quinta-feira, 8 de junho de 2023

Meu Bilhete Dourado - "Em Busca do Ouro" e a Descoberta do Cinema


Um forasteiro chega a uma pequena cidade no meio do nada. Solitário, acabou de sobreviver a atentados violentos, tempestades de neve e fome extrema numa incansável busca por um pedaço de ouro nas montanhas frias do Alasca. Ali está quente: um grande salão/bar reúne quase todos habitantes daquele pequeno povoado. Todos dançam, flertam, bebem, lotam o espaço pelo qual o personagem se expreme para adentrar. De repente, toca uma música. Todos reagem. Casais se formam e se direcionam para o centro do salão. Ele fica. Em primeiro plano, apenas observa. Todos dançam, todos bebem, todos celebram, todos vivem. Diferente dos muitos cortes ligeiros e ritmados ao longo da aventura, esse plano se demora. Contemplativo, sem pressa. O Vagabundo de Charlie Chaplin, apoiado em sua fiel bengala, observa um mundo do qual não faz parte. Lembro muito bem da primeira vez que degustei esse enquadramento. Só de escrever sobre, sinto novamente todos os arrepios pelo corpo, um brilho mais forte nos olhos. Foi bem por ali naquele instante que um moço inglês - morto 15 anos antes do meu nascimento - redefiniu o sentido da minha existência. 


O ano era 2005. Fim de semana na casa da avó. Ela me traz uma caixa bagunçada. "Achei isso aqui na arrumação, tudo coisa velha. Veja se algo te interessa, senão é lixo". Vi, e encontrei ali um VHS misterioso, sem nada escrito. Naquela mesma noite, enquanto todos dormiam e eu aproveitava a madrugada (sempre insone), coloquei o VHS para rodar. Era um filme, talvez gravado da TV. Lá estava aquele mocinho de bigode quadrado. Eu já conhecia a figura de Charlie Chaplin de algumas fotos em revistas, de um pôster vintage do "Vida de Cachorro" na parede da casa de um amigo, de um episódio especial de Chapolin em que Roberto Bolaños se vestia em homenagem ao ídolo. Porém era a primeira vez que o via em movimento. Um primeiro filme em preto e branco, certamente o primeiro mudo. "Em Busca do Ouro". Uma obra lançada em julho de 1925, que eu assistia em agosto de 2005. Estava diante de fantasma, todos eles, vivos e hipnóticos graças à Magia do Cinema - que naquela madrugada me estufou de vida. Era a versão original do filme (viria a saber depois), com 90 minutos. E não consegui dormir naquela noite, energizado por 1hora e 30 minutos de algo nunca antes sentido. Eu não fazia ideia do que era aquilo, mas de alguma forma sabia : estou aqui é pra isso. Uma das primeiras atitudes na manhã seguinte foi comunicar a ideia para meu pai e, afinal, lhe mostrar o espetáculo. Coloquei o VHS pra rodar. O filme recomeçou. Por volta dos 20 minutos, a fita rompe. Era pra ser uma sessão única. Certeira, no alvo. Até hoje digo que nunca procurei o Cinema. Ele me encontrou. O ano era 2005.




Desde então, "Em Busca do Ouro" tem lugar seminal e transformador no meu coração, na minha existência. Se comecei a mergulhar na História do Cinema através da obra completa de Charles Spencer Chaplin, "The Gold Rush" foi a faísca inicial para uma grande explosão que me ecoa até hoje, ao vivo, enquanto escrevo esse texto. Após anos sem revisitar a obra, a reencontrei recentemente em versão iluminada, reluzente, na telona do Estação Botafogo - como parte da Mostra Chaplin, em cartaz durante Maio de 2023. Um série de sessões especiais em tela grande e na maior sala do espaço (!), sob curadoria do jovem programador Gabriel Carvalho. Foi a confirmação de que cenas, cortes e movimentos específicos continuam decorados e instintivos aos meus olhos. E também a certeza de que é, sem exageros, um dos filmes definitivos / gigantescos / intocáveis de 128 anos de Magia no Cinema. 


Vale um rápido contexto: já inquestionavelmente o rosto mais conhecido do planeta em 1924, o inglês de 35 anos se desafiava a dar passos mais grandiosos a cada novo filme. Após cerca de 60 curtas (!) entre 1914-1923, a maior ousadia de Chaplin tinha sido "O Garoto", lançado em 1921 com uma metragem de 68 minutos. Equilíbrio absoluto entre Risos & Lágrimas, um sucesso estrondoso ao redor do mundo. Era a confirmação que ele precisava: podia e devia explorar mais o drama da condição humana, até em longa duração. O humor viria junto, como é natural na própria humanidade. Agora confortável como um dos fundadores da United Artists e com estúdio próprio, Chaplin resolveu ir além das locações urbanas ou rurais de suas aventuras anteriores. O processo começou através de uma chocante fotografia apresentada pela amiga estrela Mary Pickford: uma fila gigantesca de homens subindo as montanhas de neve de Klondike, durante o surto da mineração no final do século anterior. Ali estava o contexto ideal para seu épico, "o maior de todos!" - como começou a anunciar, em voz e cartazes, todo orgulhoso.




As gravações começaram na neve mesmo, na mesma Klondike ao norte do Canadá da tal fotografia. Chaplin, que já assumia roteiro, direção e produção de seus próprios filmes, usou a moral altíssima para convocar cerca de 600 figurantes (!!!) para reproduzir a imagem que o fascinou. E conseguiu. As cenas que abrem "The Gold Rush" não são arquivos documentais, como muitos acreditam. Figurantes, membros da equipe e moradores locais convocados por Chaplin para abrir caminho na implacável neve. Conseguiu o impacto épico em imagem, mas logo entendeu que realizar o filme in loco seria puramente inviável. A partir daquele prólogo arrepiante, tudo volta para o estúdio. O que trouxe desafio maior; recriar o Alasca implacável num estúdio grandioso e quente de… Los Angeles, Califórnia. 


Spoiler: funcionou. Realizar as filmagens dentro de um estúdio foi uma cara conquista que permitiu a Chaplin enquadrar algumas de suas mais belas e climáticas composições de cena. A câmera fiel de Roland Totheroh, seu fotógrafo oficial de confiança, poucas vezes captou imagens tão bonitas e ilustrativas. As cartelas de diálogos ou comentários são puro luxo narrativo - os enquadramentos e recortes comunicam TUDO, e nos guiam por uma experiência sensorial absurda, atemporal. Em toda obra de Charlie Chaplin, é seu maior espetáculo visual. Talvez até narrativo. Chaplin ousa se permitir sequências agitadas de ação, momentos de puro horror visual, outros orgulhosamente românticos. A chocante cena que ilustra a "justiça implacável do Norte" é das mais fortes já assistidas num filme silencioso. A tragédia humana domina a tela em diversos instantes. Porém o desfile de tons e gêneros são sempre ligados e pontuados pelo humor inteligente e involuntário que garante a presença de "Em Busca do Ouro" em qualquer lista das Melhores Comédias. É, provavelmente, o filme mais versátil e completo de Charlie Chaplin. Essa frase traz consigo muita responsa. 



É natural que se destaque uma das sequências mais célebres e inesquecíveis: no limite da fome, seu "Lone Prospector" cozinha dedicadamente a bota de couro, colocada à mesa como delicioso prato de comida. O grandalhão Big Jim, vivido por Mack Swain, velho parceiro de curtinhas da Keystone, intimida o pequetito protagonista e rouba "a parte nobre" do calçado. Sobram para Chaplin a sola e seus pregos, saboreados como espinhas de um peixe suculento. Ele garante também os cadarços, degustados como espaguete de qualidade. Pouco adiante, o mesmo Big Jim delirante de fome passa a ver nosso amigo Chaplin como uma galinha de proporções aumentadas e movimentos realistas. Existem muitas outras travessuras visuais e estéticas que me levam a confirmar: é dos filmes mais surrealistas jamais lançados. Tão acessível e carismático que muitos críticos e cinéfilos nem se dão conta disso. As imagens comprovam. Surrealismo puro, afinado ao riso. 



Como citamos a presença do Romance, a protagonista vivida por Georgia Hale merece destaque e um parágrafo só pra ela. Até então, a grande "musa" de Chaplin vinha sendo Edna Purviance, parceira fiel em mais de uma dezena de curtas brilhantes e alçada ao posto de protagonista no dramático (fracasso de público) "A Woman of Paris" - que o cineasta apenas dirigiu em 1923, cometendo a ousadia de não dar as caras (ou bigode)! Aos fãs seria muito natural reencontrar o rosto angelical de Purviance numa nova produção de Charlie Chaplin.   Ela estava lá em "O Garoto", afinal. Mas sua figura "pura" e muitas vezes inocente/indefesa não teria vez naquele projeto de proporções tão ousadas. Eis que surge a Georgia (de) Hale. Mulher de temperamento forte, quase arrogante, decidida a não cair em cortejos fáceis e ainda agressiva com os mais insistentes. Pior: um interesse platônico do protagonista que chega a brincar com seu emocional, longe de corresponder seu desejo e paixão. Para o público de 1925, uma personagem feminina incrivelmente chocante para uma comédia. Orgulhosamente chocante. Em quase nenhum momento atriz e persona se esforçam para conquistar o carinho de quem assiste. Ainda assim, é impossível de não se apaixonar. Simples: o que nos leva ao fascínio e hipnose é a paixão autêntica nos olhos e corpo de Chaplin. Mais uma prova evidente de que ele foi um dos maiores atores já captados por uma câmera. Cada detalhe de sua postura, cada intenção presente no dedo mindinho ou no fluxo de um suspiro.  Um leve sorriso que lhe escapa, o seu corpo em reações diretas à presença de Georgia. Um assombro, que me lembra de quando perguntaram ao polaco Vaslav Nijinski como era ser o maior bailarino do século, A resposta foi: "vocês devem perguntar isso para Charlie Chaplin". 


É esquisito pensar que, ao relançar o filme nos cinemas em 1942, o próprio Chaplin tenha escolhido cortar mais de 20 minutos da duração original. Para piorar, dessa vez com uma narração na própria voz (!), explicando motivações e diálogos sem o recurso das cartelas. Esquisitísismo. Infelizmente, essa é a versão mais divulgada e editada em DVDs. Corta o impacto fortíssimo das imagens no original, e ainda comete o crime de jogar fora o final original. Finalmente reunido com sua desejada Georgia num contexto hilariamente inusitado, os dois posam para uma foto e não resistem à distância entre os rostos. Um dos beijos mais fotogênicos do Cinema e da obra de Chaplin, num raríssimo final feliz e travesso. Tal beijaço não existe nessa versão de 1942. Fofocas (sempre elas!) afirmam que o corte visava aplacar os rumores tardios sobre o caso que teria surgido entre Chaplin e sua protagonista durante as filmagens. Vale lembar que, na época, Chaplin estava casado com a jovem Lita Grey, originalmente dona do papel até… engravidar do moço. Georgia Hale até deu entrevistas sobre   o suposto romance, defendido por ela até sua morte em 1985. Se a obra é uma coleção de UAUs, os bastidores são coleções de VISHs. O texto já está longo, sigamos a alguma conclusão. 



"Em Busca do Ouro" é uma coleção de planos lindíssimos, uma ode à condição humana por um dos cineastas mais sensíveis e poéticos que já pisaram num set. Diferente de obras mais famosas de Chaplin, esse abusa de closes dramáticos, iluminação onírica e calma contemplativa que apenas reforça a potência de cada enquadramento. Tudo aquilo em mil novecentos e vinte e cinco. Beira o inacreditável, como um casarão ventando travesso no limite do precipício. Listas e artigos acadêmicos tendem a apontar "Luzes da Cidade" (1931) e "Tempos Modernos" (1936) como as obras definitivas da vida de Charlie Chaplin. Já é quase costume, um clichê abraçado por escolas e faculdades de Cinema. Sobre isso, digo e repito: descubra "The Gold Rush". Fuja da versão falada de 1942, mergulhe no original de 1925.

Eu poderia esperar mais dois aninhos para escrever uma grande celebração pelo centenário de "Em Busca do Ouro". E aí seria apenas mais um texto sobre os 100 anos desse filme. Escrevo aqui da plena emoção transbordante e íntima de revisitar essa obra que, aos 98 aninhos, segue encharcada de Humanidade atemporal, universal. O cineasta francês Jean Cocteau, também poeta, certa vez escreveu que esse filme "é a luz da vela em um Natal triste, que ilumina o espaço e nos lembra de sorrir". Eu acho até vacilo tentar escrever mais qualquer coisa depois de algo assim. Termino descrevendo o final da sessão na Sala 1 com cerca de 100 pessoas no Estação Botafogo: risadas altas ao longo de toda projeção, aplausos e gritinhos pra tela diante do "The End". Ninguém da equipe estava presente, muito menos o cineasta/astro principal. Foram aplaudidos como se estivessem. Magia. Efeito semelhante ao que senti naquela primeira sessão numa madrugada de 2005. "Em Busca do Ouro" sempre será o marco zero de minha carreira ali oficialmente iniciada. A faísca da grande explosão que se iniciou, ironicamente, no mudo. O tal Ouro do título, que veio me buscar. Meu bilhete dourado. 




quinta-feira, 13 de abril de 2023

Quem Tem Um Sonho Não Dança - Os Embalos de "Bete Balanço" (1984)




Você já ouviu "Bete Balanço ", o hit. Mesmo que sem querer, ou sem saber. E por mais que você leitor curta a voz de Cazuza e o som do Barão Vermelho, é tragicamente possível que você nunca tenha visto "Bete Balanço". É isso mesmo. "Bete Balanço", o filme, é mais uma pérola esquecida do nosso Cinema Brasileiro, um cult abafado da nossa cultura pop. Foi lançado lá em 1984, e de imediato a trilha original ficou gigantemente mais famosa que o filme. Até hoje muita gente nem faz ideia de que ele existe. Obra como essa não ter chegado às novas gerações, ou mesmo aos cinéfilos apaixonados garimpeiros da nossa filmografia (como eu), é reflexo grave e tragiquíssimo do que é nosso Cinema, num panorama mais geral. 

"Bete Balanço" é um filme plenamente consciente de seu apelo, seu público, seu tempo. Planos lindíssimos e casamento maravilhoso entre Som & Imagem, orgulhosamente POP & jovem - inclusive no sentido experimental da proposta. Dá pra perceber em cada plano/corte um jovem cineasta em busca de novas linguagens e estéticas com seus carismáticos amigos-por-acaso-atores. Suspeito que se fosse com sotaque francês ou inglês, o impacto a longo prazo seria outro, o selo de "cult" garantido... Não há nada ali para se envergonhar ou desviar os olhos. Um retrato fascinante de um estado de espírito. Cores pulsantes e ritmo frenético, ao som das "novidades do momento". Barão Vermelho, Lobão, Celso Blues Boy, Titãs, cada trilha parece escrita especialmente pro filme. É narrativa, é tom, é clima. É diversão, pra balançar sem culpa.



Esse mergulho & degustação me fez voltar a cair em um nome: Lael Rodrigues, mais um injustamente enterrado pelo esquecimento coletivo que agride ele, nosso Cinema Brasileiro. Esse cara foi apaixonado por Cinema e Música desde a Juventude. Lá pelos 20 anos, foi assistente de direção do Hugo Carvana em "Vai Trabalhar, Vagabundo!" (1973) e inúmeros outros filmes dele nos anos 70. Fundou uma produtora independente com a amiga Tizuka Yamasaki, produzindo os filmes grandiosos que ela (uma gigante, hoje com 73 anos) ousava dirigir. Ali pelos 30, resolveu que era sua vez de começar a escrever e dirigir. E seu primeiro filme foi esse "Bete Balanço", que lançou a Débora Bloch e popularizou de vez a música do Barão Vermelho. Só por isso já merecia ser lembrado, assistido, celebrado até hoje. Logo na sequência emplacou "Rock Estrela" em 1985 e "Rádio Pirata" em 1987. Todos misturando marotamente Cinema & Rock, todos sucessos imediatos de público. Todos apresentando um extremo cuidado estético na elaboração dos planos, em como traduzir uma trilha forte em imagens irresistíveis e pura diversão. Lael Rodrigues não parecia ter interesse em obras difíceis, restritas aos festivais e prêmios. Cinema Brasileiro também podia ser pipocão com som no volume alto. E o cara conseguiu, nessa "trilogia" que conseguiu realizar. Eu acredito que só não tenha conseguido mais vezes porque morreu estupidamente jovem. Tinha apenas 37 anos (!!!) quando sofreu uma pancreatite aguda fatal. Como pode isso ?!?!? Deixou um filho de três meses e dois roteiros inéditos - hoje desaparecidos, nada se sabe sobre. Esquecido pelos livros, esnobado por professores, pesquisadores e documentários... apesar de ter emplacado três sucessos seguidos e sonoros .


Queria aproveitar essa análise mais profunda para deixar aqui alguns !!!!!!!!!! para o mulherão é Déborah Bloch. Vish. Ela tinha apenas 20 anos quando topou o papel-título, mas bancou a missão com carisma e presença. Uma protagonista feminina super ativa e ousada, que toma as rédeas de todas as ações determinantes no roteiro. Faz o que bem quer, do jeito que bem quer, inclusive nos momentos de tensão sexual e num ousadíssimo romance escancarado com a sofisticada diva Maria Zilda. Era beijo na boca e cena na cama pós-sexo entre duas mulheres num filme jovem e popular dos anos 80 ! Nada de cult pro circuito dos festivais: era filme jovem e livre pra fazer sucesso - e fez!  Sem falar que a Bloch solta a voz pra valer. A cena em que ela e o Cazuza descobrem a melodia de "Amor Amor" juntos é de arrepiar olhos e ouvidos. A maconha ali bem enquadrada entre os dedos era 0% vulgar, não era apologia, era uma câmera quase documental, modestamente captando aquela época tal como ela era. Eu poderia apostar que se a Déborah Bloch fosse estrela de um filme desses em outros cantos do mundo, imediatamente lançaria discos e carreira musical paralela. Por aqui, o timbre seguiu abafado.




Falando nisso de "captar uma época", esse "Bete Balanço" consegue até ser um trágico retrato de toda uma geração. Ali estão Lauro Corona e Cazuza no auge da juventude . Os dois já não existiriam uma década depois. O maior galã e o maior poeta daquela geração, precoces vítimas da AIDs - o primeiro em 1989, o segundo em 1990. Quando eu surgi em 1992, o astro, o compositor-ícone e o diretor desse filme que transpirava Juventude já não estavam aqui. E agora chegam tão perto.


Por fim, pulsa alto certo alívio de que uma figura tão expressiva, carismática e icônica quanto Cazuza tenha sido captado no auge por uma câmera tão estética e cuidadosa. Sua participação é pontual, mas não permite indiferença. Quem não o conhecia até ali, não poderia deixar de conhecer a partir do final da sessão. O filme acaba, a música-título continua. E ainda toca, quase 40 anos depois, bem alta e jovial. Quem tem um sonho não dança .





quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Encontros, Desencontros - A Nostalgia Sensorial de "Aftersun"


Primeiros dias de 2023, lá fui eu experimentar aquele tal
"Aftersun", devidamente após o pôr-do-Sol. É um filme de interiores: dentro de quartos, dentro de piscinas, dentro da intimidade de um pai e de uma filha que não se portam tanto como tais. São dois estranhos entre si, portadores de um laço maior do que todos evidentes ruídos que marca a troca. Frases fortes escapam no susto, em aparente banalidade que revela muito de cada um. São as faíscas viáveis, diante das sedutoras imagens de uma câmera orgulhosamente recortante na poética do não dito. Em certo momento, por exemplo, há um tobogã : não vemos como se chega no seu topo e nem a queda na água, apenas pessoas passando rapidamente no trajeto. É o recorte. O deslize, sem devida causa ou consequência. É sobre o que escorrega.

Ode ao Cinema sensorial, Aftersun parece esnobar qualquer curso de roteiro mais elaborado, que exigiria ordem e sentido claro para cada plano, ou respostas concretas para as tantas sugestões visuais. São lacunas íntimas sem gabarito definido - para que cada um possa completar com os próprios detalhes pessoais e familiares, ao gosto do freguês. "Olá, viaje com esses dois, venha sentir. Essa viagem é também sua". 


Uma coleção de recortes afetivos, seja em arquivos da câmera analógica nostálgica, seja em silêncios prolongados e ensurdecedores. O adulto, uma criança indefesa diante do olhar incrivelmente maduro da pequena. Contemplamos, distantes ou próximos, quase sempre em suspensão, as pequenas ações que os conectam - já que a única coisa que eles possuem em comum é o sangue. O plano mais significativo não é em nada ingênuo: uma foto analógica, posada, em cima da mesa e se revelando aos poucos. Sem pressa. Um recorte de duas pessoas recortadas pela vida. 




Deu certo: o filme é o “queridinho indie” da temporada, rendendo elogios, prêmios, até citações de "Melhor do Ano" em publicações especializadas em Cinema. Em Essência, trata de Intimidade. Laços indizíveis, que a câmera capta com zelo e afeto. Pelo visto, algo que tem sido carente ao grande público imerso nos sons e fluxos frenéticos de muitas abas abertas. Quanto tempo ainda pode durar um plano longo, sem medo e sem pressa?

Aftersun não entra na minha lista de favoritos do ano. Curiosamente, é o tipo de filme que me vejo fazendo num futuro próximo. O respeito ao tempo de cada plano, os ritmos e recortes conscientes, a busca por uma intimidade velada, o chegar perto de verdade, como se não fosse tudo ali nada mais que a própria vida. Requer imensa coragem de uma jovem cineasta, como é Charlotte Wells. Nascida na Escócia há 35 anos, ela ingressou na NYU e lá realizou três curtas: Tuesday (2015), Laps (2016) e Blue Christmas (2017). "Aftersun" é seu primeiro longa, desenvolvido num laboratório de roteiros do Festival de Sundance 2020. Por hora, ela já levou um Gotham e um British Independent Film Awards pela obra. Especialistas garantem que vem mais. 


Me pergunto motivos para não colocar Aftersun na lista dos meus favoritos recentes, mesmo mergulhado em tantos elogios e Poesia. É, de fato, o que me vejo buscando num longa-metragem, numa busca com a câmera. Talvez nossos filmes favoritos não sejam os filmes que precisamos fazer. É mais sobre a experiência/busca que o resultado em si. O filme, fechado e finalizado, está em quem vê, é sentimento indirigível. A faísca em si... Talvez só mesmo moça Charlotte saiba. Não impede que o vento bata no público. O mergulho de Aftersun certamente respinga, molha nossas roupas e nos faz refletir se já não estivemos bem ali. Como ecoa a voz isolada de David Bowie no pico dramático do filme: This Is Ourselves, Under Pressure.




terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Pedradas Pós Exílio - O Filme Proibido de Robert Frank & The Rolling Stones



Keith Richards fez 79 anos no último dia 18 de Dezembro de 2022. Foi no mesmo dia 18 de Dezembro de 1943 que nasceu o saxofonista Bobby Keys, um de seus maiores amigos e membro fixo da banda de apoio dos Rolling Stones até a morte aos 70 anos em 2014. Todo aniversário de Keith é marcado por uma afetiva homenagem ao saudoso parceiro musical. Esse ano, o tributo veio com um vídeo curioso: versões jovens de Richards e Keys jogam uma grande e pesada TV pela janela de um quarto de hotel - e se divertem com o estrondo como duas crianças. Esse registro é muito mais do que um filme caseiro feito entre turnês. É o mais famoso recorte de um dos maiores tesouros (e segredos) que a banda ainda segura do alcance de um grande público.


O ano era 1972. The Rolling Stones tinham acabado de lançar o álbum que as décadas seguintes coroariam como sua máxima obra-prima: "Exile On Main St.", uma épica jornada pelas raízes sonoras norte-americanas gravada parcialmente num porão na França. Entre as muitas pérolas musicais e êxitos do disco, um grande destaque era a capa - uma colagem do fotógrafo suíço-americano Robert Frank, com retratos bizarros e nostálgicos de figuras dos freak shows dos anos 50. O sucesso do lançamento, em comunhão com o ótimo momento de entrosamento entre membros & equipe, resultariam na volta do grupo aos Estados Unidos. Mini-flashback: a última apresentação dos Stones no país tinha sido o catastrófico show gratuito de Altamont em 1969. Os Hells Angels, motoqueiros altamente irritáveis, foram contratados para fazer a segurança do show, mas contribuíam muito mais às brigas do que a qualquer estado de paz. Resultado: um jovem negro foi morto na frente do palco durante um dos tumultos com os Angels, na noite de Dezembro que simbolizou o trágico fim da "Geração Paz & Amor" dos anos 60. 




De volta à 1972. Vale lembrar que nesse momento da narrativa, os Stones tinham abraçado o cartaz de "A Maior Banda de Rock do Planeta". E realmente não tinha para ninguém: cada apresentação era um turbilhão sonoro e visual da qualidade mais alta (em todos os sentidos) . Para captar essa nova turnê americana em imagens, a banda marotamente confiou a câmera ao mesmo Robert Frank da tal capa. Nascido na Suíça, Frank se tornou celebrado mundialmente pela série de fotografias que virou o livro "The Americans", talvez o documento visual definitivo sobre os EUA do século XX. Também cineasta experimental e inquieto, ele encarnava o conceito de "Homem-Câmera" e realizava incontáveis documentários na estética Cinéma Vérité - câmera compacta, solta e sem filtros. E assim foi convidado para acompanhar tudo de perto. Para essa aventura visual, ele trouxe apenas Daniel Seymour, que operaria o som direto e teria consigo uma segunda câmera. Frank inclusive fez questão de lhe dar o crédito de co-diretor, que está no filme. Essa parceria acabou permitindo a aparição pontual de ambos em cena (para além dos inevitáveis reflexos dos espelhos próximos). Além da dupla, diversas câmeras compactas de 16mm foram disponibilizadas para qualquer um que quisesse pegar e gravar - como eventualmente fizeram um curioso Mick Jagger e o sempre discreto Bill Wyman. A proposta era clara: nada poderia ser perdido. Mal sabiam eles que o destino fatal do filme seria consequência direta dessa escolha. O filme de Robert Frank seria barrado pela própria banda, até judicialmente, a ponto de ser exibido em público pouquíssimas vezes. Assistir trechos ou cópias piratas do filme é uma missão hercúlea que requer empenho e garimpo. Uma vitória pessoal, inclusive - mas chegaremos noS motivoS pra tanta confusão.


A polêmica já começa no título. Poucos anos antes, quando os Stones abandonaram a Decca Records para lançar o selo próprio da banda (já no topo do mundo), o contrato exigia mais uma canção inédita a ser lançada como compacto. Jagger resolveu isso numa única tarde, cantarolando sobre um garoto de programa londrino por cima de uma simples guitarra acústica. O nome da música era "Cocksuker Blues". Era isso, pegar ou largar. A Decca obviamente largou, jamais lançaria algo tão… "tão". Robert Frank pegou. Seu novo documentário já tinha nome. E resumiria perfeitamente o pacote.




Sob produção musical de Jimmy Miller, os Stones abandonaram a sonoridade orgulhosamente britânica e excêntrica da fase do guitarrista-fundador Brian Jones, morto aos 27 anos em 1969. A verdade é que no recorte temporal entre 1970-1974, os Stones iam além do quinteto Mick Jagger (vocal & presença), Keith Richards (guitarra & essência), Charlie Watts (bateria & equilíbrio), Bill Wyman (baixo & pulso) e Mick Taylor (guitarra & base). Qualquer gravação e apresentação contava obrigatoriamente com o sax de Bobby Keys, o trompete de Jim Price e o piano de Nicky Hopkins. Então filmar "a banda" era registrar esse pacote completo. Uma turma que passou a viver intensamente a tal "vida de rockstar". O documentário "Cocksucker Blues" é o resumo absoluto do clichê "Sexo, Drogas & Rock’n’Roll". Só que autêntico, visceral, na prática. 


Como os olhos de Frank não estavam ali para piscar ou desviar, a overdose é captada em imagens claras e chocantes. Jovens completamente nuas numa orgia dentro do jato particular da banda. Maconha para todos os lados, habitual como "Bom Dia". Sexo com portas abertas e câmera rodando - algo que devia ser tão natural naquele "way of life" que nada incomodava os "envolvidos". Uma simpática e onipresente groupie explicando detalhadamente como injetar a heroína da maneira certa, o que faz em plano fechado logo em seguida. Outra groupie (eram muitas, pode-se imaginar) repleta de Satisfaction e nadica inibida pela câmera próxima em seus suspiros pós-sexo - provavelmente com Seymor, que aliás devia estar gravando a banda. Fãs "experientes" na porta dos estádios revendendo ingressos por preços absurdos ou negociando tudo que possuem por alguma forma de entrar. Uma dessas jovens, em discurso dormente e reflexivo, confessa não aceitar que tenham tirado sua bebê pelo uso excessivo de ácido, "afinal se ela nasceu, foi por causa do ácido. Não faz sentido!". Mick Jagger peladão no camarim, enquanto experimenta figurinos pro show prestes a começar. Charlie Watts tenta prestar atenção em algum noticiário na TV do hotel enquanto, no quarto do lado, Richards e Keys fazem a tal TV voar pela janela. Já bem no finalzinho, até mesmo o sempre cuidadoso porta-voz e "empresário" Jagger, quase pronto para entrar no palco, ganha o close de uma fungada em dose de reconhecível pó branco. Ah sim, e além disso tudo o título, claro. 




Agora, com tantas polêmicas e choques e "ó céus!" listados, é importante olhar para além da farra de "Cocksucker Blues", que não é só isso. Quem aceita o desafio de encontrar esse tesouro perdido é recompensado com imagens inegavelmente valiosas. É indiscutível: uma banda em seu auge. Jagger gira gira gira em seus tecidos e baldes d’água, para refrescar a platéia enquanto o palco pega fogo num espetáculo de Imagem & Som. O jovem Stevie Wonder abriu muitos desses shows dos Stones em 1972. Mick Jagger o levava pessoalmente até o piano central, para delírio da multidão. E Frank caminha ao seu lado, além de captar Wonder, de perto, emendando sua catártica "Uptight" com a introdução icônica de "Satisfaction". Os dois cantam o hit juntos, em harmonias vocais e passos dançantes. Flutuam diante do resto da banda, e até eles parecem surpresos com !aquela energia!. Ao final do número, Wonder seca o suor e as lágrimas que escorrem pelo rosto. A imagem dele voando de seu piano até Jagger no meio do palco, sem ajuda ou apoio, já valeria a sessão. Há mais. Tina Turner visita o camarim e engata num selinho afetivo no amigo Mick. Richards testa maquiagens e penteados no tímido e simpatiquíssimo Charlie. Como alguém que já assistiu muito material sobre os Stones, posso garantir que poucos captaram o casal Keith Richards & Anita Pallenberg de forma tão simbólica. Em momento discreto e precioso, estão os dois solitários no vestiário/camarim de um estádio. Richards num extremo de ressaca/badtrip, apagado no colo da amada, que fuma e tira rapidamente as cinzas que caem no cabelo de seu homem. Após um carinhoso cafuné, é ela que mergulha. E ficam os dois ali, ao fundo, mergulhados nos resquícios de drogas e fumaça. Mergulhados no outro. Até moça Bianca Jagger, então esposa de Mick, ganha surpreendente destaque, em momentos quase românticos entre os dois, brilhantemente enquadrados pelo olhar fotográfico de Frank. Por cima de todo caos e rock pesado, Frank opta por uma edição que destaca singelas melodias de piano "roubadas" de momentos íntimos com Richards no instrumento. Escolha sensorial que faz toda a diferença. 



É nessas belíssimas faíscas e momentos que reside a tragédia de "Cocksucker Blues". Após assistir o corte bruto e Cinema (pura) Verdade do cineasta, a banda viu pedras rolantes no caminho. Drogas, orgias, nudez, sexo, vandalismo - tudo em planos fechados e sem corte. Ia sujar a barra. Mais que isso, ia pulverizar a barra de vez. Ainda que tivessem convocado pessoalmente moço Robert Frank para a aventura, os Stones proibiram que o filme fosse lançado ou sequer exibido a qualquer público. A escolha comercial (e bem-sucedida) foi o filme-concerto "Ladies and Gentlemen: The Rolling Stones", um dos registros definitivos do grupo no auge. Após um acordo "amigável" (e judicial) com Frank, concordaram que "seu" filme só poderia ser exibido na estrita presença do diretor. E no máximo quatro vezes num mesmo ano. E apenas em solo norte-americano. Um acordo que surpreendentemente Frank honrou por toda vida. O que tornou consideravelmente difícil a vida dos curiosos fãs de Rolling Stones. A busca por "Cocksucker Blues" consiste num intenso garimpo de "esse vídeo tem 30 minutos de material!", "aqui tem a segunda parte, mas metade tá sem áudio", "olha, aqui tem mais um trecho, porém falta uma cena que já li sobre", e tudo retalhado numa esperada qualidade inglória, repleta de pixels e ruídos. 


Robert Frank, fotógrafo celebrado e cineasta visionário, morreu em 2019 aos 94 anos. O que traz a inevitável questão: E AGORA ?! Como assistir uma versão oficial, na íntegra, sem cortes e com decente qualidade, porém "sem a presença do diretor"? Ouso dizer que "Cocksucker Blues" é um dos melhores documentários musicais do século. Uma cartela marota avisa no início da projeção que, tirando os números musicais, tudo ali é ficção e não representa a realidade. Talvez uma tentativa de aliviar a barra (que não colou), talvez puro deboche de quem estava no meio de tudo. Fato é: se fosse uma ficção ou gravada como tal, seria obra brilhante e referência absoluta no assunto. Mais do que um retrato específico de uma turnê dos Stones, é um registro do estado de espírito delirante e visceral, do excesso que engoliu muitos artistas naquela metade do século passado. All Down The Line, como a TV que se espatifa no pátio do hotel ou a jovem nua que procura suas roupas pelo chão do jato. Nem todos sobreviveram, nem todos captaram em imagens. Por mais que elas existam (e é fantástico!), o suspense vence. O tom de grave segredo proibido acaba por apenas alimentar e reforçar o mito. Como diriam os próprios, debochadíssimos no topo do mundo: You Can’t Always Get What You Want.  





sexta-feira, 24 de junho de 2022

A Fraternidade de Trintignant - Au Revoir para um velho amigo


Há uma exata semana, abri o Instagram e surgiu uma foto ótima do Jean-Louis Trintignant em "O Conformista". A legenda tinha apenas três letras, RIP. Reli umas quatro vezes enquanto sentia o chão tremer. O corte cruel de algo extraordinário numa legenda tão genérica e brutal, e eu ali procurando a devida Poesia. Imediatamente lembrei de ver aquele mesmo Trintignant de chapéu pela primeira vez, na tela "mezzo grande mezzo modesta" do cineminha do CCBB. Mostra Bertolucci em 2008, descobrindo "Il Conformista" em 35mm. Lembro perfeitamente da sessão pois ela revolucionou minhas noções de Cinema e de Arte. Logo, noções de Vida. Ver aquele homem "normal", tão minimalista, sem exageros e REAL… Mudou/moldou meu olhar sobre Atores, e trouxe a faísca do Desejo de viver na pele aquele processo de "ser outro". 

Ainda me é surpreendente lembrar que é o mesmo ator na capa do meu vinil de "Un Homme et une Femme", uma das mais belas Odes ao verbo Amar já captadas por uma câmera. Ou o mesmo jovem ingenuamente apaixonado pelo furacão Bardot em "E Deus Criou a Mulher". E o mesmo senhor em tons vermelhos na Fraternidade de Kieślowski. Atrás de frios e orgulhosamente blasés óculos escuros em "Z". Ou "De Repente, num Domingo" brincando de Hitchcock com Truffaut. Assisti "Minha Noite Com Ela" mais de uma vez, e a impressão era mesmo de passar várias noites com ele, o próprio Trintignant. Tivemos muitas conversas, sempre autênticas e afetivas, ainda que nunca tenhamos nos olhado diretamente nos olhos. Eu estava em Cannes no ano em que lançava "Happy End", e uma das poucas tristezas da experiência foi não ter conseguido cruzar com ele - consegui Huppert, Cuarón, Del Toro, Eva Green, Polanski, talvez nenhum desses o impacto do possível encontro com esse ídolo francês. 

Há um momento em "Amor" que sai de sua boca a simbólica frase: "Eu não lembro o filme, mas eu lembro os sentimentos". Eu lembro de cada filme, e de todos sentimentos envolvidos. Jean-Louis Trintignant foi Ator-Catarse em minha formação, sempre transbordando o tal Fator Humano que busco em cada personagem que escrevo, vivo e descubro. Viveu 91 anos e já era um imortal Gigante quando eu cheguei na festa. A verdade é que pouco muda aos imortais. Com sorte, ecoam mais alto os merecidos aplausos. Continuam entre nós, não há dúvida. Essa foto foi captada por mim no início de Abril, uma sessão especial de "Ma Nuit Chez Maud" em 35mm na Cinemateca do MAM. Foi pura Magia ver esse cara em película naquela telona lendária. Uma ótima conversa entre tela & cadeiras naquela firme ponte que sai do projetor. Desde que meus olhos encontraram aquela simplória injusta legenda de instagram, já tive muitos reencontros e papos com o mesmo Trintignant de sempre. A mesma Intimidade Autêntica de quem chegou perto, sem esforço. Nem com esforço se afastaria. As conversas continuam. A Fraternidade de Trintignant. 



terça-feira, 14 de junho de 2022

Cruise de Ferro - O Voo Alto e Triunfal de "Top Gun : Maverick"



Eu sinceramente não ligo muito pro "Top Gun" de 1986. Juro. 

Já assisti mais de duas vezes, sempre buscando entender onde estaria "tudo aquilo" que fez o filme virar referência cult imediata. E como alguém que não vê graça alguma no Top Gun original, escrevo aqui "bem alto": o novo "Top Gun: Maverick" é um FILMAÇO. Espetáculo em todos os sentidos. Cinemão. Arrebatador. Emoção de sobra. Tudo que os fãs podiam esperar que fosse, porém ainda além. O que aconteceu? Vamos analisar esse avião.


Para quem não assistiu o lançamento de 36 anos atrás, um resumo: o personagem do Tom Cruise, Pete "Maverick" Mitchell, era basicamente um jovem rebelde e arrogante. Aquele cara marrentinho do "é claro que eu sou incrível e faço o que quiser, tô nem aí pra ninguém". Um jeitão que inclusive acabaria moldando a personalidade do próprio Tom, como sabemos em suas ousadias sem dublês e no mesmo "eu faço o que quiser, tô nem aí". Tudo que acontecia ou dava errado ao longo do primeiro filme era simples consequência desse jeitão impulsivo, irresponsável. Ele era sim um bom piloto, porém basicamente um babaquinha. Indomável, como dizia o subtítulo brasileiro. Talvez seja esse o maior trunfo do novo, de primeira: o novo Maverick, 35 anos mais velho como o próprio astro, é um personagem que faz sentido. Faz as coisas com sentido. Um arco dramático e evolutivo fantástico, pelos ecos do que já viveu e do(s) que já perdeu. A relação com o "fantasma" de uma perda do passado, a relação conturbada com uma nova geração que o vê como algo ultrapassado, todas as punições e porradas já sofridas. Maverick, dessa vez, age com absoluta humanidade. É um ser humano que faz sentido. 

Outro ponto alto, involuntário e por isso ainda mais arrepiante, é troca afetiva com o agora veterano Iceman. Val Kilmer, astro dos anos 90 que estourou ali ao lado de Cruise, sobreviveu a um avançado câncer na garganta. A vitória, porém, o deixou sem voz e extremamente fragilizado. Detalhe cruel para um Ator. Cruise sabia que não faria sentido uma sequência sem a sua presença, e lutou por sua participação no projeto. Um reencontro mais esperado do que o novo filme em si, e que bate mais forte do que qualquer diálogo presente no original. Um tardio abraço que transborda pelos olhos de Tom Cruise, e pelos sons e suspiros que escapam na plateia. Aliás, são muitos os momentos de emoção à flor da pele. Quando paro para pensar, é como se eu até começasse a gostar mais do antigo agora - sem ele, não estaria aqui escrevendo sobre uma continuação, fantástica em quase tudo que o antigo não (me) empolgava. A própria equipe de pilotos, no original, era basicamente um grupo de modelos desfilando sem camisa num jogo de egos que lembrava a quinta série de qualquer colégio clichê. A famosa cena do vôlei na praia ainda exala vergonha alheia, gratuita como só. Agora o jogo é literalmente outro: uma quase mesma cena da nova equipe na praia tem o exato efeito oposto. Há ali a construção de um time, de personagens que passam a se importar com os outros, entre si. E, assim, passo também eu a me importar com aqueles seres na tela. Fica aqui um merecido "Valeu!!" ao diretor americano Joseph Kosinski, que tinha apenas 12 anos quando o primeiro chegou aos cinemas! Não é a primeira vez que ele lida com "material sagrado" dos anos 80: é dele a direção de "Tron - O Legado" (2010), que revisitava os personagens/universo do cult de 1982. Entre tantas continuações genéricas e franquias desgastadas, parece que Kosinski considera o fator Nostalgia por um prisma mais humanizado. 



São vários porém cuidadosos os ecos do filme de 86, nunca gratuitos. E isso conquista até "não convertidos", como eu. Todos os detalhes nostálgicos são de fato importantes para a evolução emocional do protagonista. Ainda que existam muitas menções à personagens do passado, são sempre os carismáticos novos nomes do (ótimo) elenco que movem a narrativa adiante. Um filme moderno que não se faz vítima do antigo. Sempre guiado pelo arco interno, sensorial. Tom Cruise já provou o ator dramático que consegue ser quando lhe interessa, mas sua maturidade  em cena surpreende de forma diferente. Há um detalhe simbólico no tabuleiro: moço Tom, em sua eterna visão jovial correndo de um lado pro outro, raras vezes viveu um Pai em seu currículo. Tirando a parceria com Spielberg no "Guerra dos Mundos" de 2005, seus Maverick e Ethan Hunt da franquia "Missão: Impossível" talvez sejam hoje os únicos "grandes heróis do mainstream" que ainda não assumiram a paternidade. Talvez um detalhe vital ao filme em questão. A trama principal lida diretamente com o choque entre Maverick e Rooster, filho de seu saudoso melhor amigo. Ainda ocorrem encontros fortíssimos e simbólicos com Amelia, filha adolescente do antigo amor vivido por Jennifer Connelly. De certa forma, as interações com esses dois jovens guiam a evolução interna de Maverick ao longo do filme. Miles Teller e Lyliana Wray driblam clichês e entregam faíscas sutis que mudam a atitude // postura do protagonista ao longo do roteiro. Emociona, humaniza. Escrevo sobre um grande blockbuster de altíssimo orçamento onde o Fator Humano pulsa e PREVALECE. 


Então é mais ou menos assim: o primeiro, de 1986, é diversão pra sessão da tarde, quase personagens de um joguinho de fliperama. A continuação podia ser uma genérica "nova ficha", apenas. Não é o caso. "Top Gun : Maverick" é sobre Fator Humano, sobre sobreviver e sentir o peso/pressão/aventura de estar vivo. Dá vontade de chegar aos 60 e manter contato com amigos queridos. E ainda ouso escrever: esse é o filme que todos os fãs de Star Wars queriam ter visto quando a Disney assumiu a saga. O desejo das gerações que cresceram acompanhando as aventuras daqueles icônicos personagens não era sentar numa sala de cinema pra ver como Han Solo, Luke e Leia iriam morrer e fazer tudo parecer "jogado pro alto". Esse é também o filme que os fãs de Blade Runner queriam quando anunciaram uma desnecessária sequência. Ninguém fazia questão de ver um Deckard desiludido e perdido entre novos personagens sem carisma algum - de quebra acabando com um dos mistérios em aberto mais legais da História do Cinema. Esse é também o filme que os fãs do Indiana Jones queriam ver em 2008, após 20 anos sem Harrison Ford com chapéu e chicote. Esse é algo que talvez nenhum Missão Impossível da recente safra tenha sequer chegado perto, após o terceiro filmaço de 2006. 



Mais polêmica à vista: as cenas de ação do original não eram lá tão empolgantes assim, cá entre nós. A batalha final do Star Wars de 1977 dava de 2 mil a zero, em decupagem visual e envolvimento entre os pilotos. Dessa vez, é uma experiência imersiva, à flor da pele. Dá pra sentir a gravidade mudar na cadeira, até porque os atores sentiam. Quase tudo realizado e captado sem o uso de efeitos especiais, com atores treinados a lidar com pressões das cabines e Cruise de fato lá dentro fazendo aqueles absurdos. Algo esperado, afinal ele é louco. Ele é o Maverick. 

A missão especial que puxa a trama pede que a equipe principal execute dois milagres, fundamentais pra tudo dar certo. Pois me parece que esse "Top Gun : Maverick" é, em si, o milagre. Presenciei uma sala de Cinema quase lotada em absoluto silêncio, inúmeras vezes ao longo da sessão. Consegui prestar atenção em pessoas vibrando nas cadeiras, rindo de nervoso, rindo com vontade, chorando de soluçar. Me vi completamente envolvido e arrepiado - eu mesmo, sempre indiferente ao original. De quebra, o filme foi lançado com pompa e luxo e tapete vermelho no Festival de Cannes (!), já rendeu mais de 700 milhões de dólares e se tornou o filme mais lucrativo da carreira de Tom Cruise. O que mais um cinemão pipoca desse porte pode desejar? É como se tivessem feito aquele show de testosterona em 1986 só para justificar e "dar razão de ser" para esse real FILMAÇO realizado 36 anos depois. É como se uma espera (não planejada) por mais de três décadas tivesse valido muito a pena. Pois vale. Vale demais.