sexta-feira, 29 de junho de 2012

Perdidos no Espaço - Os Altos e Baixos de "Prometheus", Volta de Ridley Scott ao Universo de Alien


É difícil falar de um filme como "Prometheus". Para começar, eu sempre fui um grande fã de "Alien - O Oitavo Passageiro", obra-prima que revelou o diretor Ridley Scott para o mundo e redefiniu (pelo menos visualmente) a ficção científica. Por isso, não gostei NEM UM POUCO quando anunciaram mais uma continuação - que, na verdade, é um prelúdio do original. Ainda mais quando descobri que o próprio Scott iria assumir o comando novamente - ele não dirigiu nenhuma das continuações, só fez o original. É bem o tipo de coisa que ou dá muito certo, ou muito errado. E fã que é fã sempre prefere evitar o risco da segunda opção, adotando a postura do "deixem o clássico quieto!". Mas enfim, já que fizeram, é preciso ver o resultado. E lá fui eu.

A regra é clara: se você gosta do filme original - e não do personagem Alien em si -, tem tudo para assistir grande parte do filme muito feliz. Começando pelos líricos créditos iniciais e bonitos passeios pela nave com o andróide David, a primeira hora de filme nos faz acreditar que Scott fez tudo certo. Ao mesmo tempo em que parece um tributo ao original, apresenta uma história nova e envolvente. Para situar todo mundo, voltemos rapidamente ao clássico de 1979: quando os cientistas entravam no estranho planeta repleto de ovos do que seriam aliens, eles passavam por uma estranha carcaça gigantesca (na foto abaixo, em uma imagem do original). Além do visual interessante e inovador, aquele "ser" nada adicionava à história, apenas estava lá. Pois ele foi o ponto do qual Scott espertamente traçou uma nova história. E era, de fato, algo novo à mitologia que ele mesmo ajudou a criar.


Os cenários, personagens, paisagens... À princípio, tudo remete à estética original projetada por H.R. Giger para aquele fascinante universo. E isso é bom, perfeitamente aliado ao efeito 3D. Se existe um gênero perfeito para o uso da terceira dimensão, é a ficção científica - afinal, a ideia é ficar imerso em um ambiente completamente diferente e "novo". A trilha sonora composta por Marc Streintenfeld é sci-fi por excelência: mantém o clima de suspense e não pesa na dramaticidade das cenas. Resumindo, técnica e esteticamente o filme é sensacional e Scott ainda é mestre em ambientação.

O problema está no modo como a trama se desenvolve. Leia-se: a segunda metade do filme.  O andamento e ordem das cenas é muito semelhante ao filme que Scott dirigiu 33 anos atrás - é, o tempo passa! Só que a graça antes era o fato de muito pouco ser mostrado, e apenas em cenas chave. Isso criava uma sensação absurda de suspense e dava aquele frio na espinha cada vez mais raro de se sentir no cinema. Aqui, há fartura de cenas. Muitas explicações, muitos diálogos inúteis, muitos personagens desnecessários, muita coisa acontecendo de forma corrida. E isso para no final sobrarem muitas dúvidas no ar. Não é das melhores equações.


Ninguém precisa mais sair por aí falando do talento de Noomi Rapace, já ficou bem claro que ela tem. Mas sua personagem está longe de ter o carisma da Ripley de Sigourney Weaver. Ela chega até a evocar sua bravura em uma cena tão chocante quanto inverossímil, mas é só. No elenco que conta ainda com uma Charlize Theron durona e um Guy Pierce irreconhecível, o destaque absoluto que engole todos os outros é o já citado andróide David, encarnado por um inspiradíssimo Michael Fassbender. A ideia era ser uma espécie de homenagem ao personagem de Ian Holm no original. Mas com o olhar de um Hannibal Lecter e citações à "Lawrence da Arábia", Fassbender criou um ser fascinante que é o indiscutível ponto alto do filme. Alguns atores já levaram o Oscar de Coadjuvante por muito menos. Não dá pra ficar indiferente a esse estudo perfeito das emoções humanas.

É por acompanhar de maneira tão interessada e envolvente esse personagem e todo o clima criado que fica tão difícil aceitar o rumo que as coisas tomam. A trama que envolve os "Arquitetos" não é das mais interessantes e a última meia hora é um amontoado de irritantes clichês. Parece que alguém esqueceu de falar "corta, é hora de acabar o filme". Assim, ele fica se alongando demais, até o mais previsível acontecer. Nesse quesito, realmente decepciona um pouco.


Mas agora podemos enfim falar da parte realmente positiva - pelo menos, a meu ver. Desde o início da divulgação do projeto, ficou uma dúvida no ar: "Prometheus" é uma história paralela ao universo de Alien, uma sequência, um filme de origem, o que? Scott anunciou que era "uma ficção científica com o DNA da série Alien". Definiu bem. As referências mais diretas aos acontecimentos de "Alien" são bem discretas. Algumas delas são só para fanáticos mesmo. E se o maior diferencial da série é o incrível e assustador visual da criatura - que, cá entre nós, colocaria medo até nos Homens de Preto -, aqui a galera da direção de arte se supera. Ao invés de fazer o esperado, que seria investir só na figura já consagrada e conhecida, eles fazem o caminho contrário. Vários novos estilos de Aliens dão as caras aqui, um mais interessante que o outro. Isso renova a série, o que é sempre bom. Tudo é assustadoramente bem feito e realista - ou seja, pessoas com estômago fraco podem não gostar muito. Mas é assim que tinha que ser.

Dizem por aí que Ridley Scott deixou alguns buracos no roteiro para explicá-los melhor em uma continuação. Sinceramente, isso seria muito desnecessário. Mesmo. A ideia de um prelúdio já era exagero, mas ok, até que ficou legal.  Agora o melhor é parar por aqui e não arriscar mais, visto que parte do público reagiu muito mal ao filme. O fato é que "Prometheus" entrega tudo que se espera de uma ficção científica, mesmo sem inovar muito o gênero. Em comparação a um "Avatar" da vida, por exemplo, é muito mais original e envolvente. É bem vindo para despertar a atenção da nova geração para um clássico incompreendido do cinema, como um convite feito pelo próprio artista à obra que o consagrou. Scott, inclusive, vai voltar a brincar com a nostalgia alheia em breve, ao dirigir a continuação de seu "Blade Runner". Os fãs, coitados, já começam a temer pelo pior.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Irmãos de Sangue - Tim Burton e Johhny Depp Engatam Oitava (!) Parceria com "Sombras da Noite"


A saga "Crepúsculo" fez mais do que apenas acabar com o charme dos vampiros no cinema. Ela abriu caminho para que eles voltassem a ficar na moda, através de inúmeras produções repletas de efeitos especiais e ação. Apesar de alguns resultados acima da média, como a nova versão de "A Hora do Espanto", a maioria dos filmes não fazia jus às marcantes obras-primas protagonizadas pelos dentuços no passado. E é aí que entra Timothy William Burton, mais conhecido pelos cinéfilos como Tim. Dono de uma criatividade visual única, Burton não vinha usando seu potencial criativo desde "Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet", o último filme que tem sua marca autoral da primeira à última cena.

Depois de decepcionar metade do mundo com sua burocrática versão de "Alice no País das Maravilhas", Burton resolveu se voltar para algo mais pessoal. E para isso, chamou seu parceiro de costume: Johnny Depp, como não podia deixar de ser. Tudo começou no meio de uma conversa em 2007, ainda nos bastidores de Sweeney Todd, quando Burton e Depp perceberam que cresceram assistindo um mesmo seriado de televisão. A série em questão era a inglesa e obscura "Dark Shadows", que foi produzida entre 1966 e 1971. É até hoje pouco conhecida, mas sua trama não importa muito aqui, pois os dois deixaram bem claro que a nova versão para as telas seria uma livre interpretação daquela trama.


Assim chegamos a "Sombras da Noite", a oitava parceria entre Burton e Depp. E o resultado final é extremamente superior à visão de Alice pela dupla. Mas é melhor acalmar os ânimos: trata-se de um clássico exemplo de "filme de Tim Burton" - quase um gênero à parte, percebam -, com todos seus altos e baixos. Quanto mais investem no visual, mais seus filmes acabam se perdendo em uma narração muito presa a um estranho "tom de fábula". Foi assim com "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça" e até mesmo com "A Fantástica Fábrica de Chocolate". Só que aqui tinha tudo para dar certo, pois se trata do choque de um mundo bizarro e estilizado (característico de Burton) com o tradicional mundo real. Foi com esse mesmo choque que o diretor realizou suas obras-primas máximas, "Edward Mãos-de-Tesoura" e "Os Fantasmas Se Divertem". Só que o lirismo e genialidade deles não dá as caras por aqui.

O filme faz uso de uma desnecessária introdução em flashback para apresentar o protagonista: Barnabas Collins, um rico aristocrata inglês que é transformado em vampiro após seduzir e partir o coração de Angelique Bouchard (Eva Green), uma atraente e vingativa bruxa. Ela joga a população da cidade local contra ele e o faz ser enterrado - a deixa para a trama avançar até 1972, onde de fato começa. E pelos discretos créditos iniciais, já notamos que temos aqui um Tim Burton em versão mais comportada. O visual geral é bem "normal" para o nível dele, e seu estilo gótico tão marcante e adorado só dá o ar da graça em alguns poucos detalhes do Castelo da família Collins.


O elenco é repleto de rostos conhecidos, nem sempre bem aproveitados. Jack Earle Haley (o hilário caseiro Willie) e Jonny Lee Miller (o interesseiro Roger Collins) são dois atores muito talentosos que têm carisma de sobra para dar a qualquer filme, mas pouco o que fazer em cena com personagens pouco carismáticos ou relevantes. Michelle Pfeiffer, que volta a trabalhar com o diretor após da brilhante e insuperável Mulher-Gato de "Batman - O Retorno", aparece aqui em versão super canastrona e a promissora Chloë Moretz em certos momentos não se encaixa muito bem no papel da rebelde Carolyn. Helena Bonham Carter brilha como uma psicóloga alcoólatra e
Bella Heathcote tem um rosto de beleza marcante que dá uma aura angelical ao interesse amoroso do vampiro de Depp.

O Barnabás Collins de Johnny Depp é um caso à parte. Grande "objeto estranho" em torno do qual gira todo o filme, ele tinha tudo pra ser mais um show de exageros do ator - vide o que ele fez com o Chapeleiro Maluco. Mas Depp acha o tom e cria um personagem interessante, com ecos de ícones do horror: o visual e as mãos são de Nosferatu (da obra-prima muda de 1922), enquanto o gestual é muito inspirado em Bela Lugosi (o Drácula eterno, do clássico de 1931). Até Christopher Lee, lenda viva que já interpretou o Drácula diversas vezes, faz uma participação no filme, aos 90 anos. Enfim, o personagem de Depp diverte e é um "vampiro das antigas", para a alegria da nação. Fazendo dupla com ele, vemos uma (sempre) linda Eva Green, exagerada na medida certa como a bruxa Angelique. Juntos, eles têm uma inspiradíssima cena que já fez sucesso no trailer, e é ainda melhor no filme.


Agora, verdade seja dita: Burton aproveitou pouco as possibilidades de brincar com a década de 70, cujas características renderiam muitas cenas cômicas. Nesse sentido, ele investe em um humor mais fácil que até funciona - como é o caso da inspirada cena em um acampamento hippie -, mas decepciona um pouco. A trilha sonora resgata alguns clássicos meio perdidos da época, que dão um clima agradável ao filme. Para se ter uma noção, o roqueiro Alice Cooper em pessoa aparece no filme, em uma participação MUITO estranha - afinal, ele aparece envelhecido em... 1972. Isso tudo para Burton abrir mão de qualquer sutileza na parte final, jogando no espectador tudo que se espera de um filme dele, de uma vez só.

Mas "deixando os entretantos de lado e partindo para os finalmentes", sejamos justos: "Sombras da Noite" tem seus momentos de diversão. Pode até deixar um gostinho de quero mais, mas diz a que veio.  Os fãs mais fervorosos do trabalho de Tim Burton podem estranhar um pouco o burocrático e comportado resultado final, mas os de Depp não terão do que reclamar. Quanto aos góticos e "burtonianos" de plantão, podem ficar tranquilos: se "Dark Shadows" não saciou sua sede, aguardem até o dia 2 de novembro. É nessa data que estreia "Frankenweenie", um remake que o próprio diretor fará de um curta lançado por ele em 1984. A animação, em Stop-Motion, Preto e Branco e 3D, tem o visual que remete aos clássicos "O Estranho Mundo de Jack" e "A Noiva Cadáver". Ao que tudo indica, essa sim será uma obra com total marca autoral e criativa do Tim Burton que conquistou e inspirou tanta gente.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Lírio Partido - Christian Bale Lidera Elenco Oriental e Emociona em "Flores do Oriente"


Guerras são tão antigas quanto o próprio ser humano - afinal, foi ele quem as criou. Apesar de suas duras consequências e cicatrizes, é preciso tirar algo delas, uma espécie de "moral" da história. E aí entra a arte, através de músicas, fotografias, livros, entre outros. Por aqui, o foco será no cinema. Ele já produziu verdadeiros manifestos antibélicos como "O Encouraçado Potemkin", "Apocalypse Now" e "A Lista de Schindler" - só pra citar alguns, claro. Só que as guerras são fontes inesgotáveis de episódios que parecem, de fato, "coisa de filme". Mesmo com tantas obras do gênero, sempre surge alguma coisa nova e diferente. É o caso de "Flores do Oriente".
Nessa produção de 2011, a trama se desenvolve durante a segunda guerra que aconteceu entre o Japão e a China, no ano de 1937. Mais especificamente durante o chamado "Massacre de Nanquim", no qual estima-se que mais de 200 mil chineses foram mortos pelo Exército Japonês, que também estuprou cerca de 20 mil mulheres. Se apenas escritos os fatos já chocam, o filme não tenta abrandar ou suavizar esse choque. A reconstituição de época perfeita vem acompanhada da mesma dose de violência visual, de deixar Tarantino abismado. Mas, nesse caso, não é gratuito. É apenas... realista. Um retrato da época.


Ao longo de 2 horas e meia de duração, a ação se passa basicamente em um único lugar: uma Igreja católica de Nanquim, que abriga jovens garotas estudantes. Mas isso não deve fazer ninguém pensar que o filme é monótono. O clima caótico está lá desde a primeira cena, e logo somos apresentados ao personagem de Christian Bale: John Miller, um americano que deve ir a essa Igreja para enterrar o padre vítima de uma bomba. A partir daí, muita coisa acontece nesse ambiente, principalmente após a chegada de um grupo de prostitutas em busca de abrigo.

Cineasta chinês mais bem sucedido dessa década, Zhang Yimou levou a beleza e valores de uma China lírica para os cinema através de filmes como "Lanternas Vermelhas", "Herói", "O Clã das Adagas Voadoras" e "A Maldição da Flor Dourada"- todos esteticamente sublimes, verdadeiros quadros em movimento. Com essas produções, deixou claro que o país não tem apenas Ang Lee e John Woo como representantes internacionais. E visando mais esse mercado internacional - lembrando que no filme é falado chinês, mandarim, japonês e inglês -, ancora sua nova obra no carisma de uma ator americano e deixa o visual exótico de lado, para adotar tons mais frios e cinzas. As violentas cenas de ação evocam "O Resgate do Soldado Ryan" e "Cartas de Iwo Jima" pela mistura de realismo com o emocional dos personagens. Mas tudo com um toque pessoal do diretor.


Mas o grande trunfo do filme, que lhe dá toda a personalidade que precisa para se destacar, tem um nome: Christian Charles Phillip Bale, a alma do longa-metragem. Vale avisar que o personagem demora para engrenar. Na primeira hora de exibição, Bale faz uso de muitas caretas para dar um ar fanfarrão ao americano interesseiro. Fica um pouco exagerado, como se ele estivesse nos falando "Dane-se, já ganhei um Oscar" - lembrando que ele levou o de Coadjuvante em 2010 por "O Vencedor". Mas à medida que a trama vai evoluindo (e as coisas vão piorando), há uma grande virada de caráter e personalidade. Tudo é mostrado com muita calma e paciência, o que só deixa o resultado mais intenso. E deixa claro pra nós o grande ator que Bale sempre foi. Ao assumir a identidade de padre local, ele só fortalece a ideia de redenção que marca todo o filme e tanto emociona. Nas sequências finais, seu olhar parece nos dizer "Você sabe que mereço um outro Oscar por isso". E nos convence. 

Toda a exuberância e exageros visuais do diretor são aqui representados pelas prostitutas que resolvem se abrigar na Igreja. E essa mudança de tom fica aparente, gerando algumas situações e atuações forçadas, que lembram até quadros humorísticos. O filme até arrisca uma sequência musical, um pouco deslocada no contexto. Mas sempre que ameaça passar do ponto, acontece alguma virada na trama. E é assim que a narrativa funciona e se mantém envolvente. Desse elenco feminino, se destacam Xinyi Zhang, a jovem estudante narradora que vivencia tudo, e a beleza hipnótica de Ni Ni, a prostituta que conquista o coração de John. São essas duas que não deixam o caldo derramar.


"Flores do Oriente", um tocante tratado sobre redenção, talvez não seja o melhor trabalho de Yimou. Mas é um filme que bate e fica, extremamente bem feito em todos os aspectos. É preciso ter coração e estômago forte pra ver, pois ele não se propõe a esconder nada. Essa coragem fez a diferença: acabou sendo o representante chinês para Melhor Filme Estrangeiro no Oscar de 2012. Pode até não ter levado, mas merece ser visto por conseguir passar, mesmo que através de caos e mortes, uma forte lição de sobrevivência, amadurecimento e sacrifício. E é impossível ficar indiferente a isso.

domingo, 3 de junho de 2012

Eclipse - Visual Sombrio e Hipnótico é o Destaque de "Branca de Neve e o Caçador"


Em tempos de intensa crise criativa, Hollywood tem se debruçado em sequências de franquias ou remakes de histórias já adaptadas para o cinema. No universo dos remakes, é crescente o interesse em fazer "releituras" de contos de fadas da infância de todos nós - com muitos efeitos especiais e rostinhos bonitos no elenco, como não podia deixar de ser. E pode-se dizer que "Branca de Neve e o Caçador" foi muito bem-sucedido nesse quesito, pelo menos em comparação a outras produções semelhantes, como "A Menina da Capa Vermelha"(vulgo "Chapeuzinho Vermelho Adolescente") ou até mesmo o "Alice no País das Maravilhas" de Tim Burton. Mas vamos aos fatos.

A história todo mundo conhece, graças ao titio Walt Disney - que a imortalizou em 1937, no primeiro filme de animação da história. Mas não é preciso pensar muito para saber que conto original dos irmãos Grimm era muito mais violento e sombrio. E é esse o clima dessa produção, a estréia do ex-publicitário Rupert Sanders na direção. Não bastasse a responsabilidade de comandar uma superprodução repleta de nomes famosos, a pressão em Sanders foi ainda maior pela concorrência com "Espelho, Espelho Meu". O filme de  Tarsem Singh foi lançado poucos meses antes desse, sendo também baseado na história da Branca de Neve, com direito a anões, bruxas, etc. Só que a abordagem do outro era muito bobinha e a egotrip de Julia Roberts (como a Rainha Má) prejudicava o resultado. Um clima mais pesado caía bem à história, e por isso a expectativa para esse lançamento.


É bom deixar claro: se a produção agrada por algumas características, também tem seus pontos negativos. E o principal deles é a protagonista. Vinda da franquia de sucesso (acontece...) "Crepúsculo", Kristen Stewart sempre foi alvo de críticas por manter uma única expressão facial durante toda a saga vampiresca. Isso até ela encarnar Joan Jett em "The Runaways", deixando claro que conseguia atuar bem quando preciso. Por isso, ainda restava alguma esperança de que ela faria jus à famosa Branca de Neve. Afinal, o visual para isso ela tinha. Mas é só o visual mesmo. Além de ter poucas falas (como isso?!?), a atriz atua como se  fosse, mais uma vez, Bella Swan. Ou seja, falta carisma e emoção à personagem. O que não teria tanto problema... se ela não fosse o foco de todo o filme. Melhor se saiu Chris Hemsworth, que conseguiu dar ao Caçador todo o carisma que faltou ao seu Thor. Mereceu ter substituído os anões no título.

Falando nos anões, por mais voltas ou abordagens que a trama pudesse ter, não conseguiria deixar eles de lado. Mas para quem espera ver os felizes Mestre, Zangado, Dunga & Cia do desenho... Bem, pra começar eles são 8 agora, e tem nomes de imperadores romanos. Ainda são a válvula de escape cômico do filme, mas dessa vez aparecem mais desbocados, imorais agressivos. Fiquem relaxados: o modo de inserir eles na história foi o melhor possível. O diretor teve também uma sabia decisão: ao invés de colocar anões reais para interpretá-los, chamou respeitados atores ingleses. Muitos inclusive os reconhecerão de rosto, mesmo não lembrando os nomes. Bob Hoskins, Ray Winstone, Ian McShane, Nick Frost e Toby Jones são rostos familiares por terem participado de inúmeros filmes, mesmo não sendo reconhecidos de primeira pelos expectadores. Sua escolha para o elenco dá imensa personalidade à cada um deles. Completando a galeria de personagens, temos a sempre bela Charlize Theron dando vida à uma personagem que - não à toa - convive com a ideia de beleza eterna. Apesar de alguns momentos de pura afetação, Theron se sai bem como a representação visual da Rainha Má que tanto nos amedrontou na infância. Ela perde o tom em alguns momentos, mas o visual e a postura compensam.


Inclusive, se tem uma coisa que faz desse filme um bom entretenimento, é o seu visual. Mais do que a abordagem ou os atores, é o visual que salta aos olhos e encanta em cada cena. A Direção de Arte é inspiradíssima. Apesar da licença poética gerar alguns equívocos - como o Espelho mágico que vira uma espécie de "gongo fantasmagórico"-, ela também gera cenas belíssimas que só ganham mais força com o bom uso dos efeitos especiais. Não está curtindo a história? Ignore tudo e aproveite o visual. Dá certo nesse tipo de filme. Nesse aspecto, ele é impecável. A "Floresta das Fadas" e a "Floresta Negra", por exemplo, são tudo que o "Alice" do Tim Burton queria - e deveria - ter sido.

No final da sessão, ninguém vai pensar que viu o filme de sua vida - muito graças à sequência final, patética em todos os sentidos. Alguns vão pensar que os estúdios tentaram jogar todos os elementos da história no roteiro - o espelho, a maça, o beijo do príncipe, o castelo que é IGUAL ao de Hogwarts... - só para justificar as cenas de ação entre cada uma delas. De fato, a cena de guerra do final é um tanto desnecessária, assim como muitas outras. Mas "Branca de Neve e o Caçador" vale por ser exatamente o que se propõe a ser: uma releitura diferente e visualmente interessante de uma história que todos conhecem de cor e salteado. E vem mais por aí, já que logo será lançado um "João e Maria" à la "Sr. e Sra. Smith" e um "João e o Pé de Feijão" com a mesma pegada dark. O fato é que entre todas feitas até agora, essa versão da Branca de Neve é a que conseguiu chegar mais perto dessa proposta. E é esse seu mérito, mesmo que único. Agora, se você quer se envolver com a história e com os personagens, prefira a versão atemporal da Disney. 



terça-feira, 29 de maio de 2012

Monstros S.A. - Os Homens de Preto Voltam à Ação Uma Década Depois da Última Missão!


É muito raro uma ideia incrivelmente original aparecer nos cinemas, pegar todos de surpresa e ainda virar um sucesso de bilheteria. Pois isso aconteceu em 1998, com o primeiro "Homens de Preto". Mesmo sendo baseada em uma obscura e violenta história em quadrinhos - o que ninguém sabia e nem fez muita questão de saber -, a produção original fez de Will Smith um astro, "O" cara do momento. Ok. Depois de 14 anos e de uma continuação fraca e pouco inovadora, Smith continua sendo um dos astros mais rentáveis do planeta, só que não com a mesma força. Seu último sucesso foi o drama "Sete Vidas", mas como ele se sai melhor na mistura de humor e ação, precisava de um novo blockbuster. E qual é a melhor saída na atual Hollywood sem criatividade e voltada para franquias? Ou fazer remakes, ou fazer continuações. A opção escolhida foi a segunda, e o resultado é esse "Homens de Preto 3".

Para quem não se lembra, a trama acompanha os agentes K (o mal-encarado Tommy Lee Jones) e J (o boa praça Smith), que trabalham para uma agencia que controla e combate alienígenas disfarçados como humanos na Terra. Essa premissa realmente permite um número inesgotável de "missões", mas metade da graça dos filmes está na química e empatia da dupla principal. Devido a problemas no roteiro - que teve três versões e chegou a causar uma pausa das filmagens, algo bem grave para uma produção dessa escala - a participação de Jones nas filmagens ficou prejudicada. E, sem ele, a história não ia funcionar. O que fazer?


Para isso, o protagonista e produtor Will Smith tirou da manga uma carta que queria usar em um filme há muito tempo: a boa e velha - além de clichê - viagem no tempo. Você pode se perguntar: Conseguiram usar isso sem perder a essência ou o foco da história? Sim, eles conseguiram. Inclusive, o modo como essa viagem se dá é uma das melhores sacadas do filme - um assunto tão batido, mostrado de maneira tão original e interessante. Mas essa volta ao passado não é gratuita. Tommy Lee Jones pode até aparecer menos tempo em cena, mas seu personagem não poderia simplesmente sumir. A solução foi fazer sua versão mais nova assumir a missão. E aí está o trunfo do filme: Josh Brolin.

Famoso por filmes como "Onde Os Fracos Não Têm Vez" e "O Gângster", o ator é conhecido por seu bom humor e, principalmente, pelo dom de imitar trejeitos e vozes - mesmo sem parecer muito o ex-presidente George W. Bush, ficou igual a ele em "W." com um desempenho fantástico. Aqui, ele se transforma completamente em Lee Jones: o jeito carrancudo, olhar sério e o jeito de falar. A voz, inclusive, é TÃO parecida que muitos fãs pensaram que o veterano ator tinha dublado Brolin em cena. Não foi o caso - a voz é dele mesmo. Sua presença em cena dá uma renovada no verniz da série, e ele chega a roubar algumas cenas de Will Smith.


Ah sim, vale ressaltar isso: o filme é totalmente focado na figura de Will Smith. Se antes ele dividia o tempo em cena com o agente K, aqui ele é o grande protagonista. Ou seja: se você gosta do ator e de seu humor, vai amar o filme. Se não... bem... ele aparece bastante, esteja avisado. Mesmo com alguns momentos um pouco forçados, Smith ainda tem tiradas boas, e consegue divertir e manter o filme como entretenimento acima da média. As piadas que fazem menção ao presidente Obama ou à situação dos negros no ano de 1969 beiram a genialidade.

Um dos problemas de "Homens de Preto 3" é - quem diria - o excesso de alienígenas e monstros. Explico: nos filmes anteriores, o interessante era não mostrar seres de outros planetas toda hora. Eles apareciam em momentos chave, só quando tinham que aparecer. Isso mantinha o interesse da platéia. Nessa terceira parte, eles estão presentes em todas as cenas, o que enfraquece um pouco a atmosfera de suspense que marcou os outros filmes. A cena do restaurante chinês é um bom exemplo: ela começa da melhor maneira possível e nos faz pensar "legal, eles estão fazendo certo!". Só que depois, quando acontece uma emboscada, chega a parecer que estamos no meio de um episódio de Star Wars. São dezenas de seres deformados - que já chegam no local sem disfarce (!) - e uma profusão de explosões e lasers. E a discrição, que era a marca dos Homens de Preto? Mesmo assim, é a cena com mais ação, e por isso o grande público vai adorar. É o que importa para o estúdio.


Mesmo mantendo o ritmo frenético e cômico, o diretor Barry Sonnenfeld (o mesmo das partes anteriores), dá uns deslizes. Além de um vilão pouco carismático - "Boris, o Animal" só funciona mesmo em sua primeira cena - o diretor abre mão de personagens marcantes que farão falta aos fãs: o chefe boa-praça Zed - cuja ausência é explicada logo no começo -, os sarcásticos aliens que preparavam o café na agência e  Frank, aquele pug que roubava todas as cenas em que aparecia. Ele é apenas citado em duas cenas, mas é pouco. Faz falta. Mas esses pontos negativos são equilibrados com boas sacadas. Além de mostrar Lady Gaga, Justin Bieber e Mick Jagger como alienígenas escondidos no planeta, o modo como incluíram o artista pop Andy Warhol na trama é simplesmente GE-NIAL. Bill Hader, comediante do Saturday Night Live, está irreconhecível e hilário como o excêntrico personagem. Mesmo assim, nada supera o sempre sério Tommy Lee Jones cantarolando "Empire State of Mind".

E com tudo isso, eu quis dizer que "Homens de Preto 3" é um filme que se sai muito bem na sua proposta: entreter e divertir. Os efeitos especiais são muito bem feitos e o humor prevalece, mas mesmo assim, ainda bate uma saudade do original feito há 14 anos. Apesar da reviravolta final inspirada, seria demais esperar que o filme fosse tão marcante quanto o primeiro. Mas considerando que se passaram 10 anos desde o último, dá pra ver que a ideia ainda funciona bem. Claro que com o carisma do (agora) trio principal, tudo fica mais fácil. Ao que tudo indica, o terceiro "Caça-Fantasmas" vai pelo mesmo caminho. Agora é esperar pela quarta parte - que, com certeza, não vai demorar de novo tanto tempo pra invadir os cinemas e colocar a Terra mais uma vez em risco.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Gênio Indomável - A Vida, a Obra e o Deboche de Orson Welles


Não basta ser genial, é preciso saber brincar com isso. Muitos diretores o fizeram, é verdade, mas nenhum chegou perto da bossa e ousadia de George Orson Welles. Sim, o primeiro nome dele era George, embora quase ninguém saiba. Da mesma forma, poucos sabem a história do homem por trás de obras singulares e inovadoras, responsável por uma das maiores obras-primas do cinema.

Em um cineclube recente, organizado para comemorar o aniversário de Welles - que faria 97 anos no dia 6 de maio -, tive a oportunidade de ver "Verdades e Mentiras"(1973), seu último filme. E todas as evidências que apontavam para sua genialidade culminaram ali. Um filme interessantíssimo, diferente e pouco comentado - razão para não ser tão conhecido e estudado como os outros do diretor. Mas o principal: é um filme extremamente personalizado. O tom, a edição, o uso dos personagens... SÓ Welles poderia tê-lo feito. Mas voltemos ao início.


Welles nasceu em Wisconsin, nos Estados Unidos de 1915. Órfão de mãe aos 9 anos e de pai aos 15, o americano teve que se virar sozinho desde cedo. Botou na cabeça que seria pintor, e assim começou a fazer quadros. Bastou receber algumas críticas negativas para largar o pincel. Afinal, nunca lidaria bem a rejeição. Partiu para os palcos, estreando aos 13 anos. E assim começaram os elogios que foram alimentando seu ego até proporções desastrosas.  Aos 18 anos, já era um ator famoso no circuito de teatro experimental. Mas ele queria mais.

E assim foi parar no New York Federal Theatre Project, onde pôde (aos 20 anos!!) estrear na direção de seu primeiro espetáculo. Pequeno detalhe: era uma versão de "Macbeth", de Shakespeare, encenada no Harlem e apenas com negros no elenco. Para os EUA da época, algo tão arriscado quanto polêmico. Mas ao invés de acabar com sua carreira, a peça só fortaleceu sua fama. Ele não parou, e em 1937 fez uma montagem de "Julio Cesar", também de Shakespeare, situada na Itália fascista. Mais polêmica, mais fama para Welles. Só que ele, como sempre, queria mais.


Além do trabalho no teatro, Welles era também conhecido por seu trabalho na rádio CBS. Sua voz marcante, uma das melhores já registradas no cinema, fazia sucesso no seriado radiofônico "O Sombra".  Welles era ainda responsável por um programa de variedades. No dia 1 de novembro de 1938, sem ter o que apresentar, ele resolveu improvisar. Sem maiores avisos, começou a adaptar o livro de H.G.Wells, "Guerra dos Mundos". Só que ele fez tudo ao vivo e como se fosse uma REAL invasão de seres de outro planeta. O noticiário parou os EUAs, enquanto todos acreditavam que alienígenas estavam realmente destruindo cidades. O pânico foi geral e muitos fugiram de casa - dizem até que alguns se suicidaram. Tudo apenas mais uma brincadeira de Orson Welles. Essa podia tê-lo levado para a cadeia. Ao invés disso, o levou para Hollywood.

Quando chegou em Hollywood, Welles era considerado um deus. Todos respeitavam e idolatravam sua mente jovem e inovadora. Seu ego apenas aumentava à medida que os estúdios lhe davam total liberdade criativa e financeira sobre seus projetos. Quando recusou dirigir a adaptação de "Guerra dos Mundos"- afinal, o romance fez sua fama! -, teve sinal verde para filmar um roteiro original, mas teria orçamento reduzido e atores desconhecidos no elenco. "Não será problema", ele pensou. Resultado: "Cidadão Kane".  Com apenas 25 anos (!!!), Welles realizou sua primeira e maior obra-prima, revolucionando o próprio cinema. Planos longos, profundidade de campo, edição rápida, uso de flashbacks... Tudo era novo. E em 2011, o filme completou 70 anos permanecendo como um dos melhores filmes da história - até mesmo O melhor, segundo alguns. 



O problema é que Welles, ego à flor da pele, peitou a indústria, o estúdio e magnatas importantes - como o milionário William Randolph Hearst, em quem o personagem Charles Foster Kane foi claramente inspirado. Ele mesmo interpretou o protagonista, para deixar bem claro quem era o responsável por aquilo tudo. Isso bastou para que todos seus financiadores passassem a boicotar sua carreira. Depois de "Cidadão Kane", Welles continuaria em Hollywood, mas sem o apoio e incentivo de antes. Seu filme seguinte, "Soberba" foi cortado pelos estúdios, o que o levou a desistir do projeto "It`s All True", que chegou a filmar no Brasil - e mais tarde virou um documentário com o material registrado.

Pior do que o boicote financeiro foi o boicote ideológico. Os filmes de Welles passaram a ser vistos como algo ilegítimo, e eram pouco valorizados. Ele tinha que finalizar tudo com dinheiro do próprio bolso, mas o reconhecimento injustamente não vinha. Até obras como "O Estranho"(1946), suspense repleto de clichês que se salvava pelo seu toque de maestria na criação de um ambiente sombrio e envolvente, era esnobado pela crítica e público. O sucesso só voltou, em menores proporções, com "A Dama de Xangai"(1947), um grande filme protagonizada por ele e sua então esposa Rita Hayworth, a eterna "Gilda".


Depois disso, sua carreira entrou em declínio, e ele só ficou marcado em mais um filme: "O Terceiro Homem"(1949) - que, apesar de muitos acharem, não foi dirigido por ele, mas por Carol Reed. Apesar de aparecer pouquíssimo tempo em cena, Welles conseguiu, com seu carisma e presença hipnótica, carregar nas costas todo o suspense dessa obra-prima. E após eternizar ali a sua imagem, passou a aparecer mais raramente no cinema. Fez obras de valor inquestionável, como "A Marca da Maldade"(1958) e "O Processo"(1962) - e ainda o "Verdades e Mentiras" citado no início do texto. Nesse último, aparecia como ele mesmo, fechando em grande estilo sua carreira de diretor.

Na frente das câmeras, a figura de um Orson Welles esbelto e galante deu lugar a um homem obeso e envelhecido, que fazia aparições ocasionais em filmes como "Moby Dick"(1956) e "Cassino Royale"(1967). Sempre com o mesmo tom debochado e superior, mas já sem o mesmo brilho. E desmotivado com a indústria e beleza que o deixaram de lado, passou a usar a úncia coisa que ainda era agradável e única: sua voz. Seu último trabalho foi como dublador do desenho "Transformers"... Perdido no meio de seus inúmeros projetos nunca realizados ou concluídos, teve um ataque cardíaco fatal em 1985. Tinha apenas 70 anos, mas o visual denunciava alguém que já tivera muitas conquistas e vivia amargurado por tê-las deixado fugir pelas próprias mãos.


Agora, quase 30 anos após sua morte, chega ao país a mostra "O Legado de Orson Welles", que visa apresentar as obras desse diretor para novas platéias. Mais do que isso, livros, exposições e estudos continuam evidenciando diariamente o valor de seu trabalho para o cinema mundial. Já não há mais dúvidas quanto a isso. Agora só falta o grande público descobrir que Orson Welles é muito mais do que "Cidadão Kane"- o que, cá entre nós, já seria motivo de orgulho para qualquer um. Só que não basta ser genial, é preciso saber brincar com isso. Ele, definitivamente, sabia.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

V de Vingadores - O Grande Projeto da Marvel Studios é Diversão Garantida


Para começo de conversa, vamos direto ao ponto: "Os Vingadores" não é o melhor filme de super-heróis já feito. Longe disso. Mas antes que os fãs comecem a ficar verdes de raiva ou a invocar deuses nórdicos contra mim, deixo bem claro que é, de fato, diversão garantida. Também seria muito complicado fazer um filme perfeito que conseguisse dar a atenção merecida a cada personagem envolvido. Afinal, trata-se de Homem-de-Ferro, Hulk, Thor, Capitão América, Viúva Negra, Gavião Arqueiro e Nick Fury (ufa...) em um só filme. Difícil manter um equilíbrio e evitar confusão. Mas até que o diretor Joss Whedon consegue isso muito bem. O problema do filme definitivamente não é esse.

A Marvel, desde que conseguiu se tornar um estúdio independente em Hollywood, começou a arquitetar um grandioso projeto que culminaria em uma missão dos Vingadores, grupo de heróis semelhante à Liga da Justiça - que, por sua vez, é da DC Comics, distribuidora do Batman e do Super-Homem. As primeiras peças dessa jogada foram "Homem-de-Ferro"(2008) e "O Incrível Hulk"(2008) protagonizado por Edward Norton. De lá pra cá, houve uma continuação do primeiro citado e Capitão América e Thor tiveram os clássicos "filmes de origem". Todos eles sempre contavam com a presença discreta de um Nick Fury negro e careca encarnado por Samuel L. Jackson. Ou seja: cinco filmes foram feitos para que esse pudesse funcionar direito. As expectativas estavam nas alturas - com razão.


Depois de muita espera, o "Projeto Vingadores" entrou em ação. E tem tudo para agradar (muito) os fãs das histórias em quadrinhos originais e também de ação em geral. Se tem algo que o filme entrega da melhor maneira, é isso: cenas de ação espetaculares e muito bem feitas. É o tipo de coisa feita para ser vista na tela grande, em 3D e IMAX. Em uma TV pequena o efeito provavelmente será bem menor. A trama em si não é muito importante, mas é de se admirar como as coisas acontecem de forma clara e sem correria. Os pontos são conectados com toda a calma, ao longo dos 142 minutos de projeção.

Além da ação quase onipresente, o filme conta com alta dose de humor. E, à principio, é no humor que se sustenta a relação entre os personagens. Se não fosse pelo show de costume que Robert Downey Jr. dá na pele de Tony Stark/Homem-de-Ferro, é provável que o filme não funcionasse. Os outros heróis não conseguem envolver o público como Stark. Capitão América e Thor não funcionam muito bem sem suas armas (escudo e martelo), a Viúva Negra não tem chance (nem tempo, tadinha) de mostrar a que veio e o Gavião Arqueiro é apenas um bode expiatório para justificar a primeira metade do filme. Enquanto isso, Nick Fury fica aparecendo do nada e falando frases de efeito, como se fosse um mestre Jedi (peraí... Mace Windu, lembra?). Ou seja: o Homem-de-Ferro é o showman que sustentaria todo o filme sozinho.


Já o novo Hulk... Bem, é um caso à parte. Depois de duas tentativas que levar o gigante verde para os cinemas, parece que finalmente a coisa deu certo. O filme que Ang Lee fez em 2003 era muito pretensioso e confuso, enquanto o filme de Louis Leterrier (de 2008) era apenas bom. Devo admitir que desconfiei quando anunciaram Mark Ruffalo como o novo Bruce Banner. Mas ele foi o ator que melhor reproduziu a essência do personagem: um homem brilhante que sabe o fardo que carrega, sempre um pouco incomodado e apreensivo em relação a isso. Seu Banner/Hulk é, de longe, a melhor coisa do filme inteiro. São dele as melhores cenas - transformado em monstro ou não. Há aqui, inclusive, um diferencial muito importante que poucos percebem: enquanto os Hulks antigos viravam um ser de computação gráfica que NADA tinha a ver com os atores que os faziam, esse Hulk tem as expressões facias de Ruffalo. É o rosto dele, só que maior e mais forte. Pode parecer pouco, mas dá muito mais credibilidade ao personagem.

Mas nem tudo é maravilha. Se "Os Vingadores" têm um ponto negativo, são seus vilões. Quer dizer, "vilões". Loki, o malvadão da vez, é novamente interpretado por Tom Hiddleston. Mas toda complexidade e carisma que eram destaque em "Thor" parecem ter sido deixados em algum canto de Äsgard. Aqui, Loki se tornou um vilão digno de "Power Rangers". Dá saudade de gente como Magneto ou Doutor Octopus - para não citar Coringa e Lex Luthor, claro. Como se não bastasse, os vilões interplanetários que invadem a Terra têm visual confuso e zero de carisma. Morrem recebendo um só soco, enquanto os heróis acabam destruindo ainda mais a cidade que deviam proteger. As cenas de conspiração em outra galáxia chegam a ser patéticas, pelo visual e vozes. Nesse sentido, é puro Power Rangers, verdade seja dita.


O filme diverte muito na maior parte do tempo, e vai ser difícil alguém sair reclamando. Só que há uma diferença. Para entendê-la bem, basta dar uma olhada em filmes como "X-Men" e "O Cavaleiro das Trevas". Esses títulos estão em qualquer lista de "melhores adaptações" de quadrinhos, e de lá não devem sair. Isso porque aqueles são filmes que funcionam sozinhos, têm um ar mais realista e se portam como filmes de ficção científica e policiais, respectivamente. Até mesmo o recente "X-Men: Primeira Classe", também da Marvel, conseguiu de maneira bem sucedida inserir os personagens em um contexto histórico, fazendo do filme uma trama de espionagem. Já "Os Vingadores" é puro quadrinho. Tem aquela estrutura muito eficiente em HQs, mas que não funciona perfeitamente como cinema. A Marvel já deixou claro que quer mudar isso. Mas quem não está habituado com tramas paralelas e realidades alternativas vai achar tudo muito confuso e caótico.

Como a cena após os créditos indica - sim, é óbvio que há uma cena após os créditos -, uma continuação será lançada muito em breve. O novo vilão já dá as caras, quem é fã vai identificar fácil, fácil. E vai ser mais um arrasa-quarteirão - em todos os sentidos. Isso porque "Os Vingadores", mesmo com todos seus pequenos erros e exageros, funciona bem e o saldo final é positivo, uma sensação de "quero ver de novo".
Se Downey Jr. e Ruffalo estiverem envolvidos - e agora não tem como eles não estarem -, vai funcionar bem novamente. Assim como a Terra, de acordo com Fury, os cinemas também precisam dos Vingadores de vez em quando, mesmo que apenas para relaxar e ver o mundo ser salvo (de novo) em grande estilo.
Por enquanto, é isso. Que venha a Liga da Justiça.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Beleza Americana - Ícone Marilyn Monroe é revisitado em "Sete Dias Com Marilyn"


Os grandes ídolos do cinema e da música são fontes inesgotáveis de inspiração e rumores. Como prova, basta ver o número de livros e filmes sobre estrelas como Elvis Presley, Charlie Chaplin, Beatles, James Dean, Michael Jackson e Marlon Brando, entre outros. Mas talvez nenhuma figura do cinema tenha sido alvo de tanta atenção e curiosidade quanto Marilyn Monroe. Encontrada morta de forma misteriosa há exatos 50 anos - no auge da carreira e da beleza -, ela continua sendo o ícone feminino máximo da sétima arte. Não há pessoa nesse planeta que não tenha visto a famosa cena de suas saias esvoaçantes em "O Pecado Mora ao Lado". Depois de ser tema de vários livros e documentários, a intimidade de Marilyn ganha a tela grande, no filme britânico "Sete Dias Com Marilyn".

No verão de 1956, o jovem Colin Clark conseguiu realizar o sonho de trabalhar na indústria do cinema. Ele foi o terceiro assistente de direção nas filmagens de "O Príncipe Encantado", filme que juntava as grandes estrelas Laurence Olivier e Marilyn Monroe. Quase 40 anos depois, o diário de Clark foi publicado como "O Príncipe, a Corista e Eu", um livro focado nos bastidores do filme. Mas faltava uma semana na narrativa, e Clark resolveu divulgar o que acontecera durante essa semana que passou com Marilyn em outro livro, "Minha Semana com Marilyn". E é nesses dois livros que se baseiam o filme independente dirigido por Simon Curtis.


A produção busca conquistar o espectador pelo ritmo acelerado e bem humorado com que se inicia. Sem muita enrolação, já nos joga no meio das gravações do clássico de 1956, que foi protagonizado e dirigido por Sir Laurence Olivier. Olivier era considerado o maior ator do mundo, por suas famosas adaptações da obra de Shakespeare - ele inclusive ganhou o Oscar de Melhor Diretor e Ator por "Hamlet"(1948), que também foi premiado como Melhor Filme. Apesar da fama internacional, Olivier ainda não era querido por todo o público. Por isso resolveu fazer uma comédia leve. Para acompanhá-lo em cena, escolheu a atriz mais bonita e famosa do mundo. E Monroe estava no auge da fama, era o maior desejo de onze entre dez homens. O que ninguém esperava é que a relação entre os dois seria uma verdadeira guerra de egos, porque, como o próprio Clark escreveria, "Olivier era um grande ator que queria ser uma estrela, enquanto Marilyn era uma estrela que queria ser uma grande atriz".

Apesar do real protagonista ser Clark, vivido de forma tímida por Eddie Redmayne, a luz do filme está na figura de Michelle Williams. Basta uma rápida pesquisa no Google para ver que a atriz não lembra muito o vulcão que foi Marilyn Monroe. Não só o físico, mas os traços não são os mesmos. Isso inclusive transparece em certos momentos do filme. Mas o fato é que, em algumas cenas, ela simplesmente VIRA Marilyn Monroe, com um grau de semelhança assustador - como pode ser visto nas fotos. É a mais pura magia do cinema. Só que não foi isso que a fez ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz. Williams encarna não Marilyn, mas sim Norma Jean Mortensen, a pessoa aprisionada pelo ícone que criou. E lá estão todos os anseios e neuroses que fizeram da atriz uma pessoa extremamente infeliz. O público irá se chocar ao ver a mulher amargurada e sofrida que sabia exatamente a hora de botar em ação seu carismático tom infantil e ingênuo.


Mas não seria justo exaltar apenas o show de Williams. Kenneth Branagh, recém saído da direção de "Thor", se diverte encarnando Olivier - seu grande ídolo, e de quem herdou o posto de maior intérprete de Shakespeare. Branagh se transforma tanto fisicamente quanto emocionalmente no personagem, em uma entrega que lhe rendeu uma justa indicação ao Oscar de Coadjuvante. Ele é Olivier em imagem e semelhança. Como brinde, sua relaçao com Paula Strasberg (Zoe Wanamaker), a orientadora que mimava Marilyn e lhe ensinava o famoso "Método" de atuação do Actor`s Studio, é hilária e impagável, rendendo pontos altos ao filme.

Além da cuidadosa reconstituição do visual e do clima da época, o filme conta ainda com Dame Judi Dench  como coadjuvante de luxo. Mais conhecida como a atual chefe M de 007, ela aqui encarna a atriz Dame Sybil Thorndike, iluminando a tela em cada simpática aparição. Quem também marca presença é a atriz Emma Watson. Ela mesma, em seu primeiro papel fora da saga de Harry Potter. O papel não é grande coisa, mas é bom enfim ver a bela atriz em cena sem o uniforme de Hermione Granger.


No fim das contas, "Sete Dias Com Marilyn" é uma caprichada homenagem à memória de Monroe, uma chance de conhecer um pouco mais a pessoa por trás do mito. Tirando a dose de romance que parece ser obrigatória em todos filmes produzidos recentemente, fica um interessante estudo sobre a personagem. Apesar de amada e conhecida em todo o mundo, Marilyn Monroe - ou melhor, Norma Jean - nunca conseguiu preencher o vazio emocional que lhe conduziu à overdose de remédios. E assim Marilyn saiu de sua infeliz vida para entrar na história, eternizada pelos animados fotogramas de "Os Homens Preferem as Loiras" e "Quanto Mais Quente Melhor". Ao delicioso som de "That Old Black Magic", os créditos aparecem e o mito sobrevive.