domingo, 17 de março de 2019

Caçadores do Ídolo Perdido - As Vidas e Aventuras de Paul Fejos





Onde está Paul Fejos? A pergunta é simples e direta.

Talvez você nunca tenha lido sobre esse nome, o que infelizmente é esperado. Permita que eu o apresente. Nascido na Budapeste de 1897, Pál Fejös desenvolveu paixão precoce pelo Teatro. Logo decidiu: era aquilo que iria fazer, se tornaria um diretor teatral. A família conservadora imediatamente cortou o barato e lhe exigiu um diploma "sério". Ele acatou e jogou pesado: se formou em medicina (!). Canudo em mãos, se despediu dos parentes e partiu para os Estados Unidos - era hora de focar em seu sonho. Rapidamente foi parar em Hollywood, lugar que pessoalmente nunca lhe causou simpatia. Não demorou para chamar a atenção de diversos produtores, por seu modo inventivo e rápido de gravar. 

Fejos foi uma figura ativa e requisitada no final da década de 20. O pouco tempo no coração da indústria foi o suficiente para uma obra-prima inquestionável: "Lonesome", um dos tesouros periods mais valiosos da fase silenciosa do Cinema. Feito na exata transição entre o Mudo e os "Talkies", é um híbrido, uma obra experimental, inovadora e absurdamente romântica. Em pouco mais de uma hora, resume todo potencial ecoante e mágico do Cinema. Ele ainda faria o denso "The Last Performance", explorando ao máximo a imensidão do olhar icônico de Conrad Veidt, e o ambicioso "Broadway", primeiro longa falado a custar mais de um milhão de dólares (!!). Os três títulos citados, todos realizados no mesmo ano 1929 (!!!), já seriam suficientes para lhe reservar um lugar no panteão de gênios da imagem. Não parou por aí. Saudoso do clima europeu e já esgotado das excentricidades americanas, Fejos largou tudo no auge do sucesso. Preferiu experimentar as possibilidades narrativas do som na França - onde dirigiu o luxuoso "Fantômas" (1932), remake de filmes de suspense pioneiros da década de 10. 



Depois de anos gravando na Dinamarca, se cansou de trabalhar com ficção e histórias comerciais. A companhia Nordisk Film reconhecia sua grandeza e lhe garantiu total liberdade criativa, desde que não os abandonasse. Maroto, Fejos indicou que só teria interesse em filmar locações ainda inexploradas. Diante de um grande mapa, arriscou apontar para a ainda semi-desconhecida região de Madagascar. Para sua surpresa, dito e feito! Com a benção e investimentos dos produtores, lá foi ele com uma equipe corajosa e reduzida. Entre 1935/36, se inseriu em tribos e aldeias ancestrais, onde desenvolveu um valioso olhar documental. Fascinado pela simplicidade e pureza daquelas civilizações, acompanhou suas rotinas e rituais de perto. As imagens e registros ali feitos cruzariam o mundo em diversos eventos acadêmicos de Antropologia e História. Contagiado por essa descoberta de "novos mundos", Fejos demonstrou interesse em explorar áreas isoladas da América do Sul. Ao longo de ousadas viagens pelo Peru, Fejos liderou expedições por 18 cidades incas até então perdidas - descobriu e registrou tudo para a posteridade. Seu material visual e etnográfico teve importância absurda para o século XX. Tocado pelo tanto que vivenciou através do contato direto com diferentes povos e culturas, Paul Fejos dedicou os últimos anos de sua vida à Antropologia. Abandonou as câmeras e as viagens para se tornar Diretor de Pesquisa da Wenner-Gren Foundation. Respeitadíssimo no meio, foi professor nas universidades de Stanford, Yale e Columbia. 

Cineasta, Doutor, Explorador e Antropólogo - basicamente um Indiana Jones com uma câmera! Um húngaro, estrangeiro em Hollywood e em quase todos países que viveu, que conduziu o olhar curioso de sua câmera inquieta para a descoberta de novos mundos. Só que você não ouviu falar dele. Nem mesmo cinéfilos dedicados, estudantes dessa Arte, chegam facilmente ao nome de Fejos. Muitos de seus filmes simplesmente se perderam. Os pouquíssimos hoje catalogados e difundidos por seletos grupos foram redescobertos e restaurados por pesquisadores apaixonados do Festival Italiano de Pordenone ou da Criterion Collection. Ele é mais um exemplo cruel de como o imaginário coletivo pode enterrar, quase completamente, o legado de ídolos desconhecidos. Onde estão os merecidos tributos? As exibições públicas para difundir a sutileza visual de sua Arte? Os cursos e palestras sobre sua contribuição para a cultura num sentido muito mais amplo? Onde está seu nome entre tantas figuras fascinantes do século passado? Não que esse humilde texto ajude em muita coisa, é claro. Porém, de forma plenamente sincera e apaixonada, deixo aqui a inquietante pergunta: 

Onde está Paul Fejos ? 


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

"Nós sempre teremos Haiti" - O esquecimento de "Os Farsantes", 1967.



O título original desse filme é "The Comedians". Engana, e muito: quase não há brecha para o humor nas duas horas e meia desse pretensioso thriller político. Uma olhada rápida na ficha técnica já nos atrai para o elenco. E não é pra menos. O super casal Elizabeth Taylor e Richard Burton, basicamente Brad & Angelina dos anos 60, encabeça um elenco de rostos marcantes numa trama de Amor&Guerra no então exótico Haiti. Tudo se desenrola durante o real período do regime violento de Papa Doc, líder que dominou o país entre 1958 e 1971 - portanto, era vivo durante as gravações e lançamento. Tanto que era inviável gravar em locação, o que levou a equipe à igualmente exótica República de Dahomey. Produzido e dirigido pelo ator inglês Peter Glenville, o filme não esconde: tenta ser uma espécie de "Casablanca" (1942) em toda oportunidade que aparece. É no máximo um primo muito (muito!) distante e involuntariamente modesto. 

O resultado é repleto de ótimas intenções, porém acaba vítima do próprio ritmo irregular. Em determinados momentos longos e sem timing, o tédio parece abater os próprios atores em cena. É o caso de Peter Ustinov - vencedor de dois Oscars de coadjuvante e sempre pulsante em cena - que dessa vez parece apenas… estar ali. O casal Taylor & Burton só se encontra para beijos apaixonados e sofrência, o que enfraquece o potencial do angustiado protagonista. Quase que exatamente um Brad Pitt maduro da época, Burton apresenta um anti-herói cético, covarde e até mesmo frágil, que tenta manter as aparências e quase sempre falha. Há valor nesse combo, certamente. Há também outros aperitivos aos curiosos. James Earl Jones, eterna voz de Darth Vader e Mufasa, tem papel importante e Lillian Gish, eterna musa de Griffith e do Cinema Mudo, surge colorida e falante. Já setentona e aparição de luxo, consegue roubar algumas cenas e não permite que sua personagem seja irrelevante - o que aconteceria se fosse outra atriz em seu lugar. 

Porém, o ponto alto de "Os Farsantes" ou "The Comedians" é aquele que melhor encarna ambos títulos. Nome, sobrenome e título: Sir Alec Guinness. Como de costume em sua aclamada (e ainda pouco popular) carreira, Guinness abusa no carisma e ofusca todo o resto. Seu eloquente Major Jones aparece pouco, mas acaba por ditar os rumos de quase tudo que acontece. Quando está em cena, não há outro elemento a ser olhado. É extremamente fácil não se conectar com nenhum outro personagem e dificílimo permanecer indiferente ao dele. Em resumo: ver Guinness se divertindo nas diferentes camadas do personagem é motivo suficiente para encarar esse pomposo thriller datado e quase brega. Pode confiar.



sábado, 5 de janeiro de 2019

Caros Amigos - O Abraço Final de "O Amor em Fuga", 1979.




François Truffaut e Antoine Doinel foram grandes amigos. Mais do que seu alter-ego na ficção, o personagem vivido pelo ator Jean-Pierre Léaud foi uma presença constante e fundamental na vida do cineasta francês. Protagonista de seu primeiro longa, a intocável obra-prima "Os Incompreendidos" (1959), Doinel foi novamente visitado pelo diretor em um curta-metragem e outros três longas ao longo das duas décadas seguintes: "Antoine and Colette" (1962), "Beijos proibidos" (1968), "Domicílio Conjugal" (1970) e esse "O Amor em Fuga". Neles, acompanhamos suas desventuras por diferentes amores, humores e fases da vida. 

"L’Amour en Fuite" foi o quinto e último abraço entre os dois. A palavra de ordem é Nostalgia: diferente dos filmes anteriores, motivados por tramas particulares, esse é caracterizado - quase que condicionado - à flashbacks das produções anteriores. Doinel, agora pai divorciado e preso a um emprego desinteressante, continua com alma juvenil e irrefreáveis paixões platônicas. Um moço apaixonado, como o próprio diretor - num dos mais belos exemplos de Arte como Espelho da própria existência. O clima de "episódio final" é inquestionável: quase todos personagens dos capítulos passados retornam para um balanço geral. Truffaut até sugere algumas subtramas promissoras, logo abafadas sem muita explicação. Tudo é leve, sem compromisso, quase verdadeiramente desnecessário. Porém o laço carinhoso entre criador e criatura é tão singelo e autêntico que não dói nada assistir. Há uma absoluta beleza no simples, e poucos conseguiram captar isso de forma tão apaixonada quanto Truffaut. 

Ainda que não figure entre as obras mais inspiradas de sua filmografia, foi indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim e teve grande destaque na França - principalmente pela música-título, cantada por Alain Souchon. Se havia o suspense de um possível reencontro futuro com Antoine Doinel, o cruel roteiro da vida interferiu nos planos: François Truffaut morreria em 1984, com apenas 52 anos, deixando órfãos Doinel e toda uma legião mundial de fãs. Ainda que tenha realizado outros filmes até o último ano de vida, talvez seja essa sua autêntica despedida - uma sincera saudação ao fiel amigo e ao fugitivo amor que sempre captou com a câmera. Acima de uma mera comédia romântica, o ponto final de uma bonita amizade. 



sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Juventude Transviada - Bergman, Monika e o Desejo



Ingmar Bergman completaria 100 anos em 2018, e foram muitas as homenagens e celebrações à sua valiosa carreira. Extremamente influente e inovador na abordagem psico-filosófica de suas obras, o cineasta ainda é considerado intimidadoramente "cabeça" ou cult por muita gente. É compreensível que assuste à primeira vista, afinal poucos artistas exploraram a linguagem e potencial do Cinema de forma tão intensa quanto o sueco. Virou até adjetivo pra filmes "difíceis". Seu 12º longa talvez seja uma ótima "dose inicial" ao universo bergmaniano.

 Quase "realista" em abordagem e aspas, "Monika e o Desejo" trata de um jovem casal entediado com a rotina do trabalho. O Desejo do título morde Monika e atiça uma rebeldia que os leva a fugir de tudo - e vão viver a paixão intensa em uma ilha paradisíaca, sob o verão europeu. Em alguns aspectos, é um filme sobre juventude, liberdade e suas graves consequências na vida adulta. Bergman ainda desenvolvia seu olhar característico, mas já era um pessimista convicto. Sem susto: até os momentos mais densos são captados com imensa paixão que extrapola a tela. Em um momento quase banal, Monika caminha por alguns músicos de rua no que poderia ser um simples plano de passagem. A câmera então opta por um atípico close em sua reação à música, e tudo vira poesia. Bergman registra sua atriz como um observador apaixonado, e não por acaso. A visceralidade da jovem Harriet Andersson, então com 20 anos e em sua primeira protagonista, conquistou o coração do diretor. Os dois começaram um relacionamento secreto durante as gravações, evidente na paixão latente de cada plano. As sequências oníricas na ilha deserta são brechas imediatas do mundo dos sonhos. O espectador é quase convidado a um relacionamento a três, e sente o baque de cada impulso cedido. 

O filme foi lançado nos Estados Unidos com a frase publicitária "A História de Uma Garota Má", algo um tanto injusto. Monika é movida pelo desejo em sua forma mais humana e imatura, tanto que o tal desejo veio até parar no título por aqui. Melhor assim. É o Desejo que dita cada movimento da personagem e da câmera. Tudo culmina no momento em que Monika, prestes a ceder novamente ao impulso carnal, surpreende o público com um olhar direto e ousado para a câmera. Largamos todo e qualquer julgamento ao encarar o espelho em seus olhos. Isso foi em 1953. Pelo tempo que a Magia do Cinema for estudada e contagiada, aquele olhar desafiador e angustiado de Andersson permanecerá com o mesmo impacto. O contagiante impulso do tal desejo. 



domingo, 16 de dezembro de 2018

O Primeiro Tango de Bertolucci - Descobrindo A Morte




Bernardo Bertolucci nasceu fadado às Artes: a mãe era professora e o pai, respeitado poeta e historiador. Italiano de Parma, cresceu cercado de cultura e logo conheceu figuras como Pier Paolo Pasolini. Amigo da família, o cineasta o convidou para ser assistente de direção em seu primeiro longa, "Accattone" (1961). O jovem Bernardo, já então com um livro de poesias publicado, se entusiasmou com a magia do Cinema. Pouco depois, tinha em mãos um roteiro assinado pelo próprio Pasolini. Assim veio "La Commare Secca", sua primeira experiência na direção. 

O plano inicial já indica toda poesia e potência do filme: folhas e papéis voam por ruas de uma cidade ainda adormecida, até revelar o solitário cadáver de uma mulher. A trama pincela diferentes depoimentos sobre fatos do dia anterior, possíveis suspeitos e causas do assassinato. Críticos e artigos costumam ligar a estrutura ao clássico inquestionável "Rashomon", de Kurosawa. Ainda que provável inspiração, "A Morte" adota um contexto social e narrativo absolutamente diferente. Ainda sob ecos audíveis do Neorrealismo de Rosselini e De Sicca, aponta para a nova onda que marcaria obras de Antonioni, Fellini e do próprio Pasolini. Por isso mesmo, é chocante imaginar que aquela degustação visual tenha sido orquestrada por um jovem de 21 (!!) anos. 

Muito diferente da saturação de cores, ritmo pendular e sexualidade latente que se tornariam a assinatura de Bertolucci, "La Commare Secca" releva um cineasta inquieto com os possíveis laços entre Cinema e Poesia - um pouco de Pintura no meio. A câmera solta e flutuante captura rostos belos e marcantes, como o jeitão "Johnny Cash loiro" de Alfredo Leggi e a urgência juvenil de Marisa Solinas. Pouco se explica sobre seus personagens, mas são muitas (!) as imagens que ficam. Explorar essa obra inaugural à sombra de sua recente morte apenas reforça a força e brilhantismo de Bertolucci como Homem do Cinema. É inquestionável: poucos conseguiram pintar tamanha poesia com uma câmera. 




terça-feira, 9 de outubro de 2018

A Cozinha de Fatty e Buster - O Centenário de "The Cook" (1918)




Roscoe "Fatty" Arbuckle foi uma das primeiras figuras polêmicas da História do Cinema. Seu visual de "bebê gigante" e jeito bonachão ajudaram a torná-lo um queridinho do público no nascimento do "Star System" que até hoje dita muita coisa na indústria. Sua vida atrás das câmeras, porém, era bastante conturbada. Dono de diversos vícios e comportamento explosivo, ele se envolveu no absurdo escândalo da morte e possível estupro da jovem atriz Virginia Rappe, em 1921. O astro americano foi convocado à diversos julgamentos públicos e nenhuma evidência comprovou sua participação no crime. Independente do resultado das investigações, seu nome já estava manchado entre os fãs, e seus filmes foram banidos das salas de cinema. 

Esse curta centenário é uma oportunidade de vê-lo no auge do sucesso e em plena forma. Fatty é o cozinheiro de um requisitado restaurante e precisa lidar com a alta demanda da noite. A partir disso, uma grande coleção de gags desfila pelos 22 minutos de duração. O destaque, porém, vai para seu coadjuvante de luxo. Buster Keaton - ele mesmo! - era grande amigo de Fatty Arbuckle e sempre aparecia em seus filmes em simpáticas participações. Quando fizeram "The Cook", o destaque de Keaton em cena já era evidente. Pode-se dizer com tranquilidade que eles dividem o tempo de tela, ainda que a estrela (e roteirista e diretor) fosse Arbuckle. Mais carismático que os dois, apenas o cão Luke The Dog, cujas peripécias lhe garantiam até fã clubes. É fascinante descobrir trechos como o jantar de macarrão, ainda  hilários e contagiantes 100 anos após o lançamento. O filme traz também uma delirante cena parodiando o sucesso "Salomé" (1918), onde Fatty entra em transe e emula danças e gestos da exótica atriz Theda Bara, outra lenda da fase muda do cinema.

 "The Cook" foi considerado um curta perdido, até ser reencontrado em cópia danificada na Noruega em 1998. Uma versão extendida e melhor preservada foi achada na Holanda em 2002, e a combinação das duas é a cópia a que hoje temos acesso - ainda que algumas passagens sejam claramente picotadas. Além de poder conhecer a figura curiosa de Fatty, é a chance de conferir Buster Keaton na beira da fama. A partir dali, seu carisma ganharia cada vez mais destaque e ele se tornaria um gigante que o antigo parceiro Fatty, todo grandalhão e arrogante, não conseguiu ser. 



sábado, 29 de setembro de 2018

O Trágico Sorriso de Larry Semon



Esse moço simpático da foto se chama Larry Semon e é provável que você nunca tenha lido sobre sua existência. Pois Semon foi um grande destaque na fase muda do Cinema, lá pelo início dos anos 20. Como os grandes artistas do período, herdou a profissão da família: era filho do mágico Zera The Great e de sua assistente, e cresceu em espetáculos de vaudeville. Foi cartunista do The New York Sun antes de assinar roteiros para a então jovem Sétima Arte. Logo passou a dirigir e estrelar curtas próprios, sempre repletos de efeitos especiais e desafios técnicos. Sem demora, se tornou rosto conhecido em diversos lugares do mundo: na França era conhecido como Zigoto, na Itália muito popular como Ridolini, na Espanha era o Jaimito! Vale lembrar que essa "multi-personalidade" era normal na época - Chaplin era "Charlot" na Europa e "Carlitos" aqui no Brasil. 



Voltemos ao moço Semon, que gostava de produções mirabolantes e orçamentos caprichados. Inclusive, ele foi o responsável por uma adaptação de "O Mágico de Oz" em 1925 (!), onde fazia o espantalho e outros dois papéis. O Homem de Lata, na ocasião, era vivido por Oliver Hardy - que pouco mais tarde ficaria mundialmente famoso como a rechonchuda metade de "O Gordo e o Magro". Cruel pensar que Semon acabaria lembrado apenas por pequenos papéis secundários nos curtas estrelados pelo amigo. Os produtores desconfiaram dos gastos excessivos e o abandonaram, obrigando-o a assumir a produção de seus projetos. Não sobrou muito dinheiro. Larry Semon saiu do topo dos créditos para se tornar um coadjuvante ocasional sem muito destaque. Ele acompanhou seus amigos explodirem em popularidade, enquanto seus filmes não conseguiam ser finalizados. Declarou falência em 1928 e tentou retornar ao vaudeville em companhias viajantes. Frustrado e sem público, teve um surto psicológico e foi internado num sanatório da Califórnia. E assim morreu, esquecido e abandonado, aos 39 anos. 

Pesado, né? A História do Cinema enterrou a carreira de Larry Semon e de muitos artistas brilhantes fundamentais para a evolução e popularidade dessa Arte. Esse texto não é uma homenagem à altura, mas um convite à descoberta. Os nossos tempos modernos permitem que pôsteres do período e trechos de filmes possam recuperar o valor imenso que foi retirado de nomes como Semon. Sua valiosa versão de Wizard of Oz, por exemplo, pode ser encontrada na íntegra no youtube! Nunca é tarde para descobrir novas figuras fascinantes e ser contagiado pelas faíscas que elas deixaram. Essas faíscas, e seus eventuais sorrisos, são o verdadeiro legado de figuras trágicas como Larry Semon. Keep Smiling. 



quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A Nova Onda de Orson Welles em "A Marca da Maldade"






Imagine a tradição do Cinema Noir americano com uma abordagem autoral e repleta de experimentações visuais. Assim é "Touch Of Evil", a última tentativa de Orson Welles de explorar a linguagem cinematográfica em Hollywood. Baseado livremente no livro "Badge of Evil" de Whit Masterson, o roteiro foi escrito pelo próprio Welles - que ainda reservou para si o melhor papel da trama. Aos 43 anos, o cineasta aparece inchado como o rabugento e manco policial Hank Quinlan. Dono de personalidade ambígua e repleto de frases de efeito, talvez seja o mais icônico entre os papéis que assumiu - e estamos falando do homem que viveu Charles Foster Kane! Ele quase ofusca a dupla Charlton Heston, versátil como um "guardião da lei" de origem mexicana, e Janet Leigh pré-"Psicose". Ela, aliás, tem nesse filme os primeiros problemas com hotéis vazios em estradas. Mal sabia ela… 

Para injetar mais climão cult ao projeto, Welles convocou o habitual amigo Joseph Cotten para uma aparição não creditada e insistiu para que a eterna diva Marlene Dietrich fizesse uma participação especial. Bastam apenas três cenas para que o olhar penetrante da alemã permeie todos os frames. É chocante conferir que ela tinha 57 anos durante as gravações, tamanha a juventude (ou atemporalidade) em seu rosto. O pôster também tem o mérito de destacar o maltês Joseph Calleia, discreto coadjuvante que é o mais complexo e fascinante personagem do pacote! 

"Touch Of Evil" é um filme nervoso, de muitos acontecimentos e viradas. A ambientação na fronteira com o México permite que aborde Preconceito e Ética como poucos ousavam no período. Usa um crime como gatilho para expor a arrogância humana, e não são poucos os momentos semelhantes à ataques entre animais.  A câmera opta por ângulos inusitados e seus movimentos ajudam na impressão de ação constante. Muito da essência mágica do Cinema está no longo e ousadíssimo plano inicial de quase quatro minutos, que apresenta todas faíscas e dilemas da trama. "Só quatro minutos"? Acredite, muito acontece naqueles quatro minutos. 

É uma obra filmada e decupada como se um jovem diretor estivesse enfim realizando seu sonhado primeiro longa. Com Orson Welles, nunca deixou de ser assim. Esse uso mais solto e "rebelde" da câmera, combinado ao som vivo como ferramenta narrativa, assustaram os produtores do estúdio. Welles foi afastado do processo de edição e convidado apenas para uma sessão próxima à data de estreia. Ao chegar em casa, escreveu enfurecidas 60 páginas aos responsáveis pela distribuição, que pouco respeitaram sua visão. Recebido friamente nos Estados Unidos, "A Marca da Maldade" foi um sucesso estrondoso na Europa. Jovens críticos como uns certos Jean-Luc Godard e François Truffaut se referiam ao filme como obra-prima e há boatos que tenha deixado ecos na Nouvelle Vague que ali nascia. Foi a última vez que Welles prestou contas a Hollywood. O americano se mudou para a Europa e nunca mais gravou em seu país natal. A partir dali mergulharia em projetos ainda mais autorais e atípicos, sempre como um jovem diretor sedendo por seu sonhado primeiro filme. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A Íntima Delicadeza de "Benzinho", 2018.




O simples é difícil e belíssimo, e é fascinante quando a Arte consegue capturar isso. Gustavo Pizzi lançou "Riscado" em 2010, revelando o carisma e potência de Karine Telles - que se tornou uma das atrizes mais constantes e relevantes do Cinema Nacional. De lá pra cá, os dois foram casados, tiveram gêmeos e escreveram juntos o roteiro de um novo longa. O relacionamento acabou, mas a troca profissional avançou ainda mais forte. O tal roteiro de longa também. "Benzinho" é dirigido por Pizzi, protagonizado por Karine e conta com os gêmeros Francisco e Arthur - além do sobrinho Luan e sua carismática tuba - no elenco. A trama ainda se passa em Petrópolis, cidade da Atriz, e trata do universo privado de uma família. Uma obra extremamente pessoal, pode-se deduzir. Tamanha intimidade poderia ser um perigosa escolha narrativa, mas acaba por se tornar o trunfo maior do filme. 

A câmera nos convida a chegar bem perto da rotina de uma dedicada mãe de quatro filhos, que perde o chão quando o mais velho anuncia uma viagem de intercâmbio. Os ecos da iminente saída do primogênito afetam a relação com o marido trabalhador e com a irmã violentada pelo ex marido. Lágrimas e risos se intercalam como na vida, em realismo quase tátil. 

A sinceridade das situações e diálogos conquistou gregos e troianos, culminando nos prêmios de Melhor Filme pelos Júris da Crítica e do Público em Gramado. Karine Telles e Adriana Esteves, pura dinamite em cena, levaram os Kikitos de Atriz e Atriz Coadjuvante - e seria muito injusto não destacar o paizão vivido por Otávio Müller. Por um momento, somos parte da família e aquele recorte do universo basta. "Benzinho" é um delicado abraço, uma autêntica declaração de amor. Uma prova cabal disso é, ao final da sessão, ouvir uma mulher grávida secar as lágrimas e declarar à amigas: "Ele ainda nem nasceu e eu já sei que vai ser difícil. Difícil e lindo". Não poderia haver mais linda evidência do sucesso. 


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

As Faces do Passado em "O Gabinete das Figuras de Cera", 1924.






Obscura pérola da fase muda do Cinema, "Das Wachsfigurenkabinett" - é o título original, juro! - era basicamente um veículo para seu trio de estrelas. Emil Jannings, Conrad Veidt e Werner Krauss eram então considerados os três maiores atores da Alemanha - e como o Expressionismo Alemão estava em seu auge, era o mesmo que dizer "os maiores atores do mundo". A trama é um fiapo: um jovem escritor aceita o desafio de escrever biografias para três personagens históricos em um museu de cera. Cada um inspira uma breve narrativa, permitindo aventuras por diferentes eras históricas e gêneros. Há espaço para doses de ação, romance, comédia e, inevitavelmente, terror. 

O primeiro é o califa iraniano Harun al-Rashid, vivido pelo bonachão Jannings em rara aparição cômica. O próximo cenário exótico é a Rússia do implacável Ivan, o Terrível, que ganha os assustadores traços do robótico Conrad Veidt. O potencial do personagem é desperdiçado em uma trama boba envolvendo uma "ampulheta da morte", mas as imagens são icônicas e memoráveis. Já a figura de Jack, o Estripador, encarnada pelo sinistro Werner Krauss, ganha menos tempo em cena. Ao invés de uma trama própria, o personagem aparece em uma espécie de pesadelo vivido pelo já sonolento escritor. E de pesadelos o Expressionismo Alemão entendia muito bem, como fica evidente. 


Veidt e Krauss, aliás, já tinham se encontrado em outro gabinete: o pesadelo inicial do período, a merecidamente cultuada obra-prima "O Gabinete do Dr. Caligari" (1920). Para evitar comparações óbvias, o filme foi distribuído nos Estados Unidos como "Waxworks". O roteiro ainda traria um trecho com William Dieterle vivendo o personagem literário Rinaldo Rinaldini. Ele pode ser visto ao fundo no filme  (e nessa foto de divulgação), porém acabou cortado da montagem final por não ser um personagem tão famoso - nem um ator tão reconhecido. Como tudo que os estúdios UFA distribuiam e produziam, "O Gabinete das Figuras de Cera" representava muito da Magia do Cinema dos anos 20. Ainda que não seja comparável às obras de Fritz Lang ou Murnau, esse último filme alemão de Paul Leni merece ser revisitado como mais uma ode aos sonhos da fase muda dessa tão hipnótica Arte.