-1920. 

Seu sucesso com o público foi tão grande que logo ficou conhecida como "a Mary Pickford Alemã" - num período em que, acredite, era ótimo ser comparada à "namoradinha da América". Em 1925 foi contratada pela UFA (então o maior estúdio de cinema do mundo) e chegou a ter um affair com Wilhelm, Príncipe Herdeiro da Alemanha. Invejável. 

A cruel pedra em seu caminho foi sonora… Quando surgiram os filmes falados, ela insistiu da Arte silenciosa. Só conseguiu papel em dois "talkies" pequenos e esnobados pelo público. Conseguiu juntar energias para fugir do Nazismo de Hitler e se estabeleceu em Praga nos anos 40. Pouco tempo depois, declarou falência. A carismática e popular Ossi Oswalda morreu em absoluta miséria, com apenas 50 anos. Tragicamente, no mesmo ano de 1947 em que seu velho amigo Ernst Lubitsch teve um infarto fatal - porém muito celebrado e ativo em Hollywood.

 


Embora muitas das obras estreladas por Ossi Oswalda sejam consideradas perdidas, é possível encontrar filmes na íntegra no Youtube ou por qualquer pesquisa rápida. Títulos centenários que comprovam a genialidade atemporal de Lubitsch e também da moça linguaruda. Como "Ich möchte kein Mann sein / I Don’t Want To Be A Man", outra parceria da dupla de 1918 onde Ossi se veste/comporta como homem e taca o terror na Alemanha. Oswalda foi uma mulher ousadíssima e livre muito antes dessa postura ser aplaudida pela sociedade. E talvez por isso mesmo, foi pelo Tempo silenciada e esquecida - como os clássicos que estrelou.
 

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Cidadão Cav - O mais Internacional dos Brasileiros, Alberto Cavalcanti ( 1897 - 1982 )



 Quem foi Alberto Cavalcanti ?

Infelizmente, uma pergunta que poucos saberiam responder.

Mas ok - quem foi, esse tal de Alberto Cavalcanti?
Anos antes do nosso gigantesco Humberto Mauro enquadrar em sua câmera um Cinema com assinatura e textura de Brasil, um carioca nascido em Botafogo era destaque absoluto na Vanguarda Francesa. Sim. O ano era 1926 e Cavalcanti, já respeitado como cenógrafo e produtor, assumia a direção para captar a vida mundana de Paris com realismo invejável. Talvez o diferencial de seu "Rien que les Heures" fosse exatamente esse curioso olhar de estrangeiro. Ou melhor, de "cineasta do mundo", pois Cavalcanti foi o mais internacional dos cineastas brasileiros.

Não bastasse a produtiva carreira na França, o auge veio na Inglaterra: lá adaptou Dickens no clássico "As Vidas e Aventuras de Nicholas Nickleby" (1947) e gravou o cult absoluto "Dead of Night" (1945). Poucos cineastas tinham tanto respeito e moral no Ealing Studios, o que lhe garantiu presença em diversas produções estrangeiras e festivais internacionais. Aliás, uma década antes da (merecidíssima) Palma de Ouro de "O Pagador de Promessas" (1962), Cavalcanti entrou na seleção oficial do Festival de Cannes com "O Canto do Mar" (1953) - todinho gravado em Pernambuco e repleto de ecos do que mais adiante seria nomeado "Cinema Novo" por outra geração.
Brasileiro em essência, Cavalcanti foi convidado para o luxuoso cargo de Diretor de Produção da ambiciosa Companhia de Cinema Vera Cruz, tentativa de levantar uma Hollywood no interior de São Paulo. Por experiência vasta e prática, sabia que o país não tinha condições ideais para um estúdio de cinema daquele porte - o que gerou conflitos internos que o afastaram da companhia e, de certa forma, do país. Antes de partir, preparou e entregou o projeto do INC (Instituto Nacional do Cinema) diretamente para Getúlio Vargas. Driblou limitações de orçamento e encontrou sucesso popular nacional com "Simão, O Caolho" (1952) e "Mulher de Verdade" (1954) - todos em São Paulo. Não chegou a gravar no Rio, sua cidade natal.

Voltou para Europa direto para a casa de Bertolt Brecht na Alemanha, onde trabalhou com o próprio dramaturgo na adaptação da peça "Herr Puntila und Sein Knecht Matti", filme lançado em 1955 com aprovação total do autor. Amigo de Jean Renoir e Serguei Eisenstein, Alberto Cavalcanti não encontrou igual simpatia dos cineastas brasileiros. Morreu aos 85 anos em Paris, onde a classe artística o reconhecia e viveu intenso luto seguido de mostras e retrospectivas. Por aqui, se tornou discreto nome de uma rua no Recreio. Sua obra não aparece em livros sobre Cinema Brasileiro e nem é citada em faculdades de Cinema da cidade onde nasceu. Apenas uma biografia oficial dedicada à sua figura, escrita por Sergio Caldieri no já distante ano de 2005.

Mais um nome ativo, inovador, brilhante, fundamental e cruelmente esquecido da História do nosso Cinema Brasileiro. Seus filmes nacionais podem ser conferidos na íntegra no Youtube, além de diversos trechos das produções mudas que comprovam seu posto entre os gigantes da Imagem. Nunca é tarde para a descoberta e fascínio. Quem foi Alberto Cavalcanti?
Infelizmente, uma Vida que poucos sabem celebrar.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O Cineasta Fantasma - A Obra perdida de Harry d'Abbadie d'Arrast


O homem de chapéu nessa foto, acredite se quiser, é Charles Chaplin sem o característico visual icônico. Ao seu lado está o cineasta Harry d'Abbadie d’Arrast. Você provavelmente nunca ouviu falar dele. Até mesmo os cinéfilos mais dedicados e cults pouco leram sobre ele. A razão é simples e cruel: toda sua obra foi perdida

Documentos e fotografias confirmam que ele foi assistente de Chaplin nas gravações da obra-prima "Em Busca do Ouro" (1925), mas seu nome não está nos créditos. Fritz Lang, gênio revolucionário na fase inicial do Cinema, diversas vezes declarou que d’Arrast realizou "oito dos mais belos filmes da História". Nunca serão vistos. Todos foram perdidos em incêndios ou por descaso dos estúdios. Esse verdadeiro extermínio era muitíssimo frequente antes dos anos 50, quando as mudanças para filmes Sonoros e Coloridos fez muitos produtores se livrarem de material antigo então considerado "obsoleto e descartável". Pelo menos 50 filmes assinados por John Ford são considerados perdidos. Isso não acontecia apenas nos Estados Unidos: dados históricos garantem que foram destruídos 80% dos filmes mudos na Itália e 70% na França. O massacre também foi intenso no Japão - dos 53 filmes que Ozu realizou, 21 desapareceram. 

Apenas com o surgimento das Cinematecas e órgãos de proteção à produção cinematográfica, as obras passaram a ser devidamente arquivadas e restauradas. Harry d'Abbadie d'Arrast não teve essa sorte. Nascido na Argentina, fez fama em Hollywood e teve sua obra brutalmente apagada da História. Morreu em 1968 sem receber nenhuma homenagem. Um cineasta-fantasma nos arquivos envelhecidos do século passado. 

*Porém, um grandioso milagre : uma cópia incompleta de sua comédia sonora "Laughter" (1930) foi recentemente descoberta e está disponível no Youtube. Estrelada por Nancy Carroll e Fredric March, a produção chegou a ser indicada ao Oscar de Melhor Roteiro daquele ano! Inspirou o remake alemão "Die Männer um Lucie" (1931) - também considerado perdido. Uma modesta salvação do esquecimento absoluto, um pequeno vislumbre para esse silencioso fantasma celebrado por Lang e outros sobreviventes daquela época. 



quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

"A Very Naughty Boy!" - Um Brinde ao Python Terry Jones ( 1942 - 2020 )



A página oficial do Monty Python postou, na manhã do dia 22 de Janeiro de 2020, a contagem que nenhum fã do grupo gostaria de ler. "Two down, four to go." Foi o modo anárquico e bem-humorado de anunciar a morte de um de seus membros fundadores e mais carismáticos. Terry Jones revelou publicamente seu diagnóstico de um tipo raro de demência em 2016, e desde então sua saúde se tornou cada vez mais frágil. Há mais de cinco décadas, Jones teve a ideia de formar um grupo de humor com o amigo Michael Palin, quando os dois ainda cursavam Literatura Inglesa na nobre e respeitada universidade de Oxford. Quem diria. Vale lembrar que até então os "times de humor" não eram habituais pelo mundo - um caso à parte na própria Inglaterra era o The Goon Show, restrito ao rádio. Pois logo se juntaram a Jones e Palin os excêntricos Graham Chapman, Eric Idle, John Cleese e o (único) americano Terry Gilliam. 
O resto é História - e das mais absurdamente hilárias! 

Além de membro ativo em cena, com uma coleção invejável de personalidades, Terrence Graham Parry Jones foi figura chave na organização e sucesso do grupo. Roteirista apaixonado, escreveu quase todo material original que o grupo gravou. Co-dirigiu "Em Busca do Cálice Sagrado" (1975) com o outro Terry do grupo, e depois assumiu sozinho o comando de "A Vida de Brian" (1979, o auge criativo e cultural do sexteto) e "O Sentido da Vida" (1983). Ou seja: era o cineasta oficial da gangue!
 
Terry Jones se torna o segundo membro oficial a apagar a luz, após a distante morte de Graham Chapman em 1989. Ainda que tenha sido uma vida festejada e já fosse uma perda esperada - e afinal, um cara de tantos sorrisos não merecia sofrer! -, é impossível fugir do tom agridoce de despedida. Terry Jones foi um simpático amigo cuja mão não apertei - mas quase próximo, em todo aquele entusiasmo e energia contagiante, por tantas maratonas e risadas compartilhadas. Que seja uma recepção com festa e danças, como no Paraíso de "The Meaning Of Life"! E como diria o próprio: Spam! Spam! Spam, Spam!
O Monty Python's Flying Circus perde hoje uma de suas asas. Two down, four to go.





sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Dentro de Casa - A Condição Humana em "Parasita", Palma de Ouro 2019.



Cannes não erra. Basta uma rápida pesquisa nos filmes premiados com a Palma de Ouro ao longo das 72 edições do Festival de Cinema, talvez o mais prestigiado do mundo. Ainda que alguns títulos possam ser menos acessíveis e muito experimentais, quase sempre os laureados são obras contundentes que exploram ao máximo a potência artística da Sétima Arte. São filmes que não permitem indiferença. E é o caso absoluto desse "Parasite". 

Logo após o prêmio para o Japão com "Assunto de Familia" (2018), a Coreia do Sul levou a Palma pela primeira vez com a nova ousadia de Bong Joon-ho. O cineasta tem uma assinatura visual brutalmente crua e é responsável por cults modernos como "O Hospedeiro" (2006), "Expresso do Amanhã" (2013) e "Okja" - super-produção exclusiva da Netflix que concorreu à Palma em 2017. Aqui, o diretor abre mão de elementos fantasiosos e efeitos especiais para mergulhar (quase que literalmente) na condição humana. Se "Parasita" tem momentos de pura tensão e suspense, é exatamente por chegar muito perto do que nos faz essencialmente humanos. Assusta (sem dúvida) e fascina (com máxima certeza). Unanimidade de público e crítica, é provavelmente uma das maiores experiências cinematográficas do ano - senão A maior. 

Nesses tempos em que franquias e sucessos de bilheteria apresentam narrativas cada vez mais preguiçosas e previsíveis, eis aqui um roteiro que consegue surpreender a cada nova cena, sem exceção. A climatização cuidadosa, as sofisticadas viradas de enredo, as reflexões sobre qualquer sociedade do século XXI, os certeiros arcos narrativos de cada personagem, as metáforas eficientes em escala mundial, tudo isso intenstificado pela afinação do maravilhoso elenco. O resultado é um absurdo. "Parasita" é um filme do agora, pertencente a 2019 em conteúdo e forma, mas prontíssimo para a Posteridade. Merece todas as palmas, inclusive a de Ouro. 


terça-feira, 24 de setembro de 2019

Era Uma Vez no Sertão - A Máxima Inteligência de "Bacurau"




O Cinema Brasileiro, a História nos comprova, sempre teve um inimigo implacável: o grande público brasileiro. É uma cruel verdade, precisamos concordar. Qualidade nunca nos faltou, e um rápido passeio por nossa filmografia revela indiscutíveis obras brilhantes de impacto internacional. Porém nossa produção nacional sofre com o esquecimento coletivo e falta de curiosidade geral. Nomes fundamentais como Carmen Santos, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade e Humberto Mauro seguem esnobados pelo público moderno - enquanto lendas vivas como Walter Lima Jr., Ruy Guerra e Helena Ignez seguem em plena atividade sem a devida ovação popular. Não irei me alongar sobre o notório descaso cultural. Fato é que o nome de Kleber Mendonça Filho surge como um feliz caso à parte. Além de cineasta apaixonado e com assinatura própria, o pernambucano é inteligentíssimo. "Bacurau" é uma prova cabal disso. Explico, e para isso parto de uma idéia bem simples. O grande público brasileiro, o mesmo que desde sempre esnoba filmes nacionais em cartaz, gosta mesmo é de Cinema Americano. Qualquer pesquisa básica pode comprovar que mais de 70% dos espectadores do país gostam mesmo é de filme "made in USA" - seja pelo alto orçamento com linguagem acelerada ou pelo jeitão cult de produção independente que ganha Oscar. Não faz diferença, o importante é ser americano - e com isso não tem Cinema Europeu premiado que possa competir. "OK", é um reflexo cultural de muitos fatores históricos do último século. Diante disso tudo, entra o brilhantismo e inteligência de "Bacurau". 


Kleber Mendonça Filho, já respeitado crítico de Cinema, conquistou a "bolha artística" e diversos prêmios mundiais com sua obra. Cinco curtas-metragens, um longa documental e dois de ficção. Esses dois últimos, "O Som ao Redor" (2012) e "Aquarius" (2016), ilustraram em escala internacional seu estilo narrativo atípico, repleto de signos visuais e personagens autênticos. Tudo muito genuinamente brasileiro. Entre todos esses títulos, "Bacurau" sem sombra de dúvida, é a maior bilheteria e repercussão interna de Kleber Mendonça Filho, com sessões lotadas e boca-a-boca incansável. O famoso "É um filmaço, nem parece filme brasileiro!", frase muito desagradável que continuam a gritar por aí. O motivo para isso é compreensível: "Bacurau" é orgulhosamente Cinema Americano. E um filmaço, sim. O cineasta-autor teve a máxima esperteza e brilhantismo de fazer um western moderno, com bastante espaço para doses de ação violenta e críticas político-sociais. Algo que John Ford e Howard Hawks muito bem ensinaram lá na metade do século passado. Caso os ecos americanos não estivessem altos o suficiente, dá-se um jeito até de colocar disco-voador (!) na parada. "Bacurau" é tão orgulhosamente Cinema Americano que literalmente tem inglês no meio. A genial jogada de mestre é que essas escolhas são conscientes e nunca gratuitas. "Bacurau" é orgulhosamente Cinema Americano, mas com legítima roupagem brasileira. Todas cenas exalam e pulsam o Brasil do agora. E aqui vale um destaque especial: em seu terceiro longa de ficção, o cineasta pela primeira vez divide os créditos de direção com Juliano Dornelles, Diretor de Arte de quase todos seus filmes. Essa simbólica união criativa apenas reforça a importância da estética em "Bacurau". Um filme orgulhosamente Americano, porém muito orgulhosamente Brasileiro em sua ambientação, nos personagens regionais, na MPB arrepiante da trilha, no contexto político e social, no tom urgente. "Bacurau" é um fenômeno: um filme americano orgulhosamente brasileiro. Não é sempre que um ícone marcante como Sônia Braga convida a persona internacional de Udo Kier para um suco de caju. Abraçar esse tom e narrativa com tamanha propriedade é de se admirar e aplaudir de pé mesmo. 

Essa espécie de "Era Uma Vez no Sertão" parece muito mais uma obra de Quentin Tarantino que seu nono filme recém-lançado. E aí o público brasileiro que iria lotar salas pra ver Tarantino se surpreende diante de "Bacurau" e solta aquele "Ué, nem parece filme brasileiro!". Mas é, e Orgulhosamente Brasileiro. "Bacurau" conquistou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, o que deve ser muito celebrado. Porém muito acima disso, a sagacidade da parceria Kleber Mendonça Filho & Juliano Dornelles conquistou uma parcela do público que normalmente desprezaria tal lançamento nacional. A bilheteria superou 2 milhões de reais na primeira semana, uma vitória muito além dos números. A cada explosão de violência Tarantinesca, há um símbolo genuinamente brasileiro em destaque. Sejam os ecos do cangaço, sejam os santos regionais, seja uma mão em forma de sangue na parede. Quer metáfora visual mais eficaz para o país? Poucos filmes conseguiram ser tão orgulhosamente brasileiros. Para evitar ou alimentar discussões, muito simples: vá assistir "Bacurau". E se for, vá na paz. 


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Eu Acredito no Cinema - uma declaração de amor gratuita e involuntária




Em tempos de angústias e dores, eu acredito no Cinema
E acredito piamente, com a mesma fé e devoção do mais fiel religioso. Meus deuses respondem por diversos nomes e nacionalidades, todos com o mesmo impacto de ressignificar a existência através dos mais belos milagres visuais. E ave Antonioni, Wilder, Fellini, Kubrick, Dreyer, Lang, Oliveira, Mauro, Welles e muitos outros - alguns até ainda encarnados entre nós, embora já com lugar garantido à Eternidade. Eu acredito na poesia de Chaplin ao realizar - numa cabana com frio, fome e desilusão - a mais bela apresentação já executada com pães. Eu acredito na postura segura de Buster Keaton enquanto uma casa cai em sua cabeça, sem acertá-lo. Acredito na grandiosa cidade de Metropolis, tão impossível de ser realizada nos anos 20, e ainda assim lá tão imponente e atemporal. Acredito no olhar de Lillian Gish e em tudo que sua profundidade pode despertar. Ou nas lágrimas da Joana D'Arc de Falconetti, as mais sinceras que uma câmera já captou. Acredito em Carmen Santos e sua onipotência em cada frame. Acredito nas mil faces de Lon Chaney, Alec Guinness e Peter Sellers. Acredito em Norma Desmond e em Charles Foster Kane. Acredito que dançar na chuva até pode ser legal, desde com Gene Kelly ao lado. Acredito nas estrelas da Atlântida, dispostas a iluminar qualquer tipo de escuridão. Ou na luz das crianças que invocam Orfeu Negro ao som de Tom Jobim em algum morro do Rio de Janeiro. Desconfio da Humanidade dos indiferentes diante de Danúbio Azul no espaço. E muitas vezes imagino o imenso vazio que me sobraria sem a Magia do Cinema. Pois certamente não consigo separar Cinema da noção de Magia - um de seus "descobridores", um legítimo mágico e ilusionista movido pela irresistível indagação "e se?". E se?, a tal pergunta que move o mundo desde sempre. No meu caso, "e se não houvesse Cinema?"... Realmente não sei. Não é algo imaginável, cá entre nós. No princípio não era o verbo, e sim as sinfonias visuais que carregavam em imagens silenciosas a essência do mundo. Fosse mudo, sonoro, colorido, repleto de efeitos especiais ou 3D. Independente da trama, personagem ou direção de Arte. É no Cinema que renovo as energias e esperanças em um Futuro que vale a pena ser vivido e compartilhado. A luz do projetor rumo à tela atravessa minha vida e lhe renova o significado. É onde justifico meu mais sincero sorriso e acordo diariamente para continuar o sonho, acordado. É o que vivo, leio, pratico, escrevo, sinto, respiro. Apesar de todo caos, e acima dele, é no que acredito. Sem medo de ser julgado, e com toda intensidade possível. Posso suspirar aliviado. 
Eu acredito no Cinema.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Uma Overdose de Nostalgia - Era Uma Vez... na Hollywood de Tarantino




Imagine que você é, acima de tudo, um grande cinéfilo. Uma pessoa que realmente ama assistir filmes e prestar atenção nos pequenos detalhes, nas diferentes abordagens narrativas, até nos estilos atípicos que acabam com o rótulo de "cult". Agora imagine que você, sendo tudo isso em essência, consiga se tornar um dos cineastas mais idolatrados e reconhecidos do mundo inteiro. Essa é a vida de Quentin Jerome Tarantino. Um dos nomes que redefiniram o Cinema para o século XXI, o americano tem uma reputação invejável e ultravalorizada - levando em conta que tem em seu currículo "apenas" nove filmes. Resumindo a ideia: Tarantino, 56 anos e Palma de Ouro + Oscar no currículo, faz o que quiser. Faz do jeito que quiser. Faz no tempo que quiser. Faz com o dinheiro que quiser. 

Seu novo longa-metragem, "Once Upon a Time In Hollywood", é uma prova gritante disso. Abrindo mão de seu estilo frenético-pop com explosões de violência visual, Tarantino segue a experimentação de "Os Oito Odiados" (2015) e mais uma vez tenta algo diferente do seu habitual. Claro que os diálogos carismáticos estão lá, assim como um jeitão "cool" involuntário. Porém esse não é o foco de seu novo filme. Nostalgia é a palavra de ordem, o resumo da ópera - podemos chamar de ópera, são quase 3h de duração sem a menor pressa. Tarantino faz uso (com muita propriedade) de sua absoluta nostalgia cinéfila para fazer vários filmes dentro de um. Como está lidando com a figura de um astro decadente da clássica Hollywood, aproveita pra gravar sequências de filmes de guerra, ou então tensos momentos de um suspense policial, ou programas B de televisão, ou voltar aos Westerns. Após "Django Livre" (2012) e o já citado filme anterior, parece que o diretor realmente tem um fraco por faroestes - é quase o terceiro em sequência! Por trás dos figurinos de Velho Oeste, pistolas ao Sol, cavalos e muitos cowboys, "Era Uma Vez em… Hollywood" é quase um western ambientado em 1969. Ali no meio da bagunça, o autor Tarantino dá um jeito de inserir Sharon Tate, Polanski, Steve McQueen, Bruce Lee e outras figuras icônicas que marcaram sua formação como amante da Sétima Arte. É mais um tributo de fã que uma obra realmente original. Apesar de todo luxo e de tantas estrelas no elenco, talvez seja a obra mais irregular de toda filmografia do diretor. Isso porque, com tantos elementos ricos em mente, o diretor não se decide por uma linguagem ou sequer uma narrativa. 


A trama do astro decadente (DiCaprio, claramente apenas se divertindo em cena) e sua amizade com o dublê instável (Pitt, em seu melhor jeitão blasé) dá tantos saltos repentinos que em certo momento o roteiro assume um narrador desconhecido, só pra situar o público. Flashbacks acabam se tornando quase curtas-metragens dentro de uma única longa cena. Em determinados momentos, a edição usa letreiros e pausas que destoam completamente do resto da montagem. Não se trata de um tom cômico ou estilo narrativo, são apenas artifícios soltos e desconexos. Coisa de quem não deve nada a ninguém - é aquele papo, Tarantino pode fazer o que bem quiser. 

Os dramas internos e reflexões humanas dos personagens estão mais ricos a cada novo filme, porém por vezes acabam perdidos (ou baleados, ou atropelados, ou esfaqueados, ou queimados) em um grande calderão aquecido por seu próprio criador. Veteranos cultuados como Al Pacino e Bruce Dern, anunciados como papéis coadjuvantes de destaque, surgem de forma reduzida e quase simbólica. O mesmo vale para velhos conhecidos dos fãs como Michael Madsen, Kurt Russel e Zoë Bell. Talvez presentes, cá entre nós, apenas para o público lembrar que é mesmo um filme de Quentin Tarantino. E não deixa de ser: estão lá as frases prontas para futuras estampas, a trilha sonora vintage escolhida a dedo, as altas doses de podolatria e muitos xingamentos por minuto. Mas será que os fãs mais puristas vão lidar bem com essa versão mais madura e nostálgica do cineasta?

O olhar carinhoso (quem diria!) da direção faz uma curva da própria história para que nos apaixonemos pela Sharon Tate de Margot Robbie. De certa forma, ela é o ponto alto da grande bagunça, como se o filme fosse uma velada carta de amor. Porém apenas quem conhece o trágico destino da jovem atriz entenderá plenamente a nova brincadeira de Tarantino. Comparável ao "Ave, César" (2016) dos irmãos Coen em essência e abordagem (até em algumas cenas!), o novo filme de Tarantino não é mais que uma viagem nostálgica. Talvez muito longa e apaixonada - e tudo bem, paixão demais nunca é problema. Acima de um empolgante "novo filme de Quentin Tarantino", "Once Upon a Time In Hollywood" é uma assumida celebração da própria cinefilia. Tarantino pode - e faz! - o que bem quiser. Os fãs que entrem na onda.