sábado, 13 de abril de 2013

O Silêncio dos Inocentes - "Alemanha, Ano Zero" e o Impacto do Neo-Realismo Italiano nas Telas


Silêncio. É o silêncio que prevalece quando palavras não podem explicar um sentimento. Silêncio se faz presente quando confrontamos algo que não queremos ou não sabemos encarar. Aquele silêncio que nos controla em momentos difíceis e duros. Pois esse é o mesmo silêncio que toma conta de qualquer sala ao final de uma exibição do filme "Alemanha, Ano Zero".

Lançado em 1948 como a terceira parte da trilogia que o italiano Roberto Rossellini dirigiu com foco nas consequências da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) nas vidas de cidadãos comuns, esse filme é um dos mais realistas e (por isso mesmo) cruéis registros da situação européia no pós-Guerra já feitos no cinema. Cruel por captar de forma crua e sincera o estado de caos e loucura que se instaurou nas nações durante o período. Está tudo lá, em cena, para quem quiser ver. Tal proximidade com o real é a característica mais gritante do movimento conhecido como Neo-Realismo Italiano, do qual esse filme faz parte e representa muito bem.


Nada de cenários planejados, iluminação trabalhada ou elenco escolhido a dedo: com o Neo-Realismo, a câmera vai para as ruas captar a vida como ela é, e não uma representação dela. Diretores como Luchino Visconti, Roberto Rossellini, Vittorio De Sica e até mesmo Federico Fellini (em sua fase inicial) foram nomes fortes desse movimento que mudou o modo de se fazer cinema ao redor do mundo.  Após ser inaugurado por Visconti em “Obssessão”(1943), o movimento só foi “legitimado” e batizado com “Roma – Cidade Aberta”(1945). Com essa obra, Rossellini iniciava uma série de três filmes que visavam expor toda crueldade e desumanidade da guerra da maneira mais explícita possível. Eram obras tão dolorosas quanto necessárias, feitas para conscientizar as pessoas dos efeitos negativos e desumanos do recente conflito. As cicatrizes ainda estavam abertas e expostas, e Rossellini queria lembrar a todos como elas foram adquiridas. 

Após o panorama com seis histórias distintas que o diretor realizou em "Paisà" (1946), ele resolveu se afastar um pouco da realidade italiana para mostrar como era a vida na Alemanha recém-destruída.  Em "Alemanha, Ano Zero", a estética do movimento foi levada ao extremo. O cenário é de ruínas e destroços, do início ao fim. Rossellini passeia com sua câmera por entre prédios, cidades e pessoas destrúidas. Seu foco é o menino Edmund, sempre registrado solitário e sem perspectivas de um futuro melhor. Muito jovem para ser adulto em mundo que não dá a ninguém o luxo da infância, fica evidente a cada cena que Edmund não pertence àquele lugar. Sempre registrado com ecos de destruição como pano de fundo, fica impossível ao jovem e ao espectador visualizar uma chance de salvação. 



Exploração infantil, assassinato, pedofilia, traição: são essas palavras e atos fortes que marcam a trama. O clima é pesado e não é um filme agradável de se ver. Em comparação com os filmes anteriores, percebe-se que aqui Rossellini chega mais perto dos personagens. Quando investiga os anseios que afligem Edmund e esquece os personagens secundários para focar em seu olhar, surpreende o espectador com um corte brusco e inesperado. Algo que bate e fica. Embora o filme seja bem curto - estamos falando de 75 minutos - seu impacto é longo.

 Sem a presença de atores conhecidos como Aldo Fabrizzi e Anna Magnani em "Roma, Cidade Aberta" e as diversas histórias de "Paisà", Rossellini realizou uma obra que destoa de suas irmãs. Em essência, "Alemanha, Ano Zero" é puro Neo-Realismo Italiano. Para falar a verdade, analisando hoje em dia, talvez seja o mais impactante e fiel representante dos elementos e princípios desse movimento. Uma obra para o qual os melhores aplausos estão no silêncio respeitoso de quem entendeu o recado.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Ao Mestre, Com Carinho: Roger Ebert (1942-2013)


Minha grande paixão pelo Cinema começou no final de 2005, no momento em que acabei de assistir "Em Busca do Ouro"(1925), de Charlie Chaplin. Quando decidi que viveria desse amor pela arte de fazer filmes, mergulhei de cabeça nos clássicos do cinema. Foi apenas em 2008 que tive acesso ao nome de Roger Ebert. Principais motivadores da minha carreira, meus pais me deram um livro que "poderia ser interessante". O nome era "A Magia do Cinema": se tratava de uma seleção dos 100 filmes mais marcantes da história na opinião do crítico em questão. O nome de Ebert já me era familiar, mas depois da leitura de seu livro, se tornaria bem próximo.

A "magia do cinema" do título realmente aconteceu. Aqueles textos eram diferentes de tudo que eu já tinha lido sobre filmes. Aquele crítico que escrevia semanalmente no Chicago Sun-Times tinha me ensinado como envolver as pessoas através de um texto sincero e apaixonado. Falava de cinema de uma maneira acessível, sem termos rebuscados ou técnicos que pudessem afastar os mais leigos. Suas palavras fluiam, exalavam paixão e criavam ansiedade e curiosidade para assistir cada uma daquelas obras - mais de uma vez, se necessário. Ebert me apresentou a filmes que eu nunca descobriria por conta própria, e fez isso da maneira mais agradável possível. Tanto que me despertou a vontade de fazer o mesmo com outras pessoas que não teriam acesso a certos clássicos menos conhecidos da sétima arte. Era um modo de escrever, antes de tudo, inspirador.


Após ler seu segundo livro, "Grandes Filmes", veio a coragem para falar sobre filmes. E assim nasceu o "Kaio No Cinema". Eu posso afirmar seguramente que nunca me atreveria a escrever minhas opiniões sobre filmes se não fosse a inspiração literalmente cinematográfica desse homem - que passou a ser um dos meus escritores favoritos. E por isso a imensa tristeza quando soube de sua morte. Roger Ebert se foi no dia 4 de abril de 2013, depois de lutar contra um câncer por mais de dez anos. Ele tinha 70 anos. Eu sabia que a luta tinha sido dura: para tratar o tumor na tireóide, passou por complicações de uma cirurgia feita em 2006 que deixaram-no incapaz de falar e se alimentar com comidas sólidas. Desde então, se comunicava através de um computador. Mas continuava a escrever sobre filmes em seu blog, sempre fiel ao público.

Roger Ebert era mais do que um mero crítico de cinema. Ele começou a escrever resenhas de filmes no jornal Chicago Sun-Times em 1967, e manteve essa atividade por 46 anos. Ficou extremamente popular nos Estados Unidos ao apresentar, junto com o também crítico Gene Siskel (1946-1999), o programa "Ebert & Siskel At The Movies", onde debatiam e opinavam sobre lançamentos e clássicos. Foi lá que popularizou sua marca registrada: classificava filmes bons ou ruins usando o polegar da mão para cima ou para baixo - muito antes da opção "Curtir" do Facebook.


Ebert costumava dizer que, para os cinéfilos, os diretores eram considerados quase amigos próximos. E acabou ficando realmente amigo de alguns, tamanho seu carisma e fama. Adorado pelos profissionais da área e cinéfilos em geral, Ebert foi o primeiro crítico de cinema a conquistar o prêmio Pulitzer e a receber uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood. Não é pouco. Foi um dos maiores críticos de cinema do século, talvez comparado apenas à Pauline Kael.

Antes de qualquer coisa, Roger Ebert foi um grande mestre inspirador. Nunca soube da minha existência e, infelizmente, nunca terei o prazer de agradecer pessoalmente por tudo que ele despertou em mim. Uma pequena homenagem seria inevitável, até porque só tive coragem de criar esse espaço de reflexão graças aos textos inspiradores que esse homem escreveu. Mais do que uma relação de carinho, tinha verdadeira gratidão pelo seu trabalho. E assim como ele divulgava e apresentava às novas gerações - através de cineclubes e livros - obras de mestres do passado que já se foram, espalharei suas referências e palavras por aqueles que quiserem conhecer mais sobre a arte pela qual nós dois nutríamos paixão. Roger Ebert não foi apenas um dos homens que me apresentou à real Magia do Cinema: ele foi, definitivamente, o homem que me ensinou a escrever sobre ela. E hoje é o "Kaio No Cinema" - e todos os cinéfilos do mundo - que levantam os polegares em sua homenagem.
Ao mestre, com carinho.



sexta-feira, 29 de março de 2013

O Retorno do Rei - Fritz Lang Volta ao Municipal com a Magia do Épico "Os Nibelungos"


Quem acompanha as publicações do "Kaio No Cinema" sabe que é bem comum encontrar citações aos filmes de Fritz Lang (1890-1976). O motivo é bem simples: embora seja mais lembrado pela obra-prima máxima "Metropolis", um dos filmes mais importantes do cinema e do século XX, o austríaco é responsável por uma carreira inovadora e brilhante que ainda é pouco conhecida ou valorizada pelo grande público. Diante disso, nada mais justo do que divulgar seu trabalho, para que ele seja redescoberto em toda sua riqueza. Ao lado de George Méliès e Steven Spielberg, Fritz Lang é um dos maiores gênios criativos que evidenciam, com seus filmes, a verdadeira "magia" do cinema.

Depois de uma bem-sucedida exibição de "Metropolis" no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 2011 - com acompanhamento musical ao vivo - a obra de Lang voltou a ser destaque na programação do lugar. Dessa vez, a série "Música e Imagem" apresentou a exibição da primeira parte de seu grande épico "Os Nibelungos". Lang se baseou em poemas da mitologia germânica do século XII - principalmente em "Canção dos Nibelungos", que inspirou também o compositor clássico Richard Wagner - para criar a trama. Ele escreveu o roteiro junto com sua então esposa Thea von Harbou, a roteirista oficial de seus filmes até 1936, quando se separaram. Com a longa duração do resultado final das gravações, dividiram o filme em duas partes: "A Morte de Siegfried" e "A Vingança de Kriemhilds", ambas lançadas em 1924.


Certa vez comentei que seria bem difícil imaginar um filme como "Star Wars" sem que Lang tivesse feito "Metropolis" antes, assim como seria bem dificil alguém fazer "Indiana Jones" sem ter como referência "As Aranhas", um dos trabalhos iniciais do diretor. Pois posso afirmar seguramente que "Os Nibelungos" foi uma grande inspiração para produções como "O Senhor dos Anéis". Para falar a verdade, trata-se de "O Senhor dos Anéis" da década de 20, sem exageros. Toda magia, efeitos especiais e cenários maravilhosos estão lá, nas devidas proporções para a época em que foi lançado.

Assistir ao filme é ter a chance de se maravilhar com o talento de Lang para tornar possíveis cenas e efeitos de pura fantasia com todos os recursos especiais existentes naqueles tempos. Em "A Morte Cansada"(1921) já era possível perceber que sua imaginação não tinha limites, mas aqui o diretor conseguiu se superar. Muito antes de Harry Potter ser adaptado para as telonas, "Os Nibelungos" já filmava truques semelhantes à capa de invisibilidade e à poção polissuco do universo do bruxo adolescente. Antes dos filmes de Peter Jackson, Lang já apresentava locações gigantescas repletas de exércitos de figurantes. Muito antes dos efeitos digitais dominarem os cinemas, o diretor tornava possível um dragão gigante que até cuspia fogo. Como um grande mestre da sétima arte, Lang tinha pleno controle estético e visual de cada enquadramento de seu filme, o que o torna uma verdadeira pintura em movimento.


Mais do que os aspectos técnicos, é interessante pensar no contexto histórico em que "Os Nibelungos" foi feito. O filme se insere no movimento conhecido como Expressionismo Alemão, que marcou a década de 20 com suas imagens distorcidas, assustadoras e sombrias. O clima de pesadelo não era gratuito: após sofrer uma derrota humilhante na Primeira Guerra Mundial, a insegurança e descrença prevaleciam na Alemanha. "A Canção dos Nibelungos" era o mito germânico-nórdico mais autêntico e primordial, e por isso foi escolhido para levantar a moral dos alemães após a derrota na guerra. A finalidade era celebrar a nação, o que justificou o monstruoso investimento feito pelo imponente estúdio UFA (Universum Film Aktien Gesellschaft), de onde saíam os filmes mais perfeitos na época. Deu certo: as duas partes foram sucesso de público e crítica e deram a Lang toda liberdade criativa que ele precisava para realizar sua obra-prima de 1927 - "Metropolis" seria o filme mais caro já produzido na Alemanha.

Mesmo quase 80 anos depois de lançado, "Os Nibelungos" ainda causa impacto e fascinação pelo poder de suas icônicas sequências - cortesia de Lang, um mago na arte da imagem. Os personagens sobrevivem à passagem do tempo e continuam a despertar identificação, tanto que foram brilhantemente citados no mais recente filme de Quentin Tarantino, "Django Livre". Mais do que um grande exemplo de "bom cinema", "Os Nibelungos" é uma prova do quão longe a magia do cinema pode nos levar, independente da idade do filme ou do espectador. No final da exibição, aplausos merecidos ecoaram no Theatro Municipal pela interpretação da grandiosa música de Gottfried Huppertz pela Orquestra Sinfônica Oficial do Theatro. Mas os verdadeiros aplausos, um tanto atrasados, são para o gênio que foi Friedrich Anton Christian Lang - e para o impacto que suas imagens ainda causam naqueles que, como ele, amam a arte de fazer filmes.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Oscar 2013: "Argo" é eleito Melhor Filme em uma das Cerimônias mais Ágeis de 85 Anos do Prêmio


Depois de muito comemorar os resultados e vencedores - ou não -, vamos ao famoso "resumão" da última cerimônia do Oscar. A festa em comemoração aos 85 anos do prêmio distribuiu as estatuetas de forma raramente equilibrada. Houve até mesmo empate (!!) na categoria de Melhor Edição de Som! Fato é que nenhum dos favoritos ou grandes indicados saiu com as mãos abanando, e o resultado foi justo pelo menos na maioria das categorias. Mesmo assim, a noite ainda reservou algumas surpresas, como o Oscar de Melhor Direção para Ang Lee, por "As Aventuras de Pi", que ainda levou prêmios técnicos como Fotografia e Efeitos Visuais. Lee é um diretor talentoso e versátil, mas até ele ficou surpreso de não ver o prêmio nas mãos de Steven Spielberg, então o favorito da noite.

Nas categorias de atuações, as coisas ocorreram como o esperado. O monstro Daniel Day-Lewis se tornou oficialmente o homem com mais estatuetas de Melhor Ator, ao conseguir sua terceira vitória. Mas era inevitavel, e quem assistiu seu desempenho em "Lincoln" sabe bem do que estou falando. Foi uma transformação tão monstruosa quanto à de Merryl Streep em "A Dama de Ferro" - o que só tornou mais mágico o fato dela ter entregue o Oscar para o ator. Outra favorita, Anne Hathaway provou - alguém ainda tinha dúvida? - que é muito mais do que um rostinho bonito. Afinal, a moça agora é dona de um merecido Oscar de Coadjuvante por "Les Miserables". Sua delicada e carismática presença no palco, aliás, evocava a imagem de Audrey Hepburn, eterna diva do cinema.


A polêmica da vez foi o Oscar de Melhor Atriz. Enquanto metade do mundo torcia para a veterana (e aniversariante da noite) Emmanuelle Riva, por sua tocante e incrível entrega em "Amour", e a outra metade via a estatueta na mão da talentosa Jessica Chastain, impecável em "A Hora Mais Escura", quem levou a melhor foi Jennifer Lawrence, estrela de "O Lado Bom da Vida". A jovem atriz de 22 anos é realmente uma das melhores dessa nova geração, mas ficou no ar o clima de injustiça com as duas grandes atrizes concorrentes. O clima pesou tanto que a própria Lawrence tropeçou e caiu enquanto caminhava pra receber o prêmio.

Polêmicas à parte, Christoph Waltz garantiu uma das melhores surpresas da noite ao levar seu segundo Oscar de Coadjuvante pelo inspirado papel em "Django Livre", permanecendo invicto na premiação. Prova de que a parceria com o diretor Quentin Tarantino - responsável por "Bastardos Inglórios", sua vitória anterior - está funcionando às mil maravilhas. Tanto que o próprio Tarantino subiu ao palco mais tarde para buscar seu Oscar de Melhor Roteiro Original pela trama do caubói negro em busca de vingança. E ver Tarantino saindo com um Oscar na mão foi tão bom quanto a consagração tardia de Michael Haneke, diretor austríaco vencedor de Melhor Filme Estrangeiro por "Amour". Um dos maiores cineastas em atividade, Haneke merecia esse Oscar desde que fez a obra-prima "A Fita Branca", injustamente esnobada pela Academia.


Com "Lincoln" e "Argo" como os favoritos ao prêmio máximo da noite, o clima de patriotismo falou mais alto - tanto que o sumido Jack Nicholson chamou ninguém mais ninguém menos que a primeira-dama Michelle Obama para anunciar o grande vencedor da noite. O escolhido foi o eficiente thriller de Ben Affleck. E até mesmo aqueles que consideravam "Argo" um filme apenas acima da média aceitaram sua vitória ao ver a genuína felicidade de Affleck e do produtor George (barbudo) Clooney ao subir no palco para colher os maiores louros da noite.

No geral, foi uma cerimônia marcada pela música, com uma correta homenagem aos 50 anos de 007 - faltaram os seis atores reunidos no palco, não?- e aos musicais recentes do cinema. Como todos podiam esperar, o apresentador Seth MacFarlane distribuiu piadas ousadas e politicamente incorretas. Não que isso seja ruim. Na verdade, algumas tiradas brilhantes renderam merecidas gargalhadas e aplausos da plateia de lá e daqui. Mas não é só pelas piadas que o americano mereceu aplausos: com seu bom timing para humor, ele não deixou a peteca cair e acabou mantendo o dinamismo que marcou a ágil (quem diria!) cerimônia. E, de quebra, soltou a bela voz e até mesmo dançou, homenageando nomes como Fred Astaire e Frank Sinatra!! Não foi pouco. Só o tempo dirá se ele voltará a dar as caras no ano que vem. Mas que ele merece, isso merece!


E aí vai a lista completa dos vencedores!

Melhor Filme: “Argo”

Melhor Direção: Ang Lee – “As aventuras de Pi”
 
Melhor Ator: Daniel Day Lewis – “Lincoln”

Melhor Atriz: Jennifer Lawrence – “O lado bom da vida”

Melhor Atriz Coadjuvante: Anne Hathaway – “Os miseráveis”

Melhor Ator Coadjuvante: Christoph Waltz – “Django livre”

Melhor Roteiro Original: “Django livre”

Melhor Roteiro Adaptado: “Argo”

Melhor Filme Estrangeiro: “Amor” – Áustria

Melhor Canção Original: Skyfall – “007 – Operação Skyfall”

Melhor Trilha Sonora: “As aventuras de Pi”

Melhor Design de Produção: “Lincoln”

Melhor Montagem: “Argo”

Melhor Edição de Som: “A hora mais escura” e “007 – Operação Skyfall”
  
Melhor Mixagem de Som: “Os miseráveis”

Melhor Documentário: “Searching for Sugar Man”

Melhor Documentário (curta-metragem): “Inocente”

Melhor Curta-metragem: “Curfew”

Melhor Maquiagem: “Os miseráveis”

Melhores Efeitos Visuais: “As aventuras de Pi”

Melhor Direção de Fotografia: Claudio Miranda – “As aventuras de Pi”

Melhor Animação (longa-metragem): “Valente”

Melhor Animação (curta-metragem): “Paperman”


Ano que vem tem mais! Como diria o premiado mestre Quentin Tarantino,  "PEACE OUT!".

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Era Uma Vez Na América - A Nova Onda de Quentin Tarantino


Ame ou odeie, Quentin Jerome Tarantino é um dos mais cultuados diretores em atividade. Cineasta símbolo da década de 90, o americano vive acompanhado de polêmicas, sempre envolvendo o uso da violência em seus filmes. Não, o diretor não tem uma mente psicótica. A verdade é que grande parte do público e da crítica muitas vezes não sabe entrar na brincadeira proposta por ele. Desde que levou a Palma de Ouro em Cannes pelo genial "Pulp Fiction" (1994), Tarantino direcionou seu cinema para outra vertente: explorar ideias simples e inusitadas. Uma noiva que vira samurai para matar o homem que a traiu. Um dublê que tem como passatempo atropelar beldades com seu carro. Um grupo de judeus que resolve exterminar nazistas em plena Segunda Guerra. E, a bola da vez, um caubói negro em plena era escravocrata nos EUA do século XIX. Assim nasceu "Django Livre".

Cinéfilo de formação, Tarantino nunca escondeu sua paixão pelos clássicos do western spaghetti. Filmes como "Kill Bill - Vol.2" e "Bastardos Inglórios" já tinham ecos dos filmes de Sergio Leone e até faziam uso de certas músicas do famoso compositor Ennio Morricone. Para homenagear os dois ídolos, Tarantino chegou a chamar o roteiro original de "The Angel, the Bad and the Wise" - em referência à "The Good, The Bad and The Ugly" ("Três Homens em Conflito" por aqui), uma das obras-primas de Leone com trilha de Morricone. No fim das contas, optou por nomerar seu herói em homenagem à outro clássico do "bang bang": "Django", de 1966 - cujo protagonista, Franco Nero, faz uma impagável ponta no filme. Como fã do gênero, Tarantino nunca escondeu a vontade de fazer um western. Chegada a hora, era preciso um ator de respeito para encabeçar o projeto.


O personagem foi escrito com o todo-poderoso Will Smith em mente. Só que... O ator não aceitou o convite, por estar envolvido com outras produções. O fato é que não são poucos os atores interessados por encarnar um estiloso personagem de Quentin Tarantino na indústria. Ao saber do projeto, Jamie Foxx - vencedor do Oscar por "Ray" - correu atrás do diretor para convencê-lo de que era a escolha certa. A química foi instantânea, e ele foi aprovado. Foxx incorpora um rebelde espírito vingador, lembrando a todos que é sim um grande ator. Neto de uma ex-escrava, ele entrou tanto no personagem que até fez questão de usar seu próprio cavalo em cena. E lá está Cheetah no filme, contracenando com seu dono.

Em seus filmes, Tarantino revelou ao grande público rostos hoje famosos e adorados, como Uma Thurman, Michael Madsen, Tim Roth e até mesmo Samuel L. Jackson. A última aquisição do grupo foi o austríaco Christoph Waltz, premiadíssimo pelo genial Hans Landa de "Bastardos Inglórious". A relação entre ator-diretor foi a melhor possível, e o cineasta logo viu que poucos atores poderiam dar vida a seus excêntricos personagens de maneira tão eficiente. Pensando nisso, escreveu o Dr. King Schultz especialmente para Waltz, que inclusive o ajudou na criação de todo o roteiro. Escolha mais que acertada: o ator é puro carisma, do início ao fim - tanto que já levou um Globo de Ouro pelo personagem. Mais do que um faroeste autoral, Tarantino já tinha sua dupla dinâmica de caubóis.


Depois de conseguir atrair para seus ousados projetos astros do calibre de Bruce Willis, John Travolta, Robert De Niro e Brad Pitt, foi a vez de Leonardo DiCaprio entrar no barco. E nada de galãs para o cada vez mais talentoso sr. DiCaprio: aqui ele empresta seu famoso rosto a um excêntrico senhor de escravos, espécie de "vilão" da vez.. E o ator veste a camisa, apresentando um Calvin Candie repleto de trejeitos e jeitão afetado. Desde já, um dos pontos altos de sua carreira. Mas o destaque absoluto e especial vai para SAMUEL L. JACKSON (maiúsculo mesmo). Ou melhor, para o que teoricamente seria ele, de acordo com os créditos - até porque sem eles, ficaria bem dificil reconhecer o ator. Marcado por papéis de caras durões com umas pitadas de humor, Jackson revela aqui o monstro de ator que pode ser quando quer. O jeito de andar, falar, o olhar, gestual, visual... A composição que ele dá ao escravo racista (!) Stephen é completamente diferente de tudo que ele já fez. Injusto ter sido ignorado nos prêmios da Academia. Além de ser um dos personagens mais interessantes, é o melhor ator em cena. E nesse filme, nenhum dos dois méritos é pouco.

Só pelo quarteto fantástico de atores já citados, "Django Livre" é um filmaço que merece ser visto. Mas não é só isso. Vamos aos fatos. É o melhor filme do Tarantino? Não, não é. E nem era seu objetivo ser. Mas provavelmente é o mais divertido.O filme recebeu críticas pelo teor racista e por não ser fiel a alguns fatos da História Americana. Essas críticas vieram das tais "pessoas que não sabem brincar" - lembra delas do início do texto? "Bastardos Inglórios" já mostrava que o Tarantino não quer dar aulas de História, e sim reiventá-la a seu gosto. Afinal, é aí que entra em ação a "magia do cinema". Até a histórica organização racista Khu Khux Klan é parte da trama, mas sua participação serve mais como um alívio cômico do que como uma abordagem didática das iniciativas e crenças do grupo. E é assim que deve ser vista. Se a violência é, por vezes, gratuita, o mesmo não se pode dizer dos diálogos e citações - há no filme, além de inúmeras referências à clássicos do western e do blaxploitation (Shaft!), links diretos com "Bastardos Inglórios" e "Pulp Fiction". Cortesia da insanamente arquitetada mente do diretor e roteirista. Boa sorte para os fãs que se aventurarem a achar!


Tarantino é um diretor pop e não tem vergonha disso. Não é qualquer um que consegue inserir um agitado rap no meio de uma trama que se passa séculos atrás e mesmo assim fazer a mistura funcionar perfeitamente. A trilha sonora, inclusive, é a mais inspirada e perfeita já usada por Tarantino até aqui. Uma obra-prima à parte. Sejamos justos: chamar Tarantino de "diretor imaturo" é injustiça. Aos que o acusam de fazer sempre o mesmo filme, recomendo tanto "Bastardos Inglórios" quanto o mais recente título. Neles, qualquer um vê um diretor que tem sim seu estilo próprio e característico, mas sabe usá-lo de forma fluente à favor do que propõe. Como fazia um tal de Hicthcock. E as citações que antes envolviam o significado da música "Like A Virgin" ou a nomenclatura dos sanduíches do McDonalds hoje dão lugar a metáforas envolvendo Siegfried e Brunhilde, da mitologia nórdica. Imaturo? Acho que não.

"Django Livre" não é um filme perfeito. Até chega perto, não fosse, talvez, a longa duração - é o mais longo filme de Tarantino, com 165 minutos - ou algumas decisões pouco inspiradas do roteiro em sua segunda metade. Ainda assim, é um dos grandes destaques do ano, causando riso, tensão, arrepio e satisfação. Mais importante: é um filme que nos faz lembrar o porquê de irmos no cinema. Jamie Foxx disse em uma entrevista que após a gravação de uma tomada, Tarantino berrou para a equipe: "Ok, temos essa tomada. Mas vamos gravá-la mais uma vez para garantir. Sabem por que? Porque nós amamos fazer filmes!". E é isso que dá pra sentir no ar após os créditos finais: Quentin Tarantino ama escrever, dirigir, atuar (a participação do diretor é simplesmente hilária) e fazer filmes! Isso não é pouco. Não à toa, mesmo tendo apenas 8 (!) filmes no currículo, é um dos diretores mais adorados e cultuados do mundo. E, ame ou odeie, vai continuar sendo por um bom tempo.


Para celebrar Quentin Tarantino, não deixe de conferir a homenagem que fiz para o diretor: Tarantino's On, por Kaio Caiazzo

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A Fonte da Juventude - Os Tempos Modernos Pelas Lentes de Veteranos do Cinema


Bernardo Bertolucci é um cineasta que merece todas as palmas e prêmios. Depois de realizar sua poética obra-prima em 1970 ("O Conformista"), ele chocou o mundo com "O "Último Tango em Paris"(1972) e ganhou o Oscar por "O Último Imperador" (1987). Quando não precisava provar para mais ninguém sua incrível sensibilidade e talento, apresentou ao mundo "Os Sonhadores"(2003). O filme foi alçado instantaneamente ao posto de "cult", transformando Eva Green em uma das musas do cinema contemporâneo. Mais do que isso: era um Bertolucci pop, renovado, que conseguia falar e retratar a juventude como alguém que a conhecia muito bem.

Corta para o Festival de Cannes, edição de 2012. Bertolucci, agora confinado à uma cadeira de rodas - devido à uma operação mal-sucedida na coluna -, estreia seu novo filme no grande evento de cinema de arte. Todas as atenções vão para "Io e Te", e todos os holofotes para o diretor italiano e sua dupla de atores, Jacopo Olme e Tea Falco - essa, por acaso, eleita a musa da edição do festival graças a esse trabalho. A produção, retorno do diretor aos cinemas após nove anos de hiato, é um filme modesto e simples. Mas em toda sua simplicidade, consegue ser um dos mais sensíveis e eficientes retratos da juventude a dar as caras no cinema por um bom tempo, muito graças à direção segura e inspirada de Bertolucci. Ah, detalhe: ele é um senhor de 71 anos de idade. Pois é.

  

Ao analisar o clima e ambientação de "Io e Te" rapidamente, podemos perceber alguns ecos de "Os Sonhadores" e ficar com a impressão de que o diretor viria a se repetir. Não é o caso. Apesar de alguns críticos maldosos terem insinuado uma relação incestuosa entre os irmãos protagonistas, Bertolucci apresenta uma obra muito menos ousada e polêmica do que de costume. Ainda assim, em certos momentos, o italiano brinda os espectadores com movimentos inusitados de câmera ou enquadramentos que o colocam acima de muitos cineastas em atividade. A atuação de Jacopo, à princípio incômoda, vai se adequando cada vez melhor à história - afinal, seu personagem é, de fato, incômodo e estranho. E se a bela Tea Falco não chegar a ser tão requisitada quanto Eva Green... Bem, não será por culpa de Bertolucci. Ele lhe entregou um papel de grande complexidade e a jovem atriz incorporou bem a personagem. Não fiquem surpresos se o nome dela passar a aparecer com mais frequência em um cinema perto de você.

Talvez pelo caratér mais "comportado" do filme, o burburinho em torno dele não tenha gerado a polêmica esperada. O resultado triste é que o filme ainda não estreou oficialmente no circuito brasileiro, sendo exibido apenas timidamente em mostras e festivais. O grande diferencial desse filme, o "fator bate-e-fica" sempre presente nos filmes de Bertolucci, é a sua abordagem da adolescência. Normalmente preso a produções clichês cheia de intrigas estudantis e desejos sexuais, esse período de descobertas é representado e analisado através de basicamente dois personagens em um único cenário. O ritmo da narrativa é calmo, mais voltado para o trabalho dos atores, como de costume na filmografia de Bertolucci. A inspirada trilha sonora só nos ajuda a mergulhar no universo dos dois irmãos problemáticos - cortesia do incrível gosto musical de Bertolucci, que passeia de The Cure a David Bowie. No final da projeção, uma certeza fica: Bertolucci, pelo conjunto da obra, é um dos maiores cineastas ainda vivos - se é que alguém ainda tinha dúvidas disso.


O fato curioso é que Bernardo Bertolucci, do alto de suas mais de sete décadas de vida, consegue explorar o tema "Juventude" muito melhor do que muitos diretores da chamada "Nova Geração". Isso nos leva a pensar, não? Chega a ser irônico pensar que diretores veteranos consigam abordar essa temática de forma tão mais certeira do que alguns jovens cineastas contemporâneos. Um exemplo claro disso são os filmes do americano Gus Van Sant. Poucas obras do cinema recente conseguem captar tão bem o universo adolescente como "Elefante" (2003) e "Paranoid Park" (2007). Indecisão, tensão, inconformismo, rebeldia, tudo que povoa essa fase inevitável de nossas vidas está lá. Tudo isso, inclusive, pulsa em "Io e Te".

Esse curioso caso não acontece apenas nesse gênero. Enquanto vários diretores novatos e promissores se aventuravam em filmes de suspense/ação que pouco cativavam ou engrenavam, eis que alguém do calibre de William Friedkin - diretor de clássicos eternos do cinema como "Operação França" e "O Exorcista" - saiu da aposentoria para mostrar como se faz. Aos 77 anos, Friedkin lançou recentemente "Killer Joe", protagonizado por um surpreendente Matthew Mcconaughey - ao lado do diretor na foto abaixo. Repleto de humor negro e personagens marcantes, o filme foi um dos grandes destaques do cinema americano em 2012. Mesmo assim, só passou no Brasil pelo Festival do Rio, e a estreia está prevista para o primeiro semestre de 2013.


Para terminar,  é inevitável citar a questão da tecnologia 3D, ainda mais gritante. Depois do fenômeno "Avatar", o artifício da terceira dimensão passou a ser presença quase obrigatória em filmes de super-heróis, robôs e efeitos especiais. Muitas vezes, o efeito estava lá apenas para reforçar cenas de ação e explosão, sem uma real exploração da imersão e climatização que ele permite. Isso até o diretor alemão Werner Herzog lançar "A Caverna dos Sonhos Esquecidos"(2010). Era um uso inovador e envolvente da ferramenta do 3D. Pouco depois, veio o também alemão Win Wenders com o lírico e poético "Pina" (2011). A cereja do bolo seria o consagrado americano Martin Scorsese com o brilhante "Hugo Cabret" (2011). Eram os diretores veteranos e experientes mostrando à nova geração como usar um recurso criado por ela e para ela.

Com todo esse texto, não quero dizer que ninguém mais sabe fazer cinema hoje em dia ou que só os diretores veteranos deviam produzir continuar dirigindo. Na verdade, o objetivo aqui é evidenciar esses mestres como uma verdadeira "Fonte da Juventude". Não apenas no sentido de continuarem a produzir grandes pérolas do cinema como nos velhos tempos, mas como uma inevitável fonte de inspiração e aprendizado para aqueles que pensam que o cinema está fadado a blockbusters sem alma. É de fato reconfortante quando aparece no circuito alguém que trás consigo um sopro de inovação e criatividade, como foi o caso com Jason Reitman ("Juno"), Mark Webb ("500 Dias Com Ela") ou Nicolas Winding Refn ("Drive"). Diante das (super)produções cada vez mais previsíveis que pipocam por aí, nunca é tarde para nos inspirarmos ao olhar um pouco pra trás - e nem precisa ser tanto, os mestres estão na atividade ainda! Quem sabe assim, em um futuro breve, um grande e tocante filme como "Io e Te" não acabe ficando fora do circuito.



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Segredo das Aranhas - A Obra Perdida de Fritz Lang


Alemanha, 1919. A recente derrota na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) deixou um clima de humilhação na Europa e na auto-confiança de suas nações. Como resultado, a insegurança passou a prevalecer. Os alemães estavam arrasados e pessimistas, e um dos meios de levantar a moral da nação foi se apoiar no seu cinema como forma de união. Desse estado de espírito nasceria o primeiro grande movimento da história da sétima arte: o Expressionismo Alemão. Os cenários assustadores, disformes e sombrios seriam vistos pela primeira vez em "O Gabinete do Doutor. Caligari"(1919). Para dirigir esse marco do cinema, a primeira pessoa cogitada foi um promissor diretor que tinha servido na guerra pelo exército austríaco e nela sofrido ferimentos graves. Seu nome: Friedrich Anton Christian Lang (1890-1976), mais conhecido e cultuado como Fritz Lang.

Lang já tinha feito vários roteiros para produções alemães e até atuado como a Morte em "HildeWarren e A Morte"(1917). Após dois filmes bem sucedidos (ambos feitos em 1919), seu nome estava no topo da lista de diretores do futuro. Um filme como "O Gabinete do Doutor Caligari" era tudo que ele podia querer, e lhe daria consagração imediata. E o que ele fez? Recusou o projeto. Pois é. Mas Lang não era estúpido, e tinha um motivo justo: cineasta autoral, sempre voltado para roteiros próprios ou em parceria com sua esposa Thea Von Harbou, já tinha um novo projeto ousado em mente. Mas antes de abandonar de vez o projeto do Doutor Caligari e entregar a direção para Robert Wiene, Lang sugeriu uma virada no enredo que transformaria toda a trama do filme. Quem já viu sabe do que estou falando. O cruel e surpreendente final criado por Lang fez toda a diferença, se tornando a primeira grande reviravolta do cinema e tornando "Caligari" um cult imediato.


Ao deixar o projeto nas mãos de Wiene, Lang poderia focar em seu pretensioso roteiro: uma série de filmes com as aventuras exóticas de um caçador de relíquias. Alguém pensou em Indiana Jones? Pois o aventureiro criado por Lang, chamado Kay Hoog, tem realmente muito a ver com o personagem mais tarde imortalizado por Harrison Ford. Até o visual é parecido, com direito a chapéu e casaco de couro - o que indica que, provavelmente, Kay Hoog foi uma inspiração para George Lucas e Steven Spielberg, mesmo que de forma inconsciente.

Muito antes do repórter aventureiro Tintin - criado pelo cartunista belga Hergé em 1929 - cruzar o mundo por locações exóticas e perigosas, Lang deu início ao conceito do corajoso herói que vai "aonde nenhum homem jamais foi", confrontando civilizações antigas e organizações criminosas. A consequência inevitável de tantas ideias foi dividir a história em várias partes. Originalmente, Lang separou a grande trama em quatro partes. Infelizmente, só conseguiu realizar as duas primeiras, intituladas "O Lago Dourado" e "O Navio de Diamantes" - qualquer semelhança com o título de algum álbum de Tintin não é mera coincidência. Muito antes da noção de franquia e sequências virar moda, Fritz Lang foi o primeiro grande cineasta a pensar que alguns filmes funcionariam melhor com continuações. Esse seu conceito seria melhor trabalhado e desenvolvido em obra-primas posteriores, como "Os Nibelungos" (1923/1924) e, principalmente, na trilogia com o personagem Dr. Mabuse (1922/1933/1960).


Lang decidiu nomear sua saga de "Die Spinnen", que em português seria "As Aranhas" - nome da organização criminosa que Kay Hoog combate em suas aventuras. Mas antes de assistir a obra, é bom lembrar que "As Aranhas" é um filme perdido. Se no original cada parte tinha cerca de 90 minutos, a versão hoje divulgada, com exibição das duas em sequência, tem 137 minutos no total. Muitos fragmentos originais dos filmes foram perdidos no tempo, e nem mesmo o acervo da família Lang sabe o paradeiro desses materiais. Isso não chega a prejudicar o filme, mas em certos momentos as ações são cortadas bruscamente, o que pode assustar alguns espectadores desavisados. Em uma determinada sequência, em que Kay Hoog é capturado pelos inimigos em uma cidade oriental subterrânea (!), aparece uma cartela explicando como se deu a captura, para que as próximas cenas não sejam prejudicadas pela falta dos fotogramas perdidos. O fato é que esses detalhes acabam deixando o filme tão intrigante quanto o mistérios que Kay Hoog tenta desvendar em cena.

Enquanto "O Lago Dourado" apresenta uma estrutura narrativa mais tradicional, que seria mais tarde imitada nas festejadas matinês dos anos 30, "O Navio de Diamantes" apresenta uma trama mais elaborada, a partir do corajoso gancho ao final da primeira parte - extremamente ousado para a época. É bem possível que a segunda parte de "As Aranhas" seja, de fato, a primeira sequência superior ao original da história do cinema! "As Aranhas" tem um pouco de tudo: ação, aventura, um espaço para o romance, suspense, cenários exóticos, jóias raras e outras relíquias, tudo levando à um clímax com muitas batalhas e com o mocinho saindo vitorioso - e ainda, no pequeno trecho passado na Índia durante a visita ao "maior vidente do mundo", o filme beira o macabro, com Lang mostrando saber explorar bem o terror existente no desconhecido. O diretor encontra até espaço para ser inovador colocando uma mulher, Lio Sha, como a líder da grande organização de criminosos, em tempos em que as mulheres eram quase sempre apenas as vítimas a serem salvas pelo herói.


Ao analisar a obra como um todo, muitos podem pensar que Fritz Lang fez mal em deixar de lado um filme revolucionário como "O Gabinete do Dr. Caligari" para dirigir uma mera aventura descompromissada. Mas Lang era o tipo de diretor que inovava aos poucos, e aí repousa seu gênio. "As Aranhas" é referência para qualquer produção de ação/aventura feita posteriormente, com todos os elementos de um gênero ainda inexistente. Em "Os Nibelungos", Lang mostraria como levar grandes épicos medievais para o cinema, MUITO antes de "O Senhor dos Anéis" roubar todos os holofotes do gênero; com "Dr. Mabuse" ele faria um estudo do suspense psicológico; com "Metropolis"(1927) revolucionaria para sempre a ficção científica, tanto nos efeitos quanto no visual; e com "M - O Vampiro de Dusseldorf" (1931), ensinaria aos americanos como o som devia ser usado a favor da trama nos filmes. Quando foi para Hollywood, levou consigo a paixão pelo ousado e pelo exótico, que o acompanhou até suas últimas produções, "O Tigre de Bengala" e "O Sepulcro Indiano", ambos de 1959. Fritz Lang é um gênio que não recebe metade do reconhecimento que merecia - e "As Aranhas", um tesouro perdido muito mais valioso do que aqueles procurados por Kay Hoog, é mais uma prova disso.

domingo, 11 de novembro de 2012

"O Pequeno Lírio Partido" ou "Como Me Apaixonei Por Lilian Gish" - Uma Sincera Declaração


Cinéfilo no sentido mais intenso que a definição permite, eu tive a sorte de escolher o cinema como profissão relativamente cedo, aos 13 anos de idade. Mais do que isso, tive a sorte de conhecer e me apaixonar pelo cinema através de sua origem. Foi "Em Busca do Ouro", um filme mudo de Charlie Chaplin feito em 1925, que despertou em mim essa paixão maior que a vida. Depois de Chaplin, o grande ídolo inspirador, comecei a correr atrás de outros ícones daquela hipnótica fase muda. E assim vieram Lon Chaney, Buster Keaton, os primeiros clássicos de Méliès e por aí vai. Eu achava fascinante ver aqueles astros eternizados em fotogramas do início do século, como fantasmas que voltavam à vida graças à magia do cinema. Não demorou muito para eu chegar até "O Nascimento de Uma Nação", primeira obra-prima instantânea do cinema americando. Dirigido por David Wark Griffith em 1915, o grande épico de 3 horas de duração era um marco em todos os sentidos - toda linguagem cinematográfica, como hoje a conhecemos, nascia ali. No meu caso particular, um marco por outro motivo: foi onde pude ver pela primeira vez Lillian Gish.

É possível que você não tenha noção de quem seja a moça citada acima. Afinal de contas, até mesmo alguns cinéfilos por aí nunca viram um filme protagonizado por Lillian Diana Gish - o que pode até ser considerado um crime. Uma coisa é certa: depois de encarar seus traços felinos e olhar penetrante pela primeira vez, é difícil esquecê-la. E desde que ela surgiu aos meus olhos de forma encantadora em "O Nascimento de Uma Nação", passou a figurar na minha mente como uma das figuras mais marcantes daquela arte. Cada forma de seu delicado rosto parecia ter sido moldada para estar em um filme. E o seu olhar.. Ah, o olhar. Basta assistir qualquer uma das produções estreladas por ela para entender que os filmes acabavam, mas seu olhar continuava.

  

Lillian Gish teve uma das carreiras mais duradouras do cinema. Estreou em papéis juvenis em 1912, se mantendo na ativa até 1987. Isso mesmo, foram 75 anos dedicados ao trabalho de atriz, que exerceu no teatro, na televisão e no cinema - onde teve maior destaque.O auge de sua carreira foi a parceria com Griffith, diretor do clássico já citado. Depois de protagonizar um curta do diretor no início da carreira, em 1912, foi escalada para aquele que será sempre lembrado como seu maior sucesso no cinema. Enquanto houver gente estudando a arte de fazer filmes, "O Nascimento de Uma Nação" será revisto e lá estará ela. Depois da bem-sucedida experiência, ela voltou a trabalhar com o diretor em mais seis filmes. Entre eles, duas obras-primas belíssimas: "Intolerância"(1916) e "Lírio Partido"(1919), um de seus papéis mais icônicos. A relação com o diretor era tão próxima que a imprensa de fofocas - já existente na época, pois é - por várias vezes noticiou um possível romance entre os dois. Até o final de sua vida, Gish sempre se referiu ao diretor como "Mr. Griffith".

A carreira de Gish não foi restrita à parceria com Griffith. Anteriormente, ela estrelou várias produções de sucesso ao lado da irmã caçula Dorothy Gish. Isso até Dorothy perceber que estava sendo ofuscada pelo brilho da irmã. Já depois do sucesso e consagração, Lillian apareceria ainda na primeira versão de "Ben-Hur"(1925) em um discreto papel. O destaque de sua carreira na década de 20 seria "The Scarlet Letter"(1926), possivelmente seu melhor papel. Logo chegaria o cinema falado e Gish, assim como grande parte dos ícones do cinema mudo, seria deixada de lado pelos estúdios e pelo público. Só que som não era um problema para ela. Depois de fazer apenas dois filmes na década de 30, voltou a dar mais as caras na década seguinte. Por seu trabalho em "Duel In The Sun"(1946), conseguiu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Quando o público começava a esquecer dela novamente, retornou já envelhecida para roubar a cena em "O Mensageiro Do Diabo"(1955), a última obra-prima que estrelaria. Sempre ligada à papéis frágeis, nesse filme ela empunharia armas para combater a terrível ameaça personificada em Robert Mitchum. Sua atuação só provaria a imensa versatilidade pouco explorada nos vários papéis sofridos que encarnou.


A verdade é que o cinema nunca esqueceu Lillian Gish e sempre reconheceu sua importância. Mesmo que muito tardiamente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográfica lhe deu um Oscar Honorário Especial em 1971, pela "superlativa contribuição no progresso do cinema como arte". Nessa época, já era reconhecida pelo aposto de "A Primeira Dama do Cinema Americano". Em 1984 foi a vez de receber o American Film Institute Life Archievement Award, a maior honraria do Instituto Americano de Cinema. Foi a segunda mulher a recebê-lo, depois apenas de Bette Davis. E em 1987, já com 94 anos (!), resolveu se juntar à também envelhecida e premiada Davis para sua última aparição nos cinemas. O filme era "Baleias de Agosto", que fechou com chave de ouro a carreira dessas duas atrizes icônicas e geniais.

Nascida em 1893, Lillian Gish se preparava para completar o centenário quando morreu tranquilamente enquanto dormia, aos 99 anos, em 1993. Nunca se casou nem teve filhos. A única coisa que deixou nesse mundo foram seus filmes. Os registros das peças em que atuou foram perdidos, muitos negativos dos filmes também ficaram esquecidos no tempo. Mas seus grandes clássicos estão aí para quem quiser procurá-los. Sei que é possível achá-los porque eu mesmo consegui encontrar - e me apaixonar - pela maioria deles. Durante a década de 70, ela apresentou na TV americana o programa "The Silent Years", que apresentava um filme mudo clássico todo sábado de noite - Por que esse tipo de programa não existe mais? Também me pergunto... Enfim. Em um programa de 1975 disponível em um de meus DVDs, pude ver a abertura em que ela introduzia o seu "Lírio Partido". Depois de contar alguns detalhes curiosos das filmagens e da relação com Griffith, Gish, já envelhecida, dá um sorriso para a câmera e nos deseja um bom filme. Subitamente depois de sua fala, antes da tela escurecer, ela olha para o lado séria e ajeita sua postura, como se estivesse se congelando novamente em seus tempos de glória. Para os seus fãs, era exatamente isso que ela estava fazendo.


E depois de ler tudo isso, poderia até me perguntar: "Nossa, como é que ninguém ouviu falar dela mesmo assim?". Mas é até compreensível. Lillian Gish nunca teve uma carreira tão popular quanto a de, por exemplo, Mary Pickford. As duas eram muito amigas e mantiveram contato até o final de suas vidas, mas Pickford era a estrela de comédias populares que se apoiavam em seu imenso carisma. Tanto que ela foi a primeira a receber o título de "Namoradinha da América". O casamento com o astro Douglas Fairbanks e seu envolvimento na fundação da United Artists foram fatos que só ajudaram a aumentar seu imenso sucesso. Enquanto isso, Gish se envolvia em projetos mais sérios e dramáticos. Era impossível não sofrer com as perdas e angústias de seus personagens, que raramente tinham um final feliz. Lillian Gish era, ela mesma, um verdadeiro lírio partido no meio de tantas exóticas estrelas como Theda Bara, Clara Bow e Gloria Swanson. Mas poucas atrizes brilharam como ela em um fotograma. E ela ainda brilha, décadas e quase séculos depois de ter sido imortalizada naqueles filmes. Independente do tempo, seu misterioso e hipnótico olhar continua entre nós.
E enquanto existir cinema, junto com ele estará o olhar de Lillian Gish.