domingo, 5 de setembro de 2010

Comandos em Ação - Muitas explosões com "Os Mercenários"


Quando Sylvester Stallone anunciou que dirigiria um filme de ação com a cara dos anos 80 e reunindo o time de atores que marcaram o gênero na época, muitos acreditavam que estava em produção o melhor longa de ação já feito. A cada grande nome que entrava no projeto, os contornos épicos iam aumentando na divulgação, a começar pelo nome. Mas, no fim das contas, "Os Mercenários" ("The Expendables", no original), nada mais é que uma grande brincadeira, um prato cheio para quem curte ação desenfreada sem muita explicação e uma grande bobagem para quem espera algo mais.

Depois de voltar aos holofotes revivendo seus antigos personagens em "Rocky Balboa"(2006) e "Rambo IV"(2008), Stallone entendeu que a boa era investir no que sabia fazer melhor, repetindo as fórmulas que o levaram ao sucesso no passado. Assim, nada mais justo do que investir no gênero que fez sua fama. Na nova produção, a história é simples: Stallone é Barney Ross, o líder de um grupo de mercenários que realiza qualquer missão desde que ela seja bem paga. Entre seus companheiros estão nomes como Jet Li, Dolph Lundgren, Terry Crews e Jason Statham (esse representando a nova geração de astros musculosos), que juntos tem a missão de derrubar o general Garza (David Zayas), ditador da ilha de Vilena.


Mas como era de se esperar, a "trama" é apenas uma desculpa para muitas cenas envolvendo tiros, sangue, correria e explosões... muitas explosões. Na verdade, tudo explode nesse filme: carros, helicopteros, até pessoas. E não precisam de explicação para isso, apenas explodem, mas é aí que está a graça do filme, provavelmente. Afinal, é quase um filme trash, que comete o erro de se levar muito a sério em certos momentos. Mas o grande problema é que as cenas de ação são pouco inspiradas e sem criatividade, não havendo nenhuma verdadeiramente antológica, algo imperdoável para um filme desse calibre e proporção. Vemos apenas muita pancadaria já vista antes em outros filmes. A única cena que fica na memória é a entrada (triunfal, diga-se de passagem) do engraçado personagem de Terry Crews em um intenso tiroteio acontecendo em um corredor. Explosiva, diga-se de passagem.

No meio de tanta adrenalina e testosterona, vale a pena destacar a participação da brasileira Giselle Itiê como Sandra. A atriz consegue ter bastante tempo em cena, com mais falas do que Rodrigo Santoro na grande maioria de seus filmes estrangeiros. Um talento brasileiro que pode ser descoberto no exterior através desse filme. Mickey Rourke também dá as caras, em um papel sem nenhuma importância na história. Na verdade, ele, Li e Lundgren só estão ali para dar mais peso ao elenco e proporcionar mais cenas de luta, pois os únicos personagens relevantes são os de Stallone (que consegue manter a mesma expressão facial - nula - durante todo o filme) e Statham (esse sim, o único ator com carisma do elenco), que sozinhos dariam conta do recado. Como vilão, há ainda a presença de Eric Roberts com seu jeito canastrão de sempre, que ajuda a dar o clima ao filme.


Todos os comentários e polêmicas se voltaram para a rápida (põe rápida nisso) participação de Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger em uma improvisada cena. É de fato engraçada e memorável, mas longe de ser antológica. Não vale a pena assistir o filme por ela. Na verdade, só vale a pena assisti-lo quem for fã dos clássicos filmes de ação dos anos 80, que popularizaram não só os membros do elenco, mas também Jean Claude Van Damme - que recusou participar do longa por achá-lo sem profundidade (!!) - e Chuch Norris. Esses fãs, sim, terão 100 minutos de diversão ao som de muitos tiros e... explosões.

domingo, 22 de agosto de 2010

Império dos Sonhos - "A Origem", o filme do ano


Christopher Nolan conseguiu. Depois de brindar a sétima arte com verdadeiros filmaços como "Amnésia"(2000), "O Grande Truque" (2006) e com os dois mais recentes filmes do Homem Morcego ("Batman Begins" (2005) e "O Cavaleiro das Trevas" (2008)), ele se supera ao criar uma verdadeira obra-prima moderna. Com um roteiro original escrito por ele mesmo e efeitos incríveis usados de maneira inédita e bem pensada, "A Origem" ("Inception", no original) é sem dúvida o melhor filme do ano, pelo menos até agora.

O trailer mostrava cenas deslumbrantes sem esclarecer muito da complexa trama, que aborda a mente humana e seus sonhos. E é graças à essa complexidade narrativa que o filme se torna uma fascinante e inesquecível experiência. O fio principal é que para roubar uma ideia é preciso fazer uma pessoa sonhar com ela. O sonho tem de ser cuidadosamente planejado e executado, o que exige um arquiteto e um conjunto de profissionais que torne isso possível. E é aí que entra o grupo de Cobb (Leonardo DiCaprio, em um papel muito parecido com o do recente "Ilha do Medo"), especialistas
em extrair idéias do sonho das pessoas, que nesse caso tem o desafio de fazer uma inserção (daí o título) ao invés de uma extração.

Se DiCaprio é a grande estrela da produção, não deve ser o único a levar os elogios, uma vez que todos os atores realizam um grande trabalho. Cillian Murphy marca presença como a vítima do "golpe" em seu terceiro trabalho com o diretor (ele fizera os dois filmes do Batman como o vilão Espantalho), Ellen Page (eternizada como Juno em 2007) prova seu grande talento na pele da novata Ariadne, Joseph Gordon-Levitt (visto em "500 Dias Com Ela") mostra que não é apenas um ator indie e consegue se virar muito bem numa superprodução com seu estiloso Artur e Marion Cotillard dá sua suavidade a uma personagem chave. Mas a grande surpresa e destaque é Tom Hardy, muito à vontade na pele de um tipo de "mestre dos disfarces psicológico", o truculento Eames. A presença da francesa Cotillard no elenco talvez explique o uso insistente da música de Edit Piaf no desenrolar do processo, como uma menção ao papel que deu o Oscar à atriz em 2007.


Nolan mostra que é um dos melhores diretores da atual safra americana ao manter o total controle narrativo de uma complicada história que se desenvolve em diferentes camadas e realidades. O trabalho de edição também merece reconhecimento, pois consegue organizar a aparente desordem psicológica e permite assim a compreensão do espectador sem confundi-lo mais do que o necessário. Um Oscar nesta categoria seria mais que merecido.

O filme, como esperado, tem cenas simplesmente espetaculares, que possuem maior impacto na tela grande do cinema. Os efeitos visuais não ditam o ritmo da produção, mas são usados sabiamente para compor cenas que dificilmente são esquecidas depois do término da projeção. As melhores cenas são as protagonizadas por um Gordon-Levitt em gravidade zero, lutando sozinho contra vários seguranças em um prédio em movimento enquanto um sonho se desmorona (foto abaixo). Algo muito complexo para se explicar por aqui, mas que merece um lugar cativo na memória do público. Uma cena que nasceu para ser antológica.


Com toda a estrutura de filme alternativo, "A Origem" consegue ganhar porte de blockbuster graças aos nomes do elenco e ao grande orçamento. O longa tem tudo para agradar gregos e troianos, com muita ação, suspense e efeitos especiais e até alto grau de reflexão. Ou seja, entretenimento da melhor qualidade.

O objetivo do diretor e do seu longa não é dar respostas, e sim elaborar as perguntas visualmente. Ouso dizer que se o filme tivesse sido feito e lançado 5 anos atrás, causaria uma revolução no cinema semelhante à de "Matrix" no início do século. Afinal, é sempre bom sair do cinema questionando o que é, afinal de contas, real ou fruto de nossa imaginação.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Inimigo Público Nº1 - Vilão rouba o filme em "Meu Malvado Favorito"


Quando o novo estúdio de animação Illumination Entertainment anunciou o projeto de um filme que teria como protagonista um vilão que pretende roubar a Lua, as espectativas em torno de uma produção com toques sombrios e muito humor negro, no estilo Tim Burton, ficaram grandes. Bem, não é exatamente isso que assistimos nesse "Meu Malvado Favorito" (Despicable Me, no original).

Antes de mais nada, é bom deixar claro que o filme não é ruim, longe disso. Mas ao analisarmos o roteiro e o personagem principal, acreditamos que o resultado podia ter sido melhor. O (ironicamente) carismático Gru, com seu visual que remete ao Tio Chico (Uncle Fester) da "Família Addams", é uma ótima síntese de todos os vilões desengonçados e fracassados que conhecemos, podendo com justiça fazer parte do hall de grandes personagens criados pela animação cinematográfica. Ponto para Steve Carell, que o dubla no original, e para Leandro Hassum, que imprime um estilo único ao personagem na versão nacional.

Na história, o vilão tem que lidar com três órfãs, que estão sob os seus cuidados e não podem ser abandonadas. Como essas 3 pequenas são um tanto clicherizadas e apáticas (menos a caçula Agnes, que consegue se destacar bastante), os pequenos e estranhos ajudantes amarelos do malvado, usados fartamente na divulgação do longa, acabam sendo o ponto alto do filme. Mas ao mesmo tempo em que são deles as tiradas mais engraçadas e inspiradas, em alguns momentos eles interrompem a narrativa em partes claramente voltadas para o público mais infantil, acresentando pouco à trama. Mesmo assim, ou talvez por causa disso, será difícil alguém sair das salas de cinema sem ter sido conquistado por eles.


Diferente de outras animações recentes, como "Toy Story 3" e "Shrek para Sempre", essa faz um uso mais evidente e gritante da tecnologia 3D, com direito a muitos objetos jogados e mãos em direção à tela. Isso até garante maior diversão para quem assiste o filme nesse formato, mas enfraquece seu impacto no 2D tradicional.

O problema que pode ser notado já na metade da projeção é que todo charme e carisma se concentram em Gru e seus ajudantes, com personagens secundários pouco memoráveis, como o irritante antagonista Vetor (que acaba desperdiçando uma inspirada dublagem de Marcius Melhem). Assim, o protagonista e os amarelinhos têm que levar o filme sozinhos em suas costas. Talvez por isso o personagem seja um pouco corcunda.
Apesar desses pequenos pontos negativos e do excesso de pieguice na parte final, o filme tem ótimos momentos pelos quais merece ser (e será) lembrado.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Missão Impossível: Tom Cruise e Cameron Diaz voltam para um "Encontro Explosivo"


“Então Jimmy, você é um diretor que já tem certo prestígio no meio cinematográfico por seus filmes anteriores, e agora nós achamos que está na hora de você brincar de cinemão, utilizando todos os exageros que uma grande produção pode proporcionar. Topa?"
Provavelmente foi assim que os produtores de "Encontro Explosivo" (Knight and Day, no original) convidaram James Mangold para assumir a direção desse filme que tem como finalidade, antes de mais nada, promover e catapultar novamente seus protagonistas para o topo das bilheterias.

Tom Cruise está em busca de um novo sucesso de bilheteria há certo tempo, principalmente depois do injusto fracasso comercial do interessante "Operação Valquíria", de 2009. O astro viu potencial nesse roteiro em que é um agente secreto que protege a chave de uma infinita fonte de energia. Afinal, essa era a grande chance dele brincar de James Bond sem fazer alusão à franquia "Missão Impossível", que o consagrou no passado. Chris Tucker, Adam Sandler e Gerard Butler foram considerados para o papel principal antes de Cruise fechar contrato.

Como não podia deixar de ser, ele acaba se envolvendo com uma bela mulher no meio da missão. E assim temos Cameron Diaz, que nos últimos anos tem como maior sucesso a série Shrek, na qual dubla Fiona, também tentando obter mais um ponto alto na carreira. O problema é que a atriz parece repetir o mesmo tipo de personagem que sempre faz em seus filmes, cada vez mais restritos a comédias românticas bobinhas. Sem dúvida consegue até divertir em certas cenas, mas sem apresentar nada novo. Assim, o público sabe exatamente o que esperar dela em cena.


O filme em si, ao longo de seus 115 minutos, é bastante previsível, e fica nos espectadores a impressão de que tudo aquilo já foi visto anteriormente. O personagem um tanto canastrão de Cruise parece ser indestrutível em quase todas cenas frenéticas de ação que permeiam o longa. E dá-lhe tiros, explosões, situações absurdas e batidas de carro. O roteiro só serve como escada para os protagonistas falarem piadas prontas e viajarem para cenários exóticos. Embora o longa tenha sido filmado, principalmente, em Massachusetts, seis dias de filmagens ocorreram em Salzburgo, na Áustria. Algumas filmagens extras também foram feitas na Andaluzia, Espanha, Port Antonio, Jamaica e em Los Angeles, Califórnia.

No fim das contas, o público encontra um filme que é apenas leve entretenimento, para uma tarde descompromissada com amigos no shopping. Quem busca algo além disso, sem dúvida, sairá decepcionado do cinema. Parece que recuperar o prestígio dos velhos tempos tem sido uma verdadeira missão impossivel para Tom Cruise.


É verdade que esse é o trabalho menos inspirado de James Mangold, mas isso não deve afastar os olhos do público do talento desse americano que já realizou bons filmes em pouco mais de 10 anos de carreira. Ele começou na direção com o policial "Cop Land"(1997), mas ganhou projeção com "Garota Interrompida", de 1999, filme que deu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para uma ainda rebelde Angelina Jolie.

Depois de dirigir o romântico "Kate & Leopold"(2001) e fazer uma participação como ator no filme "Tudo Para Ficar Com Ele"(2002), ele voltou aos holofotes com a premiada cinebiografia do polêmico cantor country Johnny Cash no excelente e premiado "Johnny e June", filme de 2005 que ganhou o Globo de Ouro de Melhor Musical ou Comédia e que deu o Oscar de Melhor Atriz para Reese Witherspoon, no emocionante desempenho como June Carter, alma-gêmea de Cash, que é magistralmente vivido por Joaquim Phoenix, que só não levou o Oscar naquele ano pois seu concorrente era Philip Seymour Hoffman, que encarnara perfeitamente Trumam Capote no filme que leva seu sobrenome. Mas com total domínio da câmera nesse filme, Mangold deixou claro seu talento. Depois desse grande filme, ele ainda fez o eficiente western "Os Indomáveis" em 2007, um remake do filme "31 to Yuma" realizado em 1957. Assistindo a esses filmes, vemos começo promissor de um ainda novato diretor, que pode realizar belos filmes no futuro, principalmente se nao continuar escolhendo projetos preguiçosos como esse "Encontro Explosivo".

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O Diretor Fantasma - Filme terminado por Polanski na cadeia chega aos cinemas


Em 27 de setembro de 2009, a convite do Festival de Cinema de Zurique, Roman Polanski viajou à Suíça para receber um prémio pela sua carreira cinematográfica, pontuada por grandes clássicos como "O Bebê de Rosemary"(1968) e "Chinatown"(1974). Surpreendentemente, acabou sendo preso pelas autoridades helvéticas sob a alegação de que um mandado internacional de prisão contra ele estava em vigor, devido à condenação por "relação sexual ilícita com uma menor de 13 anos", crime ocorrido em 1977 que ele mesmo assumiu ter cometido, sendo desde então um foragido, o que o fizera fugir dos EUA e se exilar na França.

Polêmicas à parte, o fato é que durante tudo isso, antes da prisão, o diretor franco-polonês estava rodando um novo filme, "O Escritor Fantasma" ("The Ghost Writer", no original), um thriller político protagonizado por Ewan McGregor. Na história, um ghostwriter (pessoa que escreve textos e livros assinados por outros), vivido por McGregor, é contratado para completar as memórias de Adam Lang (Pierce Brosnan, tentando ainda se livrar da imagem de ex-James Bond), primeiro-ministro da Inglaterra. Mas claro que as coisas começam a se complicar e logo o escritor acaba descobrindo segredos sobre uma conspiração mundial que coloca sua própria vida em perigo.


O roteiro, surpreendente, atual e muito bem pensado, representa e retrata de forma eficiente os atuais escândalos políticos que acontecem diariamente ao redor do mundo envolvendo figuras marcantes do poder. A abordagem é extremamente realista, e o personagem de Brosnan, aqui com uma atuação iluminada, tem clara inspiração na figura de Tony Blair, primeiro-ministro do Reino Unido entre 1997 e 2007.

Com seu grande talento em conduzir histórias com muitos desdobramentos, Polanski (que ganhou o Oscar de Direção em 2002 por "O Pianista") nos joga no centro da ação, conseguindo manter um clima de tensão crescente. A produção apresenta uma estrutura bem característica de seus filmes. Logo no começo da projeção, a ausência de créditos iniciais já é percebida. Mas o grande diferencial é que se trata de um filme com estrutura, estilo e visual europeu, mas com elenco de grande produção americana. Algo que só Polanski conseguiria, e aqui conseguiu de novo, mesmo com a edição final sendo feita já após sua prisão. O resultado foi o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim deste ano.


Todo o elenco se sai muito bem numa trama onde nada (nem ninguém) é exatamente o que parece. McGregor, que é um grande ator por natureza, como já provou em "Trainspotting"(1996) e na nova trilogia de "Star Wars", entre outros filmes, leva toda a historia com um inspirado desempenho em cena. Tom Wilkinson, como sempre, consegue roubar algumas cenas no discreto e pequeno papel do Dr. Paul Emmett. Olivia Williams também chama a atenção como a sofrida mulher de Lang. Outro destaque é Eli Wallach, ator veterano de filmes como "Três Homens em Conflito"(1966) e "Os Desajustados"(1960), aqui aos 94 anos em uma rápida participação como um senhor que é testemunha da cena do crime que dá início à trama.

Apesar do título de filme de terror, "O Escritor Fantasma" é um suspense que se em certas partes apresenta um ritmo um tanto parado e sombrio, consegue ganhar todo o público com seu inesperado e genial final. É a prova de que Polanski, cineasta, produtor, roteirista e até ator em certas ocasiões (como em seus próprios "Chinatown" e "A Dança dos Vampiros"(1967)), ainda mantém seu estilo único aos 76 anos de idade. Provavelmente tal frieza vista em seus trabalhos seja resultado de uma sofrida vida pessoal, na qual perdeu a mãe e a irmã em um campo de concentração na Segunda Guerra Mundial e teve sua esposa (e musa), a atriz Sharon Tate, brutalmente assassinada quando estava grávida em 1969 pela gangue do psicopata Charles Manson, num dos mais famosos e bárbaros crimes da história criminal americana. Nesse caso, os traumas ajudaram a construir um gênio.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Os Bons Companheiros - Pixar volta às origens com a franquia "Toy Story"


Já se passaram 15 longos e rápidos anos desde que o estúdio de animação da Pixar resolveu produzir um filme inovador completamente feito com computação gráfica. Desse projeto, nasceu o adorado "Toy Story" (1995), que apesar do que muitos acreditam, não foi o primeiro longa-metragem computadorizado a chegar aos cinemas. Esse mérito é do brasileiro "Cassiopéia", finalizado e lançado pela produtora NDR Filmes meses antes da produção americana. Mas polêmicas e detalhes à parte, Woody e seu companheiro Buzz Lightyear voltam com tudo para a esperada terceira parte, lançada mundialmente em tecnologia 3D.

Passados 11 anos desde a bem sucedida segunda parte das aventuras da trupe de brinquedos que ganha vida quando seus donos não estão prestando atenção, muito se especulou sobre uma possível sequência, onde os brinquedos teriam que lidar com o amadurecimento de seu dono. John Lasseter, mago por trás da Disney-Pixar que dirigira os dois primeiros filmes, resolveu dessa vez apenas produzir o longa (dirigido por Lee Unkrich) que lida exatamente com esse assunto, mostrando Woody (dublado mais uma vez pelo grande Tom Hanks) e seus amigos tendo que aceitar a ida do agora crescido Andy para a faculdade. Para piorar, são acidentalmente mandados para uma creche, onde encontram novos brinquedos e têm que lidar com crianças descuidadas.


Apesar de ter uma abordagem mais séria e (erro?) adulta que seus antecessores, "Toy Story 3" parece feito sob medida para os fãs, dando a devida importância para os vários adorados personagens que conquistaram as crianças (e também os pais delas, como não?) na década passada. A história é desenvolvida de forma leve e direta ao longo dos 103 minutos de projeção, que fazem desse o filme mais longo da trilogia. Não que isso seja ruim, uma vez que o carisma dos personagens e a dinâmica das cenas fazem tudo passar muito rápido.

Como não podia deixar de ser, vários são os novos personagens a dar as caras, mas o destaque fica sem dúvida para o clássico casal Barbie e Ken (esse dublado na versão original pelo sumido Michael Keaton), muito bem representados e parodiados na tela. Embora o humor esteja presente em uma dose menor que nos antecessores e Woody e Buzz estejam mais distantes e separados em cena, algumas piadas são impagáveis, como uma que envolve uma mudança na configuração de Buzz, que é novamente dublado pelo comediante Tim Allen.

Os avanços tecnológicos sempre esperados do estúdio de animação de maior prestígio do mundo não se fazem presentes nos traços dos bonecos, que continuam aqui exatamente iguais, afinal, são bonecos. Essa superioridade gráfica aparece de forma mais discreta, sendo melhor percebida nos cabelos dos humanos, dos bichos de pelúcia e do cachorro. Os cenários se mostram também melhor trabalhados e detalhados.


Como em qualquer produto com a marca Disney, há também aqui muitas cenas comoventes e emocionantes, que podem levar os mais emotivos as lágrimas. Ao fim da projeção, fica um certo clima de capítulo final no ar, mas como o filme tem arrecadado muito bem ao redor do mundo, é possivel que os produtores se rendam e invistam em mais uma aventura no futuro. Caso isso não ocorra, pode-se dizer que a trilogia foi fechada com chave de ouro. Ao retornar às origens de seu primeiro longa animado, a equipe responsável por Toy Story possibilitou que jovens como eu pudessem, pelo menos por pouco mais de uma hora e meia, retornar à infância, um tempo que será sempre lembrado como aquele que passamos com os bons companheiros que foram nossos brinquedos.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Um Novo Quarteto Fantástico - "Esquadrão Classe A" Arrasa nos Cinemas


Nessa última década em que a prioridade dos estúdios de Hollywood tem sido uma onda de refilmagens, adaptações e sequências de franquias já conhecidas do grande público, parecia inevitável a refilmagem de uma das séries mais populares dos anos 80. E eis que finalmente chega aos cinemas a nova versão do "Esquadrão Classe A", com o intuito de resgatar os personagens memoráveis e o clima nostálgico da série original.

Focado em uma equipe de ex-oficiais militares que assume várias operações sigilosas enquanto tenta se manter à frente do exército americano (que obviamente os persegue), o filme dirigido de maneira competente por Joe Carnahan (que já mostrara sua direção talentosa e estilosa em "Narc", de 2003, e em "A Última Cartada", de 2007) tem uma história interessante e bem atual, que consegue prender a atenção do espectador sem exigir muito de seu raciocínio. Afinal, o objetivo é apresentar cenas de ação espetaculares regadas de muito bom humor.


O elenco do filme é o seu grande trunfo. O quarteto principal, como não podia deixar de ser, é o destaque. Liam Neeson, velho conhecido do grande público em filmes como "Star Wars Episodio I- A Ameaça Fantasma" e "A Lista de Schindler", mostra aqui todo seu charme e carisma na pele do Coronel Hannibal Smith, o líder do grupo. Bradley Cooper, visto recentemente em "Se Beber, Não Case", aqui se firma no cobiçado posto de galã como Templeton "Cara-de-Pau" Peck, o mulherengo da equipe. O lutador Quinton `Rampage´ Jackson também se mostra inspirado no papel do agressivo e engraçado B. A. Baracus, personagem imortalizado na TV pelo inesquecível Mr.T. Mas quem rouba as cenas mesmo é Sharlto Copley, ator ainda pouco conhecido, que já tinha apresentado uma excelente atuação em "Distrito 9". No papel do hilário e maluco "Howling Mad" Murdock, ele é o melhor personagem da história. Vale ainda destacar a boa participação de Patrick Wilson como um ambiguo agente da CIA e de Jessica Biel como a mocinha atraente da vez. Nada que ofusque o brilho do já citado quarteto fantástico.

Os absurdos e exageros esperados de um filme de ação desse porte estão todos lá, com atenção especial para uma impagável e intensa cena com o grupo dentro um tanque em queda livre segurado apenas por alguns pára-quedas (!), após a explosão do avião em que estava contido(!!). Só vendo para se empolgar com esse tipo de coisa que só o cinema tornaria possível. Para os fãs da série original, é indicado esperar até o final dos créditos para uma cena extra repleta de nostalgia e de velhos conhecidos. Fica a dica. Fora isso, está tudo lá, desde a clássica música-tema até a abertura original atualizada.


Em tempos de filmes descerebrados como o novo "Fúria de Titãs" e "Príncipe da Pérsia", que priorizam efeitos especiais e cenas de ação, deixando o roteiro de lado, "Esquadrão Classe A" chega para provar que é possível fazer um bom filme de ação com pé e cabeça, além de qualidade. O plano de transformar a finada e antiga série em um bom entretenimento para os novos tempos foi bem executado, e como diria o Coronel Smith, "adoramos quando um plano dá certo!".

domingo, 30 de maio de 2010

Born To Be Wild: Dennis Hopper (1936-2010)


Dennis Hopper, um dos atores símbolos da geração rebelde que tomou Hollywood na década de 70, teve seu nome imortalizado na Calçada da Fama em março desse ano. Presente na cerimônia, apresentava um visual extremamente debilitado devido ao tratamento do câncer de próstata que vinha fazendo desde setembro do ano passado. Quem via o antes viril ator daquele jeito, sabia que seu fim estava próximo. E ele chegou no último dia 29 de maio, encerrando a carreira do ator aos 74 anos.

Ao longo de mais de 50 anos de trabalho, o ator, explosivo por natureza, se envolveu em vários escândalos. Começou a ter fama de encrenqueiro logo em seu primeiro filme de destaque, “Juventude Transviada”, de 1955, produção que imortalizou James Dean no imaginário cinematográfico. Na época, Hopper namorava Natalie Wood, protagonista do longa. Eles muito brigavam e logo ela passou a namorar o diretor da produção, Nicholas Ray. O clima no set de filmagem rapidamente ficou pesado demais, e a consequência foi a redução da participação de Hopper. Antes com um papel importante na trama, ele passou a ser apenas mais um calado membro da gangue principal.


Continuou com participações discretas em diversos filmes, mas o ponto alto de sua carreira viria no final dos anos 60. Incentivado pelo amigo e ator Peter Fonda, resolveu, além de estrelar, dirigir a história de dois amigos hippies que cruzam os Estados Unidos com suas motos em busca de liberdade. Dessa simples idéia, surgiu “Sem Destino”, filme-marco dos anos 60, que escancarou todo o ideal daquela geração movida a sexo, drogas e Rockn’ Roll, além de evidenciar o preconceito que sofriam por parte dos conservadores no país. Apesar do filme ser roubado pela rápida participação de Jack Nicholson (em seu primeiro papel marcante no cinema) como o advogado alcoólatra que se junta a eles no meio do caminho, Hopper se destaca com sua inspirada e engraçada atuação, talvez o hippie doidão mais autêntico do cinema.

O sucesso do filme, lançado em 1969, foi estrondoso, transformou os protagonistas em ícones, e imortalizou a trilha sonora, principalmente com a canção que dá título a este texto, que se tornou instantaneamente uma espécie de hino para os motoqueiros do mundo inteiro. Apesar da adoração, o filme não envelheceu tão bem e hoje pode até ser considerado meio chato, mas sem dúvida é um indispensável documento histórico que muito ajuda a entender aquele período da cultura americana. Claro que nem tudo foi agradável: amigos (como Fonda) e membros da equipe logo declararam que filmar com o ator era insuportável, pois ele era extremamente violento, agressivo e arrogante. Essa fama o acompanhou por muito tempo nos bastidores.


Hopper logo incorporou ao seu jeito de atuar o estilo maluco, deslocado e desbocado pelo qual era conhecido. Repetiu esse tipo de personagem em sua rápida e marcante atuação em Apocalypse Now, de 1979. Seu jeito de ser irritou tanto o então astro Marlon Brando (em participação ainda mais rápida) que esse se recusou a gravar com ele. Se no filme eles têm rápidas cenas juntos, é graças ao grande trabalho de edição.

O ator ainda teria grandes atuações em “O Selvagem Da Motocicleta”, filme (infelizmente) pouco conhecido que Francis Ford Coppola fez em 1983,em "Veludo Azul"(1986), e em “Amor À Queima-Roupa”(1993), que teve o roteiro de um ainda pouco conhecido cineasta chamado Quentin Tarantino, em fase “pré-Pulp Fiction”.

Desde a década de 90, com seus vilões excêntricos em “Velocidade Máxima”(1994) e em “Waterworld-O Segredo Das Águas”(1995), Hopper escolheu papéis menos relevantes em filmes de baixo orçamento, alcançando seu brilho antigo apenas mais recentemente com a série “Crash – Destinos Cruzados”, baseada no filme homônimo de 2005. Este ano, ele continuou a atuar na série com grande esforço, mesmo depois do intenso tratamento a que foi submetido.

E assim se vai mais um símbolo de uma era, exemplo clássico da rebeldia deixada nos anos 70. Apesar de ter sido rotulado de louco, perverso, vingativo, entre outros adjetivos nada agradáveis, sem dúvida este ator causou grande mudança estética, moral e ética no cinema americano, e a história lhe dará o reconhecimento devido no tempo certo.